domingo, 11 de maio de 2014

Lendas Cabilas da Criação


Sobre a Argélia, vou falar sobre as Lendas Cabilas da Criação com base no livro A gênese africana, de Leo Frobenius. O jogo será o Indiana Jones and the Fate of Atlantis, na parte do jogo que se passa em Argel, capital da Argélia. Não tem muito a ver com o que eu vou falar, mas pelo menos se passa no país em questão.

Os cabilas eram um povo berbere que habitava o nordeste da Argélia e o livro que eu estou utilizando tem uma longa parte dedicada aos berberes em geral, cabila em particular. Vou falar sobre o primeiro grupo de estórias, os mitos de criação dos cabilas.

No começo, havia apenas um homem e uma mulher que viviam debaixo da terra, não acima dela e não sabiam que a outra pessoa era um sexo diferente. Um dia, foram beber água, se desentenderam sobre quem beberia primeiro e lutaram. As roupas caíram e ele viu que ela tinha uma taschunt e ele sentiu que tinha um thabuscht. Olhou para a taschunt e perguntou para que servia.

- Ah, é bom – disse ela.

Ele deitou-se sobre ela e ficou assim por oito dia. Nove meses depois, ela teve quatro filhas. E depois de mais nove meses, teve quatro filhos. E depois mais quatro filhas e em seguida mais quatro filhos. No fim, tiveram cinquenta filhas e cinquenta filhos. Eles não sabiam o que fazer com tanta criança e as mandaram embora.

As cinquenta moças partiram para o norte e os cinquenta rapazes para o leste. Após um ano viajando, as moças viram uma luz e decidiram subir à superfície. Os rapazes também encontrariam um caminho para a superfície. Lá, seguiriam seus caminhos sem saberem do outro grupo.

Naquela época, as pedras e árvores falavam. As moças perguntariam para as plantas e para as pedras quem as fizeram e questionariam o mesmo sobre as estrelas e tentaram se comunicar com elas aos gritos. Os rapazes viram um rio pela primeira vez e gritaram, chamando a atenção das garotas.

- Quem são vocês? O que estão gritando? Também são serem humanos? – perguntaram as moças.

Os dois grupos se comunicaram e se conheceram. Os rapazes então falariam com o rio, questionando o que ele era.

- Sou a água. Sou para tomarem banho e se lavarem. Sou para beber. Se quiserem chegar à outra margem, andem rio acima até o lugar em que minha água fica rasa. Lá vocês vão conseguir me atravessar – disse o rio.

Eles então atravessariam o rio e chegariam até as garotas, que não quiseram a aproximação deles e estabeleceram uma linha de separação. Os dois grupos viajariam juntos, mas separados por essa linha.

Certo dia, chegaram a uma nascente e tomaram banho no rio. Uma das garotas, muito curiosa, chamou outras duas e elas foram ver o que o outro grupo estava fazendo. Elas foram até o grupo dos rapazes, mas só a que teve a ideia original continuou em frente para espiar o outro grupo, que estava tomando banho e ela notariam que eles não eram iguais a elas.

Quando voltou, as que não ousaram ir em frente começaram a fazer perguntas e no banho ela contaria o que viu e a diferença entre elas e eles.

Depois, retomariam a viagem, assim como o grupo dos homens. Em certo momento, acampariam bem próximos aos outros. Nesse dia, os rapazes começaram a considerar não mais dormir sob o céu. Alguns cavaram buracos no chão e outros a empilhar pedras para construir casas, usando árvores como telhado. Apenas um dos rapazes, que era mais selvagem, não queria viver em uma casa. Preferia entrar furtivamente na casa dos outros e sair furtivamente, em busca de alguém para subjugar e devorar. Não me parece gente boa.

As moças viram os rapazes e se perguntavam o que estavam fazendo. A moça ousada, que tinha ido vê-los no banho, foi adiante checar, querendo-os ver nus novamente. À noite, entrou furtivamente em uma casa e encontrou o homem selvagem. Ele rugiu para ela, que gritou e saiu correndo até as outras, acordando os rapazes. Os dois grupos se encontraram e lutaram, inclusive a moça ousada com o rapaz selvagem.

As moças eram fortes e jogaram os homens no chão e ficaram sobre eles. Então, decidiram checar se a moça ousada tinha mentido para elas e checaram o thabuscht, que se inchou ao toque e depois elas colocaram a thabuscht na taschunt. No começo, elas tinham o domínio, mas com o tempo eles se tornaram mais ativos.

Em seguida, cada rapaz pegou uma das moças e levou para a casa. Só o homem selvagem e a moça ousada não tinham casa e eles ficaram a espreita esperando alguém para devorar. Os outros os acossaram certo dia por conta do comportamento deles, que decidiram ir para longe dos outros. A moça se tornou a primeira bruxa e ele o primeiro leão, ambos vivendo de carne humana. Quanto aos outros, ficaram morando nas casas e comiam das plantas que cresciam no local.

Agora, vou falar sobre o começo da agricultura. O primeiro homem e a primeira mulher ainda viviam debaixo da terra e viram uma pilha de cevada e de trigo e sementes de todas as plantas comestíveis. Um dia, viram uma formiga, que tirou um grão de trigo e o comeu. A mulher pediu para que o homem matasse a formiga, mas ele se recusou e conversou com a formiga, perguntando sobre as sementes.

A formiga explicou sobre a água, as sementes e sobre cozinhar os alimentos e levaria os dois à superfície. Lá, a formiga explicaria sobre como usar as pedras para moer o trigo e sobre como usar a farinha para criar uma massa. Depois, ensinaria a fazer fogo e a cozinhar os alimentos.

Tendo aprendido a fazer isso, pegaram cevada e o trigo, além de pedras de moer, e perambularam pela terra. No caminho, deixaram cair grãos de trigo e cevada.  A chuva caiu e os grãos que estavam no chão enraizaram, cresceram e frutificaram. Chegaram até onde os quarenta nove moças e rapazes estavam e ensinaram a eles a fazer pão.

Os filhos gostaram de comer o pão e quiseram receber os cereais e pegarem um pouco para eles. Seguiram caminho de volta de onde os pais vieram e encontraram os alimentos que brotaram no caminho. Descobriram então como surgem os grãos e se comprometeram a comer metade dos grãos que brotavam e plantar o resto.

Porém, eles jogaram os grãos no chão e eles não brotaram. A formiga então explicou que era necessário esperar a estação certa, após uma longa temporada de calor e após as chuvas, momento ideal para plantarem os grãos. E foi assim que descobriram a agricultura.

Agora, vou falar sobre a origem dos animais de caça. No começo, havia um búfalo selvagem, Itherther, e uma fêmea, Thamuatz. Os dois nasceram no espaço escuro que rodeia a terra chamado de Tlam. Os dois desceram a terra e lá tiveram um filho, que tentou “cobrir” a mãe, que o botou para correr.

O filhote então chegaria aonde estavam os quarenta e nove casais, que tiveram seus filhos, que por sua vez tiveram mais filhos, criando uma vila com várias propriedades. Viram o pequeno búfalo e o perseguiram. Os velhos perguntaram à formiga sobre o que essa criatura era. A formiga então explicaria que ele é o filho da búfala e depois teria que explicar o que é um búfalo em primeiro lugar. Mais importante, diria que a carne deles era boa de comer.

O búfalo se cansaria de ser perseguido e deixaria o país dos homens. Conversaria com a formiga no caminho, que explicaria que ele poderia viver pouco, mas em conforto e sem precisar trabalhar, ou viver muito e precisar trabalhar e se sujeitar a vários riscos, como o mau tempo. Ele preferiu viver muito, voltaria para casa e cobriu a mãe e a irmã que tinha nascido de Itherther e Thamuatz. Itherther ficou furioso e desafiou o pequeno búfalo, que já não era tão pequeno e venceu o pai, o expulsando.

Itherther então vagaria pelo mundo e depositaria seu sêmen em uma depressão. Cinco meses depois, Itherther voltaria ao local e encontraria os outros animais nascido de seu sêmen. Os alimentou e depois, quando cresceram, pediram para que eles se multiplicassem e essa é a origem de todos os animais, exceto do leão, surgido do homem canibal filho do homem e da mulher primordiais.

Voltando ao jovem búfalo, ele teve vários filhos. Certo dia, a neve começou a cair e ele e o rebanho sofreriam. Concluiria então que era melhor viver pouco e na companhia dos humanos do que sofrer dessa maneira. Para acabar com o sofrimento, sugeriu que fossem até os homens, que dariam abrigo e comida para eles. E foi assim que surgiu o gado doméstico.

A última história diz respeito às primeiras ovelhas e carneiros. A primeira mulher estava moendo o trigo e misturou farinha com água e com essa massa moldaria uma ovelha, a deixando em cima da palha que estava no moinho. No dia seguinte, da mesma maneira, moldaria um carneiro, com os chifres torcidos para não machucar os humanos. Quando foi colocar o carneiro sobre a palha, verificou que a ovelha que fez no dia anterior ganhou vida. Passou então a criar ovelhas e carneiros até achar que fez o suficiente.

Ela deu cuscuz para eles, que cresceram e saíram da casa da primeira mulher, que vinha mantendo-os em segredo. Os outros humanos começaram a perguntar o que eles eram e ela disse que eles tinha surgido e que foram criados como eles próprios foram.

As pessoas procuraram a formiga, que explicou sobre a carne e a lã da ovelha e do carneiro e festivais que envolvem os dois animais. Perguntaram como eles eram feitos e a formiga pediu para que conversassem com a primeira mulher. Ela explicou como os fez e eles tentaram replicar, mas ela era uma feiticeira e só ela tinha tal poder.


Os animais criados pela primeira mulher se multiplicaram e, seguindo o conselho da formiga, as pessoas compraram os carneiros e ovelhas da primeira mulher em troca de bens que eles tinham, e assim nasceu o comércio e assim a humanidade obteve os carneiros e ovelhas para usar em seus festivais.

sábado, 10 de maio de 2014

Criação do Mundo na Mitologia Grega


Vamos começar a série falando sobre a Grécia, falando um pouco sobre mitologia grega, mais especificamente a criação do mundo. Esse vídeo pode gerar uma série mais longa de vídeos no canal no futuro. A gameplay é do jogo Titan Quest, que se passa nesse mundo da mitologia grega. A fonte de informações é o livro The Age of Fable de Thomas Bullfinch, a versão brasileira do livro sendo conhecida como O Livro de Ouro da Mitologia.

Origem do Mundo e dos Deuses
No começo de tudo, antes que a terra, o mar e o céu fossem criados, tudo era Caos, uma massa confusa e sem forma, com nada a não ser peso morto que, no entanto, continha a semente para todas as coisas. Terra, mar e céu estavam misturados: a terra não era sólida, o mar não era fluído e o ar não era transparente. Então surgiram Gaia (a Terra), o Tártaro e Eros. Do Caos, nasceram Érebo e Nyx, personificações da Noite; dos dois, nasceram Éter, a atmosfera respirada pelos deuses, e Hemera, personificação do dia. Gaia pariu de si mesma Urano, o Céu Estrelado que a cobriria por completo, as Óreas, que são as montanhas, e Ponto, o deus do mar pré-olímpico. Do coito com Urano pariu doze titãs: Oceano, Coios, Crios, Hipérion, Jápeto, Teia, Reia, Têmis, Memória, Feve, Têtis e Cronos (não confundir com Crono), esse último a pior das crias.

Após isso, Gaia daria à luz aos ciclopes, Brontes (trovão), Steropes (raio) e Arges (brilho). Eles tinham um olho na testa e força, vigor e violência na ação. Depois, nasceram três Hecatônquiros (Hecatonchires em inglês, sim, o mesmo da Vanille do Final Fantasy XIII), monstros de cem braços de nome Cotos, Brirareu e Giges. Esses foram os filhos mais terríveis de Gaia e Urano, que os escondeu nas profundezas da terra. Gaia, ofendida, convocou os filhos e pediu para que eles punissem o pai. Cronos se propôs a fazer isso.

Gaia colocou Cronos oculto, deu-lhe uma foice e passou o plano. Chegou Urano desejando amor pairando sobre Gaia. Cronos saiu do esconderijo e castrou o pai e do sangue de Urano nasceram as Erínias (as Fúrias), os Gigantes e as Melíades. Cronos arremessou o pênis de Urano no mar e daí nasceu Afrodite, a deusa do amor. Zeus, apesar de pai dos deuses, também teve um início, sendo filho dos titãs Cronos/Saturno (não confundir com Crono) e Réia, que surgiram do caos primordial.

Os Titãs eram deidades oriundas do caos que governavam o mundo até serem derrubadas pelos deuses liderados por Zeus. Zeus tomou o lugar de Cronos, Poseídon o de Oceanus, Apolo o de Hipérion. Cronos é o deus do tempo que devora as suas próprias crias (como o tempo realmente faz). Zeus e os seus irmãos se rebelaram contra Cronos e os venceram na guerra dos titãs, terminando por aprisiona-los no Tártaro e impondo uma série de punições, como a de Atlas, que devia segurar o peso do céu nos ombros.

Vencidos os Titãs, Zeus, Poseídon e Hades dividiram o espólio, Zeus ficando com o céu, Poseídon com o mar e Hades com o mundo inferior. Zeus era o rei dos deuses e homens, o trovão era a sua arma e Égide o seu escudo (sim, o mesmo escudo que aparece em Final Fantasy) e sua esposa se chamava Hera. Ares, filho de Zeus e Leto, deusa do anoitecer, era o deus da guerra, Apolo deus do tiro com arco, da música e da profecia. Sua irmã, Artemis, era a deusa da lua e ele o deus do sol. Afrodite, a deusa do amor, foi dada de presente por Zeus ao horrendo, em aparência, Hefesto por gratidão de serviços prestados, logo, temos a mais bela deusa com o mais feio dos deuses. Atena, Minerva na Mitologia Romana, era a deusa da sabedoria, é filha de Zeus sem mãe, surgindo da testa de Zeus. Mercúrio, Hermes na Mitologia Romana, era o deus das transições e das fronteiras e tinha como um de seus atributos correr como o vento. Dionísio, Baco na Mitologia Romana, filho de Zeus e Semele, era o deus do vinho, representando não apenas o lado intoxicante, mas também seus benefícios sociais.

O livro Idade da Fábula segue descrevendo várias outras divindades, mas as principais e as relacionadas com Final Fantasy são essas.

Visão de mundo

Nos primórdios, os gregos acreditavam que o mundo era plano e que, obviamente, eles estavam no centro do mundo, o ponto central podendo ser o Monte Olimpo ou Delfos. O disco da Terra era dividido de leste a oeste pelo Mar, como eles chamavam o Mediterrâneo, e sua continuação, o Euxino, os únicos mares que eles conheciam. Ao redor da Terra, fluía o Rio Oceano, seu curso indo de sul a norte na parte oeste e de norte a sul na parte leste. Os mares e rios recebiam águas do Rio Oceano. Ao norte, vivia uma raça chamada de Hiperbóreos, que viviam em uma eterna primavera perto das montanhas e das cavernas que sopram o Vento Norte que gela os hélas (gregos). A terra era inacessível por mar ou terra e viviam sem doença, velhice ou guerras. Ao sul, vivia outro povo chamado de etiópios, não sei se tem alguma relação direta com os etiópios dos dias de hoje. Ao oeste, estavam os Campos Elísios, onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados sem morrer para gozar de uma bem-aventurança eterna.

Ou seja, os gregos no início da civilização não tinham ideia de quem eram seus vizinhos. Nas áreas que eles não conheciam, supunham ser povoado por seres mágicos como gigantes e monstros. Também sem conhecerem o que de fato acontecia, acreditavam que o Sol, a Lua e as estrelas surgiam do Oceano ao oeste e viajam pelo céu até o leste. A casa dos deuses é acima do Monte Olimpo na Tessália, mantido escondido por um portão de nuvens. O lugar realmente existe, mas até hoje não há relatos de alguém ter encontrado deuses. Cada deus tem a sua morada, mas todos vão ao Olimpo quando invocados por Zeus. A cada dia, os deuses banqueteavam com ambrósia e néctar no salão do palácio enquanto conversavam sobre assuntos terrenos e celestiais, com a música da arpa de Apolo e o canto das musas. Festão, hein? Quando o sol se punha, os deuses iam embora dormir em suas moradas.

As roupas dos deuses eram feitas por Atena e pelas as Graças. Hefesto, filho de Hera e Zeus, era o ferreiro dos deuses, tendo construído em bronze as casas dos deuses e de ouro fez os sapatos. Fez de bronze os corcéis que moviam as carruagens que moviam os deuses pelo céu ou por sobre as águas e que podiam se mover por conta própria. Também dotou de Inteligência as servas de ouro que foram criadas para servi-lo.

Criação do homem
O homem seria criado pelo titã Prometeu, que juntou terra e água e criou o homem à imagem dos deuses, com uma postura ereta para que, diferente dos animais, ele olhasse para o céu e as estrelas, e não a terra. Prometeu era um dos titãs, uma raça de gigantes que existia antes dos deuses. Cabia a ele e seu irmão, Epimeteu, a tarefa de criar o homem e dar a eles e a todos os animais o necessário para sua preservação. Epimeteu se encarregou dos animais, dando a cada um atributos de coragem, força, velocidade etc. e também garras, penas, cascas e etc. Chegando no homem, já não sobrou mais nada para dar e ele recorreu à Prometeu, que com o auxílio de Atena acendeu a tocha da carruagem de fogo e levou ao homem. Com o fogo, o homem conseguiu superar os animais, criando armas, ferramentas e aquecimento.

Prometeu é representado como um amigo da humanidade, que defendeu os homens e ensinou a civilização e as artes, porém, com isso desobedecendo Zeus. O mito diz que Prometeu foi acorrentado no Cáucaso, com um abutre lhe arrancando o fígado, que se renova conforme é consumido. Poderia acabar a tortura a qualquer momento se resignando a Zeus, porém, Prometeu não quis fazê-lo. Prometeu é um símbolo de resistência ao sofrimento e força de vontade de resistir à opressão.

A mulher ainda não foi criada e o mito diz que Zeus criou e mandou para o homem como forma de punição pelo roubo do fogo, mas a título de presente. A mulher se chamava Pandora, criada no céu com cada deus contribuindo para aperfeiçoá-la. Afrodite a deu beleza, Hermes persuasão, Apolo a música e assim por diante. Ela foi mandada para Epimeteu, que aceitou o convite apesar dos alertas de Prometeu quanto aos presentes de Zeus. Epimeteu tinha um jarro (não uma caixa), cheio de atributos nocivos que ele não colocou no homem. Tomada de curiosidade, Pandora olhou para dentro do jarro, fazendo com que esses elementos – inveja, cobiça, doenças etc. - saíssem do jarro e se espalhasse entre os homens. Pandora tentou fechar o jarro, mas já era tarde demais. Mas, no fundo, restou ainda a esperança, de forma que, seja lá qual mal se abata aos homens, sempre ainda resta esperança.

Outra estória, talvez mais plausível, é de que Pandora foi mandada de boa-fé e o jarro como um presente de casamento. Ao abrir o jarro, todas as bênçãos escaparam, exceto a esperança. Faz mais sentido a esperança estar junto com bênçãos do que males.

A história era dividida em três eras. A Era de Ouro foi a era de inocência e felicidade, onde verdade e justiça prevaleciam, sem ser necessário fazer cumprir leis. As florestas estavam intactas, as cidades não tinham sido fortificadas, não havia armas e a terra dava ao homem tudo que era necessário sem a necessidade de arar ou semear a terra. A primavera era eterna, flores floriam sem sementes, o rio fluía como leite e mel surgia do carvalho.

Em seguida, veio a Era de Prata, onde as quatro estações foram criadas, forçando os seres vivos a suportarem extremos de temperatura, e o homem se viu obrigado a arar e semear a terra. Depois veio a Era de Bronze, pior do que a de Prata, culminando na Era de Ferro, com uma explosão nos crimes, falsidades e destruição da natureza. Ferro e ouro passaram a ser produzidos e começaram as guerras. Os deuses abandonaram a terra, a última a partir sendo Astréia, Deusa da Inocência e da Pureza, filha de Têmis, Deusa da Justiça.

Vendo esse estado de coisas, Zeus convoca um concílio, em um palácio passando pela Via Láctea. Zeus decide destruir o mundo e popular novamente a terra com seres mais dignos e melhores adoradores dos deuses. A ideia inicial era jogar trovões, mas temendo que isso pudesse colocar o céu em chamas, resolveu inundar o mundo com chuvas e maremotos. O vento norte, que espalha as nuvens, foi encadeado: o vento sul foi solto e logo cobriu todo o céu e espalhou a escuridão pelo mundo. As nuvens romperam em chuvas e destruí lavouras e construções humanas. Não satisfeito com as suas águas, Zeus pediu auxílio a Poseídon, que soltou os rios e os lançou à terra. Toda a terra se cobriu de água e deixaria poucos sobreviventes entre homens e animais terrestes.


O Parnaso sobreviveu acima das ondas. E lá, Deucalião e Pirra, descendentes de Prometeu e fiéis adoradores dos deuses, ficaram como os únicos sobreviventes. Vendo apenas esses dois sobreviventes, Zeus ordenou que as nuvens dispersassem e Poseidon ordenou que os mares e rios retornassem. Deucalião e Pirra se voltam para um templo procurando as orientações dos deuses. Lá, uma deusa esclareceu o que eles deveriam fazer, que é sair do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e depois atirar os ossos de seus antepassados. Pirra se recusou a profanar os restos de seus pais. Depois de refletir, Deucalião pensou que eles poderiam seguir essa ordem, jogado pedras, os ossos da terra, a mãe comum de todos. Eles assim fizeram e o resultado foi que as pedras arremessadas começaram a tomar forma semelhante à humana, mas ainda disforme como um barro. Passado algum tempo, as pedras arremessadas por Deucalião viraram homens e as pedras arremessadas por Pirra em mulheres. E essa é a origem da atual humanidade.

Indicadores socioeconômicos

Na série sobre os países da Copa do Mundo, eu utilizei uma série de indicadores sociais e econômicos para traçar um panorama dos países. Nesse texto, eu explico em maiores detalhes alguns deles e cito as fontes de cada um. Por exemplo, a Grécia tem os seguintes indicadores:

Capital: Atenas
Moeda: Euro
Língua oficial: Grego
População(jul/14*): 10.775.557 (81)
PIB (2013, US$ bi, PPC): 266 (50)
PIB per capita (2013, US$, PPC): 24.011,95* (51)
Crescimento médio (5 anos): -5,22% (184)
Deflator do PIB (2013): -2,07% (9)
Desemprego: 27,25%* (105)
IDH: 0,86 (29)
Percepção de corrupção: 80/175
Facilidade de fazer negócios: 72/189
Liberdade Econômica: 119/186
Pessoa mais famosa: Aristóteles

Em parênteses, a posição do país no ranking.

População(jul/14*): População estimada do país em julho de 2014 segundo o CIA World Factbook.

PIB (2013, US$ bi, PPC): Produto Interno Bruto de 2013, em dólares utilizando a paridade de poder de compra. A fonte de informação é o World Economic Outlook (WEO) do FMI e pode ser estimado ou o dado efetivo. O valor do PIB, a soma de todas as riquezas produzidas pelo país em um dado ano, é convertida em dólares pela Paridade de Poder de Compra para melhor poder comparar os países. A Paridade de Poder de Compra (PPC) busca encontrar uma taxa de câmbio que iguala o poder de compra de uma moeda em relação à outra. Ou seja, o câmbio PPC entre dólar e real procura determinar qual é a taxa de câmbio que deveria existir para que o real tivesse o mesmo poder de compra do dólar, ou seja, que comprasse a mesma quantidade de produtos. Uma estimativa popular para o PPC é o Índice Big Mac, que calcula a taxa de câmbio através da diferença entre o preço do Big Mac em moeda nacional e em dólares nos Estados Unidos. Usar PPC é mais adequado do que o câmbio corrente, apesar de impreciso, pois evita distorções e manipulações cambiais.

PIB per capita (2013, US$, PPC): O PIB per capita é a divisão do PIB pela população do país. Países maiores e com maior população tendem a ter um maior PIB e a divisão pela população ajuda a entender melhor a situação relativa da economia de um país. Grosso modo, é um indicador da qualidade de vida de um país, na medida em que um país com PIB expressivo pode não ter uma qualidade de vida tal alta se a população for igualmente grande, ao passo que um país com um PIB menor, mas também uma população menor, pode ter uma qualidade de vida maior. No entanto, é necessário considerar outros indicadores em conjunto e levar em conta que PIB per capita não considera a desigualdade de renda. Utilizei também a PPC para o PIB per capita, basicamente pelos mesmos motivos apontados acima. A fonte de informação também é o WEO.

Crescimento médio (5 anos): Para complementar os indicadores econômicos, o crescimento real do PIB nos últimos cinco anos. A base é 2008, o que acaba desfavorecendo a maioria dos países, pois inclui a Crise Financeira de 2008 e a crise da zona do euro nos anos subsequentes. A fonte de informação também é o WEO.

Deflator do PIB (2013): Como uma forma de medir a inflação, a elevação generalizada de preços de uma economia, considerei o deflator do PIB ao invés de um índice de preços ao consumidor. Apesar de não medir o custo de vida, o deflator tem a vantagem de ser menos manipulável, diversos países mascarando a real situação do país utilizando de todos os artifícios para reduzir indevidamente os índices de preço ao consumidor (Argentina e Brasil, por exemplo). A fonte de informação também é o WEO.

Desemprego (2013): Essa é a taxa de desemprego (pessoas desempregadas/População Economicamente Ativa) segundo o WEO.

IDH: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) procura medir a qualidade de vida de um país através da média de três indicadores: renda (Renda Nacional Bruta per capita), saúde (expectativa de vida) e educação (anos de escolaridade). O índice vai de 0 a 1, a melhor qualidade de vida sendo 1 e a pior 0. A fonte de informação é a ONU.

Percepção de Corrupção: O índice de Percepção de Corrupção é um indicador calculado pela Transparência Internacional que pergunta à população o grau com que eles consideram que os funcionários públicos e políticos são corruptos. O primeiro colocado no ranking é o país onde a população percebe menos corrupção e o último o país onde a sensação de corrupção é maior.

Facilidade de fazer negócios: O relatório Doing Business da IFC Corporation analisa a facilidade de fazer negócios em diversos países, analisando aspectos que incluem o tempo para abrir uma empresa e o tempo necessário para pagar os impostos. Seria um indicador de quão burocrático é um país. Os primeiros colocados no ranking são os países onde é mais fácil fazer negócios e os últimos os países onde a tarefa é mais difícil.

Liberdade Econômica: A Heritage Foundation publica o relatório do Índice de Liberdade Econômica, que analisa os países em quatro aspectos: Respeito às leis, limitação do governo, eficiência regulatória e livre comércio. Os primeiros colocados no ranking são os países onde a economia é mais livre, os últimos onde é mais fechada.


Pessoa mais famosa: O MIT mantém o projeto Pantheon, onde procura classificar quais são as pessoas mais famosas e importantes que já nasceram em determinado país. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Vidas ao Vento


(Texto do vídeo Ni No Kuni (#2): Vidas ao Vento)

Nesse vídeo, vou falar sobre o filme mais recente do Miyazaki que pode ser o seu último, embora este deva ser o terceiro ou quarto filme de aposentadoria dele e parece que ele já deu sinais de que vai mudar de ideia de novo. O filme vai estrear no Brasil no próximo dia 28 para quem assiste esse vídeo quando ele vai ao ar com o título Vidas ao Vento. Não gostei muito do título, parece coisa de novela mexicana, mas tudo bem. Cuidado que esse vídeo pode ter uns spoilers, mas acho que nada de mais. O filme, na verdade, em termos de enredo, não tem lá grandes surpresas no enredo.

O filme conta a história de Jiro Horikoshi, o engenheiro que projetou o Mitsubishi A6M Zero, mais conhecido simplesmente como Zero, um dos principais caças da força aérea japonesa na Segunda Guerra Mundial. Eu assisti o filme na Mostra Internacional de São Paulo e vou falar sobre o filme baseado nas minhas impressões e posso deixar de lado vários aspectos relevantes sobre o filme.

O que achei foi que esse é o filme mais bonito do Miyazaki. Não o melhor, diria até que ficou abaixo da média do Miyazaki, que é muito alta. A qualidade da animação é melhor do que a dos filmes anteriores, mas isso é meio que óbvio que seria assim. Mesmo assim, fiquei impressionado em alguns momentos. Tem uma hora em que mostra a régua que o Jiro usa em detalhes que me deixaram boquiaberto. O filme tem algumas partes sem falas, só mostrando paisagens, voos de aviões, sonhos estranhos, a futura esposa do Jiro pintando, como aparece no pôster do filme, e essas imagens combinadas com a trilha sonora de Joe Hisaishi – sempre ele! – compõem cenas muito bonitas. Os outros filmes do Miyazaki também têm disso, mas me parece que a dose é maior no Wind Rises. Nesse sentido, o filme é emocionante, não tanto pelo enredo, pelo drama da esposa do Jiro ou qualquer outra coisa, apenas pela beleza das cenas.

Ao mesmo tempo em que o filme é um dos mais sérios e adultos do Miyazaki, o filme é também um tanto ingênuo. Causou grande repercussão o filme, muitos acusando Miyazaki de glorificar um fabricante de armas. Como relata a The Economist, Miyazaki livra a cara de Jiro dizendo que ele não era o culpado pelo uso de sua invenção, mesmo que o projeto fosse de um caça militar. Em uma entrevista em 2011, Miyazaki disse que o que o inspirou a utilizar a história de Jiro foi a declaração do engenheiro de que “ele só queria fazer uma coisa bonita” e parece que essa Miyazaki tentou passar essa visão ingênua das coisas. O filme opta por não colocar essas questões no foco das atenções, o que não impediu que as pessoas trouxessem o assunto a tona.

Eu disse que o filme é ingênuo, mas meio que em alguns momentos diz: “Ei, eu sei que tem coisas horríveis, só escolhi ignorar”. Hitler e perseguições políticas, inclusive envolvendo o personagem principal, são abordadas, mas de maneira bem secundária e apenas para lembrar que havia essas coisas. O empobrecimento do Japão em prol do projeto militar também é mostrado de passagem. Em uma cena, Jiro e um imaginário Giovanni Caproni, engenheiro aeronáutico italiano e ídolo de Jiro, discutem sobre a questão de construir ou não pirâmides, ou alguma coisa do tipo, uma metáfora para construir fazer uma coisa bem feita, apesar dos usos que serão feitos com a invenção. Ou seja, o filme fala para você que está contando a história da criação de uma arma de guerra, mas prefere mostrar o lado bonito, que é a determinação do projetista em dar forma ao seu sonho.

Mesmo com essa ingenuidade, o filme é adulto e sério. Uma coisa que notei é que não há nenhuma cena muito delirante, fora aquelas que são sonhos de Jiro. Em vários animes, do Miyazaki ou não, tem umas cenas bem malucas que eu acho que parecem estranhas demais aqui no Ocidente e não os não-amantes de animes. O Wind Rises não tem nenhuma cena assim. Também é adulto pelo enredo, pelo ritmo mais lento e também por ser bem politicamente incorreto, com vários personagens, inclusive o Jiro, fumando. Tem uma cena em que um colega de Jiro estava sem cigarro e acendeu um cigarro usado para continuar fumando. Cheguei até a achar que o Jiro ia morrer mais rápido de câncer do que a esposa de tuberculose. Fiquei até surpreso com a classificação etária de apenas 12 anos.

Outra coisa interessante foi a menção à Montanha Mágica do Thomas Mann, um livro que, grosso modo, conta a história de um homem que fica se recuperando da tuberculose, como ocorre com a esposa do Jiro. Na parte final do vídeo, é como se os dois personagens principais estivessem na Montanha Mágica, por assim dizer, até que chega a hora de saírem de lá. E o final do filme e do Montanha Mágica tem lá as suas semelhanças. Os dois terminam nas Grandes Guerras, o livro na Primeira, o filme na Segunda. Nenhuma das duas obras dá maiores detalhes sobre o que acontece com os personagens. No Montanha Mágica, tudo que o narrador diz é que o personagem, Hans Castorp, vai para o “baile macabro” e que tem pouca chance de sobreviver. E, se bem lembro, o Giovanni Caproni, no sonho do Jiro, também diz que os aviões de Jiro têm pouca chance em um momento bonito onde as criações dele voam pelo céu. Não sei se estou viajando, mas o livro de Mann e esse filme têm as suas similaridades.

Outra coisa que notei é um certo complexo de vira-lata dos japoneses no filme. Em uma cena engraçada, os personagens vão pousar em um porta-aviões e o avião deles começa a dar problema. E o chefe do Jiro avisa que esse avião foi feito com motor japonês. Até o Zero do Jiro, o Japão não tinha feito um bom avião 100% japonês. Em outros momentos esse complexo de vira-lata também se revela, de uma maneira parecida que no Brasil. E hoje eles estão bem avançados, em termos tecnológicos e sociais. Talvez isso possa acontecer por aqui também...

Era basicamente isso que eu queria falar sobre o filme.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Lores de Final Fantasy VI

Lista das Lores (magias azuis) de Final Fantasy VI.


Nesse jogo, conseguir as magias não é tão simples quanto em outros jogos da série e pode ser necessário fazer alguma coisa além de manipular. Porém, ajuda o fato do Strago, o único que pode aprender Lores (Gogo pode usar, mas não aprender), ter apenas que "ver" a magia, e não ser alvo dela.

É possível aprender Lores das seguintes formas:
Rage: Execute a Rage do inimigo com Gau ou Gogo
Sketch: Use o comando Sketch da Relm (ou Gogo)
Control: Use o comando Control da Relm (ou Gogo) enquanto equipando o Fake Mustache
Confusão: Confunda o inimigo com magia ou com a Tool Noise Blaster

Nota para as tabelas abaixo:
Batalha Normal = Isso indica que a Lore é aprendida apenas com batalha normal, não sendo possível usar outro comando para influenciar os ataques do inimigo.
Veldt = O inimigo é obrigatoriamente encontrado em Veldt (não é possível encontrar o inimigo com o Strago no grupo no jogo normal) ou opcionalmente (o inimigo só tem em uma área e pode ocorrer do Strago não estar no grupo na ocasião)
Na última coluna, algumas observações. Alguns inimigos exigem condições especiais para usar a magia, como estar sozinho ou ser atacado.

Clique nas imagens para poder visualizá-la.


Lores Final Fantasy VI 1

Lores Final Fantasy VI 2

Lores Final Fantasy VI 3


Lores Final Fantasy VI 5


Um agradecimento especial para Skoobouy que fez um excelente guia sobre o assunto e eu só organizei melhor as informações. E não deixem de conferir o Vamos Jogar: Final Fantasy VI no meu canal (RSUGame).


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Content Id e Mudanças no You Tube


Olá. Nesse vídeo, vou falar sobre o que está acontecendo com os direitos autorais e vídeos de jogos no YouTube. O objetivo desse vídeo não é defender o You Tube ou os You Tubers, defender as empresas de jogos ou as detentoras de direitos autorais ou seja lá quem for, e sim ajudar vocês a entender melhor o que está acontecendo porque tem circulado muitas informações erradas sobre esse assunto e espero que eu possa esclarecer algumas coisas para vocês.

Primeiras coisas primeiro
Antes de tudo, só uma nota sobre terminologia. Não vou usar o termo flag, porque é impreciso e a rigor se refere ao que chamamos de denunciar, e não ao que está acontecendo. Quando um vídeo é postado, várias coisas podem acontecer. Uma delas é ser denunciado por ter conteúdo sexual, violento, abuso infantil etc. indo no ícone da bandeira. Isso pode resultar em uma advertência (ou strike, em inglês) se for comprovada a validade da denúncia e o vídeo é excluído. Três advertências e o usuário é suspenso e todos os vídeos excluídos. As advertências expiram a cada seis meses.

Mas essa história toda não tem nada a ver com denúncias e advertências, e sim com reivindicação de direitos autorais via Content Id. Vou falar mais sobre isso em breve, mas o que deve ficar claro é que isso não penaliza a conta do usuário e não impede que a pessoa publique o vídeo, apenas impede que a pessoa monetize o vídeo e que ela receba parte das receitas de publicidade. O vídeo será monetizado, mas quem receberá a receita é quem reivindicou os direitos, e não o usuário. E isso deve ficar claro: se o vídeo é monetizado, alguém vai receber a receita de publicidade do vídeo junto com o Google, seja o usuário, seja uma reivindicante de direitos autorais. Dependendo do caso, o vídeo pode ficar bloqueado ou mesmo apenas ser monitorado, o detentor não fazendo nada contra o vídeo, mas podendo acompanhar o vídeo, inclusive tendo acesso às estatísticas. O canal Far From Subtle, que não faz parte de network, tem um vídeo muito bom explicando melhor sobre isso.

O que está acontecendo?
Diversos canais grandes estão relatando notificações de reinvindicações de direitos autorais. Isso é feito por meio de um mecanismo do Google chamado de Content Id, que vasculha os vídeos e identifica aqueles que usam material protegido com direitos autorais. Não sei como exatamente funciona, mas imagino que um produtor de conteúdo envie para o YouTube material que está protegido por direitos autorais e exige que o YouTube identifique vídeos que estejam usando esse material. O detentor dos direitos pode reivindicar o material e monetizá-lo, recebendo pelos anúncios vinculados ao invés de quem postou o vídeo, ou bloquear em alguns países. Não sei se o detentor dos direitos pode excluir o vídeo via Content Id, mas o que tem acontecido na grande maioria dos casos é monetização para o detentor do material reivindicado ou bloqueio, parcial ou total.

Esse sistema não é novo, existe faz algum tempo. Já aconteceu comigo várias vezes. A diferença é que o YouTube permitiu que o Content Id se aplicasse a canais que estão filiados a networks, e é por isso que vários YouTubers grandes estão relatando notificações em massa em seus vídeos. Essa é a principal mudança ocorrida agora. Não houve nenhuma mudança no critério de reivindicação de direitos autorais, isso apenas passou a valer para todo mundo. Outra mudança, para o começo do ano que vem, é que as networks terão que separar seus parceiros em canais “gerenciados” e “afiliados”, a própria network se responsabilizando por infrações de copyright dos primeiros, e os donos dos canais no segundo caso.

Agora, os canais “afiliados” passarão por um revisão antes da monetização. Que, aliás, acontece com quem não está em uma network. No meu caso, por exemplo, se eu coloco um vídeo para monetização, ele passa por um processo de revisão. Isso não acontecia com canais que estavam em uma network e agora vai acontecer, exceto pelos canais “gerenciados”.

Por que está acontecendo?
Muitas pessoas estão culpando o YouTube por essas mudanças. Tem muita coisa errada na execução dessas medidas, mas o que o Google está fazendo é simplesmente se protegendo. No Mundo Ideal do YouTube, teríamos bilhões de usuários, postando trilhões de vídeos, sobre todo tipo de assunto, para todo tipo de público e todos eles monetizados, uma parte da renda indo para eles, outra para os criadores de conteúdo. Porém, tem certos conteúdos que não podem ser postados por questões legais ou bom senso (pornografia, pedofilia, cenas reais de violência extrema etc.). E há certos conteúdos que não pode ser publicados porque há direitos autorais sobre eles, e é aí que começa a confusão.

O Google quer ganhar dinheiro, mas, antes de tudo, não quer perder. E o maior medo deles é receber processos. Além de multa, acordos ou indenizações resultantes desses processos, há vários custos legais, o processo pode se arrastar por meses ou anos e pode até ter consequências mais graves. Como se diz, de bumbum de nenê e cabeça de juiz, pode sair qualquer coisa! Então, em uma atitude normal de empresas e até de pessoas, eles falam “Opa! No meu não!!!” E processo por infração de direitos autorais, que já fecharam outras empresas, são um dos maiores receios deles. Essa mudança está sendo uma maneira de proteger os direitos autorais e evitar processos. E as empresas de jogos não são nem as mais interessadas nessa questão, e sim a indústria cinematográfica e, principalmente, a indústria de música, que não vai bem já faz alguns anos.

Alguns meses atrás, a network Fullscreen foi processada pela NMPA (National Music Publishers' Association). O processo não parece incluir o Google, mas nada impede que venha a sobrar para eles um dia, seja nesse caso, seja em outro, por isso que o Google decidiu fazer alguma coisa quanto a isso.

No sistema antigo, se alguém chegasse para processar o YouTube por quebra de direitos autorais e isso envolvesse canais afiliados a uma network que não passavam por Content Id e por revisão, o You Tube poderia ser co-responsabilizado pela violação de direitos. Agora, eles podem mostrar que tem processos para isso, que é o Content Id. Para os canais gerenciados, a responsabilidade é inteiramente da network e o YouTube não tem nada a ver com isso, se for para colocar o dedinho no de alguém, não será no deles.

Nada indica que as empresas de jogos estão ativamente procurando o YouTube para tomar medidas mais extremas. Muitas se manifestaram e disseram que não são eles que estão reivindicando os direitos autorais e, como vou mostrar agora, não são necessariamente eles que estão notificando vídeos, apesar de serem de jogos. Intencionalmente ou não, estão tentando se mostrar inocentes, o que é verdade em parte. Porém, no passado eles enviaram conteúdo para o Content Id para proteger os direitos autorais e, com as mudanças, isso passou a valer para mais gente. Eles podem até não ter feito nada nos últimos dias, no máximo enviando novos materiais, mas não foi isso que disparou a onda de notificações, e sim o fato de que o Content Id passou a vasculhas mais gente.

Que tipo de conteúdo está sendo alvo?
Vou falar agora sobre que tipo de material está sendo notificado. O Force Strategy Gaming fez um vídeo muito bom sobre isso mostrando o caso dele e daqui a pouco eu mostro o que aconteceu comigo. Para o caso de jogos, basicamente são três tipos de materiais que estão sendo alvo das reivindicações: Cutscenes, trailers e música. Os dois primeiros são responsabilidade das empresas de jogos, mas música não necessariamente. Pode acontecer de o jogo usar legitimamente uma música de alguém, mas essa música estar no Content Id e causar a notificação. Dai, é responsabilidade é de quem administra os direitos da música, não do jogo.

Há razões legítimas para que esse conteúdo seja alvo de direitos autorais. Tem canais, principalmente pequenos e obscuros, que postam apenas as cutscenes do jogo, trailers ou trilhas sonoras, inclusive de jogos. Tem vários problemas quanto a isso. Com música, está claro porque isso está errado: você está disponibilizando gratuitamente material alheio, que está sendo comercializado, sem ter direito para isso. Para cutscenes e trailers, o problema de postar e monetizar para você é que isso não envolve trabalho próprio. Para cutscenes, você só tem o trabalho de jogar e gravar as cenas, que são feitas pelos desenvolvedores. Para trailers, você só tem o trabalho de baixar e fazer o upload. É legítimo que as detentoras de direitos bloqueiem esse tipo de coisa.

Porém, ao fazerem isso, miram no que veem, acertam o que não veem. Quando você faz um Let’s Play com cutscenes, isso é notificado como uso de material protegido, mesmo que tenha os seus comentários. A mensagem que aparece é “uso de direitos visuais”. A empresa se protege de um uso que considera ilegítimo (postar apenas as cutscenes), mas isso afeta outros tipos de conteúdos, como Let’s Play e mesmo análises, se tiver cutscenes no vídeo. Quando você usa material do trailer para análises ou para divulgar uma notícia (lançamento de uma nova expansão do WoW, por exemplo), também pode ser notificado, mesmo que a intenção fosse evitar que alguém postasse o trailer bruto.

Para músicas, a questão é ainda mais complicada. Em alguns casos, a música que é reivindicada é a do próprio jogo, como no caso do Final Fantasy, por exemplo. Em outros, é uma música de um terceiro, que é usada no jogo após acordo entre os músicos e a desenvolvedora. Você pode ter todo o direito de fazer um Let’s Play desse jogo, mas a notificação pode vir de quem detém os direitos da música, intencionalmente ou não. Isso é feito para evitar que alguém pura e simplesmente poste as músicas no YouTube, mas acaba atingindo canais de jogos. Por exemplo, um vídeo meu de Bioshock foi notificado por conta de uma música de Billie Holliday. Os detentores dos direitos dessas músicas não estavam pensando especificamente em monetizar vídeos de Bioshock, e sim vários outros que possam ter essas músicas, mas acabou me afetando do mesmo jeito.

Pelo que eu entendi, não tem como o YouTube notificar vídeos por conta do gameplay através do Content Id. Ao que parece, o processo consiste em comparar o vídeo com material protegido por direitos autorais. Não tem como comparar o vídeo com gameplay com material protegido. Mesmo que a empresa mande um vídeo com gameplay para vasculhar via Content Id, se tiver diferenças entre esse vídeo e a gameplay de um YouTuber, não tem como notificar. Se no vídeo da produtora o personagem andar em linha reta e o YouTuber andar em zigue-zague, já deve ser um conteúdo visual diferente para o Content Id. Com cutscenes, que são as mesmas para todo mundo, isso não ocorre. Então, não sei se para vocês é boa ou má notícia, mas vídeos de Minecraft e de Call of Duty estão seguros, a não ser que a pessoa acrescente algum conteúdo, como uma música, por exemplo.

Meu caso
Vou mostrar agora o meu caso. São 105 notificações no total, nenhuma de vídeo antigo nos últimos dias. Ou seja, para mim sempre foi assim, sempre teve notificações de direitos autorais. Desses 105, 104 são de gravação de som e apenas 1 é visual na primeira parte de um projeto que ainda não começou a ir ao ar. Esse visual é uma cutscene, que faz parte do trailer, então não sei qual é o caso. Já fiz o upload da segunda parte e nada consta. Tem dois vídeos de Bioshock bloqueados, mas apenas na Alemanha, então, meus fãs alemães não poderão assistir esses dois vídeos, desculpem, mas tem outros 42. Tinha um vídeo de Bioshock que ficaria bloqueado no Brasil, mas dai eu editei e tirei a música que deu problema. Outro que seria bloqueado era o começo do Borderlands 1 por conta da música de abertura. Inclusive, tinha também uma reivindicação visual, mas, como eu coloquei uma anotação nessa parte, acabou tirando o flag.

Os jogos afetados são: Assassin’s Creed III (3 vídeos de 47), Bioshock (5 de 44), Borderlands (59 de 65, nem sei como não foi 65 de 65), Chrono Trigger (só o primeiro), Final Fantasy I (curiosamente, só os primeiros), Final Fantasy II (16 de 40), Final Fantasy IV (7 de 56) e Dragon Age Origins (5 de 43). Final Fantasy III, V e VI nenhuma.

Alguns casos especiais. Beat Hazard recebeu notificação, mesmo que eu tenha autorização dos autores das músicas. Ok, recebi autorização para usar, não necessariamente para monetizar, mas a questão é que isso não foi responsabilidade do músico. O nome que consta é CD Baby, que deve gerenciar os direitos da música e monetizou talvez sem o conhecimento do músico. Isso está acontecendo com certa frequência. Por exemplo, o Miracle of Sound, no Twitter, alegou que vídeos com suas músicas estão recebendo reivindicações sem que ele tenha pedido. Com o Gone Home aconteceu coisa parecida, o vídeo final recebendo notificação por conta da música de encerramento, que não é de propriedade da desenvolvedora. Eu evitei colocar as fitas no toca-fitas justamente para evitar notificações, mas na última parte não tinha jeito.

A minha política de reivindicação é a mesma do Google: no meu não! Monetização minha pode ocorrer no futuro, mas não é de modo algum prioridade neste canal e o conteúdo vem em primeiro lugar. Mas, acima de tudo, tenho que zelar pela sobrevivência do canal e tenho que endereçar da forma mais cautelosa possível qualquer coisa que ponha em risco o canal. Se eu recebo notificação, eu acato! Desde que seja legítima.

Daí que entra a única vez em que eu contestei uma notificação. Na maioria dos casos, há alguma legitimidade na reivindicação, seja porque vem da empresa do jogo, a Square Enix reivindicando direitos sobre as músicas de Final Fantasy, seja de modo indireto (caso do Trópico). Mas se aparece um Zé que não tem nada a ver com o jogo ou com as músicas, é caso claro de contestar. Foi o que aconteceu com o Journey. Um canal chamado kbshow reivindicou direitos sobre o meu vídeo. Procurei na internet e vi que outras pessoas tiveram esse mesmo problema. Dai eu contestei, alegando que os reclamantes não tinham direito sobre o jogo e ganhei. Como não encontrei nenhuma autorização expressa da empresa de que posso monetizar, continua não monetizado por ninguém.

Isso mostra uma fragilidade do Content Id que está sendo bastante explorada. O canal Far From Sublte relatou que teve vídeo reivindicado sem que a pessoa tivesse direito a isso. Relatou ainda que o trailer do Call of Duty foi reivindicado por um monte de gente, e não sei se a Activision está nesse grupo. Por isso, antes de acatar as reivindicações, é bom dar uma olhada em quem está fazendo isso. Quem está em network, pode pedir para que a network entre em contato com a detentora dos direitos do material reivindicado para ver se dá jeito e também entrar em contato com a produtora do jogo. Pode ser, por exemplo, que a detentora dos direitos da música aceite abrir mão nos casos em que a música aparece em jogo, e não isolada.

Casos anteriores
Vou falar de alguns casos recentes de copyright no YouTube, relacionados com Content Id ou não.

O primeiro foi o Shinning Force. Para que os seus resultados sobre o Shinning Force aparecessem com destaque, a Sega deu uma limpa nos vídeos de Shinning Force no YouTube, denunciando vários vídeos que foram removidos pelo YouTube. E isso inclua de tudo, até coisa que não tinha base legal, como pessoas jogando o jogo sem nem aparecer gameplay. Esse é ainda hoje o caso mais violento de forçamento de copyright e o Total Biscuit mantém até hoje um boicote sobre a Sega. Aliás, voltaremos a falar sobre o Total Buscuit em breve.

Outro caso foi o da Nintendo, que publicamente disse que iria fazer valer o copyright, utilizando o Content Id do YouTube. Isso repercutiu muito mal e a Nintendo voltou atrás. Vídeos de jogos da Nintendo voltaram a serem reivindicados nos últimos dias, mas isso é por conta dos direitos sobre gravações de som. Várias empresas, como a Ubisoft, estão ativamente ajudando os You Tubers a remover as reivindicações sobre os vídeos, mas não sei se a Nintendo também está fazendo isso.

Um caso mais recente foi o de vídeos de Persona. Porém, nem a detentora dos direitos do jogo nem a detentora de músicas que aparecem no jogo fizeram coisa alguma. Aconteceu algo parecido com o que aconteceu comigo no Journey, o canal de uma cantora reivindicou direitos sobre vídeos do Persona, sem ter nenhum direito a isso. Só que isso foi mais grave do que no Journey: esse canal usou denúncias, e não Content Id, e até fechou alguns canais atingidos. A atitude da Google sempre é de atirar primeiro e fazer perguntas depois, mas esse caso mostra que eles não têm o mínimo de bom senso na hora de fazer valer direitos autorais, o que mostra a fragilidade do sistema.

Por fim, o último caso antes desse incidente recente foi o do Total Biscuit e sua crítica ao jogo Day One: Garry’s Incident. Resumindo: o vídeo de análise dele foi derrubado por infração de direitos autorais, mas apenas o dele, de ninguém mais, tendo inclusive recebido expressa autorização para postar o vídeo. Aliás, a autorização era pública. Está bem claro que isso foi uma forma de censurar uma opinião negativa, já que o YouTuber fez críticas até pesadas, embora, totalmente dentro do lei. Ou seja, é o sistema de copyright a serviço de calar uma opinião desfavorável. Depois, a desenvolvedora voltou atrás e o vídeo voltou ao ar, mas não sem antes gerar ampla repercussão negativa e o jogo ainda está queimado com muita gente.

Esses quatro casos mostram algumas falhas do atual sistema. No caso do Shinning Force, mostra que o sistema pode ser usado para manipular as buscas de conteúdo. O caso do Persona mostra que o sistema permite notificações fraudulentas. E o do Garry’s Incident mostra que pode ser utilizado para censura.

No caso da Nintendo, a questão é outra. A Nintendo tem direito legítimo de proibir que monetizem em cima de sua propriedade intelectual. Agora, se deveria ou não fazer é outra questão. Alguns dizem que as produtoras deveriam permitir e até estimular a produção de conteúdo com os seus jogos, com algumas restrições, obviamente. Isso seria uma forma de propaganda gratuita que aumentaria as vendas do jogo. Por outro lado, dizem que colocar vídeos de Gameplay, em especial Let’s Plays do começo ao fim, pode desestimular as pessoas a comprar o jogo porque estraga a experiência. Isso é óbvio para música e filmes, mas como jogos são uma experiência totalmente diferente, não está tão claro que é assim para jogos. Quem está certo? Não sei. Não temos nenhuma comprovação para qualquer dos lados, apenas hipóteses. Até que testem essas hipóteses, não tem como afirmar nada. Baseado na minha experiência, o impacto de vídeos de jogos é positivo. Às vezes vejo pequenos trechos de vídeos para decidir se compro ou não e séries que eu acompanho partes maiores ou eu já tenho e já joguei ou não tenho nenhum interesse em comprar o jogo. Mas se isso vale para todo mundo, não sei.

Na verdade, esse é outro assunto. E, como espero já ter ficado claro, isso tem a ver com Content Id, não com companhias denunciando vídeos por violações de direitos autorais. Vendo alguns comentários por aí, percebi que tem muita gente latindo na árvore errada, como dizem em inglês. A questão aqui não é apenas a empresa de jogos autorizar a monetização de vídeo. Se houver material de terceiros que não seja a da empresa de jogo, não há o que eles possam fazer e você vai ter que pedir autorização para os detentores desse conteúdo. Ou então, pode evitar que esses conteúdos apareçam e ainda assim gravar gameplay do jogo. Já falo sobre isso.

E agora?
Muitos YouTubers estão declarando que esse é o fim do YouTube gamer, que podem parar de fazer conteúdo etc. Bom, na verdade, entendendo como funciona o Content Id, dá para driblar. É só identificar o problema. Se for música, corta as músicas que dão problema. Se sempre der problema com música, como no Borderlands, corte as músicas, ou desabilitando, ou colocando o volume em zero. Se for reivindicação visual, deve ser ou cutscene ou trailer. Corte do vídeo. Ou então, modifique as imagens, tentando uma mistura de face-cam com marca d’água e, em último caso, colocando uma anotação no vídeo para evitar a identificação do visual com material protegido, como acabei fazendo na primeira parte do Borderlands.

No meu caso, nada muda, até porque nada aconteceu de novo para mim, por enquanto. As únicas coisas que vão me impedir de postar um vídeo é bloqueio no Brasil ou denúncia e advertência. Conteúdos que eu ache que possam ter alto risco de serem removidos não irã ao ar, mas isso nunca foi uma questão até o momento. Se notificarem o vídeo, eu acato e sigo em frente. Se bloquearem, vou tentar dar um jeito, de uma das maneiras que eu acabei de falar. Se não for possível dar jeito algum, abandono o projeto e sigo para o próximo.

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Bons vídeos sobre o assunto: