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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Batalha de Nagashino



Em história militar, temos vários casos de obsessão por escrever seu nome na história superando os feitos de algum antecessor e, em muitos casos, seu próprio pai. Alguns têm sucesso nessa tarefa, como Alexandre, o Grande, que fez com que as proezas de seu pai fossem de certa forma diminuídas diante de sua própria grandeza. Porém, nem todos conseguem ter sucesso nessa tarefa e fracassam de maneira retumbante. Esse é o caso de Takeda Katsuyori, que queria entrar para a história tendo o mesmo sucesso que seu pai, Takeda Shingen, mas acabaria alçando outra figura à condição de lenda, Oda Nobunaga.

Politicamente, o Japão era governado por líderes militares chamados de shoguns, com a figura do imperador sendo meramente decorativa desde 1185. O cargo de shogun seria ocupado pela família Ashikaga por séculos até que em 1467 eclodiria a chamada Guerra de Onin, que resultaria na perda de poder do shogunato Ashikaga que fez com que os senhores feudais, os daimyôs, percebessem que poderiam usar da força para conquistar mais terras de daimyôs mais fracos sem que houvesse quem os impedissem. Sobre a Guerra de Onin, recomendo assistir o vídeo do canal do Felipe Aron que explica mais sobre isso.

Esses conflitos prosseguiriam por quase um século até que todo o Japão fosse dominado por alguns daimyôs, que se alternavam entre formar alianças e lutar entre si. O shogun também se tornaria uma figura praticamente decorativa, com pouco poder político ou militar, mas ainda cheio de poder simbólico. Pela convenção antiga, o shogun deveria ter linhagem com a família Minamoto, privilégio exclusivo dos Ashikaga. Então, para dominar o Japão, seria necessário dominar o cargo de shogun, mesmo sem assumi-lo.

Em 1560, um poderoso daimyô, Imagawa Yoshimoto, planejava marchar até Quioto, capital do Japão na época, para tornar o shogun a sua própria marionete. Porém, no caminho estava Oda Nobunaga, um daimyô menor, mas sem a disposição de simplesmente abrir caminho para Imagawa. Cheio de confiança, Imagawa marcharia até Owari, onde seria derrotado na Batalha de Okehazama por Oda Nobunaga apesar de ter uma vantagem numérica de 12 para 1. Essa vitória colocaria Nobunaga entre os grandes daimyôs e, juntando habilidade militar e localização estratégica, o tornou alvo preferido para alianças. Entre elas, surgiria um pacto com o daimyô da província de Mikawa, Tokugawa Ieyasu, que era um seguidor de Imagawa e que acabou se libertando dessa obrigação com o resultado da Batalha de Okehazama.

Pelos próximos quinze anos, Nobunaga trabalharia com batalhas, alianças, casamentos, intrigas políticas e construção de castelos para ampliar o seu poder até que em 1568 entraria em Osaka com o seu Ashikaga de estimação, Ashikaga Yoshiaki, que ele proclamou shogun. Apesar de agora deter o shogunato, Nobunaga dominaria apenas uma parte do Japão e possuía inimigos poderosos como os Mori ao oeste, Uesugi ao norte e os Takeda ao leste.

A maior ameaça e o oponente em Nagashino viria do clã Takeda. Os Takeda liderados por Takeda Shingen entre 1521 e 1573 poderiam tentar o mesmo que Imagawa e que foi conseguido por Oda Nobunaga, mas três coisas impediam: o isolamento em seu território nas montanhas, que fazia com que precisasse passar por estradas vigiadas pelos aliados de Oda, que eram os Tokugawa, e por fim os vários conflitos paralelos, principalmente contra os Uesugi no que ficaram conhecidas como Batalhas de Kawanakajima.

Em 1572, Takeda Shingen começaria uma ofensiva contra Quioto, tendo que passar pelos Tokugawa. Derrotaria o inimigo no castelo de Hamamatsu e enfrentaria Tokugawa Ieyasu nas planícies de Mikata-ga-hara, onde o inverno selaria o empate para esse ano. Mesmo assim, o resultado encorajaria Shingen a insistir nas ofensivas e sitiaria o castelo de Noda. Tudo levava a crer que o clã Tokugawa seria derrotado, quando a curiosidade faria uma das suas principais vítimas na história. O castelo de Noda possuía um grande estoque de sake, o vinho de arroz japonês, e os sitiados resolveram dar a mais digna finalidade a esse sake: beber e fazer uma festa. Melhor isso do que deixar que o inimigo fizesse o mesmo após tomar o castelo. O som da música dos shakuhachi chegaria nos sitiantes e Shingen se aproximaria para ouvir a música mais claramente. Seria então visto por um atirador e alvejado, vindo a morrer alguns dias depois.

Noda não cairia e Shingen seria sucedido por Takeda Katsuyori, que manteria a obstinação para invadir o território de Ieyasu e depois marchar para Quioto. Em 1575, seguiria para uma nova campanha indo uma rota diferente, prosseguindo diretamente para a capital do território dos Tokugawa, o castelo de Okazaki na província de Mikawa. Fez isso porque tinha a informação de que um traidor abriria os portões do castelo. Porém, o traidor seria encontrado e morto, deixando Katsuyori sem o seu principal trunfo e sem força suficiente para tomar Okazaki. Resolveria voltar, mas por outra rota seguindo o rio Toyokawa, protegida por três castelos. Tentaria tomar o castelo de Yoshida, porém não teria sucesso e voltaria para a região das montanhas. Seu caminho o levaria até um castelo chamado de Nagashino.

Comandantes Opostos
Takeda Katsuyori recebeu a ingrata tarefa de suceder uma lenda, seu pai, Takeda Shingen. Durante a expansão territorial empreendida por Shingen, os Takeda tomariam territórios nas províncias de Kai e Shinano e derrotaria o daimyô chamado Suwa Yorishige, que seria forçado a cometer suicídio após um acordo de paz humilhante. Ele tinha uma bela filha de 14 anos cuja mãe era a própria irmã de Shingen. Tomado por um fascínio que fez com que desconfiassem que a garota fosse uma raposa disfarçada de mulher, Shingen a tomaria como uma de suas esposas e dessa união nasceria Katsuyori.

Katsuyori se tornaria o filho favorito de Shingen, tanto que seria o seu sucessor. Era um hábil comandante treinado na tradição Takeda, uma escola que privilegiava o combate móvel e o uso de cavalaria. Mostraria o seu valor nas Batalhas de Kawanakajima e em Mikata-ga-hara, mas teria uma série de inimigos dentro do clã Takeda. Tinha aliados entre os idosos generais, mas muitos dos antigos servos de seu pai o viam com desconfiança. Para piorar, desconsideraria o conselho dos generais e avançaria contra Mikawa.

Do outro lado, temos Oda Nobunaga. Já na época da Batalha de Nagashino era considerado um dos grandes líderes samurais e havia um respeito mútuo entre ele e seus generais. Tinha grande arrojo, mas também sabia escutar conselhos, ao contrário de Katsuyori, uma lição aprendida quando um de seus comandantes cometeu suicídio quando teve seu conselho ignorado. Teria seu grande momento até então na Batalha de Okehazama, onde uma inteligente leitura da situação e uma rápida resposta às circunstâncias foram essenciais. Veria que o exército de Imagawa estava comemorando a queda de um de seus castelos e armaria um ataque surpresa, mostrando o seu cuidadoso planejamento aliado com rápida execução. Em adição a isso, veria que não poderia derrotar todos os seus inimigos sozinho e também buscaria alianças, o que foi fundamental para a vitória na Batalha de Anegawa.

Para complementar, Oda Nobunaga sabia ser cruel, massacrando dezenas de milhares de monges budistas do exército de camponeses Ikkô-ikki que se opuseram a ele. Ele deveria ter mais gratidão com esses monges, que o ensinaram a ser flexível durante a batalha e com quem aprendeu a usar armas de fogo, mas gratidão não passou por sua cabeça quando incendiou o templo no Monte Hiei. Por fim, estando basicamente no centro do Japão, estava sempre na vanguarda da tecnologia militar, contando com um bom relacionamento com os mercadores portugueses e tolerância com o cristianismo.

Tokugawa Ieyasu mostraria ao longo de sua carreira um comando arrojado nas linhas de frente aliado com paciência e diplomacia nos bastidores, que fariam com que tivesse sucesso nessa época e também décadas adiante. Graças a essas qualidades conseguiria o apoio de Nobunaga, que não estava em contato direto com o avanço de Katsuyori. Por fim, temos Okudaira Sadamasa, responsável pela defesa de Nagashino. Sadamasa era um aliado de Takeda Shingen e sua família era mantida refém pelos Takeda. Com a morte de Shingen, Sadamasa decidiu se juntar novamente aos Tokugawa e removeria tropas que protegiam o castelo de Tsukude para os Takeda, ao custo da vida de sua esposa e irmão mais novo. Sabendo que Sadamasa seria um inimigo amargo para os Takeda, Ieyasu o nomearia como guardião de Nagashino e poderia contar com um aliado obstinado para proteger essa posição.

Exércitos Opostos
Na Batalha de Nagashino, Takeda Katsuyori dispunha de 15 mil homens e enfrentaria inimigos em muito maior número, 30 mil sob o comando de Oda Nobunaga, 8 mil sob Tokugawa Ieyasu e mais 500 que estavam em Nagashino liderados por Okudaira Sadamasa.

Nobunaga empregaria 30% de seu exército na Batalha de Nagashino e teria a sua disposição 3.500 mosquetes, que se mostrariam úteis contra a forte cavalaria dos Takeda. Ieyasu utilizaria 64% do seu exército em Nagashino, mas podemos dizer que todas as suas forças estavam mobilizadas para enfrentar Katsuyori, já que o restante estava defendendo castelos contra a ameaça dos Takeda.

Não há muitos detalhes sobre a composição das forças de Nobunaga e Ieyasu, mas os cronistas de Katsuyori registraram em detalhes como era o seu exército em Nagashino. Não cabe aqui entrar em detalhes, mas a estimativa é que a principal força do exército eram os 4 mil samurais a cavalo, que eram acompanhados por dois soldados rasos cada, e mais três mil ashigarus, infantaria leve, por assim dizer. 47% do exército de Katsuyori estava mobilizado em Nagashino, o restante enfrentando Ieyasu e os Uesugi. Katsuyori contava apenas com 655 arcabuzes, o que seria uma desvantagem contra os 3.500 do inimigo.

Planos Opostos
Oda Nobunaga seria decisivo para os rumos da batalha, mas não se dedicaria muito a ela nos estágios iniciais e só teve maior interesse quando viu que isso envolvia salvar o seu aliado, Ieyasu. Viu também uma oportunidade de desferir um golpe fatal contra Katsuyori enfrentando apenas metade de seu exército.

A campanha começou em 30 de maio de 1575, quando Katsuyori sairia de seu território para tomar o castelo de Okazaki contando com o auxílio de um traidor. Tratava-se de Oga Yashiro, uma espécie de secretário de finanças de Ieyasu que decidiu se voltar contra o seu mestre. Seria descoberto e em seguida executado, não sem antes passar sete dias agonizando. Katsuyori desistiria de seu plano inicial e se dirigiria para atacar o castelo de Tsukude, o mesmo abandonado por Okudaira Sadamasa. Desistiria de tomar esse castelo também, julgando que o cerco seria arriscado, pois demoraria e o exporia a ataques pelas costas. Após abrir mão de dois alvos, não desejava sair de Mikawa sem obter nenhum ganho e iria atrás do último castelo do rio Toyokawa, Nagashino, defendida por Sadamasa. Além de atacar um desafeto, tomaria uma posição estratégica e coroaria a campanha de Mikawa.

Mas o começo da Batalha de Nagashino não se daria no próprio castelo, e sim no castelo de Yoshida, protegido por Sakai Tadatsugu e que contava como hóspede o próprio Tokugawa Ieyasu, repetição de uma situação que havia surgido na em Mikata-ga-hara que teria como vencedor, ao menos moral, Takeda Shingen. Mas Katsuyori não ficaria muito tempo sitiando Yoshida e se dirigiria para o que se tornou o alvo principal, Nagashino, que era uma posição naturalmente defensiva forte cercado pelos rios Takigawa e Onogawa que se juntam e formam o Toyokawa.

O plano de Katsuyori era tomar as elevações próximas de Nagashino e de lá lançar ataques contra o castelo. Passaria o primeiro dia da ofensiva posicionando as suas tropas e depois começaria quatro dias de ataques contra Nagashino. A guarnição que protegia o castelo estava em desvantagem de 1 para 30, mas lutou bravamente com arcos, lanças e mosquetes. Katsuyori tentou invadir o castelo por uma escarpa atravessando o rio. Parece que hoje em dia seria impossível atravessar o rio de jangada a essa época do ano, mas nem foi esse o problema do exército de Takeda, e sim a resistência dos defensores.

No quarto dia, Katsuyori utilizaria um ataque noturno que faria com que os defensores recuassem para as defesas mais interiores. Na mesma noite, começaria a trabalhar em uma torre de cerco, que seria construída com sucesso, mas logo derrubada pelo canhão que estava em Nagashino. Começaria então uma segunda fase de ataques, novamente com ataques noturnos em duas frentes. Katsuyori tentaria uma nova estratégia, cavar túneis, o que resultaria no desmoronamento de uma das paredes. Isso não teve nenhum impacto efetivo, mas o barulho afetaria psicologicamente os defensores, que estão lutando por vários dias seguidos sem descanso, enquanto que os sitiantes, em maior número, podiam se dar ao luxo de fazer um rodízio das tropas. Katsuyori avançaria ainda mais sobre as defesas do castelo, mas tendo falhado em atravessar o rio, cavar túneis e usar uma torre de cerco, passou a imaginar que a sua única possibilidade era um ataque frontal. Decidiria, no entanto, matar de fome os defensores, imaginando que eles teriam suprimentos para apenas mais alguns dias. Cercaria o castelo e bloquearia todas as saídas, inclusive pelos rios.

Os defensores continuariam revidando como podiam, usando os seus mosquetes para acertar quem ficava no alcance, causando algumas baixas durante os dias de relativa calmaria. Apesar de ainda estar em muito maior número, as forças de Katsuyori sofreram pesadas baixas. Mas, tirando isso, estava no controle da situação e só precisaria de tempo para forçar Nagashino a se render.

E então que temos uma história digna de anime ou de mangá. Os defensores precisavam alertar Ieyasu e Nobunaga da situação de Nagashino. Haviam enviado um emissário antes do bloqueio, mas não obtiveram resposta e sequer sabiam se ele tinha chego a Okazaki. Então, Torii Sune’emon se voluntariaria para a missão suicida de passar pelo bloqueio e ir até Okazaki alertar os aliados. Sairia do castelo e iria para o rio, que estava bloqueado por uma rede, que ele conseguiria cortar e atravessar o rio sem chamar a atenção. Faria um sinal luminoso para avisar que tinha conseguido fugir e se dirigiria para Okazaki, onde estavam ambos Ieyasu e Nobunaga, que ouviriam a sua história e a situação de Nagashino, prometendo enviar reforços.

Não contente com isso, Sune’emon faria o caminho de volta para Nagashino. Sinalizaria novamente para dizer as boas notícias, mas, ao invés de esperar o reforço, tentaria entrar no castelo. Passaria pelo rio, porém, dessa vez havia uma série de cordas com sinos no rio, que inevitavelmente alertaria para a sua presença e resultaria em sua captura. Katsuyori ouviria a sua história e até se admiraria com tamanha coragem. Ofereceria uma troca de lado que Sune’emon aceitaria. Suspeitando de sua sinceridade, Katsuyori enviaria seu suposto aliado de volta para Nagashino com a ordem de dizer que não havia esperança e que os defensores deveriam se render. Ao invés disso, gritaria avisando que ajuda estava a caminho e seria morto por isso. Mesmo assim, seria admirado pelos dois lados da batalha como um grande exemplo de bravura.

A Batalha
Katsuyori então teria que decidir sobre o que fazer, ficar e lutar ou fugir do exército de Nobunaga e Ieyasu. Recuar talvez fosse a opção mais sensata, mas Katsuyori sentia que a sua honra estava em risco e que ele não poderia mais uma vez fugir da batalha. Ele queria imitar os feitos de seu pai em Mikata-ga-hara e insistiria em lutar. Porém, Nagashino era Mikata-ga-hara às avessas, com Katsuyori em desvantagem numérica e inclinado a cair na armadilha indo para o confronto. Ieyasu, derrotado no passado, aprendeu a lição e não foi para a luta em Yoshida, mas Katsuyori estava disposto a se arriscar

Se esse era o plano, um de seus generais, Baba Nobuharu, sugeriu que a luta contra Nobunaga se desse de dentro do castelo. Essa sugestão seria rejeitada e Katsuyori preferira uma batalha em campo aberto. Talvez ele não soubesse, mas seus generais sabiam que esse era um plano suicida, mas seguiriam seu líder por lealdade a Takeda Shingen.

Como prometido a Torii Sune’emon, Nobunaga e Ieyasu sairiam de Okazaki para auxiliar Nagashino com 38 mil homens. Marchariam até Nagashino e em dois dias chegaram à planície de Shidahara, a seis quilômetros de distância do castelo, e esse seria o local escolhido por Katsuyori para lutar.

As forças de Nobunaga e Ieyasu se posicionariam de forma a ter o rio Toyokawa no flanco direito e montanhas no flanco esquerdo. A lógica por trás de todos os preparativos era o medo da cavalaria dos Takeda, ambos comandantes já tendo sofrido derrotas para ela, apesar de estarem sob o comando de Takeda Shingen anteriormente. Se posicionariam de forma a ter o pequeno rio Rengogawa entre as duas linhas, nenhum obstáculo formidável, mas suficiente para atrasar a cavalaria. Para auxiliar os seus mosquetes, construiriam paliçadas para oferecer alguma proteção. O flanco esquerdo era protegido contra um cercamento por meio das florestas e Nobunaga aceitou arriscar o flanco direito ao espalhar mais as suas unidades.

O arranjo de armas, lanceiros e paliçadas permitiu que Nobunaga tivesse controle sobre o impacto do ataque de Katsuyori em suas fileiras. Nobunaga conhecia as forças de seu inimigo e se prepararia de forma adequada. Sabia que tempo era essencial para essa batalha e usaria o rio Rengogawa como proteção natural para reduzir a velocidade da cavalaria inimiga. As paliçadas seriam mais um acréscimo para garantir segundos preciosos para que as armas de fogo fossem recarregadas. Outro fator importante seria a rígida disciplina, os seus melhores samurais comandando os ashigarus seguindo estritamente as suas ordens, o que não era exatamente o padrão das batalhas japonesas.

Katsuyori dividiria o seu exército para enfrentar os novos inimigos ao mesmo tempo em que mantinha o cerco a Nagashino. 12 mil iriam ao ataque divididos em quatro divisões e 3 mil seriam deixados para trás.  As divisões de ataque seriam dispostas no campo de batalha com três unidades à frente e uma quarta na retaguarda no apoio, formação que seria poeticamente conhecida asa da garça azul, kakuyoku.

Ao mesmo tempo em Katsuyori estava planejava para a batalha, Nobunaga fazia o mesmo de seu lado. E, em um momento digno novelas de samurai, Sakai Tadatsugu sugeriria um ataque noturno surpresa e seria duramente repreendido por Nobunaga, não apenas pela ideia, mas também por falar fora de sua vez. [A gente até consegue imaginar] Acontece que a ideia não era estúpida e Nobunaga teria uma reunião particular com Tadatsugu, contando que a sua reação era uma forma de despistar espiões e que o seu plano seria executado e ele lideraria a ofensiva. À meia-noite, Tadatsugu deixaria o quartel-general junto com 3 mil homens e atravessaria 8 quilômetros coberto pela noite e pela chuva, se posicionando a espera do amanhecer.

Na manhã seguinte, Katsuyori iria ao ataque. Sabia que o inimigo possuía um grande número de mosquetes, mas esperava que a chuva do dia anterior e o elevado número de cavalaria morro abaixo pudessem equilibrar a situação. O plano era aguentar a primeira salva de tiros, insuficiente para aniquilar a sua cavalaria, e depois atacar os indefesos ashigarus enquanto recarregavam as suas armas. Com o apoio da infantaria, havia uma boa chance de levar a melhor contra os inimigos, passar pelas paliçadas e botá-los para correr, até o ponto em que o Toyokawa cortasse a rota de fuga.

A hora da batalha chegou. A cavalaria avançaria contra as forças de Nobunaga, tendo o momento atrasado pelo rio Rengogawa. Nobunaga poderia ordenar que os primeiros tiros fossem disparados a uma distância maior ou que as forças avançassem contra o inimigo, mas deixaria que chegassem a 50 metros para iniciar a resposta. A primeira salva de tiros não assustaria Katsuyori, era parte do plano, mas o que ele não esperava era a velocidade com que viria a segunda salva, e depois a terceira. Os cavaleiros que sobreviveram ao ataque dos mosquetes teriam ainda que enfrentar os lanceiros, samurais, paliçadas e a confusão sobre a situação que claramente saia ao controle. A batalha não seria tão rápida quanto alguns relatos dizem e não seria decidida apenas pelas armas de fogo, mas esse foi definitivamente um fator decisivo para o exército Oda-Tokugawa.

Para piorar a situação para Katsuyori, vamos lembrar de Tadatsugu, que ao mesmo tempo em que o inimigo avançava armava um ataque na retaguarda. O exército dos Takeda estava totalmente alheio a Tadatsugu e garantiu uma vitória até que fácil. Os sitiantes de Nagashino viram a fumaça produzida pelos 500 mosquetes de Tadatsugu, mas não podiam fazer nada, pois não estavam em número suficiente e estavam posicionados muito longe para poderem ajudar. Aproveitando a situação, os sitiados de Nagashino foram para o ataque contra os sitiadores.

Em Shidarahara, a batalha prosseguia por horas a fio. A vantagem era toda do exército Oda-Tokugawa, mas os homens de Katsuyori continuariam a lutar. Teriam mais sucesso contra o flanco direito do exército inimigo, não protegido por paliçadas, mas teriam sérias dificuldades do mesmo modo que as outras divisões. Katsuyori utilizaria as suas últimas forças para uma última ofensiva, mas nem tropas frescas e de alta qualidade teriam grande impacto nos rumos da batalha.

Após oito horas de combate, Oda Nobunaga ordenaria o recuo de suas forças de volta para as paliçadas. Katsuyori aproveitaria essa ocasião para fugir de volta para o seu território e seria perseguido pelo exército Oda-Tokugawa O saldo final seria 10 mil baixas para o exército de Katsuyori, ou 67% do total, contra 6 mil mortos do lado Oda-Tokugawa, ou 16% do total.

Após a derrota em Nagashino, Katsuyori retornaria para o seu território e por lá ficaria e passaria os próximos sete anos em posição defensiva lutando desesperadoramente para sobreviver. Teria ainda como inimigo Ieyasu, mas por sorte Uesugi Kenshin morreria em 1578 e os Uesugi ficariam ocupados demais discutindo a sucessão para incomodá-lo. Kai e Shinano eram fáceis de proteger, de forma que conseguiria sobreviver ao assédio de Ieyasu. Mesmo assim, perderia territórios e sofreria com o abandono de seus aliados até que, entre derrotados e traidores, basicamente só sobrasse os seus familiares.

Com o seu exército definhando e abandonado por todos, em 1582 decidiria pôr fim a tudo, auxiliando no suicídio de sua esposa e depois cometendo hara-kiri junto com seu filho. Sua cabeça seria levada para Nobunaga, que não a receberia com alegria, e sim com lágrimas ao ver a cabeça de um inimigo, sim, mas também um grande comandante. E assim termina a história de Takeda Katsuyori, supostamente nascido de uma raposa disfarçada de uma bela mulher, herdeiro do lendário Takeda Shingen, mas que se mostraria indigno de sucedê-lo.
 

Campanhas de Osaka





Toyotomi Hideyori perdeu o poder na Batalha de Sekigahara quando sequer tinha idade para defender a sua posição. Quinze anos depois, tentaria retomar o que é seu por herança de seu pai, Toyotomi Hideyoshi, mas, para isso, teria que derrotar seu tio, tio avô e avô-de-lei, todos na figura da mesma pessoa, Tokugawa Iyeasu.

O confronto que decidiria o destino do Japão para os próximos dois séculos se daria no que se conhece hoje como as campanhas de Osaka, uma série de batalhas travadas nas proximidades do castelo de Osaka da facção Toyotomi. Foram duas campanhas, a do inverno de 1614 e do verão de 1615 e a útima batalha, Tennoji, seria o último confronto de dois exércitos de samurais e seria a última batalha do lendário Tokugawa Iyeasu, então já com 72 anos. E apesar do Período Edo inaugurado com a vitória em Sekigahara e ratificado em Osaka ter sido marcado pelo fechamento para o exterior, os estrangeiros participaram indiretamente da batalha ao fazerem os primeiros registros em inglês de eventos ocorridos no Japão e de pólvora fornecida pela Companhia Inglesa das Índias Orientais.

Para entender melhor o contexto das campanhas de Osaka, recomendo assistir o meu vídeo sobre a Batalha de Sekigahara, no qual explico sobre essa batalha antecedente e os eventos que levaram ao confronto e tudo isso serve de pano de fundo para Osaka. Após a vitória em Sekigahara, Ieyasu construiria um novo castelo que se tornaria a nova capital administrativa do país, Edo, atual Tóquio.

Hideyori não sofreria nenhuma represália da derrota em Sekigahara, mas ele e sua influente mãe, Yodogimi, seriam colocados de escanteio na cena política por conta de manobras de Katagiri Katsumoto, guardião pessoal de HJideyori. Como recompensa, Ieyasu dobraria a quantidade de terras de Katsumoto em uma prática bastante comum após Sekigahara, onde Ieyasu recompensou ou puniu os senhores feudais de acordo com o lado em que estavam em Sekigahara. Os que estavam do lado errado perderam terras, o cabelo ou mesmo a cabeça, para os mais desafortunados. Para Hideyori, Ieyasu limitaria a renda da família, mas permitiria que ficasse com a residência da família em Osaka e lá confinaria o herdeiro de Hideyoshi.

Recompensar e punir após Sekigahara não foi a única tática de controle social exercida por Iyeasu. Além da construção da nova capital, Ieyasu construiria e reconstruiria uma série de outros castelos que seriam usados para manter um olho nos senhores feudais. Forçaria idas e vindas de senhores feudais a Edo até como uma forma de humilhação e também usaria de reféns, ordenando que as esposas e filhos dos senhores feudais fossem enviadas para Edo. Casamentos também foram utilizados para fins políticos, criando a situação curiosa que aludi no começo do vídeo. Ieyasu se casaria com a irmã de Hideyoshi, seu filho, Hidetada, se casaria com uma irmã de Yodogimi e Hideyori se casaria aos 10 anos com uma filha de Hidetada, configurando a situação em que Ieyasu é a ao mesmo tempo tio, tio avó e avô-de-lei de Hideyori.

Ieyasu foi nomeado Xogum após Sekigahara e renunciaria ao cargo em 1605 em favor de Hidetada, uma situação que seria muito celebrada no Japão. E, que fique claro, essa renúncia em nada diminuiria o poder de Ieyasu, que era efetivamente o xogum do Japão. Hideyori e Yodogimi seriam convidados para as festividades, mas Yodogimi recusaria o convite, preferindo se manter na segurança de Osaka. Hideyori tinha apenas 12 anos e não poderia ir sozinho para Edo desobedecendo a mãe, mas seis anos depois se encontraria com Ieyasu apesar de contrariar Yodogimi. O encontro se deu no castelo de Nijo e deixou uma boa impressão em Ieyasu. O guardião de Hideyori, Katsumoto, tinha espalhado a ideia de que Hideyori era fraco e afeminado para dissuadir rivais de Ieyasu de tentarem uma rebelião. Se Ieyasu acreditava ou não nisso, o encontro com Hideyori deixaria uma impressão completamente diferente. E isso acabaria não se mostrando muito bom para Hideyori. Ieyasu já via os Toyotomi como uma ameaça e tentou enfraquece-los financeiramente ao forçar Hideyoshi a gastar a sua fortuna em diversos projetos, como uma grande estátua do Buda que Hideyori tinha começado seu filho terminaria em 1612, sem que isso representasse uma grande ameaça financeira para os Toyotomi.

Dessa forma, Hideyoshi passou a ser visto como uma ameaça por Ieyasu, que se prepararia para a guerra. E é aqui que entra a Companhia Inglesa das Índias Orientais. Antes de Sekigahara, Ieyasu já tinha confiscado navios estrangeiros e obtido canhões e armamentos ocidentais, mas para coloca-los em uso em campanhas futuras precisaria de pólvora, vendida pela Companhia das Índias. Verificando os preços em Osaka e Edo, podemos verificar a demanda por pólvora. Em Osaka, o preço era baixo porque Hideyoshi se sentia seguro em seu castelo e não via uma ameaça iminente. Em Edo, o preço era muito mais elevado, justamente porque Ieyasu estava comprando como preparativo para uma guerra contra os Toyotomi. Muito sensatamente, os mercadores da Companhia das Índias levaram pólvora de Osaka para vender para Ieyasu, levando a mercadoria para Hirado para não levantar suspeitas.

As tensões que levariam à guerra são meio estranhas para nós, ocidentais, e acho que não seria de todo errado imaginar que sejam um pouco forçadas. Em 1614, para completar a estátua do Buda, Hideyoshi faria um grande sino, no qual tinha a inscrição chinesa kokka anko, “que o estado seja pacífico e próspero”. Ka e Ko eram ideogramas chineses que no estilo japonês seriam ie e yasu e a separação dos dois ideogramas foi interpretada de maneira ofensiva por Ieyasu. Havia ainda a inscrição “No leste recebe a brilhante lua, no oeste dá adeus o sol poente”. Novamente, Ieyasu interpretaria essa inscrição como uma ameaça velada a ele.

A situação ficaria insustentável quando Hideyori passou a recrutar ronins, samurais desempregados, muitos deles por conta do resultado da batalha de Sekigahara que teriam uma motivação extra para enfrentar Ieyasu, que, por sua vez, compraria ainda mais pólvora fazendo o preço disparar. O palco estava pronto para as campanhas de Osaka.

Comandantes Opostos
O líder efetivo do xogunato Tokugawa era Ieyasu, apesar de ele não ser o Xogum. Ele combinava duas virtudes raras de se encontrar na mesma pessoa, uma atitude agressiva, e até teimosa, em batalha que quase o matou ainda na juventude e uma boa habilidade diplomática e ambas qualidades lhe valeram a vitória em Sekigahara em igual medida.

O xogum nominal era o filho de Ieyasu, Hidetada, que não contava com muita confiança de seu pai. Hidetada não participou da Batalha de Sekigahara, não por não ter sido convocado para o confronto, mas porque se atrasou ao insistir em tomar um castelo quando sequer tinha ordens para tal. Ieyasu não perdoaria esse erro e em Osaka o relegou a um papel secundário.

Do lado dos Toyotomi, o comandante nominal era Hideyori, que dependia muito de seus generais, ainda leais à figura de Hideyoshi. Argumenta-se que o resultado final poderia ser diferente de um desses generais fosse o comandante da facção Toyotomi. Apesar de individualmente os outros comandantes terem tido um bom desempenho, faltou liderança e coordenação por parte de Hideyori. Foi criada a imagem de Hideyori de um afeminado e fraco, muito por conta de ficar sempre debaixo da asa da mãe, e apesar de talvez pessoalmente essa imagem ser errônea, em termos militares tinha um pouco de verdade. Em Osaka, Hideyori se mostrou indeciso, ou descartando os planos de seus generais sem maiores discussões, ou deixando que fizessem o que quisessem sem uma coordenação central.

Dentre os generais de Hideyori, o principal deles era Sanada Yukimura, filho de Sanada Masayuki, que tinha servido Takeda Shingen, rival de Ieyasu. Seu irmão, Nobuyoshi, serviu como refém após Masayuki se submeter a Ieyasu e acabaria trocando de lado e os dois irmãos ficariam em lados opostos em Sekigahara. Yukimura defendeu o castelo de Ueda contra Hidetada em uma das inúteis batalhas secundárias da Batalha de Sekigahara. Sua punição por se aliar com a facção Toyotomi foi perder as terras para o próprio irmão e ter que raspara a cabeça e virar monge. Atenderia o chamado de Hideyori e lutaria ao seu lado nas campanhas de Osaka e novamente ele e seu irmão ficariam em lados opostos.

Exércitos Opostos
A organização do exército no Japão feudal é diferente do que se vê no ocidente. A minoria dos combatentes eram vassalos diretos das famílias Tokugawa e Toyotomi. Os combatentes eram vassalos de senhores feudais que se aliavam de um ou de outro lado e podemos dizer que a distribuição de daimyôs em Osaka se à Batalha de Sekigahara, com os aliados de Ieyasu estando do lado de fora do cerco ao castelo e seus inimigos do lado de dentro. Era como se os exércitos fossem divididos em unidades lideradas pelo seu daimyô sob o comando geral de um general. A facção Toyotomi ainda utilizou ronins, samurais que não seguiam um senhor feudal, um samurai desempregado, por assim dizer, o que dificulta a estimativa de quantos homens tínhamos nas campanhas de Osaka.

Sobre os armamentos e outros aspectos da organização dos exércitos, eu já falei sobre isso no vídeo sobre a Batalha de Sekigahara. O único ponto que eu gostaria de mencionar é a disparidade de artilharias em favor de Ieyasu, já mencionada, que seria decisiva para os rumos da batalha.

Planos Opostos
Tivemos duas campanhas que culminariam com a tomada do castelo de Osaka pelas forças de Ieyasu, uma no inverno de 1614-1615 e outra no verão de 1615. Assim que as tensões entre Ieyasu e Hideyori se acirraram, Ieyasu abandonou a pressão política e partiu para a ação militar. Para a campanha do inverno, o plano de Ieyasu era mover a parte de seu exército em Edo sob o comando de Hidetada e de Sumpu sob seu comando indo para os castelos de Fushimi e Nijo que já estavam sob controle dele. Ao mesmo tempo, os outros daimyôs se posicionariam próximos de Osaka e se preparariam para o ataque ao castelo.

Do lado de Hideyoshi, a campanha do inverno mostrou a fraqueza no comando central da facção Toyotomi. Havia duas opções: ficar em Osaka e esperar o inimigo ou tentar intercepta-lo. Yukimura e Mototsugu propuseram a segunda opção após analisarem as possíveis rotas que Ieyasu poderia tomar para chegar em Osaka. O plano era avançar com duas forças, a menor assegurando a estrada de Nara e a maior avançando para tomar Ibaraki, Fushimi e depois Quioto, para depois poder avançar para Nijo e eventualmente para o palácio imperial. Tendo o imperador sob suas mãos, eles poderiam declarar Ieyasu rebelde e fazer com que os daimyôs se voltassem contra os Tokugawa. Terminando por tomar a ponte em Seta, Ieyasu não teria para onde ir e esse seria o seu fim. O plano fazia sentido, poderia dar certo, mas Hideyori o recusou preferindo ficar em Osaka esperando por Ieyasu para uma batalha defensiva, dando passe livre para o avanço inimigo.

Na campanha do inverno, a facção Toyotomi contava oficialmente com 113 mil homens, mas Stephen Turnbull, autor do livro que uso de referência, estima que havia 23 mil reservas, porém, o número de ronins dificulta o estabelecimento de um número exato, mas pela estimativa de Turnbull havia 100 mil combatentes em Osaka na campanha do inverno. Do outro lado, no exército oriental, tínhamos 194 mil homens lutando com Ieyasu, sem contar os 30 mil homens de Shimazu Iehisa, que chegou tarde ao campo de batalha. Desses, apenas 60 mil estavam sob comando de Ieyasu ou de Hidetada, os demais sendo controlados pelos daimyôs aliados. Do exército de Osaka, apenas 3 mil homens estavam sob controle direto de Hideyori e a fragmentação era ainda maior do que no exército oriental.

Sobre o castelo de Osaka, do lado de foram era uma fortaleza situada em uma área inclinada cercada por rios que serviam de proteção natural. Do lado de dentro, era um labirinto cheio de câmaras secretas e fossos. Na campanha de inverno, o castelo não seria o campo de batalha principal, mas seria na campanha de verão.

No final de 1614, Ieyasu se dirigiria para Osaka sem grande oposição e receberia aliados ao longo do caminho. No dia 10 de dezembro, o exército de Ieyasu já estava posicionado próximo de Osaka, com Ieyasu fazendo do castelo de Nijo o seu quartel-general e Hidetada em Fushimi. Em 15 de dezembro, partiriam para o ataque a Osaka, fazendo uma cautelosa travessia para o ponto de ataque mais viável, a parte sul do castelo de Osaka. No caminho, poderia ter usado a passagem de Kuragari pelas montanhas para cortar caminho, mas um de seus comandados disse que há uma superstição de que ninguém venceu uma batalha após tomar esse caminho, então, Ieyasu achou prudente não desafiar velhas superstições e acabou tomando o caminho mais longo.

Em 19 de dezembro, Ieyasu tomaria o forte de Kizugawaguchi, um importante ponto de observação para o exército de Osaka. Nos próximos dias, o exército oriental tomaria outros fortes e o exército de Osaka começaria a mostrar alguma resistência, lançando contra-ataques. Foram várias pequenas batalhas para assegurar o perímetro e por isso que o ideal seria chamar esse evento como campanhas de Osaka e não apenas Batalha de Osaka.

Dentro o castelo de Osaka, pouca coisa acontecia fora os tímidos contra-ataques. O exército de Osaka ressentia de uma liderança mais forte por parte de Hideyori, que basicamente deixou seus generais para agirem como bem entendesse. Tentando elevar o moral das tropas,  Yodogimi e Oda Yorinaga, sobrinho de Oda Nobunaga, vestiram armaduras para tentar animar os combatentes, mas provavelmente o efeito foi o contrário, mostrando quão desesperadora era a situação.

No começo de 1615, ocorreria a batalha de Sanada maru, uma fortificação mais avançada na linha defensiva de Osaka, erigida em uma das elevações não ocupadas nos arredores de Osaka e o último obstáculo que separava Ieyasu do castelo de Osaka. Como o próprio nome diz, o próprio Yukimura construiu o Sanada maru e caberia a Maeda Toshitsune tomar a fortificação. Ao tentarem subir as paredes do forte, os homens de Toshitsune seriam recebidos com tiros de arcabuzes, mostrando que a tarefa não seria fácil.

O próximo a tentar seria o neto de Ieyasu, Matsudaira Tadanao acompanhado por Ii Naotaka, sucessor de Ii Naomasa. As campanhas de Osaka contém alguns nomes conhecidos da Batalha de Sekigahara, não necessariamente referentes às mesmas pessoas, mas com algumas similatidades. Naomasa era famoso por seus samurais com armaduras vermelhas conhecidos como diabos vermelhos e seus sucessores seguiriam a tradição. O primeiro sucessor foi seu filho legítimo, Naokatsu, apesar de ele próprio ter desejado que o ilegítimo Naotaka fosse seu herdeiro. Ieyasu precisaria intervir nessa briga familiar em favor de Naotaka. O ataque chegou a ser bem sucedido, com as tropas de Tokugawa invadindo o Sanada maru e oficialmente entrando no castelo de Osaka, mas logo um contra-ataque da facção Toyotomi viria e repeliria os invasores. No dia seguinte, novo ataque, agora liderado pelo veterano Todo Takatora, sem sucesso.

Hidetada sugeriria um ataque total contra o Sanada maru, mas Ieyasu não achava uma boa ideia insistir com essas tentativas. Algo diferente seria necessário e é aqui que entra a artilharia mencionada há pouco. Os defensores possuíam artilharia, mas em menor número e de menor qualidade, sequer podendo alcançar as linhas inimigas. Em 8 de janeiro, Ieyasu ordenaria um bombardeio limitado com envios de mensagens sugerindo que os defensores se rendessem, sem resposta. No dia 15, Ieyasu ordenaria o bombardeio total do castelo de Osaka. Segundo relatos da época, o barulho da artilharia da facção Tokugawa podia ser ouvida de Quioto, o que dá uma medida do efeito psicológico exercido sobre os defensores em Osaka. Muitas das muralhas de pedras não podiam ser destruídas pela artilharia da época e construções similares sobreviveriam até às bombas atômicas, mas mesmo assim faziam barulho quando atingidas e provavelmente afetavam os sitiados. Ieyasu sabia desse fator e ordenava tiros de arcabuzes e gritos de guerra à noite para fazer com que os defensores pensassem que um atraque era iminente, adicionando pressão psicológica.

Essa tática começou a dar certo quando um tiro de canhão alcançou os cômodos de Yodogimi, mãe de Hideyori e que era muito influente, para dizer o mínimo. Hideyori foi visitar o túmulo de seu pai no dia 17 de janeiro, data de aniversário de morte, e o bombardeio continuou e acertaria novamente os aposentos de Yodogimi, não a ferindo, mas destruindo uma pilastra e matando duas damas de companhia. Isso aterrorizaria Yodogimi, que pressionaria seu filho a abrir negociações de paz.

A própria Yodogimi negociaria a paz com uma dama de companhia de Ieyasu que era amiga da irmã de Yodogimi. Enquanto isso, Hideyori e seus generais discutiam o que fazer, basicamente manter a resistência ou se renderem. No final, o acordo foi de que os ronins que lutavam por Hideyori seriam perdoados, que a renda da família permaneceria a mesma e que ele e Yodogimi poderiam escolher livremente onde iriam residir, um acordo bem satisfatório para ambas partes e que seria aceito. Porém, como já se sabia, Ieyasu não era confiável. Em um conflito anterior quase cinquenta anos antes, Ieyasu fecharia um acordo de rendição prometendo restaurar templos ao seu estado natural. Assim ele fez, queimando-os e devolvendo ao seu estado natural, campo verdejante. Na campanha de inverno de Osaka, ele destruiria algumas muralhas e jogaria os escombros nos fossos. Afinal, eles tinham acabado de selar a paz, não precisavam de proteções um contra o outro. Claro que Hideyori, Yodogimi e companhia reclamaram, mas sem sucesso e também claro que isso apenas contribuiria para a continuação das hostilidades. Ao invés de um acordo de paz, está mais para uma trégua.

Campanha de Verão
E demoraria apenas duas estações para a retomada dos confrontos. A campanha de verão seria dramática e decisiva, a segunda característica dentro do planejamento de Ieyasu desde a campanha de inverno, a primeira definitivamente fora de seus planos. Ieyasu acreditava que o castelo estava a sua mercê depois do enfraquecimento das defesas. O plano era reocupar as mesmas elevações, bombardear de ainda mais perto e derrotar Hideyori, porém, a situação fugiria de controle e ao invés de uma vitória fácil, Ieyasu quase perdeu a guerra.

Na campanha de inverno, Hideyori tinha a possibilidade de interceptar o inimigo e optou por esperar no castelo. Dessa vez, aceitaria a sugestão de seus generais e iria de encontro com as forças de Ieyasu. O que fazia todo sentido, afinal, as defesas do castelo estavam enfraquecidas e seria ainda mais arriscado enfrentar um cerco novamente. O plano original era mais ambicioso, mas aquele que seria implementado na campanha de verão seria mais modesto e a ideia era interceptar Ieyasu em seu caminho de Quioto para Osaka.

Na campanha de verão, as forças de Ieyasu eram de por volta 150 mil homens contra entre 60 e 120 mil homens servindo Hideyori. O pretexto para a primeira ofensiva e para a campanha do verão não teríamos algo tão específico, e sim uma série de relatórios de que Hideyori estava limpando os fossos e trazendo de volta os ronins para Osaka, além de boatos de que eles planejavam atear fogo em Quioto.

Em 1º de maio, Ieyasu sairia para a última campanha de sua vida. Ieyasu e Hidetada se encontrariam, os demais daimyôs iriam até as suas posições e em 22 de maio as forças de Ieyasu já estavam reunidas em Quioto. As forças de Hideyori, porém, é que tomariam a iniciativa e iriam para o ataque com Ono Harufasa. Ele atravessaria a passagem de Kuragari, apesar da superstição de que ninguém ganha uma batalha se o fizesse, e atacaria posições dos Tokugawa. Não tomaria o castelo de Koriyama, mas recuaria e queimaria as vilas pelo caminho, poupando o templo de Horyoji, até hoje uma das mais antigas construções de madeira.

Em 2 de junho, Ieyasu e Hidetada sairiam de Quioto e se encaminhariam para uma das grandes batalhas das campanhas de Osaka. Essa seria a batalha de Domyoji em 3 de junho, também conhecida como a batalhe entre as tumbas por ter sido travada em uma região onde havia uma série de tumbas de imperadores até maiores do que as tumbas egípcias. Goto Mototsugu, do exército de Osaka, tinha a missão de proteger a passagem por Komatsuyama em um dia de intensa névoa. O exército de Tokugawa forçou a passagem contra Mototsugu, que conseguiu resistir de início, mas a situação pioraria com a chegada de reforços. O exército de Osaka também enviaria reforços para a região, porém, isso seria tarde para Mototsugu, que seria alvejado e cometiria seppuku. O combate iria para a vila de Domyoji e seria feroz para ambos os lados. Outro general de Osaka seria morto, Susukida Kanesuke, e Sanada Yukimura ordenaria a retirada. Tokugawa Tadateru, que tinha chego a pouco tempo no campo de batalha, receberia a tarefa de perseguir Yukimura, mas não cumpriria essa ordem.

Nas batalhas de Yao e Wakae, travadas no mesmo dia, o exército de Osaka tentou deter o exército de Tokugawa sem sucesso. Chosokabe Morichika tentou segurar o avanço de Todo Takatora, que, apesar de vitorioso, perdeu dois filhos. Em Wakae, Kimura Shigenari tentou segurar o avanço do exército de Tokugawa tendo que enfrentar Ii Naotaka e seus diabos vermelhos. Shigenari não teria chance alguma e logo bateria em retirada, porém, ele próprio seria morto e sua cabeça entregue para Ieyasu.

O caminho estava livre para o exército de Tokugawa e Ieyasu pretendia reocupar as mesmas elevações em Chausuyama e Okayama, porém, o exército de Osaka já tinha ocupado essas posições. E então que chegaríamos à batalha de Tennoji, a última grande batalha samurai travada em 4 de junho. Essa não seria a batalha de Osaka, já que, pelos motivos expostos, seria suicídio deixar que a batalha chegasse no enfraquecido castelo. Se o exército de Osaka queria ter alguma chance de vencer, teria que levar a batalha para outro lugar e este seria ao sul de Osaka.

Ieyasu pretendia retomar Chasuyama e Hidetada investiria contra Okayama. O exército de Osaka não estava posicionado próximo dessas elevações, mas se dirigiriam para o campo de batalha saindo de onde era o Sanada maru. O plano de Osaka era Sanada Yukimura e Mori Katsunaga segurar o centro do exército de Tokugawa enquanto Akashi Morishige e Chosokabe Morichika buscariam atacar o flanco de Tokugawa.

Os primeiros ataques viriam de ronins do lado de Osaka que atiraram sem ordens de seus comandantes. Incapazes de controlar seus homens mais ansiosos por combate, Katsunaga e Yukimura desceriam de suas posições para atacar o inimigo. O exército de Tokugawa estava em grande desvantagem. Para piorar, Asano Nagaakira estava se movimentando para atacar o flanco do exército de Osaka. Porém, examinou mal a situação e estava se dirigindo para o flanco do próprio exército de Tokugawa. Lembrando que a batalha de Sekigahara foi decidida com traições do outro lado, os comandados de Tokugawa logo começaram a desconfiar que dessa vez a traição aconteceria entre eles.

O próprio Ieyasu se movimentaria para tentar acalmar as suas tropas e se veria desprotegido e que se encontraria com o próprio Sanada Yukimura, que atacaria Ieyasu. Algumas versões dizem que Ieyasu foi ferido nessa batalha e há teorias da conspiração de que ele teria sido morto e substituído por um dublê. O autor do livro que uso de referência chama essa história de ultrajante e descarta essa hipótese. O que se sabe é que Yukimura sim seria morto por Nishio Nizaemon, conhecido na história apenas por esse feito. Isso seria decisivo para o exército de Tokugawa, que começaria a partir daí uma reação.

Ii Naotaka e Todo Takatora liderariam essa reação com novos ataques, auxiliados por Date Masamune. O exército de Osaka recuaria até onde era o Sanada maru, mas eventos em outros lugares forçariam Naotaka e Takatora a recuar para auxiliar na batalha de Okayamaguchi pelo domínio da colina de Okayama, que ocorria ao mesmo tempo de Tennoji. Maeda Toshitsune e Hidetada estavam encarregados de tomar Okayama, mas precisariam de um ataque de flanco de Naotaka e Takatora para vencer e forçar o exército de Osaka a recuar para o castelo junto com o contingente recuando da batalha de Tennoji. As tropas que recuavam da batalha de Okayamaguchi ainda sofreriam ataques no dois flancos enquanto se retiravam, aumentando ainda mais as baixas.

 Hideyori deixaria para o castelo para ir ao combate, mas não iria longe, pois pouco tempo depois retornaria com rumores de que o castelo seria incendiado se ele saísse do castelo. Às 4:00 do dia 4 de junho, o primo de Iyeasu, Mizuno Katsushige seria o primeiro a chegar no castelo de Osaka, novamente sitiado. A artilharia do exército de Tokugawa voltaria à cena com efeitos devastadores. Para piorar, alguém realmente atearia fogo no castelo, provavelmente o cozinheiro chefe de Hideyori, e o fogo se alastraria rapidamente. Hideyori e Yodogimi procurariam refúgio em cômodos poupados pelo fogo e a esposa de Hideyori, Sen, seria enviada para fora do castelo para procurar refúgio com seu pai, Hidetada.

No dia seguinte, vendo que a situação só piorava, Hideyori decidiu cometer seppuku, junto com Yodogimi e mais trinta servos. Esse seria o fim do exército de Osaka, privado de seu comandante político, seu comandante militar e a maior parte dos generais exceto por Chosokabe Morichika, que seria capturado e executado. A tomada de Osaka seria sangrenta, com um grande número de ronins sendo executados sumariamente e o filho de Hideyori, Kunimatsu, com oito anos de idade seria decapitado para não deixar herdeiros homens da família Toyotomi, lembrando que se tratava do bisneto de Ieyasu.

Essa seria a última grande batalha samurai da história do Japão, que teria dois séculos e meio de paz e isolamento exterior durante a chamada Era Edo até a Restauração Meiji em 1868.