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domingo, 13 de julho de 2014

O Dinossauro



No último vídeo dessa série, vou voltar a falar sobre Brasil, agora de um assunto bem mais próximo do nosso dia a dia, que é a burocracia. Para isso, usarei como fonte principal o livro “O Dinossauro” de José Oswaldo de Meira Penna, mas também outros livros e artigos. Como gameplay, Max Payne 3, um jogo que não tem a ver diretamente com o assunto em questão, mas se passa no Brasil de hoje.

Como todo mundo sabe, o Brasil é o país da burocracia, da firma reconhecida, das dúzias de vias e das enormes filas em repartições públicas. Para traduzir isso em números no âmbito da economia, segundo o relatório Doing Business de 2014, o Brasil está na classificação 116 entre 189 países na facilidade de fazer negócios, uma modesta melhora na comparação com 2013, quando o país ocupava a posição 118. Para abrir uma empresa, são necessários 13 procedimentos que demoram 107,5 dias. A média da OCDE são 5 procedimentos e 11,1 dias. Para pagamento de impostos, são 9 pagamentos em média que demoram 2600 horas para que as empresas cumpram a legislação tributária, contra média de 175 horas na OCDE e 369 na região da América Latina e Caribe. O advogado Vinicius Leoncio se propôs o desafio de reunir toda a legislação tributária em um único livro, que resultou em um modesto livro de 7,5 toneladas, candidato a maior livro do mundo com o peso de dois hipopótamos.

Como explicar esse “culto ao papelório” em um país que não é um povo de intelectuais, cerebrino, amante de letras. O que explica tal formalismo e rigidez no país da flexibilidade, do jeitinho, da cordialidade que foi explicada em outro vídeo?

A resposta talvez esteja em dois conceitos abordados no vídeo anterior sobre o Brasil, o patrimonialismo e o homem cordial. A forma como o Brasil foi colonizado também ajuda a explicar essa situação. Desde o início, tudo dependia de uma ordem superior, através de decretos, alvarás e ordens vindas de Portugal. Toda a economia colonial dependia da metrópole, impedindo o desenvolvimento da iniciativa privada. A administração do Brasil Colônia foi altamente centralizada e mesmo os latifundiários não escapavam dos registros e controles da metrópole. Da nomeação a cargos públicos até a condução da economia, tudo era função do estado. Por conta disso, Raimundo Faoro, autor de Os Donos do Poder, via os brasileiros como inativos politicamente e incapazes de se organizar para se contraporem ao autoritarismo do governo central.

Essa estrutura patrimonial-burocrática foi sendo passada através das gerações e dos regimes políticos, resistindo à independência e depois à república. Os donos do poder a que Raimundo Faoro se referia, os componentes do estamento burocrático, sempre arranjaram maneiras de manter o seu poder e extrair benefícios dele. A profusão de leis, que sustenta esse arranjo, cria a situação bem peculiar do Brasil de que as leis pegam ou não pegam e tudo depende da interpretação dos funcionários responsáveis por sua validação, de acordo com os seus interesses. Nesse ponto, na hipertrofia legislativa, também surge a figura do criar dificuldades para vender facilidades. Há também a tendência do funcionário burocrático de empurrar os problemas para cima, para que sejam resolvidos pelo “você sabe com quem está falando?”.

O estado cresceu recebendo cada vez mais atribuições, as pessoas vendo o estado como a solução de seus problemas e que oferece amparo e proteção. Havia uma mentalidade generalizada de dependência do paternalismo governamental. Desde o início, o estado brasileiro era intervencionista, paternal e autoritário.

O livro “O Dinossauro” de José Oswaldo de Meira Penna publicado originalmente em 1988 traz vários e vários casos da absurda burocracia brasileira em diversos contextos. Alguns desses exemplos já não devem valer mais hoje, passados 26 anos, mas muitas coisas permanecem e outras situações absurdas devem ter sido criadas nessas mais de duas décadas desde a publicação do livro. No cerne dessa situação, a profusão de leis interferindo em tudo quanto é aspecto da vida das pessoas, respaldado por uma Constituição Federal considerada por muitos como paternalista (Penna consideraria mais maternalista do que paternalista, a propósito). Se apenas a legislação tributária pesa 7,5 toneladas, imagine o restante do corpo de leis?

A esse paternalismo estatal se explica algumas das regras criadas que geram um sem fim de procedimentos. Penna cita os diversos trâmites para uma estrangeira adotar uma criança no país em sua época. A preocupação, que pode ser considerada legítima, é com o tráfico de pessoas, mas a solução para esse caso, a criação de um processo com infinitos estágios, não é de modo algum eficiente. Para a grande maioria das situações absurdas é possível ver esse excesso de zelo se manifestando, como se fosse um pai super cuidadoso protegendo o filho incapaz. Essa na verdade é hoje uma tendência mundial, tanto que já se criou a expressão Estado-Babá para se referir às legislações cada vez mais paternalistas que estão surgindo em diversas partes do mundo, especialmente nos países desenvolvidos. A esse respeito, tem o “O Estado Babá” de David Harsanyi.

Penna liga essa situação ao estado patrimonial, conforme analisado por Sérgio Buarque de Holanda e outros autores, como Raimundo Faoro e seu Os Donos do Poder. Nessa situação, na ausência de uma distinção entre público e privado, poderes particulares e vantagens econômicas advindas do estado são apropriadas pelos particulares. O personalismo também ajuda a explicar a profusão de procedimentos burocráticos, pois eleva a importância de um determinado cargo público. Não poderia ser outro o resultado a não ser corrupção e favoritismos. A própria escolha para muitos cargos públicos, os cargos de confiança, populares no Brasil como em nenhum outro lugar, se dá por esses laços de amizade, compadrio ou de sangue. E disso deriva vários “ismos”, como o empreguismo, o coronelismo, o clientelismo e outras mazelas históricas brasileiras.

Outra manifestação do patrimonialismo está na forma como o Brasil se desenvolveu, principalmente após a Abolição. Na formação do patronato brasileiro, recorreu-se ao que hoje se chama de Capitalismo de Estado, com uma forte presença do estado na economia em conluio com empresários. Sob os mais diversos pretextos, o estado subsidia das mais diversas formas o setor privado, o que raramente é um arranjo eficiente do ponto de vista econômica e onde o estado, ao invés do mercado, escolhe vencedores e perdedores. Nesse arranjo, os lucros são privatizados e os prejuízos socializados. Essa não é uma característica única do Brasil, o Capitalismo de Estado prevalecendo em países como a China. Um conceito próximo, mas distinto, é o de Capitalismo de Compadrio, onde há essa mistura de público e privado que favorece alguns negócios em detrimento de outros, o que é incompatível com a genuína liberdade econômica. A esse respeito, tem o livro “Reinventing State Capitalism” de Aldo Musacchio e Sérgio Lazzarini que deve receber ainda esse ano uma versão em português. Não li esse livro ainda, mas conhecendo a obra dos autores, deve ser uma boa leitura. No final das contas, como no dito popular, empresa privada é aquela controlada pelo governo e a empresa pública é aquela controlada por ninguém.

Hélio Jaguaribe foi o autor da expressão “Estado Cartorial” para se referir a essa cultura da burocracia no Brasil. Outro Hélio, o Beltrão, que ocupou o curioso cargo de Ministro da Desburocratização entre 1979 e 1983, cargo que seria extinto em 1986, escreveria em artigo uma descrição perfeita da situação. “O Brasil nasceu sob o signo do cartório, da ata, do registro e da certidão. Disto decorre uma certa inclinação a só acreditar que uma coisa realmente acontece depois que se transforma em documento escrito. Essa tendência foi exacerbada na administração pública, onde prevalece o princípio oposto ao da presunção da veracidade. Perante a administração pública, suas leis e regulamentos, vigora a estranha presunção de que uma pessoa está sempre mentindo até prova em contrário. Essa presunção mórbida conduz ao absurdo de exigir-se do honesto a prova de que não é desonesto; de atropelar-se o contribuinte com exigências fúteis”.

Como um resumo, uma citação do livro de Penna: "Monstro antediluviano, foi a burocracia brasileira erguida como instituição patrimonial com seus castelos, cercados de bastiões, fossos e pontes-levadiças. Neles habitam os grandes barões do Estado cartorial, a aristocracia soberba dos altos funcionários, duques e marqueses com sua enorme clientela de gordas escriturárias e magricelas serventes famintos, que suplementam o salário-mínimo com gorjetas e comissões. Sobrevivem o foro, a enfiteuse e o laudêmio. Sólidos como o Pão de Açúcar, resistem ao sopro de renovação os direitos adquiridos, que são muitos: o direito ao cargo para o qual foi nomeado sem concurso, por ser filho de fulano ou primo de dona Carmen; o direito à promoção por ser amigo de beltrano; o direito à reclassificação, por ser amante de sicrano"

Essa situação perdura até hoje e não sei dizer se as coisas melhoraram. Em termos de paternalismo estatal, essa tendência só se acentuou nos últimos anos. No livro A cabeça do brasileiro de Alberto Carlos Almeida vemos esse fato em estatísticas. O capítulo 7, com o título bastante direto de “Brasileiro ama o Estado”, um grande número de pessoas acha que o governo deveria controlar empresas de um setor, inclusive de setores que já foram privatizados e outros que nunca foram completamente estatais, como bancos e montadoras de carro. Muitos também são a favor de que o governo determine o que as empresas devem fazer, como determinar salários e o número de banheiros em uma empresa, ou seja, são a favor da burocratização. 70% das pessoas acreditam que o governo deveria controlar os preços e 54% os salários. E não é porque acham que o governo seja mais eficiente, aliás, eles concordam que o governo é ineficiente e avaliam negativamente o governo. Não obstante, querem entregar tudo para o governo e restringir a liberdade da bem avaliada iniciativa privada. Só pode ser amor mesmo!

Seria altamente benéfico para o país a desburocratização que já foi alvo até de ministério no passado, mas não há nenhum indício de que isso vá ocorrer.

Coisas da Suíça




Sobre Suíça, vou falar sobre coisas boas. Nos vídeos anteriores da série, falei sobre várias guerras, inclusive nos três vídeos imediatamente anteriores a esse. Agora, que tal falarmos sobre queijo e chocolate, observando a bela vista da Suíça no jogo Euro Truck Simulator 2?

A Suíça é famosa principalmente por três coisas: seus bancos, famosa nem sempre pelos motivos certos, seus queijos e seus chocolates. Nesse vídeo, falarei sobre os últimos dois temas: queijos e chocolates. Falarei ainda sobre alguns outros tópicos, tomando como base o livro Swiss Watching de Diccon Bewes. Esse vídeo vai dar fome, então pegue o seu Gruyère e seu Toblerone e vamos lá.

O primeiro fato a ser notado é que tem bastante vacas na Suíça, o número sendo estimado em 1,6 milhão. Isso serve principalmente para os queijos, mas também para chocolate.

A Suíça é o maior consumidor de chocolates do mundo, com 12 quilos per capita de vendas, o que acaba incluindo compras por turistas. Segundo a Associação de Fabricantes de Chocolates da Suíça, apenas 40% da produção aproximadamente é utilizada para consumo interno e o principal destino das exportações é a Alemanha. E a indústria do chocolate é relativamente pequena na Suíça, com receita de 1,6 bilhão de francos suíços, aproximadamente R$ 4 bilhões de reais, gerando apenas 4.400 empregos diretos. Em volume, as vendas de chocolate estão na casa das 179 mil toneladas.

Há diversos tipos de chocolates e sua origem remonta a América Pré-Colombiana, mas o chocolate de leite foi inventado por um suíço chamado Daniel Peter em 1875 na cidade de Vevey, onde ainda hoje é a sede da Nestlé. Ele entraria no mundo do chocolate ao se casar com a filha de um dono de fábrica de chocolate. Na época, chocolate era basicamente pasta de cacau com açúcar. A adição de leite veio não apenas para melhorar o sabor, mas também para reduzir os custos de fabricação. Isso se dava porque a Suíça não tinha colônias e era obrigada a comprar cacau e o açúcar, mas tinha leite de sobra no país. O primeiro teste não foi bem sucedido, já que leite normal é muito aguado, mas, por sorte, Peter tinha a Nestlé por perto com o seu leite condensado.

O chocolate suíço então se tornaria famoso com os turistas levando os produtos para toda a Europa. Outros chocolates famosos surgiriam nessa época, como o Toblerone de Theodor Tobler, a Lindt e a Milka de Philippe Suchard. Menos famosa fora da Suíça, a Callier do sogro de Peter pode ser visitada hoje em dia no município de Broc, no distrito de Gruyère, no cantão de Friburgo.

Falando em Gruyère, vamos falar de queijos, o consumo per capita na Suíça sendo de 15,9 quilos por ano só de queijos suíços. A maioria dos tipos de queijo deriva o nome do local onde são feitos e o Emmental não é diferente, exceto por se tratar de uma região, não de uma cidade. Emmental é aquele queijo amarelo cheio de buracos, ou olhos, usando a terminologia técnica, produzidos pelo ácido propiônico das bactérias. Não parece muito bacana, mas é perfeitamente seguro. Para o puro Emmentaler, o verdadeiro queijo produzido em Emmental, são necessários doze litros de leite para produzir um quilo de queijo e cada pedaço tem um metro de diâmetro e 25 centímetros de profundidade e pesa 120 quilos. Por conta disso, não é comum encontrar pedaços triangulares, já que seria necessário uma fatia com 50 centímetros de cumprimento. O Emmentaler é produzido com leite tirado há menos de 12 horas e levam um selo de procedência parecido com o que alguns vinhos finos levam.

Assim como chocolate, os queijos suíços se notabilizam pela qualidade acima da quantidade, sendo produzidas por volta de 180 mil toneladas por ano, um terço desse volume se destinando à exportação. Os produtores usam leite de centenas de vilas suíças e a maioria utiliza métodos modernos, embora alguns ainda cozinhem o leite em panelas de cobre com forno à lenha. (8)

Emmental é o queijo da região alemã, por assim dizer, da Suíça e Gruyère é o principal queijo da região francesa produzido em Gruyères (a cidade tem um s no final), uma pequena vila que tem basicamente restaurantes e lojas para turistas atraídos pela fama de seu queijo. Assim como o Emmental requer 12 litros de leite para produzir um quilo, mas um pedaço de Gruyère tem por volta de 60 centímetros de diâmetro e pesa 35 quilos. Também tem selo de procedência, mas não tem os buracos/olhos.

O fondue é um prato típico suíço originado na região francesa, mas que se espalhou por toda a suíça e que combina duas paixões locais: queijo e chocolate (em momentos separados, é claro). E como em vários aspectos da cultura suíça, há toda uma tradição e etiqueta em volta do fondue. A primeira é que o seu garfo não deve nunca, em momento algum tocar sua língua, lábios e dentes, pelo simples motivo de que ele voltará ao pote. Ninguém parece ligar muito para isso, mas os suíços sim. Em segundo lugar, nunca beba nada borbulhante, e sim vinho branco ou chá preto. Por fim, aquela crosta de queijo que sobra no fundo do pote não deve ser ignorada e os suíços inclusive acham que é a melhor parte do fondue. Um prato parecido com o fondue é o raclette, onde o queijo é aquecido e depois raspado no prato, por isso o nome, racler sendo raspar em francês.

Sobre o tópico comidas típicas, tem o muesli, um cereal matinal desenvolvido pelo médico Maximilian Bircher-Benner para dar aos pacientes, a receita original contendo aveia, água, limonada, leite condensado e maça ralada. Hoje em dia, usam leite, iogurte e frutas frescas.

A linguiça suíça é chamada de cervelat, muito popular no país com consumo de 160 milhões de unidades por ano. É uma mistura de carne bovina, carne de porco e bacon enrolada com intestino de boi. Esse último elemento está ameaçando essa “instituição nacional”, já que desde 2008 está banido da União Europeia. Desde então, os suíços estão em busca de um substituto para não deixar a cervelat morrer. Os suíços também são apreciadores de maça de tudo quanto é jeito, em especial o Apfelmus, o puré de maçã.

Saladas também são bem populares como entrada na Suíça. O inconveniente é que eles não costumam cortar as folhas, deixando-as inteiras. A questão é: como comer assim? A maneira elegante é enrolar as folhas maiores no garfo e comê-las de uma vez. Elegante, mas que requer certa prática. Outra maneira, bem menos elegante, é comer inteira mesmo sem enrolar no garfo. A terceira é cortar, muito prática, mas não é assim que se faz na Suíça. Salada mista na Suíça não é uma salada com um misto de vegetais, e sim um misto de saladas em uma só. E a etiqueta para comer essa salada, ou qualquer outro prato, é de não misturar tudo em uma garfada só, e sim pegar um tipo de alimento de cada vez.

Se convidado para uma festa na casa de um suíço, duas coisas a se ressaltar. Primeiro, que é a norma levar um presente, uma garrafa de vinho, por exemplo. Em segundo lugar, o convidado não ajuda o hóspede, e insistir em ajudar pode dar a impressão de que você não acha o hóspede competente suficiente para cuidar de tudo. No caso de um jantar no restaurante, quem convida paga a conta inteira, sempre. Na hora do brinde, não basta erguer o copo ou a taça, brindar, dizer “Saúde!” e beber. É necessário estabelecer contato visual com quem você brinda, dizer zum Wohl e o nome da pessoa, uma por uma na mesa, e só beber quando todo mundo acabar de fazer isso. E na hora de comer, não comece até que o anfitrião diga Em guete, uma espécie de “Bom apetite!”. Não só em jantares de família, mas em todas as ocasiões os suíços dizem em guete um para os outros antes das refeições. Nos restaurantes, a boa notícia é que não tem gorjeta ou serviço, a má é que o serviço é muito ruim.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Guerras da Iugoslávia (#2) - Independência




Nesse vídeo, vou continuar falando sobre as Guerras da Iugoslávia, indo para o capítulo 3 do livro The Fall of Yugoslavia, de Mischa Glenny. A gameplay novamente é do jogo Tactics Ogre, conforme eu expliquei no vídeo anterior.

Em junho de 1991, a Iugoslávia vivia um momento de grande tensão entre sérvios e os separatistas croatas e eslovenos. Na Sérvia, Milosevic já tinha poder total e a oposição estava enfraquecida. A imprensa, controlada pelo governo, alimentou ainda mais a tensão denunciando os separatistas da Croácia e chamando a atenção para os indefesos sérvios que moravam na Croácia e tinham que se defender dos genocidas croatas. Na Croácia, a imprensa não deixou por menos, de forma que muitos consideram as principais redes de TV, a, HTV croata e a RTV Belgrado como as principais criminosas de guerra.

Antes de seguir para os eventos que levariam à independência da Croácia e da Eslovênia, o autor fala sobre outras partes da Iugoslávia. Kosovo, com maioria albanesa, era controlada politicamente pelos sérvios, que exerciam o poder com mão de ferro. Kosovo era praticamente uma colônia da Sérvia e o desarmamento da população inviabilizava qualquer reação armada, de forma que Kosovo seria a última a obter a sua independência na última das Guerras da Iugoslávia. A minoria sérvia que estava em Kosovo vivia em permanente estado de paranoia contra os “terroristas albaneses”, sentimento que era alimentado pela Sérvia para manter um estado repressivo em Kosovo.

A Macedônia conseguiria a sua independência em 1991 de maneira relativamente pacífica, embora a vida após a independência não fosse fácil. O país estava cercado por inimigos de todos os lados, Sérvia, Bulgária e Grécia. A Albânia não era exatamente um inimigo, mas tinha interesses no país por conta da minoria albanesa na Macedônia. A questão era o reconhecimento da Macedônia como um estado e como uma nação. A Sérvia estava disposta a reconhecer os dois, a Bulgária apenas como um estado e a Grécia como nenhum dos dois, por entender que eles têm direitos territoriais sobre a Macedônia. Bulgária e Grécia não reconheciam as minorias macedônicas em seus países, não admitindo que eles se chamassem de outra coisa além de búlgaros ou gregos.

Outro fato a ser mencionado antes de voltar a falar sobre o conflito propriamente dito são as relações históricas entre os dois países. Na Segunda Guerra Mundial, a Croácia foi ocupada pelo Eixo e o governo dos ustaše (ou ustasha, como está no livro) foi colocado no poder e adotaria políticas fascistas. Durante esse regime, milhares de sérvios, judeus e ciganos foram mortos em campos de concentração. Por sua vez, na Iugoslávia comunista após a Segunda Guerra Mundial, milhares de croatas foram mortos. O presidente da Croácia, Franjo Tudman, como um gesto de boa vontade, se desculparia pelos crimes dos ustaše, mas esse foi um gesto infrutífero, já que Milosevic não fez o mesmo pelos crimes cometidos pelos comunistas. Ustaše então seria um xingamento utilizado pelos sérvios contra os croatas.

Fechando os parênteses, podemos dizer que a guerra começou em primeiro de maio no incidente de Borovo Selo, onde doze policiais croatas e três sérvios foram mortos em um assentamento na Croácia. O pior dessa história é que nenhum dos lados está com a razão. Os sérvios em Borovo Selo eram hostis aos croatas e ao novo governo e um acordo foi feito entre Sérvia e Croácia de que nenhum policial entraria em Borovo Selo sem a permissão de um representante dos sérvios.

Porém, no dia primeiro de maio de 1991 policiais croatas entrariam em Borovo Selo e seriam atacados pelos sérvios. No dia seguinte, os croatas invadiriam Borovo Selo em busca dos policiais. Recuperaram os corpos, que estavam mutilados. Os croatas se aproveitaram disso, expondo os corpos para o público como uma forma de jogar a população contra os sérvios. A ordem da primeira entrada em Borovo Selo foi dada pelo chefe de polícia, que devia saber muito bem que não deveria fazer isso. (7)

Muitos interpretam esse incidente como uma tentativa dos croatas de justificarem maior repressão aos sérvios na Croácia e expulsão deles do país. O fato é que esse incidente apenas subiu a já elevada temperatura, com o governo sérvio infiltrando grupos paramilitares na Croácia e os suprindo com armas e com militantes do partido governista croata, o HDZ, atacando os sérvios na Croácia. Por força de uma política governamental deliberada, sérvios eram demitidos de seus trabalhos apenas por conta de sua nacionalidade, no setor público, mas também no setor privado. Crimes eram cometidos contra cidadãos da outra nacionalidade tanto na Sérvia quanto na Croácia. Casas e estabelecimentos comerciais de sérvios eram marcados com os dizeres “Chetniks”, que é o nome de uma organização paramilitar que lutou pela sérvia na Segunda Guerra Mundial, o nome sendo utilizado também nas Guerras da Iugoslávia. Chetnik era uma forma de um croata xingar um sérvio, assim como ustaše para a situação oposta. Borovo Selo não criaria a tensão, mas a aumentaria exponencialmente.

Dias antes da declaração de independência, Croácia e Sérvia já pareciam países diferentes, e não membros de uma única federação. Embora algumas pessoas se considerassem iugoslavas, o sentimento nacionalista aumentou nos dois países. A população da Croácia sentia-se cada vez mais otimista com a iminente independência, apesar dos conflitos que já estouravam aqui e ali. Bandeiras croatas se espalharam por Zagreb, capital da Croácia.

A Eslovênia desempenharia um papel essencial, embora indireto, na independência da Croácia. A própria Eslovênia já vinha buscando se separar da Iugoslávia e um referendo popular em 1990 daria apoio a essa ideia. A questão para a Eslovênia era mais econômica do que política ou étnica. Na negociação entre as seis repúblicas iugoslavas, a Sérvia se mostrava inflexível em atender as aspirações nacionais das demais repúblicas. A Croácia não estava totalmente decidida à independência, podendo aceitar fazer parte da Iugoslávia desde que tivesse mais autonomia, mas a saída unilateral da Eslovênia incitaria a Croácia a seguir o mesmo caminho. Isso ocorreria também porque a Croácia esperava encontrar na Eslovênia um aliado em caso de guerra, mas as alianças nos Balcãs não são sempre tão simples assim e a independência das duas repúblicas são casos completamente diferentes. A Croácia tinha que resolver o que fazer com a minoria sérvia em seu país e isso complicaria todo o processo da independência como não ocorria na Eslovênia.

A independência da Eslovênia estava marcada para o dia 26 de junho de 1991. O primeiro-ministro da Iugoslávia, o croata Ante Markovic, tentou de tudo para dissuadir os separatistas da Croácia e da Eslovênia, até ameaçando o uso da força, mas foi ignorado. Os croatas se anteciparam aos eslovenos e, apoiados por um referendo, o congresso aprovou a independência um dia antes da Eslovênia.

Logo após a independência, os conflitos começariam. Os Marticevci, um grupo paramilitar sérvio, lançaria um ataque contra Gilna, uma vila próxima de Zagreb. Uma peculiaridade do conflito é que ele se daria prioritariamente em áreas onde os partisans, tropas irregulares que enfrentaram os nazistas na Sérvia na Segunda Guerra Mundial, enfrentaram os ustaše. Outra questão nessa guerra eram os casamentos mistos de sérvios e croatas. Com a guerra, esses casais se separaram em muitos casos, de forma que um soldado poderia atirar na própria esposa se essa se juntasse ao conflito armado do outro lado.

A causa da guerra era o nacionalismo, mas os dois lados tentariam dar outras justificativas. Para a Croácia, a guerra era entre o bolchevismo de Milosevic e as políticas de livre mercado que Tudman queria implementar na Croácia. Para os sérvios, além do suposto genocídio de sérvios, havia uma ofensiva fascista nos Balcãs por parte dos croatas, fomentada pelos mestres da Croácia, a Alemanha.

A Eslovênia, por sua vez, não tinha motivo algum para entrar em guerra com quem quer que seja. O único motivo seria um confronto com a Iugoslávia, que considerou inicialmente a separação como ilegal. E haveria realmente um conflito entre Iugoslávia e a recém-criada Eslovênia, mas seria uma guerra de curta duração conhecida como Guerra dos Dez Dias. Mas a Iugoslávia não demoraria a deixar a Eslovênia ir sem maiores contestações.

O reconhecimento da Eslovênia teria consequências para a Croácia. Já não fazia mais sentido falar em uma guerra entre Iugoslávia e Croácia, uma vez que a Iugoslávia já tinha reconhecido a independência de uma de suas repúblicas. O que restava agora era um conflito entre sérvios e croatas e a única solução encontrada para as tensões acumuladas entre os dois só poderia resultar em uma guerra, que duraria ainda quatro anos.

Relação com Tactics Ogre
Vou falar ainda sobre a relação entre o jogo Tactics Ogre e as Guerras da Iugoslávia, ampliando o que falei muito brevemente no vídeo anterior. Em uma entrevista para a Dengeki, o diretor do jogo, o Yasumi Matsuno, diria que se inspirou nos eventos da Iugoslávia para criar o enredo do jogo. Diz que ficou pensando nas coisas terríveis que estavam acontecendo e isso moldaria o enredo sombrio e complexo do jogo. O jogo foi lançado em 1995 para SNES, mesmo ano do fim da guerra entre Iugoslávia e Croácia e era a continuação de outro jogo, o Ogre Battle.

O principal das Guerras da Iugoslávia, a questão étnica, está presente no jogo e se eu fizer mais vídeos sobre o Tactics Ogre eu explico mais sobre isso, já que nem apareceu muito bem aqui e eu não me lembro muito bem da vez que eu joguei.

E a inspiração nesses eventos trouxe uma ambiguidade moral ao jogo. Você pode seguir o caminho da legalidade ou do caos, o da legalidade sendo o caminho ruim, já que você está seguindo as ordens de um déspota. Para seguir o caminho da lei, você precisa tomar decisões desumanas, que era a situação vivida pelos soldados na guerra. Uma coisa a se notar nessa situação toda é que não tinha santo na história, todos os lados, Sérvia, Croácia, Bósnia, tinham sujeira.

Falando sobre o jogo, ele foi desenvolvido pela Quest, que depois seria incorporada pela Square, mas não haveria mais jogos da série fora esse remake para PSP. Eles aproveitariam a ideia para o Final Fantasy Tactics e para os Tactics para GBA, mas não evoluíram para nada além disso. Quem sabe um dia isso possa ser feito, porém, o Matsuno saiu da Square, então acho improvável. Tem o jogo que o Matsuno está desenvolvendo, o Unsung Story, mas me parecia bem diferente.