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domingo, 13 de setembro de 2015

Raízes do Brasil (#4) - Nossa Revolução



No capítulo 6, Sérgio Buarque de Hollanda analisa o período pós-independência onde, na parte cultural, podemos dizer que tudo mudou para continuar igual. Volta a citar o “apego singular aos valores da personalidade”, afirmando que o brasileiro raramente se aplica de corpo e alma a um objeto exterior a nós mesmos e a atividades em que o sujeito se submeta a um mundo distinto dele, a personalidade individual não suportando ser comandada por um sistema exigente e disciplinador, nas palavras do autor.

No começo do capítulo, Buarque de Hollanda vai fazendo afirmações bem fortes em sequência. Um exemplo: “É frequente, entre os brasileiros que se presumem intelectuais, a facilidade com que se alimenta, ao mesmo tempo, de doutrinas dos mais variados matizes e com que sustentam, simultaneamente, as convicções mais díspares”, bastando que tais ideias tenham uma roupagem vistosa como palavras bonitas e argumentos sedutores, em mais um exemplo da concepção do autor de que um traço nacional é a valorização das aparências, inclusive no que se refere ao ambiente social.

No que se refere ao trabalho, o objetivo é a busca da satisfação e o trabalho como um fim em si mesmo, e não como uma obra, um finis operantes, a finalidade daquele que obra, e não finis operis, a finalidade da obra. As atividades profissionais acabam por ser quase um acidente na vida dos indivíduos e na época do autor, segundo ele próprio, era raro termos pessoas que se limitassem a uma profissão. Nessa parte, o autor fala do “vício do bacharelismo”, que também tem raízes lá de Portugal, mas que persistiu na colônia e era mais uma amostra da importância demasiada a títulos para valorizar a personalidade individual. O bacharelismo seria uma reminiscência da antiga importância que era dada a títulos, só que ao invés de títulos de nobreza, o de doutor. Nas palavras do autor: “A dignidade e importância que confere o título de doutor permitem ao indivíduo atravessar a existência com discreta compostura e, em alguns casos, podem libertá-lo da necessidade de uma caça incessante aos bens materiais, que subjuga e humilha a personalidade”, retomando a ideia de depreciação do trabalho manual analisada em capítulos anteriores. No final dessa parte do capítulo, Buarque de Hollanda parece considerar que os brasileiros são parecidos com o Conselheiro Acácio, ideia minha, não uma comparação direta do autor, afirmando: “O prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível, o horror ao vago, ao hesitante, ao fluido, que obrigam à colaboração, ao esforço e, por conseguinte, a certa dependência e mesmo abdicação da personalidade, têm determinado assiduamente nossa formação espiritual”.

Na sequência do capítulo, o autor passa a analisar a aceitação das ideias do positivismo de Auguste Comte. Não cabe aqui entrar em maiores detalhes, mas essa corrente filosófica, grosso modo, valorizava o conhecimento científico que seria a única forma de conhecimento verdadeira e razão do progresso da humanidade, teve grande influência no Brasil a ponto de um dos lemas do Positivismo, “Amor como princípio, ordem como base e progresso como objetivo” ter influenciado o lema que está na nossa bandeira, Ordem e Progresso. O argumento do autor é que essas ideias se encaixavam facilmente com o ideário da época, seguindo algumas conclusões já analisadas aqui, a certeza do triunfo final das novas ideias que o mundo acabaria por irrevogavelmente aceitar. O apelo era, nas palavras do autor, o repouso que essas ideias permitem ao espírito, as definições irresistíveis e imperativas do sistema de Comte. E os positivistas brasileiros eram, paradoxalmente, negadores. Citando Buarque de Hollanda: “Viveram narcotizados por uma crença obstinada e pela certeza de que o futuro os julgaria segundo a conduta que adotassem com relação a tais princípios”. Mais praticamente, muitos dos adeptos do positivismo se afastavam da política e se colocavam acima desses assuntos inferiores.

Buarque de Hollanda diz que um de nossos traços característicos é a “crença mágica no poder das ideias”, já que importamos ideias de “terras estranhas” sem saber como se ajustariam à realidade local, se referindo à ideologia impessoal do liberalismo democrático. Aspectos dessa ideologia foram incorporados na medida em que não entravam em conflito com o conjunto de características nacionais, como o horror às hierarquias e à impessoalidade. Em mais uma afirmação bem forte, o autor declara que “a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. Essa foi uma dessas ideias importadas pela aristocracia rural e semifeudal brasileira e adaptada aos seus direitos e privilégios, até entrando em conflito com o que era pregado na Europa ou na América do Norte de onde essas ideias vieram.

Dessa forma, movimentos reformadores vieram de cima para baixo e tiveram mais inspiração intelectual ou sentimental do que de ordem prática. Dois grandes momentos de nossa história, a Independência e a Proclamação da República, são bem emblemáticos, movimentos vindos da elite com nula participação popular.

No campo das artes, Buarque de Hollanda faz uma conexão interessante entre a chegada da corte real portuguesa em 1808 e o Romantismo. Esse evento não chegou a arruinar as estruturas da sociedade colonial, mas aumentou a importância dos centros urbanos e provocou algumas mudanças sociais. Incapazes de responder às “exigências impostas por um outro estado de coisas”, nas palavras do autor, a existência mais  regular e abstrata das cidades provocou uma certa crise nos intelectuais manifesto em expressões como “o cárcere da vida” ou outras equivalentes para reclamar da existência, bem ao estilo do Romantismo, estilo artístico mais voltado ao subjetivo e no individual e na expressão forte de emoções, grosso modo, juntando um nacionalismo que adotou um “indianismo de convenção”, na avaliação do autor.

A adoção entusiasmada desse movimento artístico acabou tendo aspectos negativos na opinião de Buarque de Hollanda, um movimento negador da realidade em um momento que deveria ser de afirmação após a independência. E também sequer acrescentou algo de novo artisticamente, sendo uma linguagem luxuriosa para dizer a mesma coisa, nas palavras do autor. Mas demonstrou bem a característica dos nossos “homens de ideias”, “homens de palavras de livros” que procurava recriar um mundo mais dócil aos desejos e devaneios, uma forma de não rebaixar ou sacrificar a individualidade. Essa própria devoção aos livros era até uma forma de demonstrar superioridade como o grau de bacharelado mencionado a pouco, e um exemplar desse tipo de atitude foi o próprio Imperador Dom Pedro II.

Certamente que não parece uma ideia tão ruim ter gente desse tipo em um país onde a média de livros lidos é 2 por ano, mas a questão é que no momento em que a velha aristocracia rural declinava, precisávamos de uma elite intelectual melhor do que isso para ocupar esse vazio. O saber era visto como instrumento para elevar seu portador acima dos seus pares e dignificação individual, ou seja, erudição por erudição, palavras rebuscadas e estrangeirismos apenas para impressionar. Isso retoma uma ideia já apresentada no livro, de que o trabalho mental era considerado superior não por sua utilidade prática, mas por diferenciar daqueles que fazem o trabalho braçal. Ao mesmo tempo, havia uma simplificação das questões de ordem mais prática, colocando as coisas ao “alcance de raciocínio preguiçosos” e atraindo através de frases de efeito ou fórmulas mágicas. Isso tudo é negativo, pelo que entendi, porque se dava em um momento em que precisávamos de boas ideias postas em prática entre a Independência e a República.

Por todo esse capítulo, percebi certos paralelos entre o que Buarque de Holanda escreveu na década de 1930 e hoje, mas vou deixar para vocês identificarem a maioria desses pontos em comum. Um trecho que gostaria de mencionar é esse: “Não têm conta entre nós os pedagogos da prosperidade que, apegando-se a certas soluções onde, na melhor das hipóteses, se abrigam verdades parciais, transformam-nas em requisitos obrigatórios e únicos de todo progresso”. Eu consigo imaginar quais seriam algumas dessas verdades parciais nos dois lados do espectro político, vocês podem pensar em alguns casos também, e Buarque de Holanda cita a “miragem da alfabetização do povo”, que era apresentado com muita “retórica inútil” como a solução para todos os males do país, assim como, diria eu, é feito com a educação hoje em dia. “Certos simplificadores”, nas palavras do autor, diziam que se fizéssemos isso seguindo o exemplo dos Estados Unidos seríamos a segunda, talvez terceira potência mundial. Até hoje o Brasil não está plenamente alfabetizado, ao menos em termos funcionais, e alguém poderia dar razão a esses “pedagogos da prosperidade” por conta disso, mas o que o autor argumenta é que o problema do Brasil à época era a falta de cultura técnica e capitalista, que os Estados Unidos tinham apesar de sequer terem erradicado o analfabetismo. Ou seja, desacompanhada de outros elementos fundamentais, saber ler e escrever não serve para tanto assim e a própria discussão em termos tão rasos desviava a atenção de assuntos mais importantes.

Por fim, vou comentar o sétimo capítulo do livro, a Nossa Revolução. A revolução a que Buarque de Holanda se refere não é uma grande revolução como a Americana ou a Francesa e não tem um único marco, mas vários em uma “lenta revolução” na caracterização do autor, os principais sendo a Abolição da Escravatura e Proclamação da República. Nessa revolução, o centro da vida brasileira deixaria definitivamente o meio rural e iria para os meios urbanos, que não mais serviam como complemento para o campo e na verdade acabou havendo uma inversão de papéis facilitado pela melhoria nas comunicações e transportes.

Contribuiu também, na visão do autor, o declínio da produção açucareira, que incentivava a estratificação da sociedade, e a sua substituição pela lavoura do café que tendia a nivelar mais a sociedade. As análises da época eram a de que a cultura cafeeira não exigia extensas porções de terra ou grande uso de capital, a redução do latifúndio ajudando a dispersar a propriedade. Buarque de Holanda aponta alguns erros nessa análise, que não corresponde exatamente à realidade na maior parte das vezes, mas em algumas partes do país, como o oeste de São Paulo, haveria um distanciamento maior das formas coloniais de exploração da terra e o próprio relacionamento com o campo, para muitos uma fonte de sustento e renda, mas não um modo de vida tanto que muitos fazendeiros passaram a residir nas cidades. Porém, houve um efeito colateral indesejado dessa troca de cultura, que foi o menor uso da terra para a produção de gêneros alimentícios, que acabaram por ficarem mais caros.

A Abolição não afetaria de maneira tão significativa a produção de café, cultura que já estava se adaptando ao trabalho remunerado, mas seria fatal para os produtores de açúcar e seria a etapa final do declínio dos antigos senhores rurais e de sua influência na política brasileira. A urbanização “contínua, progressiva, avassaladora” catalisada pela Abolição, embora esse não tivesse sido o único fator, fez com que o meio rural perdesse influência, mas, segundo Buarque de Holanda, não houve a substituição por algo realmente novo. Apesar de a base ter desaparecido, o estado brasileiro preservou resquícios da monarquia como “relíquias respeitáveis”.

O próximo tópico do capítulo é o aparelhamento do estado, marcado por “maturidade precoce” e “estranho requinte” nas palavras do autor. O estado brasileiro no império seguia uma ideia de não ser despótico, o que contrariaria a “doçura de nosso gênio”, palavras do autor, mas que mantivesse compostura, grandeza e solicitude. Isso procurava se manifestar no âmbito nacional, mas também internacional, querendo passar uma imagem de um “gigante cheio de bonomia superior para com todas as nações do mundo”. O Brasil não ambicionou ser um conquistador e até adotava soluções bastante pacíficas, como a abolição formal e até prática muito antes disso da pena de morte, seguindo o padrão de sociedades mais avançadas e se envaidecendo da ótima companhia. O resultado dessas correntes, porém, é o desarmamento de expressões menos harmônicas e negação da espontaneidade nacional, esse último ponto, me parece, mais relacionado com a ideia de que o ordenamento social necessitava de leis escritas quando a disciplina social espontânea pode surgir sem isso, como foi o caso da Inglaterra. Havia um otimismo grande com regras racionais e regulamentos como ordenadores da vida social. Nas palavras do autor: “Nesse erro se aconselharam os políticos e demagogos que chamam atenção frequentemente para as plataformas, os programas, as instituições, como únicas realidades verdadeiramente dignas de respeito”, em outro trecho que talvez ainda seja bastante atual. Ainda predomina o emotivo sobre o racional, mas, quando conveniente para as oligarquias, o racionalismo poderia ser empregado para manter o status quo.

Como já mencionado, muitas das práticas políticas do império e do começo da república foram importadas do exterior, especialmente da Revolução Francesa, e adaptada à realidade nacional. Porém, a democracia exigia uma impessoalidade que não se adaptava muito bem ao caráter nacional e nem, de forma mais ampla, à América Latina. O caudilhismo anti-liberal que estava em voga na época do livro era impessoal em essência e a democracia só triunfaria de verdade quando esse antiliberalismo fosse superado.

E essa vitória só viria com uma revolução que extirpasse as estruturas arcaicas que o país ainda não tinha conseguido eliminar. Mas essa revolução não precisava, e, segundo o autor, não deveria ser violenta e na verdade já vinha se processando de forma que vivíamos à época entre dois mundos, um morto e o outro que luta por vir à luz. E essa revolução não deveria ser horizontal, ou seja, mera troca dos que estão no poder, e sim uma revolução vertical que trouxesse novos elementos para a política. Não seria o caso de eliminar as classes superiores, e sim de amalgamá-la com as demais classes que também tinham lá os seus defeitos ao mesmo tempo que as classes superiores tinham homens de bem.

No Brasil, porém, se levantavam contra essa revolução, além das pessoas que se beneficiavam do status quo, as “constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas” beneficiando pessoas e oligarquias. Inclusive, era possível uma alternância no poder, mas para deixar tudo como está. Como se dizia antes, nada mais parecido com um saquarema no poder do que um luzia. Ou seja, uma revolução horizontal só resultaria na troca de um personalismo por outro sob o disfarce de se fazer democracia e era necessária outra abordagem, abolir esse personalismo que tornava tão estranha a ideia de democracia, de uma entidade imaterial e impessoal pairando sobre os indivíduos.

Em essência, essa é a análise de Sérgio Buarque de Holanda presente nos dois últimos capítulos do livro Raízes do Brasil. Resumindo de maneira rápida as ideias do livro, os principais pontos do autor são de que o brasileiro é um povo com uma forte propensão de encarar tudo com um fundo emotivo, o que se reflete em diversas esferas da vida social, inclusive na organização política e na dificuldade em separar o público do privado.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Raízes do Brasil (#3) - O Homem Cordial



Nesse vídeo, vou falar sobre os capítulos 4 e 5 do livro Raízes do Brasil, basicamente sobre quatro conceitos. Novamente, a gameplay é do jogo Civilizations V.

No capítulo 4, O Semeador e o Ladrilheiro, Sérgio Buarque de Holanda procura diferenciar as colonizações espanhola e portuguesa. Até então, vinha se referindo à colonização ibérica e à herança ibérica, mas há grandes diferenças entre os modos como Portugal e Espanha realizaram as suas colonizações. E se o capítulo 3 era um contraste entre rural e urbano, o capítulo 4 é entre esses dois modus operandi, o do semeador e do ladrilheiro.

O ladrilhador é a Espanha, que procurou mais do que Portugal estabelecer cidades no Novo Mundo. A urbanização é uma atitude anti natural e que envolvia planejamento e pensamento de longo prazo. A urbanização era uma empresa da razão, um ato da vontade humana para dominar o ambiente totalmente desfavorável que eles encontraram. Foi o triunfo da aspiração de dominar o mundo conquistado. A ideia era que o homem podia intervir na natureza e alterar o curso da história ao invés de segui-lo. Como exatamente isso se expressa está em maiores detalhes no livro.

A Espanha procurou assegurar o predomínio militar, econômico e político sobre as terras conquistadas e fez isso criando núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. A colonização espanhola começou como uma aventura, com os conquistadores tendo a liberdade de agir como achavam melhor e depois prestar tributos para a Coroa, mas depois a Espanha passou a controlar as suas colônias no Novo Mundo.

Portugal, o semeador, por outro lado, não procurou tanto construir ou plantar alicerces na colônia e estava mais preocupado em feitorizar uma riqueza fácil no Brasil. O caráter de exploração comercial predominou no Brasil, ao contrário da América Espanhola, onde os espanhóis procuraram fazer uma extensão da metrópole, ao menos no começo. Prova disso foram as universidades fundadas na América Espanhola ainda no século XVI, a primeira universidade do Brasil só aparecendo no século XX (pelo que pesquisei, o autor não cita esse dado). Faltou aos portugueses a vontade criadora dos espanhóis, mesmo que nem sempre as melhores intenções prevaleciam entre os dominadores.

O clima mais temperado nas regiões dominadas pelos espanhóis ajudou os conquistadores a se sentirem mais em casa. A colonização espanhola foi mais no interior e em maiores altitudes, enquanto a portuguesa foi mais tropical e litorânea. Os espanhóis toleravam a colonização na costa caso fosse possível construir bons portos, enquanto que os portugueses procuravam restringir a colonização do interior. A própria exploração do interior, já muito tardia, viria de pessoas que não estavam a mando da coroa e que tinham pouco contato com os portugueses. Porém, mesmo a exploração do interior brasileiro foi mais uma aventura e uma exploração do que um obra colonizadora.

Com a descoberta de ouro mais para o interior do Brasil, Portugal demonstrou um interesse renovado no Brasil e procurou colocar ordem em sua possessão ultramarina, mas ainda assim dirigido pela lógica exploradora e comercial. Não fosse isso, é provável que Portugal insistisse na obtenção de lucros fáceis mais próximo do litoral. É inconcebível que um português fizesse o que fizeram Cortés e Pizarro de destruir seus navios para reaproveitar a madeira.

Por isso que o autor é da opinião de que dominação portuguesa teve mais característica de feitorização do que de colonização. Não era intenção dos portugueses fazer qualquer obra que não trouxesse benefícios de curto prazo. Portugal queria que a colônia complementasse a metrópole e proibia que houvesse a produção de artigos que competissem com produtos portugueses.

De certa forma, a colonização portuguesa era mais liberal do que a espanhola. Isso se manifestou na permissão concedida a estrangeiros de explorar o litoral, desde que compartilhassem seus lucros com Portugal. E também se manifestou nas cidades, que tiveram um desenvolvimento desordenado, ao contrário do planejamento espanhol. A isso contribuiu a aversão à ordenação impessoal que já foi mencionado e que voltará ao tema daqui a pouco. A urbanização não foi um produto mental, uma contradição com a natureza. A palavra que usam é desleixo e uma “íntima convicção de que não vale a pena...”.

Assim, o português foi um semeador no Brasil, jogando as sementes de maneira desleixada e esperando que brotassem. Não demonstrou maior preocupação em se fixar na terra e a sua própria proximidade com o litoral indicava que eles estavam aqui temporariamente. O ladrilhador espanhol teve uma preocupação maior em exercer seu domínio e fez um trabalho sistemático de ocupação do território.

E por que isso ocorreu? O autor fornece algumas explicações, como a unificação política precoce de Portugal. A Espanha permaneceu muito tempo fragmentada e por isso surgiu no país uma ânsia centralizadora, codificadora, uniformizadora que não existia em Portugal. A falta de problemas parecia facilitar a atitude de “deixar estar” dos portugueses e isso se refletiu na colonização brasileira.

Agora vamos para o capítulo cinco, o que eu considero o melhor capítulo do livro, o que fala do homem cordial. Em grande parte do mundo, o Estado é uma descontinuidade e até uma oposição ao círculo familiar e o sistema industrial, em oposição às antigas corporações de ofício, é um sistema impessoal e profissional. As relações passam a ser fundadas em princípios abstratos e substituem os laços afetivos e de sangue.

Mas essas ideias encontram resistência em locais onde é muito forte a ideia de família, principalmente a de tipo patriarcal, e é difícil o florescimento de virtudes antifamiliares como iniciativa pessoal e concorrência. Mesmo com a urbanização e a ida de filhos das famílias ricas para institutos de ensino superior não romperam com essa mentalidade que foi-se desenvolvendo conforme foi mostrado nos últimos capítulos.

Por essa razão, os detentores de posições públicas criados por essa cultura tinham a dificuldade de distinguir o público do privado e surge aqui o primeiro conceito chave do capítulo, o patrimonialismo. Nas palavras do autor, “para o funcionário patrimonial, a própria gestão política apresenta-se como assunto de interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos”. A escolha das pessoas para exercer as funções públicas se dá menos por mérito e por habilidade e mais por confiança pessoal. Predomina as vontades particulares, que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados, como a família e as relações domésticas foram modelo das relações sociais.

E vamos para o segundo conceito, aquele que dá nome ao capítulo. A cordialidade brasileira, entendida na concepção de Sérgio Buarque de Holanda, não tem nada a ver com bondade, gentileza, amabilidade, hospitalidade ou qualquer outra virtude semelhante. Cordialidade aqui vem de coração e se refere à propensão dos brasileiros de encarar tudo com um fundo emotivo, como já foi mencionado anteriormente. Junto com essa cordialidade, vem à aversão às relações impessoais, que são necessárias para o bom funcionamento das instituições públicas e até privadas.

Isso se manifesta também na aversão a ritualismos sociais e a dificuldade do brasileiro em mostrar reverência prolongada diante de um superior. A reverência pode até existir, desde que não suprima o desejo de estabelecer intimidade. É também manifestação dessa tendência de atribuir a tudo um fundo emotivo o amplo uso de diminutivos e também de se referir às pessoas com o primeiro nome e não com o prenome mesmo sem maior intimidade.

Dessa forma, é um traço marcante do brasileiro a dificuldade em estabelecer formas de convívio que não sejam ditadas por um fundo emotivo, traço que é de difícil compreensão para os estrangeiros. A questão é que esse traço se difunde para contextos em que relações mais impessoais deveriam prevalecer, como os negócios e principalmente a gestão pública.

Raízes do Brasil (#2) - Herança Rural




Nesse segundo vídeo sobre o livro Raízes do Brasil, vou falar sobre o terceiro capítulo, Herança Rural. Novamente, a gameplay é do jogo Civilizations V.

Nos capítulos anteriores, o autor falou sobre as raízes ibéricas do Brasil vinda dos portugueses. O terceiro capítulo fala sobre as raízes rurais, a herança deixada pela forma como o Brasil foi colonizado e povoado. Toda a estrutura da sociedade colonial teve sua base no campo, fora dos centros urbanos. A vida na colônia se concentrava nas propriedades rurais e as cidades viveriam na dependência do campo até a Abolição da Escravidão em 1888 na opinião de Sérgio Buarque de Holanda.

Já antes, com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, que proibia o comércio interatlântico de escravos, o Brasil já registrava alguns surtos modernizadores, com a criação de sociedades anônimas, a refundação do Banco do Brasil, a inauguração da primeira linha telegráfica no Rio de Janeiro e a inauguração da primeira linha férrea entre o Porto de Mauá e a estação do Fragoso. Após o primeiro passo para Abolição, houve um florescimento dos negócios que não estavam relacionados com o campo.

A Lei Eusébio de Queirós foi criada cinco anos depois Lei Aberdeen promulgada na Inglaterra, que autorizava os ingleses a aprisionar navios negreiros. No Brasil, houve uma resistência grande contra a lei por parte daqueles que queriam manter o status quo. Além de isso representar o fim de um negócio lucrativo, havia a preocupação com a mão-de-obra em um país mal povoado como era o Brasil. Por outro lado, o fato das grandes fortunas criadas pelo tráfico serem portuguesas, e não brasileiras, pesou em favor da abolição do comércio de escravos.

E esse capital que estava empregado no comércio de escravos tinha que ir para algum lugar e houve ainda um grande aumento na concessão de crédito que criava fortunas rapidamente e colocava de lado os fazendeiros. Um dos beneficiados desse movimento foi o barão de Mauá, grande industrial brasileiro de ascensão meteórica e igualmente espetacular queda. O comércio exterior foi bastante afetado, as importações aumentando após a supressão do tráfico.

Esse foi um choque grande entre duas culturas, a urbana e a rural, e apesar do duro golpe dado pela Lei Eusébio Queirós, o meio rural ainda tinha influência e tomaria atitudes contra essas novas ideias e práticas. Uma delas foi a Tarifa Silva Ferraz de 1860 isentando de imposto de importação uma série de bens de capital, o que acabou representando a ruína do Barão de Mauá. Mauá já vinha sofrendo pressões de todos os lados dos que buscavam manter a antiga ordem agrária e essa tarifa foi um golpe fatal para o empresário.

Mauá seria execrado por Gaspar Silveira Martins por seu apoio ao visconde de Rio Branco, apesar de pertencer a outro partido. E esse episódio mostraria bem a mentalidade da época, a de que uma pessoa filiada a um partido tinha um dever de fidelidade com a instituição. O partido e outras instituições seriam constituídas de maneira parecida com a família, onde vínculos biológicos e afetivos teriam preponderância sobre todas as demais considerações. A associação entre as pessoas seria por conta de sentimentos e deveres, não por interesses ou ideias. Ou seja, mesmo em um momento modernizador as velhas raízes rurais se manifestariam.

Esse tipo de mentalidade teve origem nos domínios rurais, como os engenhos, onde o proprietário de terra tinha autoridade absoluta e inconteste. O engenho era um organismo completo, possuindo tudo o que era necessário para sua sobrevivência, de comida à capela para missa. Por toda a colonização e até depois da independência predominava esse tipo de propriedade rural autossuficiente. O Brasil é classificado como patriarcal por conta dessa organização social em torno do círculo familiar capitaneado pelo pater-familias tendo seu núcleo expandido com escravos e agregados. Era um grupo imerso em si mesmo que resistia às pressões externas e que desprezava qualquer princípio superior que pudesse afetá-lo.

Essa mentalidade afetou os relacionamentos fora da família, de forma que a entidade privada sempre tinha precedência sobre a entidade pública e prevaleciam as preferências fundadas em laços afetivos. Por conta disso, predominou na vida social sentimentos próprios à comunidade doméstica, resultando na invasão do público pelo privado, invasão do Estado pela família.

A urbanização precipitada pela vinda da família real ao Brasil e depois pela independência não deixou de sofrer com essas influências, já que as pessoas que migraram para as cidades acabaram levando essa mentalidade com eles. Parte dessas mentalidades era que o trabalho manual é pouco dignificante e que o chamado trabalho mental, própria dos senhores de escravos, é que era o mais importante. Não que as pessoas apreciassem o pensamento especulativo, e sim que tinham “amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara”, nas palavras do autor.

Ou seja, era mais ornamento e prenda do que instrumento de conhecimento e de ação. Isso derivava da necessidade de se distinguir dos semelhantes em uma sociedade personalista por alguma virtude que parece ser congênita e intransferível, na ausência de nobreza de sangue. Essa inteligência não se prestava ao aumento da produtividade da economia, diferente do que ocorria em outros lugares, porque esse era um tipo de inteligência muito impessoal.

A concepção que se criou de um estado ideal é que o soberano do país deveria considerar-se um chefe da família e amparar a todos como seus filhos. Na sociedade patriarcal e personalista, o governo deveria ter esse caráter paternal para ser considerado justo e poderoso, assim pensavam na época e talvez até hoje. Dessa forma, a sociedade patriarcal foi o modelo da vida política e da relação entre governantes e governados. Ou seja, o Brasil estava na contramão da Revolução Industrial na economia e da Revolução Francesa e Americana na política.

O Brasil teve um desenvolvimento peculiar, onde não era a cidade que se valia do campo, e sim o contrário. Como a urbanização era feita por indivíduos vindo dos meios rurais, toda a administração do Império e até da República tinha elementos do velho sistema senhorial. Dessa forma, as práticas que eram próprias dos meios rurais passaram para os meios urbanos. O meio rural tinha tanto prestígio que, diferente de outros lugares, no Brasil o dono das terras residia nessas terras, e não em uma propriedade urbana.

E a última observação desse capítulo é que tudo isso se processou intencionalmente, não era de maneira alguma uma imposição do meio, não havia nenhum fator especial que afastasse a aristocracia da cidade.

Alguns desses temas reaparecerão nos próximos dois capítulos, que serão discutidos no próximo vídeo.

Raízes do Brasil (#1) - Fronteiras da Europa



Sobre o Portugal, vou falar sobre um dos livros considerados fundamentais para a compreensão da história brasileira, Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936. As raízes da qual o título são as raízes ibéricas, a herança da colonização portuguesa que chegam até os dias de hoje e que, segundo o autor, é uma das razões do atraso brasileiro. A gameplay desse vídeo e dos próximos dois é do Civilizations V, usando o Brasil como civilização.

Nesse vídeo, vou falar sobre os dois primeiros capítulos, o primeiro deles intitulado “Fronteiras da Europa” e vou ainda fazer dois vídeos sobre esse livro para essa série. Nesse capítulo inicial, o autor considera o brasileiro um desterrado em sua própria terra, com a transplantação de formas de convívio, instituições e ideias em um ambiente diferente.

A colonização brasileira veio de um país ibérico, que o autor considera ser um território-ponte pelos quais a Europa se comunica com outras partes do mundo, Espanha e Portugal sendo uma ponte com a África além das Américas. Os dois países ibéricos, até por conta da dominação muçulmana por tanto tempo, acabou se desenvolvendo meio que à margem dos seus pares continentais. Os descobrimentos acabaram por inserir Portugal e Espanha no cenário europeu e até coloca-los acima dos demais por algum tempo.

Logo, para entender o Brasil, primeiro é necessário entender seu colonizador. No começo do livro, o autor analisa os países ibéricos em conjunto, para só depois diferencia-los. Um dos traços em comum dos ibéricos que se manifestou na colonização foi a cultura da personalidade, que diz respeito à importância que os ibéricos atribuem ao valor próprio da pessoa humana e à autonomia. O valor de uma pessoa se daria pela extensão em que não precise depender de outros, em que se baste.

Disso, surge a fraqueza das formas de organização, de qualquer associação que implique solidariedade e ordenação entre os povos. Solidariedade e associação existem, mas principalmente quando há alguma vinculação de sentimentos acima de interesses em comum. Exemplos de obras em conjunto por motivos emotivos são obras de igreja e mutirões de ajuda. Nas relações entre os brasileiros coloniais, o objetivo material comum era secundário, e o que importava mais era o benefício ou o dano que uma parte pode fazer a outra. Nas palavras do autor: “O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente energética do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras”. A isso se deve a frouxidão da estrutura social e a falta de hierarquia organizada que o autor notava em sua época e que persiste hoje em dia.

Em comum aos ibéricos e aos seus colonizados, está a invencível repulsa a toda moral fundada no culto ao trabalho, nas palavras do autor, em contraste com os países protestantes. As virtudes prezadas pelos ibéricos, como a inteireza, o ser, a gravidade, o termo honrado, o proceder sisudo, são virtudes inativas, pelas quais o indivíduo se reflete sobre si mesmo. A ação sobre as coisas significa se submeter a um objeto exterior e busca a perfeição desse objeto à perfeição da pessoa, o que é estranho ao personalismo ibérico. É um ponto de vista parecido com o da antiguidade, onde o ócio está acima do negócio e a contemplação acima da atividade produtora.

No segundo capítulo “Trabalho & Aventura”, o autor distingue duas mentalidades diferentes, a do trabalhador e a do aventureiro. O aventureiro está mais focado no objetivo final, seu ideal sendo colher os frutos sem plantar a árvore. Ignora fronteiras e sabe transformar obstáculos em trampolins. O trabalhador, ao contrário, enxerga primeiro a dificuldade a ser superado e então o triunfo a alcançar. Está disposto a empreender esforços lentos, pouco compensadores na margem e persistentes. A ética do aventureiro enaltece os esforços empreendidos para uma recompensa imediata, enquanto a ética do trabalho enaltece os esforços que visam a estabilidade sem perspectiva de ganho rápido. Certamente que esses são tipos ideais, e não uma classificação rígida de indivíduos reais, mas essa é uma tipificação que ajuda a entender melhor as pessoas que participaram da colonização.

Na Conquista das Américas pelos ibéricos, o trabalhador teve um papel limitado, a obra e o ambiente sendo mais propício para os aventureiros. O colonizador ibérico ansiava por prosperidade sem custo, títulos honoríficos, posições e riquezas fáceis. Esse espírito de aventura motivou a exploração do Novo Mundo e era um “elemento orquestrador por excelência”, na expressão do autor.

O português veio ao Brasil atrás de riquezas que custavam ousadia, e não trabalho. Isso se manifestava na busca por atividades de lucro rápido, o uso de mão de obra importada da África, já que os índios não estavam adaptados ao trabalho sedentário, entre outras restrições, e também na utilização de técnicas rudimentares de agricultura. O ibérico não tinha uma relação com a terra que utilizava, a lógica sendo a de extrair do solo sem grandes sacrifícios.

Uma característica dos portugueses é a falta de orgulho racial, uma vez que o país já era miscigenado antes mesmo de virem ao Brasil. Havia uma distância social entre dominados e dominadores relativamente baixa em relação a outros países, o que fez com que os escravos tivessem uma influência grande na sociedade colonial. Os índios tinham uma estima até que grande entre os portugueses, já que compartilhavam algumas características, como a de não gostar de muito trabalho braçal. O estigma social dos escravos e de seus descendentes vinha justamente de sua associação com trabalhos manuais.

E uma consequência da forma de organização da atividade no Brasil, com uso de trabalho escravo, grandes propriedades e monocultura, foi a falta de cooperação com as demais atividades produtivas na colônia, manifestada na fraqueza das agremiações profissionais, diferente do que ocorria nas colônias espanholas. E havia uma série de impedimentos ao surgimento de trabalhos que necessitavam de uma vocação decidida de longo prazo, como a ânsia por ganhos rápidos também nos meios urbanos, a canalização da mão de obra escrava para o campo e o uso de negros de ganho para transferir o trabalho braçal para escravos. As pessoas pulavam de um trabalho para outro que parecesse mais lucrativo, o que reduziu a incidência de gerações de famílias seguindo uma mesma profissão.

No que se refere à fracassada colonização holandesa, o sucesso aparente pelo legado urbano que persiste até hoje acabou não sendo tão sucesso já que os holandeses não conseguiram transferir essa prosperidade para o campo. Poucos holandeses estavam dispostos a trocar a cidade pelo campo, ou mesmo a Holanda pelo trabalho no campo no Brasil e a produção de açúcar acabou ficando nas mãos de portugueses e luso-brasileiros. Os holandeses não conseguiram se adaptar bem ao Brasil e nem os nativos a eles. A língua holandesa era considerada mais difícil de ser assimilada pelos índios e pelos africanos e a religião reformada dos protestante excitava menos a imaginação e sentidos dos nativos. A ausência de orgulho racial era outra vantagem dos portugueses que os holandeses não conseguiram copiar.

Sobre os dois primeiros capítulos do Raízes do Brasil era isso que eu tinha para falar.