quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Manual do Ditador (#4) - Chegando ao Poder




Bem-vindos de volta ao Manual do Ditador. Vamos agora para o segundo capítulo do livro, Chegando ao Poder.

As pessoas pensam que os políticos são serem especiais que por conta disso conseguem chegar ao poder. No começo do segundo capítulo do livro, há um exemplo de que quase literalmente um Zé Ninguém pode chegar ao poder e lá se manter. John Doe é o nome dado a corpos não identificados nos Estados Unidos. Literalmente, é um Zé qualquer. Eis que outro Doe, o Samuel Doe, surgiria na Libéria. Ele era um sargento do exército que chegou no quarto do então presidente, William Tolbert, em 12 de abril de 1980 e o matou, se proclamando presidente logo depois. A primeira medida dele foi executar os ministros do ex-presidente, recebendo apoio da população. Então, organizaria o Conselho da Redenção do Povo que suspendeu a constituição e baniu a atividade política.

Doe nunca tinha estudado política, mas sabia exatamente o que fazer para manter o poder. Ele formou uma pequena coalizão e os pagou para serem leais. Substituiu cargos chave na administração e no exército por pessoas de sua confiança, muitas oriundas de sua vila, aumentou os salários no exército e expurgou aqueles que ele não confiava, incluindo quinze antigos colaboradores dele.

Dinheiro não era problema, a Libéria recebendo vastas quantias de empresas e países estrangeiros, além de empresas estatais. Como a coalizão era pequena, esse dinheiro era dividido por menos gente. A economia do país ficou em frangalhos e o povo pobre e descontente, mas esse é um mero detalhes. Para todos os efeitos práticos da política, Samuel Doe era um imenso sucesso.

Essa história mostra que qualquer um pode se tornar líder se souber aproveitar a oportunidade. Para chegar ao poder, são necessárias três coisas: 1) Tirar o incumbente; 2) Tomar posse do aparato do governo; 3) Formar uma coalizão de apoiadores para sustenta-lo no poder.

No primeiro ponto, o mais fácil é o incumbente morrer. Assassina-lo não está fora de cogitação. Outra possibilidade é o incumbente ser deposto, por um golpe de estado ou revolta popular. Aqui, é necessário que os apoiadores do regime não deem suporte ao líder ou mesmo que eles ajam para derruba-lo. O Egito é um bom caso. Em 2011, o presidente Hosni Mubarak seria derrubado pelos militares após revoltas populares. O corte na ajuda externa americana e a má situação da economia fizeram com que minguasse o dinheiro no Egito que pudesse ser utilizado para pagar os apoiadores. Os militares poderiam ter suprimido a revolta, mas como não estavam sendo muito bem pagos para fazer o trabalho sujo de Mubarak, resolveram deixar que as revoltas ocorressem.

Assim que tomar o poder, a velocidade é essencial para se apoderar das principais instituições, como o Tesouro, principalmente quando a coalizão é pequena. Se a mudança de poder está sendo caótica, nada impede que um concorrente mais rápido faça uma nova mudança. Samuel Doe matou o presidente e tomou o poder, mas o que o manteve foi rapidamente ter usado a sua coalizão para se apoderar do exército. Se outro tivesse feito isso, Doe não teria sido o presidente da Libéria.

Ou seja, pagar apoiadores, e não boa governança ou cumprir a vontade popular, é a essência da política. Na transição de um regime para outro, é importante trazer rapidamente apoiadores para o seu lado, antes que eles comecem a imaginar se não ganhariam mais com outro líder. Por isso, Doe rapidamente aumentou os salários no exército. Mas só recompensas não são suficiente, porque os apoiadores iriam desejar cada vez mais. É necessário também um pouco de medo. Apoiadores com medo de serem substituído são muito mais leais do que os apenas bem recompensados.

A mortalidade é um problema sério para a coalizão. Líderes mortos não dão recompensas e líderes morrendo deixam vulneráveis a coalizão vencedora a possíveis desafiantes, por isso que as doenças dos líderes são mantidas em segredo para evitar o levante de essenciais ou pessoas de fora da coalizão.

A subida do iatolá Khomeini foi um caso em que alguém de fora da coalizão aproveitou a oportunidade com a morte do incumbente. Para obter o poder, é necessário capitalizar sobre as insatisfações populares e dentro da coalizão e com isso obter carta branca para realizar mudanças que permitam que ele se mantenha no poder. Khomeini aproveitou a ovação popular para trazer o exército para seu lado e perseguir dissidentes, declarar uma república Islâmica e reescrever a constituição para dar poder aos clérigos, ou seja, sua coalizão vencedora. Khomeini se tornaria o líder supremo com a proteção de um conselho que vetasse leis ou candidatos não-islâmicos. Isso acabou por excluir grupos seculares e moderados, mais conhecidos como idiotas úteis que só serviram para colocar Khomeini no poder.

Khomeini subiu ao poder dando à oposição um ponto focal e contando com a não intervenção do exército. Uma vez no poder, reduziu o tamanho da coalizão vencedora, embora existissem muitos outros interesses no golpe. Havia democracia com eleições parlamentares, mas apenas membros da coalizão vencedora podiam ser candidatos. O interessante é analisar porque Khomeini tomou o poder em 1977, não quatorze anos antes, quando foi para o exílio. A revolta contra o xá ocorreu por insatisfação popular, que já existia antes. O que importou foi a complacência do exército, que poderia reprimir as revoltas, mas não o fez. Não o fez porque não tinham uma recompensa para agir de uma maneira tão desagradável.

A história das Filipinas mostra um caso parecido. Benigno Aquino Jr., assim como Khomeini, era um candidato a desafiante do líder com grande apoio popular e que poderia derrubar um tirano. Ele se tornaria um crítico do presidente e foi para o exílio. Em 1983, retornaria ao país para lutar pela liberdade, como ele disse. Mau movimento, deveria ter esperado o incumbente cair, assim como fez Khomeini. Ele seria assassinado em circunstâncias estranhas. Sua esposa, que, a exemplo de Samuel Doe, não tinha habilidades políticas seria a presidente anos depois.

Eleições ocorreriam em 1985. O incumbente Ferdinando Marcos concorreria com a esposa de Aquino, Corazon. Marcos fraudaria a eleição e venceria. Até ai, tudo bem, Marcos agiria de maneira correta para se manter no poder. O problema é que ele perderia apoio. O presidente Reagan, cardeais da Igreja, o povo e a oposicionista perdedora protestaram, mas nada que não se resolva. O problema foi que o exército abandonou Marcos e isso faria com que a eleição fraudulenta fosse anulada.

Por trás de tudo isso, a informação de que Marcos estava doente e não viveria muito mais tempo. Quem sabia dessa informação sabia que não poderia contar com ele para extrair benefícios e era mais garantido esperar a transição para negociar o apoio. Mesmo sem saber nada de política, Corazon agiu certo ao desafiar o incumbente quando ele era fraco.

Para evitar mudanças de regime, o líder precisa nomear seu sucessor ainda quando tem poder. É o que Kim Jong Il e Fidel Castro fizeram, mantendo a vantagem do incumbente na política. Nesse caso, por mais que o líder seja forte, pode ser difícil que a sua vontade seja respeitada após a sua morte. Por isso, não são raras as disputas fraticidas pela sucessão, isso inclusive era política de estado no Império Otomano.

Por que não desafiar o herdeiro? Uma das razões é que é mais provável que o herdeiro siga com o esquema de pagamento para a coalizão vencedora, o que reduz a incerteza. Outro motivo é que há muitos concorrentes ao cargo, o que diminui a chance de se tornar o novo líder. Fracassar em obter o poder para si significa morte.  Além do mais, um bom herdeiro já sabe onde está o dinheiro e quem pagar, logo, herda a vantagem do incumbente de seu antecessor e não é fácil tira-lo do poder. Então, havendo um herdeiro confiável, os essenciais preferem apoia-lo a arriscar uma aventura.

Uma coisa que é essencial para o líder é que o estado se mantenha com os cofres cheios, com uma economia próspera e com as contas equilibradas na medida do possível. Não pelo bem-estar da população, óbvio, mas porque sem dinheiro não tem como pagar os apoiadores. Crises financeiras são o chamariz perfeito para o surgimento de desafiantes.

Foi o que aconteceu na Revolução Russa. No meio da Primeira Guerra Mundial, que drenou os recursos da Rússia, o país começou a passar por uma grave crise econômica. O exército russo não se importou em proteger o tsar dos revoltosos, já que não estavam recebendo a parte deles. Pior, baniu a vodka do exército. Ai não tem russo que aguente!

Após a queda de Nicolau II, o primeiro a assumir foi Alexander Kerensky. O erro dele foi tentar um governo democrático com uma coalizão vencedora bem ampla, além de continuar a principal crítica ao tsar, a guerra. Lênin e os bolcheviques não cometeriam o mesmo erro, tomariam o poder de Kerensky, mantiveram uma pequena coalizão e executaram os opositores.

A economia não é tão essencial assim, desde que sobre dinheiro para pagar os essenciais. O Zimbábue é um desastre econômico há muito tempo, com uma inflação tão elevada que há notas de cem trilhões de dólares zimbabuanos. O Zimbábue foi transformado em uma vibrante economia agrícola exportadora para um país dependente de ajuda externa. Além disso, há uma epidemia de cólera no país. O presidente do país, Robert Mugabe, não cometeria o erro de tentar consertar esse problema. Tudo que ele precisava para se manter no poder era pagar o exército. No que a política mais importa, Mugabe é certamente um vencedor, estando no poder por 26 anos aos 90 anos.

Mudanças institucionais podem ser necessárias para se manter no poder. Um exemplo é o da Perestroika de Mikhail Gorbachev. Certamente que o presidente russo não adotou esse programa por ser um liberal, mas, como ocorre com todo regime socialista, o dinheiro dos outros uma hora acaba. A União Soviética precisava de dinheiro e, apesar de ser perigoso dar liberdade às massas, isso era necessário para manter a competição com os Estados Unidos. Era uma aposta arriscada e Gorbachev pagaria o preço.

Vários grupos antirreformistas foram contrários a Gorbachev e procuraram derruba-lo. Mas Gorbachev receberia o apoio de Boris Iéltsin e voltaria ao poder. Por pouco tempo, já que o próprio Iéltsin tomaria o poder. Ele comandaria o colapso da União Soviética e sedimentaria o seu poder formando uma coalizão vencedora com alguns membros da coalizão de Gorbachev se aliando aos que se beneficiariam mais com o fim do regime comunista, que certamente não seriam os membros do Partido Comunista.

Em democracias, o processo também envolve comprar o apoio da coalizão vencedora, mas há diferenças. É mais difícil garantir a lealdade, já que a melhor maneira de conseguir maior apoio para ser eleito é através do fornecimento de bens públicos, que beneficiam a todos de maneira dispersa. O incumbente tem uma vantagem, mas nada que o desafiante não possa oferecer. Também não há a necessidade de pressa e geralmente há uma longa distância entre a vitória na eleição e a tomada de posse do poder.

A tomada do poder é mais civilizada e o processo é mais no campo das ideias do que no confronto físico, mas isso não garante que boas políticas serão adotadas. A disputa em ditaduras é pela apropriação de bens privados e a disputa em democracia é em termos de ideias políticas. A disputa geralmente envolve prometer gastar mais e mais dinheiro, o que impacta o déficit público e a dívida pública, mas tudo bem, já que gente que ainda nem nasceu não vota e os pais atuais ou futuros não se importam com as consequências dos gastos públicos no longo prazo.

O segredo aqui é tentar separar para conquistar, ou seja, causando um racha nos apoiadores dos adversários políticos e tentando capitalizar sobre isso. Abraham Lincoln foi um grande exemplo, questionando o concorrente Stephen Douglas sobre a escravidão nas eleições para o senado em 1858. Se mostrasse apoio à abolição, ganharia a eleição para senado em Illinois contra Lincoln, mas isso causaria rebuliço no Partido Democrata. Se não o fizesse, perderia a eleição para senador e diminuiria as chances de ser candidato presidencial dois anos depois.

Douglas se mostraria a favor da abolição, ganharia a eleição para senado em 1858, mas a cisma no partido abriria caminho para Lincoln, que venceria a eleição com 40% dos votos e pouquíssimos votos no sul. Na campanha da reeleição, Lincoln possibilitou que soldados votassem para aumentar a sua quantidade de votos. Mesmo estando em uma democracia, Lincoln entendia sobre como manipular os essenciais para obter o poder.

Por fim, política é um negócio arriscado e não é para quem tem coração fraco. O capítulo termina com quem começou, Samuel Doe. No fim, acabou o dinheiro dele quando os Estados Unidos removeram o apoio após o fim da Guerra Fria e isso causou muitos problemas. Sim, o exército ainda estava do seu lado, mas o comportamento dos militares na repressão das revoltas acabou por alimentar o levante e isso culminou em sua deposição e um fim bem feio. Então, política é também sobre como lidar com riscos e não deixar que uma porta se abra para desafiante, uma vez que isso é tudo o quanto basta para perder o poder. Mas manter o poder é um tema para o próximo vídeo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manual do Ditador (#3) - Extras




Bem-vindos de volta ao Manual do Ditador. Nesse vídeo, vou acrescentar algumas coisas sobre o que tem no livro, que eu acho que ajuda a entender melhor os argumentos apresentados.

Principal-Agente
Os autores não falam isso, mas eu diria que o raciocínio que eles desenvolvem se aplica para situações onde há uma relação de agência, ou seja, quando uma parte é escolhida para agir em nome da outra. Nesse tipo de relação, temos o agente e o principal. O principal é a parte que tem os seus direitos representados e o agente é a parte que toma decisões em nome do principal. Na política, a população é o principal e os políticos os agentes. Nas empresas, os acionistas são os principais e os administradores da empresa os seus agentes.

O grande problema nas relações de agência é que o agente deveria tomar as decisões visando o melhor interesse do principal. No entanto, o agente tem os seus próprios interesses a perseguir e poderá seguir com a sua própria agenda às custas do principal. É um dever ético o agente ter responsabilidades para com aqueles que ele representa, devendo tomar os melhores esforços para perseguir o melhor interesse dos principais, isso constando de lei inclusive. Porém, todos sabemos que isso nem sempre vai acontecer e nunca ocorrerá de forma ideal. A isso denominamos conflito de interesses, quando os agentes atuam de forma a beneficiar a eles próprios em detrimento do principal.

A teoria da agência é bem complexa e existem diversos mecanismos para tentar alinhar os interesses do agente e do principal, de forma a fazer com que o agente faça o melhor para o principal porque isso também o beneficia. De interessante para essa série, temos fato de que o agente buscará obter o cargo e depois mantê-lo e seguindo a teoria dos autores do livro isso será mais fácil nas condições que eles colocam nas regras da política, que expliquei no vídeo anterior. Basicamente, ele tem que descobrir quais são os essenciais para que ele se mantenha no poder e comprar o apoio dele usando dinheiro da instituição que ele representa. Uma vez conseguindo isso, pode se dar ao luxo de ignorar os principais, ou a parcela deles que está fora da coalizão vencedora.

Eleições corporativas
Todo mundo sabe basicamente como uma eleição política funciona. Para empresas, no entanto, talvez não saibam tanto. Primeiro de tudo, temos os acionistas, que são os donos da empresa na proporção da quantidade de ações que possuem, ou cotas se não for uma sociedade anônima. Se a empresa tem ações negociadas na bolsa, qualquer um pode ser acionista da empresa, bastando comprar as ações no mercado.

A ação dá ao acionista dois direitos: o de participar nas assembleias de acionistas e de receber parte dos lucros da empresa, os dois direitos sendo proporcionais à quantidade de ações que possuem. No Brasil, temos a diferenciação entre ação ordinária e ação preferencial. A ação preferencial, em relação à ordinária, tem poderes políticos reduzidos, em muitos casos, nulos, mas com direitos adicionais no recebimento de dividendos. Nos mercados internacionais, há a ação preferencial, mas ela não tem nada a ver com a nossa ação preferencial, e não vem ao caso explicar as diferenças. E há também ações com direitos diferenciados, mas eles chamam isso de ação ordinária de classes diferentes.

Pois bem, as ações com direito a voto permitem participar da assembleia de acionistas e nelas é possível eleger os membros do conselho de administração da empresa. Estes, por sua vez, irão eleger os diretores da empresa, inclusive o diretor-presidente, que é o CEO na nomenclatura em inglês. Em assembleias de acionistas, diferente de eleições políticas, os acionistas têm pesos diferentes e é possível que um reduzido grupo de pessoas possam ter maioria na assembleia. Nesse caso, dizemos que a empresa tem um controlador definido, que pode ser um único acionista ou um grupo de controle. E aqui temos outro conflito, entre acionistas controladores e minoritários, que é uma discussão complexa.

O diretor-presidente é o que toma as principais decisões executivas nas empresas e podem ser considerados os líderes, da forma que chamo nas análises dos autores do livro. Na visão deles, os diretores-presidentes são como os líderes em autocracias e democracias, querem chegar ao poder e se manter nele. Há uma série de benefícios para os presidentes de empresas assim como para os presidentes de repúblicas. Eles têm um bom salário, definido em assembleia geral dos acionistas que aprova ou não a sugestão do conselho de administração, têm secretária, jatinho, carro da empresa, mandam nas pessoas, têm o saco-puxado por todo tipo de gente importante, vários benefícios que muitas vezes eles próprios definem. Assim como ocorre com políticos, irão se valer dessas regalias na medida do possível, em algumas empresas encontrando mais restrições e em outras menos. Aqui voltamos ao tópico anterior, podendo haver um conflito de interesses entre acionistas e administradores quanto ao uso dos recursos da empresa.

Provavelmente os autores não tocam nesse tema, mas eleições em clubes de futebol seguem uma lógica parecida com a desenvolvida pelos autores. E aqui temos uma situação peculiar, onde os principais, que são os torcedores, na maioria das vezes não são nem intercambiáveis, ou seja, não tem o mínimo poder de escolher o presidente do clube. Pelo pouco que sei da política clubística, os presidentes são eleitos pelos sócios do clube, que não são tão numerosos. Então, temos poucos intercambiáveis e menos ainda essenciais. O líder precisa então convencer poucas pessoas para se manterem no poder e mantê-los fiéis com distribuição de benesses com o dinheiro do clube. Grupos de sócios costumam ser formados e a tarefa do líder fica facilitada precisando negociar com alguns grupinhos para formar a sua coalizão vencedora.

Mas a base de apoio necessária para o líder se manter no poder pode incluir outras pessoas, como membros de conselho deliberativo e outras coisas. Como disse, não entendo muito de política de clubes. Mas tem um elemento essencial para manter o líder no poder, que são as torcidas organizadas, que recebem várias regalias como ingressos e passagens aéreas. Enquanto tiverem isso e o time estiver indo bem, irão apoiar o líder. Do contrário, podem se revoltar contra ele e isso pode causar um grande estrago no clube, até literalmente. Dessa forma, o presidente de clube precisa descobrir quem são os essenciais e como comprar a sua lealdade, como em outros contextos, com a diferença que temos um elemento para-essencial, por assim dizer, que consegue fazer parte da coalizão vencedora sem sequer ser um intercambiável.

Paraísos Fiscais
O último tópico adicional que gostaria de abordar é o dos paraísos fiscais. São países que facilitam a entrada de capital estrangeiro oferecendo tributação baixa ou nula, sigilo bancário e baixa ou nula aplicação das leis internacionais de prevenção ao crime de lavagem de dinheiro. Antes que alguém pergunte, não, o Brasil não é um paraíso fiscal, aliás, tem uma boa legislação contra a lavagem de dinheiro e um sistema bancário bastante evoluído.

Por que políticos, empresários, ditadores e outros tipos mandam dinheiro para paraísos fiscais? Das vantagens mencionadas, baixa tributação é bom, mas não é o principal. O essencial de tudo é o sigilo e a possibilidade de lavar dinheiro. Paraísos fiscais podem ser utilizados para fins justificáveis e sem haver nenhum crime envolvido, muitas empresas sérias mantêm operações offshore nesses países, mas também são muitos utilizados para lavar dinheiro. Como isso ocorre? Imagine que você seja o ditador do jogo Tropico. Você desvia dinheiro dos cofres públicos para a sua conta pessoal. Ou seja, há um crime antecedente, que é a corrupção. Você quer depositar esse dinheiro fora do país porque não acredita nas instituições do seu país e porque o que você quer comprar não tem no país. Não poderia depositar em um país que não seja paraíso fiscal, porque eles irão questionar a origem do dinheiro. Na prevenção à lavagem de dinheiro, os bancos e seus profissionais precisam questionar a origem do dinheiro movimentado seguindo o princípio do Conheça o seu Cliente. Se você, agora falando do você de verdade, não o ditador hipotético do Tropico, entrar no banco com uma maleta com um milhão de reais para depositar, vão perguntar a origem do dinheiro e podem até se recusar a aceitar o depósito se você não der uma boa justificativa. Além do mais, vão te reportar ao COAF, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, e você pode ter problemas. Os bancos são muito atentos quanto ao crime de lavagem de dinheiro e procuram seguir a legislação nesse ponto, porque isso representa um risco legal e um risco de imagem. Os próprios profissionais precisam se atentar a isso, pois podem ser co-responsabilizados pelo crime. Na lavagem de dinheiro, “eu não sabia” não é justificativa: você é obrigado a conhecer o seu cliente.

Então, não é uma boa tentar depositar dinheiro ilícito em bancos que seguem as normas internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro. Então, o corrupto precisaria enviar dinheiro para países que não questionam a origem do dinheiro. Melhor ainda, que permitam manter em sigilo a identidade do depositante. Ou seja, não pagar imposto é bom, mas para o corrupto, melhor ainda é poder levar o dinheiro para um lugar seguro de onde ele poderá posteriormente dar aparência de legalidade e utilizar para comprar mansões no exterior, Ferraris, festa com supermodelos etc.

Bom, eram esses os pontos que eu gostaria de acrescentar e que serão úteis para entender melhor o livro O Manual do Ditador.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Manual do Ditador (#2) - Regras da Política




No primeiro capítulo do livro O Manual do Ditador, os autores, Mesquita e Smith, mostram quais seriam, segundo eles, as regras da política. Será utilizada aqui a palavra líder para denominar todo aquele que tem poder político, o foco sendo nos ocupantes de cargos públicos, mas podendo ser aplicado também a presidente de empresas, por exemplo.

Primeiro, querem deixar claro que os líderes não podem agir unilateralmente. Por mais que ditadores tenham acumulado e ainda hoje acumulem grande poder, não podem agir totalmente por conta própria e não governam sozinhos. Mesmo para exercer poder absoluto, o líder precisa de um grupo restrito de asseclas com lealdade absoluta a ele, precisa recompensa-los muito bem e assim fazer com que eles também se apeguem ao poder e não tentem tirar o poder dele. O líder precisa se certificar de que seja mais lucrativo para seus seguidores próximos apoia-lo do que apoiar a qualquer outro. Um grande número de pessoas esperando para fazer parte do círculo íntimo do líder é mais um fator a garantir a lealdade de seus asseclas.

A paisagem política pode ser separada em três dimensões: o seletorado nominal, o seletorado real e a coalização vencedora. Os autores usam a palavra seletorado, que não existe, mas ajuda a criar um conceito diferente do eleitorado, já que me parece independer de haver ou não eleições como temos em democracias. Ou seja, o seletorado seria o grupo de pessoas que seleciona o líder, independente de haver eleição. Esse conceito de aplica a democracias e ditaduras igualmente.

O seletorado nominal é todo aquele que tem direito legal de escolher seu líder. O seletorado real é aquele que efetivamente escolhe o líder, pensando aqui nos que efetivamente votam. O mais importante de todos é a coalização vencedora, o subconjunto do seletorado real que compõe a coalização e dá sustentação ao líder e cujo apoio é essencial para a sua sobrevivência. Explicando de outra maneira, o seletorado nominal é o grande conjunto de possíveis apoiadores do líder, o seletorado real inclui aqueles que são realmente influentes e a coalizão vencedora aqueles sem os quais o líder não sobrevive. De maneira mais simples, são respectivamente: os intercambiáveis, os influentes e os essenciais.

No exemplo da cidade de Bell, mostrado no vídeo anterior, o seletorado nominal eram os 9.395 votantes aptos. O seletorado real eram os 2.235 que efetivamente votaram. Os essenciais eram aqueles 473 votos necessários para eleger um membro do conselho municipal. Em uma ditadura, o seletorado nominal pode ser a totalidade da população adulta, mas o seletorado real são aqueles que escolhem os candidatos únicos aos cargos e a coalização vencedora são aquelas pessoas que dão suporte ao vencedor. Nas eleições americanas, o seletorado nominal são aqueles que podem votar, o seletorado real aqueles que compõem o colégio eleitoral (na prática, nominal=real) e a coalizão vencedora o número mínimo de votos no colégio eleitoral necessários para eleger o presidente, que pode representar meramente 20% da população. Em eleições para presidente de empresas, o seletorado nominal são os acionistas, os seletorado real o conselho de administração eleito pelos acionistas e a coalização vencedora o número mínimo de conselheiros para eleger o presidente.

Todo o argumento dos autores ao longo do livro gira em torno dessas três dimensões. A proporção de intercambiáveis, influentes e essenciais é o que vai determinar o que o líder pode e não pode fazer. Isso se aplica a ditaduras e democracias. Nesses termos, ditadura pode ser definida como um pequeno número de essenciais tirados de um grande número de intercambiáveis e um relativamente pequeno número de influentes. Democracias têm um grande número de essenciais com um número maior de influentes quase do mesmo tamanho dos intercambiáveis. Outras formas de governo, como monarquias e juntas militares, têm um pequeno número dos três tipos.

Modificar a quantidade relativa dos três grupos é a arte de governar, segundo os autores, e pode ser feito para obter ou manter o poder. Nos Estados Unidos, há um controverso método chamado de gerrymandering, através do qual são definidos os distritos eleitorais. Essa divisão pode ser manipulada de forma a reduzir o número de essenciais para que o político seja eleito, ou seja, para diminuir o número de pessoas que precisam votar no líder para que ele seja eleito.

Na administração do orçamento, o líder precisa decidir quanto gastar em bens públicos que beneficiam a sociedade e quanto gastar em bens privados para beneficiar uns poucos, incluindo o próprio líder. A questão aqui é a quantidade de pessoas que o líder precisa comprar para se manter no poder.

Em democracias, o custo de se comprar a lealdade através de bens privados é muito elevado, já que o número de essenciais é muito grande. Por isso, precisa investir em bens públicos que melhorem, ou deem a impressão de melhorar, a situação das pessoas. Em ditaduras, é possível investir em bens privados para comprar a lealdade da coalizão vencedora, gastar um pouco em bens públicos para manter o povo longe da revolta e mandar o resto para a sua conta em Cayman. Programas públicos para aumentar o bem-estar da população não devem ser encarados do ponto de vista da benevolência do líder, e sim em termos de manter seus apoiadores felizes e leais.

E nesse ponto, o líder se coloca em um dilema. Para comprar a lealdade de seus seguidores, o líder precisa de dinheiro, que não sai de seu bolso ou da sua conta em Cayman, e sim dos próprios seguidores. E as pessoas não gostam de pagar impostos, embora saibam que algum nível de tributação para serviços essenciais é necessário. Seguindo o raciocínio desenvolvido até aqui, os impostos tendem a ser menor quanto maior for a coalizão vencedora. Precisar comprar poucas lealdades é o caminho para poder explorar os que estão foram da coalizão vencedora.

É importante para o líder saber controlar a sua coalizão vencedora para poder mantê-la a um custo menor. O líder precisa propor aos seus apoiadores mais do que eles poderiam obter apoiando outro líder. Do contrário, outra pessoa receberá o apoio dos essenciais e o líder pode ser deposto. Os soviéticos entendiam muito bem disso, apenas um de seus líderes tendo sido deposto, os outros saíram ao morrer por idade ou doença.

O atual líder tem uma vantagem. Todos sabem que os políticos mentem, então um novo líder prometendo mais recompensas aos essenciais não necessariamente precisa cumprir a promessa. Pode simplesmente ganhar o poder e se livrar dos essenciais, sabendo que eles poderão apoiar outra pessoa no futuro. Há o sério risco do novo líder colocar novos apoiadores na coalizão vencedora, esperando que esses sejam mais leais, e se livrar daqueles que o apoiaram. A pergunta é: como? Ou mandando para o exílio, ou mandando para uma missão suicida ou matando, tanto faz, na verdade. Mandar para o exílio ou para uma missão fadada ao fracasso na Bolívia, digamos, é mais gentil quando o líder tem uma ligação mais afetiva com quem ele quer se livrar, mas no fim dá na mesma. Essa é uma boa maneira de também se livrar de possíveis desafiantes. Então, quem pensa em participar de uma revolução sem ser o líder, muito cuidado para não ser descartado na primeira oportunidade. Quem dá golpe de estado uma vez, pode dar uma segunda vez e o novo líder vai procurar evitar isso.

Além disso, para reduzir o custo de se manter a coalizão vencedora, é necessário ter um bom número de pessoas esperando a sua oportunidade de compô-la. Quando há poucos essenciais para muitos intercambiáveis ou influente, é fácil substituir um essencial, que sabe disso e cobrará pouco para se manter leal.

Com base no que foi visto no primeiro capítulo, é possível formular as regras de sobrevivência política. Regra nº 1: Mantenha a sua coalizão vencedora o menor possível, dependendo de menos pessoas para se manter no poder. Bom exemplo disso é o ditador Kim Jong Il, que se manteve no poder dependendo de um número bem reduzido de essenciais.

Regra nº 2: Mantenha o seletorado nominal o mais amplo possível. Assim, é possível substituir um essencial ou influente problemático por outro mais dócil. Lênin fez um bom trabalho nesse sentido ao adotar o sufrágio universal, sem que isso significasse perda de poder.

Regra nº 3: Controle o fluxo da renda. O ideal seria manter um grande número de pessoas pobres e redistribuir a renda entre os seus apoiadores e para si mesmo. O exemplo dado pelos autores é de Asif Ali Zardari, que acumulou um patrimônio de US$ 4 bilhões e governa um dos países com menor renda per capita.

Regra nº 4: Pague seus apoiadores o suficiente para que se mantenham leais. Uma vez controlando a renda, é possível comprar o apoio de essenciais, só tendo que tomar o cuidado de não pagar demais. Robert Mugabe conhecia muito bem essa regra, aumentando o pagamento a seus apoiadores sempre que surgia a ameaça de um golpe.

Regra nº 5: Não tire dinheiro de seus apoiadores para fazer a vida das pessoas melhor. Entre dar mais dinheiro para o povo ou para os apoiadores, opte pela segunda opção. Um povo faminto é fraco demais para se revoltar. Apoiadores famintos, por outro lado, são extremamente perigosos. Um ótimo exemplo é de Than Shwe de Mianmar, que após o ciclone Nargis controlou a ajuda humanitária e deixou que fosse vendida no mercado negro pelos militares ao invés de deixar que chegasse ao povo.

A pergunta que fica é: isso se aplica para democracias? A resposta é: sim, só que é mais complicado. Não dá para mandar matar os possíveis desafiantes ou apoiadores inconvenientes, por exemplo. Algumas regras ficam difíceis, mas não impossíveis, de seguir. Na primeira regra, o citado gerrymandering serve justamente para reduzir o tamanho da coalizão vencedora. A imigração pode expandir a base de intercambiáveis. As discussões sobre tributação são justamente a respeito da regra nº 3. Programas sociais alvejam seguir a regra nº 4, e favorecer ricos e doadores de campanha a regra nº 5. É só uma questão de imaginação e criatividade.