terça-feira, 7 de outubro de 2014

Manual do Ditador (#7) - Gastando o dinheiro dos outros



 Ok, o novo líder adquiriu o poder e chegou ao cofre do estado. Agora, precisa escolher como gastar o dinheiro para manter a coalizão vencedora feliz, mas não em demasia, e manter os intercambiáveis felizes o suficiente para não se revoltarem. Isso tudo envolve gastar dinheiro, que deve ser alocado entre os essenciais, os intercambiáveis e a conta em Cayman do líder.

No quinto capítulo do Manual do Ditador, os autores procuram determinar como gastar o dinheiro arrecadado pelo estado. Uma maneira de gastar o dinheiro é através de bens públicos que beneficiam a todos e outra em bens privados que beneficiam os essenciais e o líder. A questão é: qual a proporção ideal entre bens públicos e privados e onde investir em bens públicos.

Primeiro de tudo, é necessário discutir a utilidade dos bens públicos. Não é bom para o líder ter um povo insatisfeito, já que ele pode se revoltar contra ele. Porém, pode ser bom para o líder ter um povo extremamente miserável e famélico, que é fraco demais para se revoltar. O perigo para o líder, então, se encontra no meio caminho, com um povo forte e com motivos para se revoltar. Dois países asiáticos mostram estratégias distintas, mas igualmente eficazes. Os dirigentes chineses têm uma preocupação quase obsessiva com a satisfação do povo, mesmo que ilusória, para evitar que eles se revoltem. E é possível manter o povo satisfeito sem perder poder. Os dirigentes do Partido Comunista se preocupam com o crescimento econômico necessário para manter a renda em alta e o desemprego baixo e balizam a política econômica nesses termos. Realizando isso, questões como direitos humanos e liberdade de imprensa deixam de preocupar os intercambiáveis. Já a Coreia do Norte busca manter os intercambiáveis famintos para evitar que eles se revoltem. Os autores não falam isso, mas eu imagino a razão das diferenças: bilhões de chineses famintos com motivos para se revoltarem são fortes o suficiente para forçar a queda dos seus líderes, enquanto que alguns milhões de coreanos famintos não têm tal força.

Em democracias com coalizão vencedora grande, os líderes precisam manter o povo feliz, saudável, empregado e com uma vida longa, não por altruísmo, mas para se manterem no poder. Pode ocorrer de haver ditadores benevolentes que gastam recursos discricionários para manter a população feliz. Por recursos discricionários entenda-se os recursos que sobram após comprar o apoio da coalizão vencedora. Esse dinheiro poderia ir para o próprio líder, mas ele pode gastar em bens públicos. Cingapura é um exemplo isolado de ditadura benevolente, que se preocupa com o bem-estar da população, sem abrir mão de restringir liberdades civis da população.

Retomando um tema do capítulo anterior, os autores falam sobre os pacotes de resgates soberanos, que afetam de maneira diferente autocracias e democracias. Para autocracias, os resgates são mais frequentes, são um ótimo negócio e são necessários para poder manter os essenciais leais. Para democracias, é um mal necessário, pois erode a confiança da população, ou seja, dos essenciais. Isso inclui o resgate não do governo, mas de empresas pelo governo, como visto nos Estados Unidos em 2008 e que custou a sucessão de George W. Bush. Em democracias, resgates geram mudanças, mas em autocracia se destinam a manter tudo como estava antes, mesmo que haja pressões externas ao contrário. Por isso, os resgates a países pobres são tão frequentes.

Muito se discute se a democracia segue o desenvolvimento, ou seja, se o crescimento econômico de um país gera apelos para a abertura política do país. Nações ricas em petróleo e a China desmentem essa tese. A opinião dos autores é a de que a dependência de poucos essenciais é uma explicação melhor.

Bom, com isso em mente, vamos agora para a discussão sobre onde gastar em bens públicos. Educação é um ótimo investimento para os líderes, mas não pelos motivos que as pessoas imaginariam. Em autocracias, ou seja, quando a coalizão vencedora é pequena, educação das massas é necessária, mas apenas até certo ponto. As pessoas precisam ser educadas para trabalharem. Na visão dos líderes, o povo só serve para uma coisa: pagar impostos. Um povo muito ignorante não pode ser produtivo o suficiente para pagar impostos em quantia necessária para que o líder compre o apoio dos essenciais. Na Coreia do Norte, por exemplo, a população é toda alfabetizada. Isso ajuda a torna-los produtivos em um país de baixa produtividade, mas não vai fazer com que os intercambiáveis venham a desafiar o líder. Ou seja, gaste no ensino básico, mas não forme pessoas muito capacitadas que possam desafiar o regime. Também cuidado com o que ensinar. Matemática, física e química, isso tudo é ótimo de se ensinar em autocracias. História, sociologia e outras matérias, nem tanto. Ou então, ensine, mas do jeito mais conveniente para o regime.

Ensino superior é essencial para as autocracias, mas apenas para os filhos dos membros da coalizão vencedora, e do próprio líder em especial. Por isso que ditadores de todos os tipos mandam seus filhos estudar nas melhores universidades do mundo. Mesmo em democracias, filhos de políticos têm uma vantagem. É sempre bom ter bons contatos com gente influente, afinal.

Gastar em saúde também é uma boa ideia, afinal, uma força de trabalho fraca não arrecada impostos. O foco aqui é na população adulta, e não em crianças ou idosos. Ou seja, o gasto em saúde, como em qualquer outra área, deve privilegiar as pessoas que ajudarão o líder a se manter no poder hoje, não no futuro. Saddam Hussein, por exemplo, permitiu que remédios para crianças enviados pelas Nações Unidas fossem desviados para o mercado negro, onde seriam negociados por seus compadres. Dependendo de uma coalizão pequena, essa era a melhor maneira de se manter no poder.

Água limpa segue uma lógica parecida com saúde. Em autocracias, a qualidade da água é pior, pois as doenças que causam afetam principalmente jovens e idosos. Em democracias, onde a quantidade de apoiadores essenciais é maior, a qualidade tende a ser maior. Isso tem mais impacto do que a riqueza do país. Os autores comparam a pobre, mas democrática, Honduras com a mais rica, em termos de PIB per Capita, Guiné Equatorial, que é uma autocracia. Em Honduras, 90% das pessoas têm acesso a água limpa. Na Guiné Equatorial, com PIB per capita maior, esse porcentual é de 44%.

No que se refere à infraestrutura, o líder deve construir o suficiente para tornar a economia eficiente, mas deve tomar cuidado porque essas estradas podem ser utilizadas para aumentar poderes regionais ou mesmo ser usado contra o líder em caso de uma revolta. No que se refere a aeroportos, o líder em autocracias precisa ter uma distância curta entre a capital de estado e o aeroporto, para ter uma rota de fuga mais rápida. Os autores calcularam a distância entre a sede de governo e o principal aeroporto e essa distância é menor em autocracias do que em democracias. Isso é facilitado pelo uso do domínio eminente, regra pela qual o governo pode se apropriar de um terreno para fazer uma obra de infraestrutura, indenizando o proprietário. Isso pode ser utilizado em democracias, mas o custo político é mais elevado.

Eletricidade também é uma parte da infraestrutura que pode ser utilizada a favor do líder em autocracias, onde o custo tende a recair mais no consumidor e que está sob controle estatal, ou seja, o líder pode cortar a eletricidade se isso lhe convir. Desnecessário dizer o outro benefício das obras de infraestrutura: por terem orçamentos elevados, dá para usar para recompensar os membros da coalizão vencedora, da forma como é comum no Brasil.

No raciocínio dos autores, o que diferencia o nível de bem-estar entre os países é o tamanho da coalizão vencedora que o líder precisa manter. Por isso que democracias tão heterogêneas, que tem em comum o fato dos líderes dependerem de uma grande coalizão, são mais avançadas do que autocracias, onde apenas uma, Cingapura, tem um bom nível de bem-estar para a população. Os líderes em democracias precisam fornecer diversos bens públicos, entre eles algumas liberdades como imprensa, expressão e de organização. Os líderes em democracias bem que prefeririam não conceder essas liberdades, pois facilitam ser removidos do poder, mas não têm escolha.

Um exemplo emblemático ajuda a marcar as diferenças. Em 2003, o Irã sofreu um terremoto entre 6,5 e 6,6 na escala Richter, vitimando 26.271 pessoas de um total de 97 mil habitantes na cidade atingida. Dois anos depois, o Chile, com a mesma renda per capita do Irã, sofreria um terremoto mais forte de 7,9 na escala Ritcher, matando 11 pessoas em uma população de 238 mil, uma diferença e tanto.

Como mencionado, a renda per capita dos países é parecida, então riqueza não é o determinante. A grande diferença, segundo os autores, é que o Irã é governado através de uma coalizão pequena, isso desde antes da Revolução. No Chile, além de hoje ser uma democracia e antes de 1973 também, em 1960 o país sofreu com um terremoto que vitimou mais pessoas e isso resultou em um rigoroso código sísmico de forma a aumentar as exigências para construções. Isso não foi alterado no regime de Pinochet em 1993 foi alterado para aumentar ainda mais os padrões de segurança. O Irã, que nunca foi uma democracia plena, tentou implantar códigos semelhantes, mas ineficiências institucionais impediram que a lei fosse imposta de maneira efetiva. Faltou dinheiro para isso também, mas não porque o país é pobre, mas porque os líderes preferiram canalizar os recursos para bens privados para remunerar a pequena coalizão vencedora do que em bens públicos.

Esse não é um exemplo isolado. A China sofreu um terremoto semelhante ao do Chile em termos de força, mas com muito mais mortos, enquanto que Honduras, Itália e Japão tiveram também catástrofes terríveis, mas com um relativamente pequeno número de mortos. Ou seja, coalizões grandes salvam vidas.

Nos dois casos, autocracias e democracias, as decisões de alocações de bens públicos não são guiadas pelo altruísmo ou pela maldade de seus líderes, e sim de acordo com a sua sobrevivência política, cada país fornecendo os seus incentivos para maior gasto em bens públicos ou em bens privados.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Manual do Ditador (#6) - Roube dos pobres




Como vimos nos vídeos anteriores, controlar o fluxo de dinheiro é uma das tarefas mais essenciais da política pois é assim que se compra apoio. Porém, isso é feito com o dinheiro dos outros, ou seja, com tributos, que uma hora pode acabar. Se começar a faltar dinheiro para os aliados, o líder terá problemas.

No caso da Libéria, após a destituição de Samuel Doe, o seu desafiante e novo incumbente, Prince Johnson, o torturou para descobrir mais sobre as contas secretas de Doe. Como Doe é um homem de família, não contou, para assegurar o futuro de seus herdeiros. Com isso, a Libéria ficaria sem dinheiro e a consequência é que nem Johnson nem um insurgente desafiante, Charles Taylor, conseguiram se estabelecer no poder. O resultado foi guerra civil.

A sucessão no Império Otomano antes de regras que a civilizassem também seguia esse padrão, com os herdeiros do sultão morto correndo para assegurar o tesouro e comprar apoios, mas havendo uma desfragmentação que resultava em guerra civil.

A falta de transparência de regimes autocráticos, feita de propósito, atrapalha a transição. O desejo por sigilo não é apenas para ocultar a arrecadação e os gastos do povo, essa é a menor das preocupações. O mais importante é deixar os essenciais sem saberem quanto dinheiro o estado tem para não aumentarem o seu preço. Torna-se então um desafio descobrir onde está o dinheiro, saber quanto dinheiro o estado tem e quais as suas fontes após o dinheiro dos impostos passar por tantos intermediários.

Uma solução para sobreviver à transição política é confiscar dinheiro para poder comprar a base de apoio rapidamente. Isso pode afetar a arrecadação a longo prazo, mas o mais importante, se manter no poder pelos primeiros seis meses, será obtido. Uma estratégia de sobrevivência para esse período é se travestir de democrata por tempo suficiente para se consolidar no poder e formar a sua coalizão vencedora. Em democracias, onde as contas públicas são relativamente mais transparentes, tais expedientes são desnecessários.

Arrecadar impostos é necessário em qualquer regime e os líderes precisam de dinheiro para bens públicos, pagar os essenciais e enviar para as suas contas secretas, não necessariamente nessa ordem de prioridade. Porém, as pessoas odeiam pagar impostos. Então, cria-se um conflito que é decidido pelos mesmos princípios de política que vimos até agora.

Cobrar impostos traz três problemas: 1) Aumentar impostos pode fazer com que as pessoas trabalhem menos; 2) A carga de impostos vai em algum momento recair sobre os essenciais, mesmo que indiretamente; 3) Coletar impostos envolve conhecimentos especializados e custos. A conjunção desses fatores determina a carga tributária ótima.

Como regra geral, quanto maior for o grupo dos essenciais, menor é a carga tributária. A taxação é boa para os que estão dentro da coalizão, afinal, é daqui que vem o dinheiro que paga as suas recompensas, e ruim para quem é de fora. A tributação afeta também quem está dentro, mas com uma coalizão pequena, a redistribuição dos impostos é feita entre menos pessoas de forma desproporcional à perda com tributação. Especialmente quando a coalizão é pequena, a taxação redistribui renda dos pobres (fora da coalizão) para os ricos (que estão dentro da coalizão). Em certos países, essa é justamente a diferença entre ricos e pobres. A elevada carga tributária faz com que aqueles que estão dentro da coalizão fique ainda mais receoso de sair dela, pois terá todo o ônus e nenhum bônus dos impostos, ou seja, esse é um fator que reforça a lealdade ao líder.

Isso pode fazer com que o líder opte por uma carga tributária excessivamente alta. Foi mencionado que impostos tiram os incentivos para trabalhar. Na verdade, não é só isso, uma tributação elevada incentiva a elisão e a evasão fiscal. Tecnicamente, temos a chamada Curva de Laffer mostrando a relação entre a carga tributária e a arrecadação de tributos, com forma em U invertido. Passado um ponto ótimo de carga tributária, a arrecadação cai porque as pessoas têm menos incentivos para serem produtivas e por conta das técnicas legais e ilegais de não pagar imposto. Em regimes autocráticos, os líderes optam por uma carga tributária acima desse ponto, justamente para marcar bem a diferença entre dentro e fora, que é a diferença entre rico e pobre.

Porém, democracias também podem tributar pesadamente a população, justamente pelos mesmos motivos: para remunerar os grupos que apoiam o líder. Porém, há uma limitação, que é o grande número de apoiadores essenciais, o que torna caro comprar o apoio de todo mundo e politicamente indesejável tributar tão pesadamente. Como mencionado, as pessoas não gostam de pagar impostos e tendem a apoiar aqueles que prometem não aumentar ou até reduzir impostos. Dessa forma, democratas tributam além do ponto mínimo para uma boa governança, mas não acima do ponto da tributação máxima como nas autocracias.

Em regimes autocráticos, os impostos costumam ser menos progressivos do que em democracias. Ou seja, pessoas ou famílias precisam receber uma renda menor para serem tributados em autocracias do que em democracias.

Em um tema correlato, o sistema tributário pode servir para não apenas recompensar os essenciais, mas puni-los caso saiam da linha. É o que aconteceu com Mikhail Khodorkovsky, outrora um apoiador de Putin na Rússia e grande beneficiário das privatizações, mas que criticaria o regime de Putin e financiaria grupos de oposição alguns anos mais tarde. Ele seria então processado por acusações de fraude, cumpriria a pena, seria processado de novo e estava na cadeia até o final de 2013. Então, precisamos sempre ver se um rico ou uma empresa estão sendo processados pelo governo por terem feito algo errado ou se desagradaram o governo. Geralmente, são as duas cosias ao mesmo tempo, mas o segundo fator sempre é mais importante.

O problema da tributação é que custa dinheiro montar uma estrutura eficiente para coletar os tributos, sendo que essa costuma ser a parte mais eficiente do estado. As pessoas vão tentar evitar pagar os impostos e o estado irá investir pesado para ir atrás dessas pessoas. Uma maneira de reduzir os custos é através da tributação indireta, transferindo a responsabilidade para outra pessoa. Uma forma de tributação indireta é através de imposto sobre vendas, que tem como benefício secundário esconder a tributação das pessoas.

Terceirizar a coleta de impostos pode ser uma boa ideia, porém, tem o risco de o coletor ter um mau comportamento que possa custar caro politicamente ao líder e pode incentivar desafiantes. Essa terceira pessoa pode ser alguém de dentro ou de fora da coalizão. Terceirizar o poder de cobrar impostos gera corrupção, mas isso não é problema em autocracias. Na verdade, é até solução, o líder podendo conceder esse poder no pacote de benefícios para um membro da sua coalizão vencedora.

Uma opção que depende da natureza é possuir recursos naturais. Para o líder, é ótimo ter uma fonte de recursos confiável. Petróleo, por exemplo. E nem precisa administrar bem. Nas palavras de Rockefeller, uma empresa de petróleo mal administrada é o segundo melhor negócio do mundo, o primeiro sendo uma empresa bem administrada. O líder não precisa nem colocar seu povo para trabalhar, pode simplesmente conceder a exploração para uma empresa estrangeira. Para o povo, por outro lado, raramente é uma boa o país ter abundância de petróleo. Exceto pela Noruega, nenhum país que dependa da receita do petróleo conseguiu se desenvolver como um todo. Mas em todos, invariavelmente, o líder e sua coalizão vencedora estão numa boa.

Outra consequência negativa da riqueza em recursos naturais é o aumento no custo de vida. Em algumas pesquisas internacionais, Luanda em Angola e Caracas na Venezuela aparecem como as cidades mais caras para expatriados, apesar de serem países pobres. No fim, recursos naturais criam as condições financeiras para resolver os problemas de uma nação, mas também dão incentivos para que isso não seja feito. Em democracias, esse efeito é menor, mas há pouco incentivo para a democratização no caso do país já ser uma autocracia ou uma oligarquia. Depender menos da tributação para financiar o estado acaba sendo pior, porque o líder pode comprar o apoio da coalizão vencedora sem ter que recorrer a um mecanismo impopular. Porém, isso não melhora a situação dos que estão fora da coalizão.

Empréstimo é outra ótima maneira de um líder se financiar. É dinheiro disponível para gastar hoje que cria o compromisso de pagar de volta daqui a alguns anos junto com o pagamento de juros. Nessa data futura, talvez o líder já nem esteja mais no poder. É ótimo para o líder gastar dinheiro dos outros, seja da população, seja o futuro líder. Isso vale tanto para autocracias quanto para democracias. O incumbente tem pouco incentivo para não se endividar, já que pode estar simplesmente dando margem de endividamento para um desafiante. Melhor, então, gastar ele mesmo esse dinheiro para comprar o apoio dos essenciais.

Quanto menor é a coalizão vencedora, maior é o endividamento, já que o benefício do endividamento é espalhado para uma quantidade menor de pessoas. Em autocracias, o único limite para o endividamento é a parte da oferta. Isso explica porque a Nigéria tem uma elevada dívida pública ao mesmo tempo em que tem grandes receitas com petróleo: eles se endividam bastante justamente porque podem.

Para democracias, o gosto pelo endividamento também se aplica, mas uma coalizão vencedora maior diminui a margem de manobra. Aqui, novamente a restrição se dá pelas condições do país, não pelo desejo do líder em se endividar. Há uma boa dose de disciplina de mercado, já que o endividamento se dá pela emissão de títulos da dívida, que são vendidos no mercado financeiro e comprados por investidores. Se o endividamento for muito elevado frente a capacidade de geração de receitas, o mercado passa a exigir taxas de juros maiores, o que limita o endividamento dos governos.

A dívida pode se tornar impagável dependendo da situação. Para o líder, isso é péssimo. Para um desafiante, é uma ótima oportunidade. Uma fonte comum de dividendos políticos para desafiantes é a plataforma política de não pagar a dívida, principalmente quando a situação política e econômica do país está caótica. Quem se aproveitou muito bem disso foi Adolf Hitler. O líder pode tentar se manter no poder adotando políticas econômicas mais sensatas, como a liberalização da economia. Ou seja, quando tudo o mais falhar, seja sensato para se manter no poder.

É comum os países ricos perdoarem a dívida dos países pobres. Apesar de estabelecerem algumas condições, o efeito final costuma ser o de permitir a volta do endividamento por parte desses países. A única condição que pode reduzir o endividamento dos países pobres é a democratização, submetendo esses países às mesmas restrições que democracias encontram na hora de se endividarem.

Ou seja, na visão dos autores, é inútil perdoar a dívida dos países pobres. A única forma de reduzir a dívida desses países é a abertura política. O líder pode prometer democratizar o país, mas, como todo político deveria saber, todo político mente. Assim que a crise financeira passar, o líder compra o apoio da coalizão vencedora e se mantem no poder. Para países que já são democracias, é inútil perdoar a dívida, já que esse é um passo natural. O efeito final do perdão da dívida é dar mais dinheiro para que o líder gaste na compra dos essenciais. Ou se eles já tiverem dinheiro suficiente, para rechear as contas secretas.

sábado, 20 de setembro de 2014

Manual do Ditador (#5) - Permanecendo no Poder



 Ok, o líder está no poder. Tanto faz se chegou lá por eleições, golpe, fraude ou assassinato, o importante é que a primeira fase foi cumprida. Porém, tão difícil quanto conquistar o poder é mantê-lo. As habilidades necessárias para se manter no poder são diferentes, mas os princípios são os mesmos. Mas é necessário deixar claro desde já que o objetivo da política é governar. Governar bem já é outra história...

Certo, por onde começar. Primeiro de tudo, é necessária uma coalizão forte. Aqui, lealdade não é um atributo muito prudente. O líder precisa descartar aqueles que o levaram ao poder se isso favorecer a formação de uma coalizão vencedora leal. Afinal, se eles ajudaram o líder a chegar ao poder, nada impedem que ajudem outra pessoa a substitui-lo. Por isso, não raro a revolução engole os seus próprios filhos, como dizem. Ou seja, o novo incumbente precisa manipular o seu conjunto de essenciais para a sua melhor conveniência, de preferência para reduzir o número de pessoas necessárias para se manter no poder.

E o primeiro exemplo desse capítulo não é da política governamental, e sim empresarial. É a história da ascensão e queda de Carly Fiorina como presidente da HP. O presidente de uma sociedade anônima é eleito como um presidente de país, através do voto. O voto para a escolha do diretor-presidente é indireto nas empresas, os acionistas escolhendo os membros do conselho de administração, que elegem o presidente. Dessa forma, os acionistas são os intercambiáveis, os acionistas votantes os influentes e os conselheiros os essenciais.

Em empresas assim como em governos, o cargo de presidente dá uma série de benefícios. Além de um polpudo salário fixo mais igualmente polpudos bônus e opções de ações, os executivos têm jatinho particular, carro da empresa, secretária entre outros benefícios que eles próprios têm alguma liberdade para escolher. Os bens públicos nesse caso são os dividendos distribuídos e a valorização das ações, fruto das decisões dos presidentes. Se a coalizão vencedora é grande, há um incentivo menor para a distribuição de bens privados para os membros da coalizão.

A coalizão vencedora nas empresas inclui alguns dos principais diretores e os membros do conselho de administração. Essas pessoas podem ser agentes internos (empregados da empresa), externos (pessoas que não tinham ligações com a empresa até receberem algum cargo) ou uma área cinzenta incluindo família e amigo de agentes internos. Diretores-presidentes podem ficar muito tempo no cargo como em ditaduras. Um dos segredos para ficar bastante tempo no cargo é o presidente ter ligações pessoais com os membros do conselho. Por isso, as regras de boa governança corporativa sugerem que um bom número de membros do conselho seja externo e que os ocupantes do cargo sejam mudados periodicamente. Nada melhor para perpetuar um presidente do que um conselho também perpetuamente eleito. Melhor ainda é quando o diretor-presidente é também presidente do conselho de administração.

Fiorina era uma forasteira na HP. O conselho que a elegeu tinha quatorze membros, três das famílias fundadoras, três eram empregados ativos ou aposentados da HP, ou seja, seis membros tinham muitos interesses envolvidos na empresa. O conselho a elegeu, mas não era de maneira algum leal a ela, de forma que Fiorina buscaria um conselho mais enxuto e que ela tenha escolhido. Um ano após assumir, o conselho foi encolhido para 11 membros, incluindo a saída de um membro da família. Um ano depois, mais um cargo foi extinto. A coalizão vencedora agora abrangia apenas a maioria dentre dez pessoas.

Em 2001 lançaria a proposta de fusão com a Compaq, vendendo aos acionistas como um ótimo negócio. Esse negócio acabou saindo, mas o impacto nas ações foi devastador. Quando Fiorina assumiu, as ações eram negociadas e US$ 53,43. Quando saiu em fevereiro de 2005, apenas US$ 20. A proposta de fusão acabou gerando uma guerra interna, mostrando que a manipulação do conselho de administração não foi tão bem feita assim. Porém, é justamente para isso que servia a fusão, para trazer gente de fora leal à Fiorina (ou seja, gente da Compaq). Após vencer a guerra de procurações em 2002 e aprovar a fusão, o conselho teria 11 membros, 5 deles oriundos da Compaq. Na mudança do conselho ocorrida em 2004, Fiorina conseguiu fazer com que a remuneração do conselho dobrasse, o que sempre é um bom incentivo para se tornar leal a alguém em qualquer situação.

Fiorina fez tudo certo para sobreviver, aumentando o número dos intercambiáveis (com os acionistas da Compaq), reduzindo o tamanho do conselho, trazendo pessoas mais propensas a serem leais a ela e oferecendo incentivos nesse sentido. Porém, os resultados econômicos não vieram e no mundo corporativo isso pesa mais do que no mundo político, e ela cairia em 2005. Seu sucessor, Mark Hurd, assumiria o cargo, a empresa teria um ótimo desempenho, mas ele cairia por conta de um escândalo, durando menos do que Fiorina no cargo.

Competência até que é alguma coisa boa, mas sobrevivência política não pode depender disso. Aliás, pode ser perigoso ter essenciais competentes em sua coalizão, pois eles podem querer substituir o líder. Lealdade, acima de qualquer outro atributo, é o que importa, mesmo que para isso seja necessário colocar incompetentes para ajuda-lo. Expurgos são comuns em regimes tirânicos, onde gente competente é executada, não apenas na oposição, mas também dentre as fileiras do partido. Foi o que aconteceu com Saddam Hussein, que, ao assumir o poder, fez uma limpa no partido Ba’ath, eliminando potenciais desafiantes e gente que ele não confiava, o que incluía pessoas muito bem qualificadas. O curioso é que o sucessor de Hussein, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, faria o mesmo, removendo dos cargos sunitas competentes e colocando shias sem experiência em seus lugares.

Porém, governantes de várias épocas recorreriam a conselheiros, pessoas espertas que podiam virar desafiantes. A solução era contratar apenas eunucos como conselheiros ou para cargos de confiança, como guardas pessoais. Mas não é necessário recorrer a isso, bastando escolher pessoas que de alguma forma não têm muita chance de se tornarem desafiantes. Saddam, por exemplo, tinha um cristão como número 2, que nunca teria condições políticas para tomar o poder no Iraque.

Para se manter no poder, é vital deixar os essenciais desconfortáveis. Uma maneira disso é manter um número elevado de intercambiáveis. Tendo isso em mente, entendemos porque há eleições em ditaduras, apesar do resultado ser manipulado. É a forma que o líder tem de mostrar aos que estão abaixo dele que eles não são insubstituíveis. Lênin seria o primeiro a explorar essa ideia, impondo o sufrágio universal na União Soviética. As eleições, mesmo que manipuladas, dão legitimidade às suas ações, que seriam então vontade do povo. Aumentando o número de intercambiáveis criava a possibilidade, embora remota, de que qualquer um pudesse a se tornar um influente ou mesmo um essencial. Aliás, seria assim que pessoas sem qualificação subiriam a hierarquia na União Soviética. Os que estavam dentro da coalizão precisavam ficar na linha, sabendo que poderiam ser substituídos por alguém entre os influentes ou intercambiáveis.

A Libéria surgiu como uma forma de organizações liberais dos Estados Unidos de reparar os males da escravidão, repatriando para a África ex-escravos para terem sua própria nação. Porém, os ex-escravos sabiam que a escravidão funcionava bem para os mestres e seria hora deles serem mestres. O sufrágio universal seria instituído em 1904, mas havia uma restrição de patrimônio para poder participar do governo. Ou seja, havia um grande número de intercambiáveis, mas poucos essenciais, condição excelente para se manter o poder.

A maioria das sociedades anônimas funciona de maneira parecida exatamente pelos mesmos motivos. É por isso que presidentes conseguem se manter no poder mesmo com o desempenho ruim da empresa e das suas ações. Porém, a HP se parece menos com um sistema com eleições manipuladas e mais como uma monarquia, com os herdeiros dos fundadores da empresa tendo grande poder. O problema desse sistema (para o líder, é claro) é que não há uma base de intercambiáveis e influentes larga o suficiente para deixar os essenciais incomodados.

O líder precisa saber quando se livrar dos essenciais e promover um influente ou intercambiável. Em ditaduras é mais fácil, basta matar os essenciais. Em empresas, é necessário trocar os conselheiros, e isso surpreendentemente ocorre. Apesar do conselho selecionar o presidente, é comum haver mudanças no conselho após a eleição de um novo presidente.

Robert Mugabe, atual presidente do Zimbábue, é um mestre na arte de se manter no poder. Ele foi eleito primeiro-ministro em 1980 após uma longa guerra civil entre brancos e negros no país. A nova configuração política tinha dois partidos, o de Mugabe e um de oposição. Assim que subiu ao poder, procurou fazer conciliações com o outro partido e com os brancos ainda influentes. Ele sabia que não podia governar sem eles. Isso ao menos no começo. Assim que o seu poder foi consolidado, se livrou dos membros do outro partido, dos brancos e, como não poderia deixar de ser, de membros de seu partido de forma a manter uma coalizão vencedora pequena.

Dessa forma, os líderes fazem de tudo para conseguirem se manter no poder, mesmo que isso signifique trapacear, desde que consiga evitar as consequências negativas. Será que isso só se aplica a ditaduras? Bom, em democracias é mais difícil você trapacear e se safar, mas sempre que a oportunidade pinta, líderes em democracias não hesitam em utilizar desse expediente. Uma maneira de fazer isso é através do controle de imigração, para criar uma demografia favorável ao incumbente. Manipulação das eleições em países onde há democracia, mas instituições fracas, também é viável. Estimular a participação de vários disputantes ao cargo também pode ter efeito benéfico ao incumbente em uma aplicação do dividir para reinar. No legislativo, a existência de vários partidos permite fracionar melhor os essenciais para aprovar matérias do que quando há poucos partidos.

Uma maneira bastante inventiva de enviesar as eleições é através de políticas que favoreçam minorias na ocupação de cargos públicos. Manter uma cota para cargos legislativos para algum grupo de interesse faz com que a quantidade de votos para se eleger seja menor, ou seja, o número de essenciais é reduzido dessa maneira. A Tanzânia, por exemplo, tem uma mistura de parlamentares escolhidos pelo presidente, parlamentares de minorias que são escolhidas pelos seus partidos na proporção dos votos do partido e votos diretos, o que permite ao presidente conquistar a lealdade de uma boa parte dos parlamentares sem depender do voto direto. No final das contas, a Tanzânia é uma democracia, mas o presidente precisa apenas de 5% dos votos para manter maioria legislativa.

Outra maneira de obter vantagens eleitorais é através do voto em bloco. Tem uma maneira não-oficial de influenciar alguns líderes de algumas comunidades para que esses façam campanha para que votem em alguém, mas em algumas situações há um voto em bloco oficial, onde um líder de comunidade vota em nome de todos. Desnecessário dizer que esse líder de comunidade obtém vantagens de ser um influenciador. Um exemplo é a Índia, com um dos autores do livro (Bruno de Mesquita) tendo acompanhado isso de perto entre 1969 e 1970. Essa é uma espécie de clientelismo e voto de cabresto.

As coligações políticas em eleições funcionam de maneira parecida. Ambos envolvem concentrar em uma pessoa ou um pequeno número de pessoas o poder de controlar uma grande quantidade de votos, como ocorre em pedidos de procuração de voto em assembleias de sociedades anônimas. Os partidos se coligam para poderem usar suas influências para obter ganhos para todos os que estão coligados, o que pode fazer com que algumas uniões esquisitas possam surgir. Aqui, o poder interessa mais do que a ideologia e há muito tempo os políticos perceberam que se unindo a outros eles poderiam obter mais poder juntos do que separados. E é isso que importa no final.

Porém, o voto é anônimo e nada garante que as pessoas sigam o que o líder pede. Mas tem uma maneira para contornar isso. Além de algumas fraudes para eliminar o anonimato, os candidatos podem fazer uma promessa aos líderes comunitários de que irá fazer uma benfeitoria, desde que recebesse um número suficiente de votos. Como os dados são abertos, é possível ver onde que efetivamente o candidato recebeu mais voto e recompensar ou punir os locais de acordo com sua votação, dando um incentivo para que cada votante siga o seu líder. É muito mais fácil comprar a lealdade de um líder de várias pessoas do que cada votante individualmente.

Nos Estados Unidos, onde o voto é por distritos, é possível manipular as eleições legalmente através do gerrymandering, o redesenho de um distrito eleitoral para favorecer o incumbente. Os distritos podem ser refeitos de forma a concentrar a oposição em um distrito e os seguidores em outros. Perder de 50% mais 1 ou de 100% em um distrito não muda nada, então seria bom concentrar todos os opositores em um distrito só. Para eleições parlamentares, a ideia é concentrar todos os seguidores em um distrito e dessa forma ser eleito. Numericamente, com um bom desenho de distritos, é mais fácil se perpetuar nos Estados Unidos do que era na União Soviética. Bom, mas a geografia é um empecilho, né? Não necessariamente. Pegue o exemplo do Terceiro Distrito de Maryland, utilizado no livro e que estou mostrando aqui. Meio esquisito, né? Cartograficamente, sim. Politicamente, faz todo o sentido. Deve ser por isso que um republicano não é eleito representante na Câmara desde 1921. Logo, essa aqui é uma amostra de como é primordial manter a coalizão vencedora o menor possível para se manter no poder mesmo em uma democracia.

Agora, vamos para uma diferenciação entre autocratas e democratas. A chance dos autocratas permanecerem mais tempo no poder (mais de 10 anos) é bem maior do que para os democratas, mas a chance de ficar só seis meses é maior para os autocratas. O maior grupo em termos de risco de perder o cargo para autocratas é justamente esse, enquanto que para democratas é entre 6 meses e 2 anos. Isso mostra como é essencial o líder em ditaduras consolidar rapidamente o seu poder. Podemos concluir que o ditador precisa em seis meses descobrir onde está o dinheiro e distribui-lo para comprar lealdades e formar a coalizão vencedora, conseguindo apoio e podendo se livrar de qualquer pessoa inconveniente para seus planos de longo prazo. Em democracias, pelo contrário, o vencedor em eleições para cargos executivos costuma desfrutar de uma lua de mel. Os autocratas, ao contrário, precisam fazer de uma vez todas as atrocidades necessárias para se manter no poder nesses seis primeiros meses.

Esse capítulo mostrou os princípios básicos para se manter no poder, o maior deles sendo manter uma coalizão pequena e recompensar essas pessoas. O problema é que essa prática não é barata, mesmo considerando-se que é feita com dinheiro dos outros, mas isso já é tema para o próximo vídeo.