quarta-feira, 2 de julho de 2014

Guerra das Rosas (#1) - Ricardo II



Sobre a Inglaterra, vou falar sobre a Guerra das Rosas. Na verdade, vou falar sobre eventos que ocorreram antes desse importante evento da história inglesa, ficando para vídeos futuros falar sobre o restante. A fonte de informação é o livro Lancaster Against York de Trevor Royle. A gameplay será do jogo War of the Roses.

A Guerra das Rosas teve início com um conflito dentro da família Plantageneta, que governava a Inglaterra desde 1154. Ricardo II subiu ao trono em 1377 aos 10 anos e teve a sua coroa ameaçada por Henrique de Bolingbroke, neto de Eduardo III da Dinastia Plantageneta, que se tornaria rei em 1399, colocando a Casa de Lencastre no trono inglês, se tornando Henrique IV. Mas a Casa de Lencastre não era a única interessada no trono inglês, a Casa de York também exigindo o trono para si. As duas Casas têm origem em filhos de Eduardo III da Casa Plantageneta, João de Gante, que formou a Casa de Lencastre, e Edmundo de Langley, fundador da casa de York. No reinado do inepto Henrique VI da Casa de Lencastre, o conflito entre as duas casas de acirrou, resultando em uma disputa de poder.

A origem do termo é um pouco incerta. Historiadores discutem se esse é o nome mais adequado para o conflito, mas o fato é que o nome pegou. Foram feitas várias referências a duas rosas ao longo do tempo. David Hume, em sua História da Inglaterra em 1726, se referiu à “guerra das duas rosas”. Walter Scott, em seu “Anne of Geierstein”, citava o conflito entre as Rosas Brancas e Vermelhas. Shakespeare, na primeira parte do Henrique VI, coloca uma cena onde a retirada de rosas brancas e vermelhas indica a oposição entre as duas casas. O Ricardo III, dos Tudors (o vencedor final da Guerra das Rosas), em peça de Shakespeare também declararia o desejo de unir rosas brancas e vermelhas. No século XIX, o termo já era bastante disseminado para nomear o conflito. Além do termo não ter sido usado na época, não se tem evidência de que os dois lados lutaram com esses símbolos.

Como um conflito militar, a Guerra das Rosas começou em 22 de maio de 1455 com a Primeira Batalha de St. Albans, mas para entender a razão do conflito devemos voltar para 1399. Nesse ano, Ricardo II, neto de Eduardo III, rei cujos filhos dariam origem às duas casas envolvidas no conflito, foi forçado a abdicar ao trono.

Ricardo II subiu ao trono em 1377 aos 10 anos e, por conta da idade, obviamente não conseguiria governar sozinho. Como seu avô, Eduardo III, teve 13 filhos, 5 deles homens, candidato para regente e para futuro usurpador não faltava. O segundo na linha, Lionel, Duque de Clarence, morreu em 1368 e estava fora, mas sua filha, Philipa, tinha casado com Roger Mortimer, de uma poderosa família, descendente de Ralph Mortimer, que invadiu a Inglaterra junto com Guilherme o Conquistador. João de Gante, primeiro duque de Lencastre, terceiro na linha de sucessão, era um poderoso homem por suas posses e terras, suas habilidades diplomáticas e de guerra. Suspeitava-se que ele tramava contra Ricardo II, embora não esteja claro se os rumores eram verdadeiros. O próximo na linha de sucessão era Edmundo de Langley, conde de Cambridge e futuro Duque de York e fundador da Casa de York. Depois, vinha Thomas de Woodstock, Conde de Buckingham e futuro Duque de Gloucester.

Com tantos candidatos poderosos no páreo, ficou claro que nenhum dos tios de Ricardo II poderia ser nomeado regente sem começar um banho de sangue. A solução foi criar um conselho para decidir as políticas e aconselhar o rei, mas essa solução criou uma paralisia política em um péssimo momento interno e externo. Na época, a Inglaterra estava em guerra com a França na Guerra dos Cem Anos, que criou volumosos custos para a coroa inglesa, aumentando as tensões internas.

Vários reis ingleses governaram através de conselhos e com dois cargos de importância na administração do reino. O chanceler, guardião do Grande Selo, e o tesoureiro, guardião do exchequer (erário público), o ministro da economia da Inglaterra sendo chamado hoje em dia como Chancellor of the Exchequer. Em níveis nacional e local, há uma série de juízes e xerifes. O rei era uma figura de arbitro supremo e tinha que manter uma aparência de verdadeiro governante do reino, no que Ricardo II foi bem-sucedido.

Na minoridade, o mais próximo do rei era seu tutor Simon de Burley, e nessa época desenvolveu-se a sensação de que a corte real tinha poder e privilégios em excesso em detrimento dos conselhos que efetivamente governavam o país. O nível crescente de tributação e os gastos exorbitantes da corte real, em especial roupas para o rei Ricardo II, aumentaram a insatisfação política na Inglaterra. Os gastos com a manutenção do vasto reino e com as guerras com a França também foram fatores que colocaram em pressão as contas públicas inglesas.

Revoltas Camponesas
O aumento na chamada poll tax, um imposto pago per capita, em 1380 foi a gota d’água e resultou na Revolta Camponesa de 1381, que coincidiu com insatisfação com as condições de trabalho no campo. A Peste Negra deu mais poder de barganha aos camponeses, ao reduzir o número de trabalhadores, e a rígida estrutura feudal foi desafiada por esse fator que deu mobilidade social aos camponeses. A revolta começou com o assassinato de coletores de impostos e a recusa de pagamento de impostos, que levou à prisão de quem não pagava o tributo. Em junho de 1381, uma multidão marchou até o Castelo de Rochester em Kent para exigir a libertação dos presos. Na Cantuária, os revoltosos ameaçaram matar o arcebispo, que era um dos conselheiros do rei e, portanto, um dos responsáveis pelo aumento de impostos.

Wat Tyler emergiu como um líder da revolta, que também teria o nome de Rebelião de Wat Tyler no futuro. Na verdade, foram várias revoltas simultâneas que convergiram para Londres. John Ball, clérigo que havia entrado em conflito com o Arcebispo da Cantuária por suas denúncias contra a corrupção do clero, também teve papel proeminente na revolta. Os líderes tentaram posicionar a revolta não contra o rei, e sim contra os seus maus conselheiros. Em Londres, os revoltosos atacaram propriedades de seus alegados inimigos, em especial João de Gante. O rei, inicialmente em Windsor, foi para a Torre de Londres que podia ser melhor defendida. Mesmo com 14 anos, os relatos dão conta que Ricardo II agiu com coragem e convicção ao aceitar conversar com os rebeldes.

Ricardo II se encontrou com os rebeldes acompanhado apenas pelo prefeito de Londres, William Walworth, em Mile End. Os rebeldes deixaram claro que não queriam depor o rei e reivindicaram a abolição da servidão, a abertura do mercado de trabalho e a fixação de aluguéis para propriedades rurais. O rei concordou com as reivindicações, prometendo enviar depois cartas com o Grande Selo permitindo que voltassem para casa com o perdão real.

Essa seria uma vitória para o rei, que acabou com a revolta ao mesmo tempo em que mostrou a sua autoridade real. Porém, enquanto ele estava fora, rebeldes de Wat Tyler conseguiram entrar na Torre de Londres e sumariamente executaram o Arcebispo da Cantuária e Robert Hales, o tesoureiro, responsabilizado pelo aumento de impostos.

Em nova negociação com revoltosos, Ricardo II encontrou-se com Wat Tyler, que não mostrou a mesma subserviência dos rebeles na negociação anterior e tratava o rei como um semelhante, inclusive o chamando de “irmão”. Ele chegou com novas reivindicações, como a abolição dos títulos seculares e religiosos e o confisco de terras da Igreja. Ricardo II parecia inclinado a ignorar o comportamento petulante de Tyler e aceitar as reivindicações, mas, segundo os relatos, o prefeito de Londres com seus seguidores atacaram Tyler e o mataram.

As coisas poderiam ficar bem ruins nesse momento, após o assassinato do líder dos revoltosos. Mostrando grande coragem para seus 14 anos, Ricardo II se dirigiu à multidão e ordenou que eles os seguissem. A chegada de tropas e a grande estima que os rebeldes tinham pelo rei, aliado com seu comportamento corajoso, resolveram a questão e os rebeldes dispersaram. Esse evento acabou sendo um grande marco para Ricardo II em sua juventude, mas também acentuou uma presunção sua de que era um escolhido por Deus, que era diferente de todos os outros, que seria visto como a solução para todos os problemas e de que a sua majestade era inviolável.

No final das contas, o rei não manteve a sua promessa com os rebeldes. Outro líder, John Ball, foi preso e executado, mas não chegou a haver um grande banho de sangue. Acabou sendo uma amostra da autoridade real e provavelmente um desincentivo para que novas revoltas ocorram, como ainda estavam ocorrendo em certas áreas da Inglaterra.

Michael de la Pole
Após a Revolta Camponesa, o rei passou a buscar uma esposa. A melhor combinação em termos políticos era o casamento com Ana da Boêmia, filha do imperador do Sacro-império Romano, Carlos IV, o que adicionaria prestígio à Inglaterra na disputa com a França. Apesar de ser um casamento arranjado, Ricardo II se afeiçoou com a sua esposa, principalmente depois da morte da mãe em 1385. Ana teve uma “presença estimulante” na corte e estimulou o marido em interesses culturais.

O resultado das revoltas, o casamento e a diminuição do sentimento contrário ao Sacro Império Romano decorrente do casamento, criaram a sensação de paz e que o rei produziria uma família para estabelecer uma linha de sucessão.

O parlamento escolheria Michael de la Pole, apoiador de João de Gante, e o Conde de Arundel como conselheiros do rei. A intenção era colocar um limite ao comportamento errático do rei, mas Ricardo II usou dessa oportunidade para sua vantagem. O chanceler Richard Scrope criticaria o rei por estar beneficiando aqueles mais próximos dele, o que acabou servindo apenas para tirá-lo do cargo. No seu lugar, o rei nomearia Michael de la Pole, que depois receberia o título de Conde de Suffolk. De la Pole não vem de uma família nobre, seu pai tendo ascendido na corte graças à vultuosos empréstimos cedidos à coroa. Uma influência mais perniciosa era a de Robert de Vere, 9º Conde de Oxford, que tinha um comportamento mal visto na corte. Ele ganharia os títulos de Marquês de Dublin e Duque da Irlanda, títulos excessivos para alguém que pouco contribuiria para o reino e era incompatível com seus talentos, mas que tinha uma boa relação com o rei. Aliás, boa até demais, segundo alguns boatos, que não se sabe se eram fundamentados.

Esses episódios mostraram a vontade de Ricardo II em impor a sua vontade e também certo desleixo ao promover uma figura como de Vere. Tios e outros conselheiros ficaram insatisfeitos com essa decisão em um momento em que estavam pressionando o rei a adotar uma política externa mais agressiva, em especial contra a França. Ganhos militares contra a França seriam uma boa oportunidade de Ricardo II mostrar-se um bom soldado e para os que estavam ao seu redor de obter benefícios de eventuais vitórias.

Guerras externas
Em 1383, uma revolta em Gante, nos Países Baixos, criou a oportunidade perfeita para uma campanha contra a França. Esse episódio interrompeu o comércio de lã da Inglaterra para Flandres, que era uma grande fonte de renda dos ingleses. Essa foi uma boa oportunidade para os ingleses ganharem glórias militares ao mesmo tempo em que defendiam os seus interesses comerciais em uma literal cruzada, como o líder da campanha, Bispo Henry Despenser, conseguiu classificar junto ao Papa Urbano VI, inclusive com a concessão de indulgências (remissão dos pecados no Purgatório, um dos grandes abusos da Igreja que teriam consequências séculos depois).

Porém, não saiu exatamente como eles estavam planejando. Liderando um exército despreparado e inexperiente, Despenser foi obrigado a recuar após a chegada de tropas francesas superiores lideradas por Filipe, Duque da Borgonha. Além de não ter conseguido a glória militar pretendida, a campanha foi uma humilhação e um desperdício de dinheiro, fora não ter conseguido tirar os franceses de Flandres. Após essa derrota, aumentou o temor de um ataque francês e os escoceses aproveitaram a oportunidade para atacar do norte.

A prioridade era lidar com os escoceses, que tinham recebido reforço dos franceses. Para isso, Ricardo II foi pessoalmente liderar o ataque, com a companhia de João de Gante. A campanha foi bem sucedida, apesar de inconclusiva. Os ingleses penetraram no território escocês, mas falharam em forçar uma rendição. No fim, Ricardo II conseguiu a glória militar que buscava e dois de seus tios receberam títulos, Edmundo Langley como Duque de York e Thomas de Woodstock como Duque de Gloucester, porém, nenhum ganho para o reino.

Após a campanha da Escócia, João de Gante passou a cogitar se tornar rei de Castela, ele tendo razões legítimas para isso devido ao seu casamento com Constança, filha de Pedro I de Castela. Gante percebeu que a situação interna na Inglaterra ia mal com um líder cabeça dura como Ricardo II e foi buscar outros ares.

Crises Internas
Em outubro de 1386, o parlamento se reuniu para discutir a necessidade de um aumento nos impostos para financiar a defesa das costas, das fronteiras com a Escócia e a campanha de João de Gante em Castela. Alguém tinha que pagar por isso e o escolhido foi o chanceler Michael de la Pole. A Câmara dos Comuns exigiu a deposição do chanceler, mas o rei não acatou em mais uma demonstração de imprudência. Por essa decisão, Ricardo II foi confrontado pelo bispo de Ely e o Duque de Gloucester (Thomas de Woodstock, tio do rei), Ricardo II perguntaria se eles se rebelariam contra ele, a resposta sendo que a contrariedade deles era contra as políticas do rei e seus conselheiros, novamente preservando a figura real.

Ricardo II elevaria as apostas dizendo que procuraria a ajuda do rei da França. Gloucester então lembrou ao sobrinho que o rei podia ser deposto se negligenciasse seus deveres, como ocorreu com Eduardo II. Ricardo II entendeu o recado, dispensou de La Pole, o tesoureiro e uma série de outros oficiais. De La Pole foi preso, para depois ser perdoado e continuar buscando favores do rei. Isso enfureceu os inimigos do rei, que criaram uma comissão para revisar os gastos do rei, que Ricardo II teve que acatar, apesar da comissão existir por apenas um ano.

Em 1387, Ricardo II faria um giro pelo país durante os trabalhos dessa comissão. Tendo a sua majestade questionada e já se sentindo ameaçado, esse movimento fez parte do planejamento de seus próximos passos e a busca por apoio país afora. Enquanto isso, de Vere arregimentava tropas para apoiar o rei e sir Robert Tresilian, responsável por lidar com os resultados jurídicos da Revolta Camponesa, aconselhou o rei na questão da legalidade da comissão de finanças, procurando por uma possibilidade de acusar os responsáveis por traição contra a coroa.

Gloucester e Arundel sabiam que o rei tinha conseguido julgamentos contrários a eles e passaram a angariar apoio entre os descontentes com o rei. O próximo passo foi indiciar De la Pole, de Vere, Tresilian e outros por traição. Para surpresa deles, Ricardo II aceitou as acusações. A promessa do rei, que ele não pretendia manter, era convocar o parlamento para reunião em fevereiro de 1388. Quatro dos acusados se esconderam ou se exilaram, mas de Vere foi ao norte convocar o exército arregimentado para o rei. Por sua vez, Gloucester e Arundel também começaram a reunir suas forças, contando com a ajuda de Henrique Bolingbroke, filho de João de Gante e Duque de Derby, e Thomas Mowbray, afilhado de Arundel e Duque de Nottingham. A Inglaterra estava à beira de uma guerra civil.

O primeiro movimento foi de de Vere, que se dirigiu à Londres para mostrar oferecer proteção ao rei, mas o avanço foi barrado por tropas dos Lordes Apelantes, como Gloucester e Arundel ficaram conhecidos, que se dirigiram à Londres, forçando Ricardo II a se refugiar na Torre de Londres. De Vere fugiria, sendo dado como morto, e se exilou na França onde morreria cinco anos depois.

Isso não chegou a ser uma guerra civil, mas foi a primeira vez que ingleses enfrentaram ingleses por mais ou menos meio século desde a deposição de Eduardo II. E os Lordes Apelantes até cogitaram depor o rei, mas preferiram mantê-lo e negociar, tendo todas as cartas na mesa após a vitória militar. O rei concordou em convocar parlamento, em prender os cinco acusados, com alguns acréscimos à lista como Simon Burley, o tutor de Ricardo II (ou ex-tutor, já que ele já atingiu a maioridade) e os juízes que tinham condenado os Lordes Apelantes anteriormente.

Parlamento sem misericórdia
O parlamento, que seria chamado de Parlamento Sem Misericórdia, foi chamado na data acordada e o rei teve que ouvir as reclamações dos Lordes Apelantes. Não só isso, os presos foram julgados e condenados ao exílio ou, mais comumente, morte em julgamentos não muito justos. De la Pole e de Vere estão fugitivos, mas Simon Burley não teve a mesma sorte e acabou sendo executado acusado de ter se aproveitado dos favores do rei desde mais jovem. Porém, tentativa de tirar Ricardo II do poder não teve, apenas a faxina em seu corpo de conselheiros e uma limitação em seu poder.

Depois, Ricardo II nomearia novo chanceler, William de Wykeham, que havia servido Eduardo III. Outros conselheiros foram escolhidos, equilibrando independência de espírito com cuidado de não ofender os Lordes Apelantes, apesar de eles terem saído da vida pública após os últimos episódios. Um conselheiro importante foi João de Gante, que retornou de Castela sem o trono pretendido.

Os próximos cinco anos foram de relativa paz tanto no âmbito interno, quanto no externo, sem grandes conflitos internos ou guerras. Nesse período de calma, Ricardo II dedicou-se às artes. Como já se fazia, Ricardo II patronizava poetas e escritores na corte, com a diferença dele exigir que os poemas fossem escritos em inglês. Na época, nas cortes se falava mais o francês e gradualmente o inglês foi mais aceito na corte. Um dos escritores apoiados já de longa data era Geoffrey Chaucer, autor de “Os contos da Cantuária”, que é também um bom retrato da Inglaterra da época de Ricardo II. Chaucer esteve sobre pressão durante o Parlamento Sem Misericórdia, onde foi examinado, mas nada aconteceu com ele e Chaucer inclusive ganharia um cargo importante na corte. Nessa época, Ricardo II pediu um retrato seu, que pode ser visto hoje na Abadia de Westminster.

Dois incidentes mancharam esse período pacífico. Ricardo II pediu um empréstimo para Londres, que, apesar de ser uma cidade amigável à Coroa, recusou o pedido. Em resposta, Ricardo II impôs uma multa e outras punições como a demissão do prefeito, a transferência de cortes de justiça e da chancelaria. A situação logo se acertaria com a concessão do empréstimo e a volta das instituições para Londres, mas as relações entre Ricardo II e a cidade nunca mais seriam as mesmas.

O segundo incidente foi a morte de sua esposa, Ana, aos 27 anos. Ricardo II ficou extremamente abalado, mas o incidente não foi exatamente esse. No funeral, o Conde de Arundel não apenas chegou atrasado, mas também pediu para sair cedo. Como resposta, em mais uma amostra de comportamento destrutivo, Ricardo II bateu nele. Além disso, ele mandou destruir uma mansão real, onde tinha passado bons momentos com Ana e agora não tolerava ver. Ricardo II certamente não sabia lidar calmamente com problemas. Porém, logo viriam problemas bem maiores para ele.

Durante seu luto prolongado, duas questões urgentes surgiram: França e Irlanda. O custo das campanhas militares contra a França já estava em níveis insuportáveis e só traria problemas internos elevar impostos para financiar essas guerras. Para a França, esse custo e a restrição ao comércio de algodão nos Países Baixos também preocupavam. Os dois lados passariam a buscar uma trégua honrosa sem perdedores ou ganhadores. O principal ponto de conflito era Aquitânia, posse inglesa em território francês. A solução proposta era a Inglaterra pagar uma homenagem à França, mas o Parlamento inglês vetou essa proposta. Em 1396, os reis da Inglaterra e da França concordaram em trabalhar em uma solução para o Grande Cisma da Igreja e no casamento de Ricardo II com Isabel de Vallois, então com seis anos, resultando em uma trégua entre os dois reinos.

O casamento com uma criança não é uma boa ideia, e, infelizmente, não pelos motivos óbvios de hoje. Ou não diretamente, e sim pela demora da nova rainha em produzir um herdeiro. Mas ao menos, além da paz com a França, Isabel trouxe com ela um bom dote e perspectiva de paz em prazos maiores.

Tendo se acertado com a França, Ricardo II pode voltar as suas atenções para a Irlanda. A Inglaterra tinha alguns territórios na Irlanda, mas vinha recebendo ataques nos últimos anos liderados por Art McMurrough, rei de Leinster e auto-declarado “chefe da nação”. Em 1379, Edmundo Mortimer, 3º conde de March, foi apontado como governador da Irlanda, mas dois anos depois morreu e deixou o cargo para o filho de sete anos. Desde então, a autoridade inglesa na Irlanda ficou enfraquecida e foi contestada como há muito não ocorria.

Tendo cidades inglesas em território irlandês sob ataque, Ricardo II montou uma expedição com 8 mil homens. A campanha foi fácil e logo Ricardo II estava em Dublin, mas ao invés de uma vitória militar decisiva, preferiu o apaziguamento. Em troca da lealdade dos líderes irlandeses e a devolução dos territórios ocupados, prometeu arbitrar problemas dos irlandeses com os ingleses e ajuda financeira.

Tudo parece bem até esse ponto, mas não estava. O acordo com a França não foi tão bem recebido internamente, visto como uma subserviência à França. O parlamento rejeitaria uma proposta de mandar tropas em apoio a Carlos VI na Itália, onde o rei francês cortejava territórios do duque de Milão.

Enquanto isso, os gastos públicos continuavam ascendentes. Mesmo sem guerras contra a França, Ricardo II continuava gastando de maneira descontrolada com algumas loucuras como colocar um trono em seu quarto. Além de gastar dinheiro, essas atitudes prejudicavam e prejudicariam ainda mais Ricardo II ao mostrar um comportamento descuidado e vaidoso.

Ricardo II decidiria se vingar dos Lordes Apelantes, e esse foi o começo de seu fim. Em julho de 1397, ele convocou para um banquete Gloucster, Arundel e Thomas de Beauchamp, Conde de Warwick, apenas esse último aceitando o convite, só para ser preso na Torre de Londres. Arundel foi o próximo a ser preso no Castelo de Carisbroke. Gloucester, tio de Ricardo II, foi preso e mandado para Calais, França. Com isso, Ricardo II queria se vingar do Parlamento Sem Misericórdia e da posição de inferioridade a que foi submetido depois, violando o que ele pensava ser seu direito real. Ricardo II participava novamente de um Parlamento Sem Misericórdia, dessa vez do lado acusador.

O primeiro acusado foi Arundel. Ele se defendeu alegando que tinha sido perdoado no Parlamento Sem Misericórdia e recebido uma promessa pessoal de segurança do rei. A apelação não teve efeito e ele foi condenado à pena reservado aos traidores: enforcamento até ficar quase inconsciente, esquadrinhado e depois esquartejado. Para sorte e intervenção do rei, Arundel foi apenas decapitado. O próximo seria Gloucester, porém, ele foi encontrado morto em Calais, provavelmente sob ordens do rei para salvá-lo da indignidade e para não se indispor com outro tio, João de Gante. Por fim, Warwick foi julgado, se declarou culpado e implorou por perdão de todas as maneiras possíveis. Terminou condenado à morte, pena posteriormente revertida para banimento na Ilha de Man.

Após as maldades com os inimigos, bondades com os amigos, com farta distribuição de ducados para aliados e meio irmãos. Ricardo II tentou colocar seus aliados no congresso e partiu para cima daqueles que apoiaram os Lordes Apelantes, cobrando multas em troca de perdão. A próxima convocação do parlamento em 1398 não seria em Londres, e sim em Shrewsbury, perto do centro de seu poder militar em Cheshire e na fronteira com Gales. De la Pole voltou à condição de Conde de Suffolk e todos os atos passados pelos Lordes Apelantes foram repelidos. Nessa época, Ricardo II passou de excêntrico para tirânico.

Um incidente seria decisivo para os eventos futuros. Henrique Bolingbroke relatou uma conversa que teve com Thomas Mowbray, onde este teria afirmado que havia um plano de mata-los pelos incidentes da miniguerra civil que consagrou os Lordes Apelantes. Isso gerou um desentendimento entre os dois, resultando na destituição de Mowbray de alguns cargos e no começo de um duelo entre os dois, uma maneira cavalheiresca de resolver pendências entre dois homens de mesma classe social, uma luta até a morte ou muito perto disso.

Estava tudo armado para o julgamento por batalha, mas na hora H o rei cancelou o duelo e declarou que ele ia arbitrar as diferenças, condenando Mowbray para um exílio perpétuo e Bolingbroke recebendo 10 anos de exílio, para grande insatisfação da multidão que foi para Coventry para ver um dois duques lutando até a morte. Não se sabe exatamente porque Ricardo II interviu, mas provavelmente foi porque nenhum resultado o favoreceria e apenas reforçaria as acusações iniciais e poderia fortalecer o vencedor. A pena menor para Bolingbroke se deveu ao seu relacionamento com João de Gante, e não com maior proximidade com Bolingbroke. O exílio dos dois acabou sendo a melhor solução para Ricardo II.

João de Gante não estava bem de saúde e a situação de seu filho (Bolingbroke) agravou ainda mais seu estado. Para aliviar a dor de Gante, Ricardo II concedeu dinheiro para Bolingbroke em seu exílio em Paris e deu permissão para que ele concorra à herança de Gante caso ele morresse, como de fato ocorreu seis meses após o exílio do filho. Após a morte de Gante, Ricardo II mudou totalmente seu posicionamento quanto à Bolingbroke, não apenas impedindo que ele fosse ao funeral do pai, mas também revocando a permissão de reivindicar herança do pai e estendendo o exílio para sempre. Ricardo II não queria dar chance para um possível reivindicante ao trono e acreditava que os franceses ficariam de olho nele, para não arriscar a trégua. Nesse ponto, Ricardo II estava mortalmente errado.

Pensando que o cenário interno estava controlado, Ricardo II voltou-se para a Irlanda, que não manteve as suas promessas de submissão. Novos conflitos surgiram e o Conde de March foi morto tentando restaurar a ordem. Ricardo II foi para a Irlanda com 5 mil homens e o desejo de restaurar a ordem nos territórios ingleses na Irlanda, punir Art McMurrough e vingar o Conde de March, que era o segundo na linha de sucessão.

Na França, uma mudança política selaria o destino de Ricardo II. O rei Carlos VI tinha momentos de loucura que iam da amnésia até a crença de que ele era feito de vidro. A França era governada por um regente, que era o Duque da Borgonha, mas o Duque de Orleans, irmão do rei, também cortejava o cargo e entraria em conflito por ele. O Duque de Orleans se aliou a Henrique Bolingbroke, que usaria a ocasião da ida de Ricardo II para a Irlanda para retornar à Inglaterra e reivindicar a sua herança em 1399.
                                                                                   
Quatro semanas de Ricardo II ter ido à Irlanda, Bolingbroke desembarcou na Inglaterra e recebeu apoio dos mais diversos, como do Conde de Northumberland, Henry Hotspur e o Conde de Westmorland. Talvez Bolingbroke tivesse ido para a Inglaterra apenas para reivindicar a sua herança, mas a velocidade com que angariou apoio talvez o tenha convencido de suas chances de lutar pelo trono. Auxiliou a inépcia do Duque de York, deixado como encarregado dos assuntos internos enquanto o rei estava fora. Demorou para ele alertar o rei sobre as movimentações de Bolingbroke e demorou ainda mais para que Ricardo II pudesse voltar para a Inglaterra. A esse ponto, Bolingbroke já tinha avançado e executado três conselheiros do rei.

Vendo-se em desvantagem na volta à Inglaterra, Ricardo II procurou negociar. Northumberland intermediaria as conversas entre Ricardo II e Bolingbroke, conseguindo uma promessa de que Ricardo II tiraria Bolingbroke do exílio e restauraria as propriedades de Bolingbroke, em troca de Ricardo II não ter a coroa contestada. Ricardo II foi levado ao Castelo de Flint, onde Bolingbroke o esperava trajando uma armadura completa, como que mostrando seu poder. De lá, foram para Londres, onde Bolingbroke aprisionaria Ricardo II na Torre de Londres.

Esse já era o fim de Ricardo II, sem apoio nenhum para continuar como rei e com um usurpador com muito mais prestígio. Restava agora criar um racional para a destituição. A primeira ideia era manter Ricardo II como rei nominal e nomear um regente, ideia descartada por Bolingbroke, que via que podia muito mais do que isso. Bolingbroke insistiu que era necessário resgatar a Inglaterra de seu governo autocrático e seus conselheiros que buscavam apenas os seus interesses.

Ricardo II passou a ser investigado e não faltaram acusações a serem feitas que resultariam na perda da coroa. Os seguidores de Bolingbroke encontraram evidências de perjúrio, atos sodomitas, disposição de seus súditos, redução do povo à servidão, falta de razão ou capacidade para governar, quebrando o juramento feito durante a coroação.

No final, Bolingbroke e seus seguidores pressionaram Ricardo II a renunciar. Os relatos dizem que ele o fez com “uma expressão alegre”, mas é difícil acreditar nisso. Shakespeare, em seu Ricardo II, mostraria o rei entregando suas posses (cetro, coroa etc.) em um misto de loucura e frustração.

Henrique Bolingbroke tinha ainda um problema, não sendo ele o segundo na sucessão natural, e sim Edmundo Mortimer, Conde de March, então com sete anos. Bolingbroke enfatizaria que vem de descendência direta masculina de Eduardo III, enquanto Mortimer descende de parte de avó. Além do mais, ele tinha todas as condições políticas de assumir o trono e ninguém se levantou nem por Ricardo II nem por Edmundo Mortimer. No parlamento de 30 de setembro de 1399, Bolingbroke seria aclamado rei e Ricardo II deposto. Esse não era exatamente o procedimento, pois exigia a presença do rei deposto, mas essa não era a hora de sutilezas políticas.

Bolingbroke, agora Henrique IV, declarou que queria esquecer o passado e começar um novo futuro, e os apoiadores mais próximos de Ricardo II apenas perderam seus títulos.

Henrique IV honraria a sua promessa, talvez lembrando de seu exílio e perda patrimonial pelo impedimento à herança imposto por Ricardo II. O problema era o que fazer com o antigo rei, problema resolvido em 1400 quando Ricardo II morreria por razões desconhecidas. A versão oficial foi inanição, não se sabe se de forma voluntária ou forçada. Seu corpo foi levado para Kings Langley, contrariando seu desejo em vida de ser enterrado na Abadia de Westminster junto com sua esposa Ana. Só em 1413, no reinado de Henrique V, o desejo de Ricardo II seria cumprido.

A sombra de Ricardo II pairou sobre o século XV. Bem ou mal, ele foi um rei usurpado de maneira ilegal e ainda por cima morto em circunstâncias suspeitas e um fim amargo para Ricardo II, que se acreditava ungido por Deus. Maus julgamentos e sua incapacidade de criar relacionamentos com os poderosos da época selaram o seu destino. O que o levou a tomar essas decisões errôneas ainda é objeto de debate. Alguns alegam que ele era clinicamente insano, outros que tinha uma vontade fraca e tendia a tomar as decisões baseado no que ele queria que fosse verdade ao invés dos fatos reais. Ao alijar pessoas que poderiam lhe ser úteis, Ricardo II realmente se comportou de maneira irracional e emotiva nos últimos anos, talvez movido por sua ilusão de grandeza. O ataque contra os Lordes Apelantes, onde ele não tinha nada a ganhar a não ser a gratificação da desforra contra desafetos, foi uma mostra desse comportamento. Alijar aliados e se aliar a pessoas que poderiam prejudica-lo também foram decisões ruins.

Não que Ricardo II tenha sido um desastre completo ao longo de seu reinado. Tomou decisões bem sensatas na Revolta Camponesa e nas campanhas da Escócia e na primeira ida à Irlanda. Talvez a perda da esposa tenha tido um efeito mais devastador em seu juízo do que era de se imaginar. E teve ainda o mérito de conseguir a paz com a França. O patrocínio às artes e a insistência no uso do inglês na corte também foram pontos positivos do reinado de Ricardo II.

Bom, essa é a história de Ricardo II, um prelúdio para o prelúdio da Guerra das Rosas. O restante da história da Guerra das Rosas em vídeos futuros.

Raízes do Brasil (#3) - O Homem Cordial



Nesse vídeo, vou falar sobre os capítulos 4 e 5 do livro Raízes do Brasil, basicamente sobre quatro conceitos. Novamente, a gameplay é do jogo Civilizations V.

No capítulo 4, O Semeador e o Ladrilheiro, Sérgio Buarque de Holanda procura diferenciar as colonizações espanhola e portuguesa. Até então, vinha se referindo à colonização ibérica e à herança ibérica, mas há grandes diferenças entre os modos como Portugal e Espanha realizaram as suas colonizações. E se o capítulo 3 era um contraste entre rural e urbano, o capítulo 4 é entre esses dois modus operandi, o do semeador e do ladrilheiro.

O ladrilhador é a Espanha, que procurou mais do que Portugal estabelecer cidades no Novo Mundo. A urbanização é uma atitude anti natural e que envolvia planejamento e pensamento de longo prazo. A urbanização era uma empresa da razão, um ato da vontade humana para dominar o ambiente totalmente desfavorável que eles encontraram. Foi o triunfo da aspiração de dominar o mundo conquistado. A ideia era que o homem podia intervir na natureza e alterar o curso da história ao invés de segui-lo. Como exatamente isso se expressa está em maiores detalhes no livro.

A Espanha procurou assegurar o predomínio militar, econômico e político sobre as terras conquistadas e fez isso criando núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. A colonização espanhola começou como uma aventura, com os conquistadores tendo a liberdade de agir como achavam melhor e depois prestar tributos para a Coroa, mas depois a Espanha passou a controlar as suas colônias no Novo Mundo.

Portugal, o semeador, por outro lado, não procurou tanto construir ou plantar alicerces na colônia e estava mais preocupado em feitorizar uma riqueza fácil no Brasil. O caráter de exploração comercial predominou no Brasil, ao contrário da América Espanhola, onde os espanhóis procuraram fazer uma extensão da metrópole, ao menos no começo. Prova disso foram as universidades fundadas na América Espanhola ainda no século XVI, a primeira universidade do Brasil só aparecendo no século XX (pelo que pesquisei, o autor não cita esse dado). Faltou aos portugueses a vontade criadora dos espanhóis, mesmo que nem sempre as melhores intenções prevaleciam entre os dominadores.

O clima mais temperado nas regiões dominadas pelos espanhóis ajudou os conquistadores a se sentirem mais em casa. A colonização espanhola foi mais no interior e em maiores altitudes, enquanto a portuguesa foi mais tropical e litorânea. Os espanhóis toleravam a colonização na costa caso fosse possível construir bons portos, enquanto que os portugueses procuravam restringir a colonização do interior. A própria exploração do interior, já muito tardia, viria de pessoas que não estavam a mando da coroa e que tinham pouco contato com os portugueses. Porém, mesmo a exploração do interior brasileiro foi mais uma aventura e uma exploração do que um obra colonizadora.

Com a descoberta de ouro mais para o interior do Brasil, Portugal demonstrou um interesse renovado no Brasil e procurou colocar ordem em sua possessão ultramarina, mas ainda assim dirigido pela lógica exploradora e comercial. Não fosse isso, é provável que Portugal insistisse na obtenção de lucros fáceis mais próximo do litoral. É inconcebível que um português fizesse o que fizeram Cortés e Pizarro de destruir seus navios para reaproveitar a madeira.

Por isso que o autor é da opinião de que dominação portuguesa teve mais característica de feitorização do que de colonização. Não era intenção dos portugueses fazer qualquer obra que não trouxesse benefícios de curto prazo. Portugal queria que a colônia complementasse a metrópole e proibia que houvesse a produção de artigos que competissem com produtos portugueses.

De certa forma, a colonização portuguesa era mais liberal do que a espanhola. Isso se manifestou na permissão concedida a estrangeiros de explorar o litoral, desde que compartilhassem seus lucros com Portugal. E também se manifestou nas cidades, que tiveram um desenvolvimento desordenado, ao contrário do planejamento espanhol. A isso contribuiu a aversão à ordenação impessoal que já foi mencionado e que voltará ao tema daqui a pouco. A urbanização não foi um produto mental, uma contradição com a natureza. A palavra que usam é desleixo e uma “íntima convicção de que não vale a pena...”.

Assim, o português foi um semeador no Brasil, jogando as sementes de maneira desleixada e esperando que brotassem. Não demonstrou maior preocupação em se fixar na terra e a sua própria proximidade com o litoral indicava que eles estavam aqui temporariamente. O ladrilhador espanhol teve uma preocupação maior em exercer seu domínio e fez um trabalho sistemático de ocupação do território.

E por que isso ocorreu? O autor fornece algumas explicações, como a unificação política precoce de Portugal. A Espanha permaneceu muito tempo fragmentada e por isso surgiu no país uma ânsia centralizadora, codificadora, uniformizadora que não existia em Portugal. A falta de problemas parecia facilitar a atitude de “deixar estar” dos portugueses e isso se refletiu na colonização brasileira.

Agora vamos para o capítulo cinco, o que eu considero o melhor capítulo do livro, o que fala do homem cordial. Em grande parte do mundo, o Estado é uma descontinuidade e até uma oposição ao círculo familiar e o sistema industrial, em oposição às antigas corporações de ofício, é um sistema impessoal e profissional. As relações passam a ser fundadas em princípios abstratos e substituem os laços afetivos e de sangue.

Mas essas ideias encontram resistência em locais onde é muito forte a ideia de família, principalmente a de tipo patriarcal, e é difícil o florescimento de virtudes antifamiliares como iniciativa pessoal e concorrência. Mesmo com a urbanização e a ida de filhos das famílias ricas para institutos de ensino superior não romperam com essa mentalidade que foi-se desenvolvendo conforme foi mostrado nos últimos capítulos.

Por essa razão, os detentores de posições públicas criados por essa cultura tinham a dificuldade de distinguir o público do privado e surge aqui o primeiro conceito chave do capítulo, o patrimonialismo. Nas palavras do autor, “para o funcionário patrimonial, a própria gestão política apresenta-se como assunto de interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos”. A escolha das pessoas para exercer as funções públicas se dá menos por mérito e por habilidade e mais por confiança pessoal. Predomina as vontades particulares, que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados, como a família e as relações domésticas foram modelo das relações sociais.

E vamos para o segundo conceito, aquele que dá nome ao capítulo. A cordialidade brasileira, entendida na concepção de Sérgio Buarque de Holanda, não tem nada a ver com bondade, gentileza, amabilidade, hospitalidade ou qualquer outra virtude semelhante. Cordialidade aqui vem de coração e se refere à propensão dos brasileiros de encarar tudo com um fundo emotivo, como já foi mencionado anteriormente. Junto com essa cordialidade, vem à aversão às relações impessoais, que são necessárias para o bom funcionamento das instituições públicas e até privadas.

Isso se manifesta também na aversão a ritualismos sociais e a dificuldade do brasileiro em mostrar reverência prolongada diante de um superior. A reverência pode até existir, desde que não suprima o desejo de estabelecer intimidade. É também manifestação dessa tendência de atribuir a tudo um fundo emotivo o amplo uso de diminutivos e também de se referir às pessoas com o primeiro nome e não com o prenome mesmo sem maior intimidade.

Dessa forma, é um traço marcante do brasileiro a dificuldade em estabelecer formas de convívio que não sejam ditadas por um fundo emotivo, traço que é de difícil compreensão para os estrangeiros. A questão é que esse traço se difunde para contextos em que relações mais impessoais deveriam prevalecer, como os negócios e principalmente a gestão pública.

Raízes do Brasil (#2) - Herança Rural




Nesse segundo vídeo sobre o livro Raízes do Brasil, vou falar sobre o terceiro capítulo, Herança Rural. Novamente, a gameplay é do jogo Civilizations V.

Nos capítulos anteriores, o autor falou sobre as raízes ibéricas do Brasil vinda dos portugueses. O terceiro capítulo fala sobre as raízes rurais, a herança deixada pela forma como o Brasil foi colonizado e povoado. Toda a estrutura da sociedade colonial teve sua base no campo, fora dos centros urbanos. A vida na colônia se concentrava nas propriedades rurais e as cidades viveriam na dependência do campo até a Abolição da Escravidão em 1888 na opinião de Sérgio Buarque de Holanda.

Já antes, com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, que proibia o comércio interatlântico de escravos, o Brasil já registrava alguns surtos modernizadores, com a criação de sociedades anônimas, a refundação do Banco do Brasil, a inauguração da primeira linha telegráfica no Rio de Janeiro e a inauguração da primeira linha férrea entre o Porto de Mauá e a estação do Fragoso. Após o primeiro passo para Abolição, houve um florescimento dos negócios que não estavam relacionados com o campo.

A Lei Eusébio de Queirós foi criada cinco anos depois Lei Aberdeen promulgada na Inglaterra, que autorizava os ingleses a aprisionar navios negreiros. No Brasil, houve uma resistência grande contra a lei por parte daqueles que queriam manter o status quo. Além de isso representar o fim de um negócio lucrativo, havia a preocupação com a mão-de-obra em um país mal povoado como era o Brasil. Por outro lado, o fato das grandes fortunas criadas pelo tráfico serem portuguesas, e não brasileiras, pesou em favor da abolição do comércio de escravos.

E esse capital que estava empregado no comércio de escravos tinha que ir para algum lugar e houve ainda um grande aumento na concessão de crédito que criava fortunas rapidamente e colocava de lado os fazendeiros. Um dos beneficiados desse movimento foi o barão de Mauá, grande industrial brasileiro de ascensão meteórica e igualmente espetacular queda. O comércio exterior foi bastante afetado, as importações aumentando após a supressão do tráfico.

Esse foi um choque grande entre duas culturas, a urbana e a rural, e apesar do duro golpe dado pela Lei Eusébio Queirós, o meio rural ainda tinha influência e tomaria atitudes contra essas novas ideias e práticas. Uma delas foi a Tarifa Silva Ferraz de 1860 isentando de imposto de importação uma série de bens de capital, o que acabou representando a ruína do Barão de Mauá. Mauá já vinha sofrendo pressões de todos os lados dos que buscavam manter a antiga ordem agrária e essa tarifa foi um golpe fatal para o empresário.

Mauá seria execrado por Gaspar Silveira Martins por seu apoio ao visconde de Rio Branco, apesar de pertencer a outro partido. E esse episódio mostraria bem a mentalidade da época, a de que uma pessoa filiada a um partido tinha um dever de fidelidade com a instituição. O partido e outras instituições seriam constituídas de maneira parecida com a família, onde vínculos biológicos e afetivos teriam preponderância sobre todas as demais considerações. A associação entre as pessoas seria por conta de sentimentos e deveres, não por interesses ou ideias. Ou seja, mesmo em um momento modernizador as velhas raízes rurais se manifestariam.

Esse tipo de mentalidade teve origem nos domínios rurais, como os engenhos, onde o proprietário de terra tinha autoridade absoluta e inconteste. O engenho era um organismo completo, possuindo tudo o que era necessário para sua sobrevivência, de comida à capela para missa. Por toda a colonização e até depois da independência predominava esse tipo de propriedade rural autossuficiente. O Brasil é classificado como patriarcal por conta dessa organização social em torno do círculo familiar capitaneado pelo pater-familias tendo seu núcleo expandido com escravos e agregados. Era um grupo imerso em si mesmo que resistia às pressões externas e que desprezava qualquer princípio superior que pudesse afetá-lo.

Essa mentalidade afetou os relacionamentos fora da família, de forma que a entidade privada sempre tinha precedência sobre a entidade pública e prevaleciam as preferências fundadas em laços afetivos. Por conta disso, predominou na vida social sentimentos próprios à comunidade doméstica, resultando na invasão do público pelo privado, invasão do Estado pela família.

A urbanização precipitada pela vinda da família real ao Brasil e depois pela independência não deixou de sofrer com essas influências, já que as pessoas que migraram para as cidades acabaram levando essa mentalidade com eles. Parte dessas mentalidades era que o trabalho manual é pouco dignificante e que o chamado trabalho mental, própria dos senhores de escravos, é que era o mais importante. Não que as pessoas apreciassem o pensamento especulativo, e sim que tinham “amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara”, nas palavras do autor.

Ou seja, era mais ornamento e prenda do que instrumento de conhecimento e de ação. Isso derivava da necessidade de se distinguir dos semelhantes em uma sociedade personalista por alguma virtude que parece ser congênita e intransferível, na ausência de nobreza de sangue. Essa inteligência não se prestava ao aumento da produtividade da economia, diferente do que ocorria em outros lugares, porque esse era um tipo de inteligência muito impessoal.

A concepção que se criou de um estado ideal é que o soberano do país deveria considerar-se um chefe da família e amparar a todos como seus filhos. Na sociedade patriarcal e personalista, o governo deveria ter esse caráter paternal para ser considerado justo e poderoso, assim pensavam na época e talvez até hoje. Dessa forma, a sociedade patriarcal foi o modelo da vida política e da relação entre governantes e governados. Ou seja, o Brasil estava na contramão da Revolução Industrial na economia e da Revolução Francesa e Americana na política.

O Brasil teve um desenvolvimento peculiar, onde não era a cidade que se valia do campo, e sim o contrário. Como a urbanização era feita por indivíduos vindo dos meios rurais, toda a administração do Império e até da República tinha elementos do velho sistema senhorial. Dessa forma, as práticas que eram próprias dos meios rurais passaram para os meios urbanos. O meio rural tinha tanto prestígio que, diferente de outros lugares, no Brasil o dono das terras residia nessas terras, e não em uma propriedade urbana.

E a última observação desse capítulo é que tudo isso se processou intencionalmente, não era de maneira alguma uma imposição do meio, não havia nenhum fator especial que afastasse a aristocracia da cidade.

Alguns desses temas reaparecerão nos próximos dois capítulos, que serão discutidos no próximo vídeo.

Raízes do Brasil (#1) - Fronteiras da Europa



Sobre o Portugal, vou falar sobre um dos livros considerados fundamentais para a compreensão da história brasileira, Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936. As raízes da qual o título são as raízes ibéricas, a herança da colonização portuguesa que chegam até os dias de hoje e que, segundo o autor, é uma das razões do atraso brasileiro. A gameplay desse vídeo e dos próximos dois é do Civilizations V, usando o Brasil como civilização.

Nesse vídeo, vou falar sobre os dois primeiros capítulos, o primeiro deles intitulado “Fronteiras da Europa” e vou ainda fazer dois vídeos sobre esse livro para essa série. Nesse capítulo inicial, o autor considera o brasileiro um desterrado em sua própria terra, com a transplantação de formas de convívio, instituições e ideias em um ambiente diferente.

A colonização brasileira veio de um país ibérico, que o autor considera ser um território-ponte pelos quais a Europa se comunica com outras partes do mundo, Espanha e Portugal sendo uma ponte com a África além das Américas. Os dois países ibéricos, até por conta da dominação muçulmana por tanto tempo, acabou se desenvolvendo meio que à margem dos seus pares continentais. Os descobrimentos acabaram por inserir Portugal e Espanha no cenário europeu e até coloca-los acima dos demais por algum tempo.

Logo, para entender o Brasil, primeiro é necessário entender seu colonizador. No começo do livro, o autor analisa os países ibéricos em conjunto, para só depois diferencia-los. Um dos traços em comum dos ibéricos que se manifestou na colonização foi a cultura da personalidade, que diz respeito à importância que os ibéricos atribuem ao valor próprio da pessoa humana e à autonomia. O valor de uma pessoa se daria pela extensão em que não precise depender de outros, em que se baste.

Disso, surge a fraqueza das formas de organização, de qualquer associação que implique solidariedade e ordenação entre os povos. Solidariedade e associação existem, mas principalmente quando há alguma vinculação de sentimentos acima de interesses em comum. Exemplos de obras em conjunto por motivos emotivos são obras de igreja e mutirões de ajuda. Nas relações entre os brasileiros coloniais, o objetivo material comum era secundário, e o que importava mais era o benefício ou o dano que uma parte pode fazer a outra. Nas palavras do autor: “O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente energética do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras”. A isso se deve a frouxidão da estrutura social e a falta de hierarquia organizada que o autor notava em sua época e que persiste hoje em dia.

Em comum aos ibéricos e aos seus colonizados, está a invencível repulsa a toda moral fundada no culto ao trabalho, nas palavras do autor, em contraste com os países protestantes. As virtudes prezadas pelos ibéricos, como a inteireza, o ser, a gravidade, o termo honrado, o proceder sisudo, são virtudes inativas, pelas quais o indivíduo se reflete sobre si mesmo. A ação sobre as coisas significa se submeter a um objeto exterior e busca a perfeição desse objeto à perfeição da pessoa, o que é estranho ao personalismo ibérico. É um ponto de vista parecido com o da antiguidade, onde o ócio está acima do negócio e a contemplação acima da atividade produtora.

No segundo capítulo “Trabalho & Aventura”, o autor distingue duas mentalidades diferentes, a do trabalhador e a do aventureiro. O aventureiro está mais focado no objetivo final, seu ideal sendo colher os frutos sem plantar a árvore. Ignora fronteiras e sabe transformar obstáculos em trampolins. O trabalhador, ao contrário, enxerga primeiro a dificuldade a ser superado e então o triunfo a alcançar. Está disposto a empreender esforços lentos, pouco compensadores na margem e persistentes. A ética do aventureiro enaltece os esforços empreendidos para uma recompensa imediata, enquanto a ética do trabalho enaltece os esforços que visam a estabilidade sem perspectiva de ganho rápido. Certamente que esses são tipos ideais, e não uma classificação rígida de indivíduos reais, mas essa é uma tipificação que ajuda a entender melhor as pessoas que participaram da colonização.

Na Conquista das Américas pelos ibéricos, o trabalhador teve um papel limitado, a obra e o ambiente sendo mais propício para os aventureiros. O colonizador ibérico ansiava por prosperidade sem custo, títulos honoríficos, posições e riquezas fáceis. Esse espírito de aventura motivou a exploração do Novo Mundo e era um “elemento orquestrador por excelência”, na expressão do autor.

O português veio ao Brasil atrás de riquezas que custavam ousadia, e não trabalho. Isso se manifestava na busca por atividades de lucro rápido, o uso de mão de obra importada da África, já que os índios não estavam adaptados ao trabalho sedentário, entre outras restrições, e também na utilização de técnicas rudimentares de agricultura. O ibérico não tinha uma relação com a terra que utilizava, a lógica sendo a de extrair do solo sem grandes sacrifícios.

Uma característica dos portugueses é a falta de orgulho racial, uma vez que o país já era miscigenado antes mesmo de virem ao Brasil. Havia uma distância social entre dominados e dominadores relativamente baixa em relação a outros países, o que fez com que os escravos tivessem uma influência grande na sociedade colonial. Os índios tinham uma estima até que grande entre os portugueses, já que compartilhavam algumas características, como a de não gostar de muito trabalho braçal. O estigma social dos escravos e de seus descendentes vinha justamente de sua associação com trabalhos manuais.

E uma consequência da forma de organização da atividade no Brasil, com uso de trabalho escravo, grandes propriedades e monocultura, foi a falta de cooperação com as demais atividades produtivas na colônia, manifestada na fraqueza das agremiações profissionais, diferente do que ocorria nas colônias espanholas. E havia uma série de impedimentos ao surgimento de trabalhos que necessitavam de uma vocação decidida de longo prazo, como a ânsia por ganhos rápidos também nos meios urbanos, a canalização da mão de obra escrava para o campo e o uso de negros de ganho para transferir o trabalho braçal para escravos. As pessoas pulavam de um trabalho para outro que parecesse mais lucrativo, o que reduziu a incidência de gerações de famílias seguindo uma mesma profissão.

No que se refere à fracassada colonização holandesa, o sucesso aparente pelo legado urbano que persiste até hoje acabou não sendo tão sucesso já que os holandeses não conseguiram transferir essa prosperidade para o campo. Poucos holandeses estavam dispostos a trocar a cidade pelo campo, ou mesmo a Holanda pelo trabalho no campo no Brasil e a produção de açúcar acabou ficando nas mãos de portugueses e luso-brasileiros. Os holandeses não conseguiram se adaptar bem ao Brasil e nem os nativos a eles. A língua holandesa era considerada mais difícil de ser assimilada pelos índios e pelos africanos e a religião reformada dos protestante excitava menos a imaginação e sentidos dos nativos. A ausência de orgulho racial era outra vantagem dos portugueses que os holandeses não conseguiram copiar.

Sobre os dois primeiros capítulos do Raízes do Brasil era isso que eu tinha para falar.

Conquista Espanhola (#7) - Administração da colônia


Na última parte da série sobre América Latina, vou falar sobre a administração espanhola da colônia. A fonte de informação é o livro The Penguin History of Latin America. A gameplay é do jogo Expeditions: Conquistador.

A colonização espanhola da América Latina foi operacionalizada por entes privados agindo com autorização da Coroa Espanhola, mas que não tinham direito de propriedade sobre o que descobriam. A colônia espanhola era um estado patrimonial, com todo o poder concentrado no rei da Espanha e as instituições coloniais eram estruturadas de forma a fazer valer a vontade real.

No começo, a administração da colônia era feita por um subcomitê do Conselho de Castela e conforme foi se tornando mais complexo, após a conquista do México, um Conselho próprio foi criado. Como a colônia estava em desordem no México e no Peru, a Espanha estabeleceu um sistema de vice-realeza para afirmar a autoridade real no Novo Mundo. Assim, as Índias seriam um reino distinto da Espanha, ela própria formada por vários reinos (Castela, Aragão, Leão, Navarra) sob um único soberano. Diferente de possessões europeias, que tinham uma série de restrições ao exercício do poder, o monarca poderia exercer poder absoluto sobre as Índias através do vice-rei e da burocracia real.

A colônia era separada em dois vice-reinos. Ao norte do istmo do Panamá, o Vice-Reinado da Nova Espanha com capital na Cidade do México. Na América do Sul, o Vice-Reinado do Peru com sede em Lima. Como o território era vasto, foram criadas unidades administrativas menores ligadas às capitais. A unidade administrativa básica era a província, gerida por um governador, um conquistador importante que ficava responsável pela região, inclusive as comunidades indígenas.

As províncias ficavam sob a jurisdição de uma audiência, uma corte judicial com poderes administrativos e executivos situadas nas capitais das principais províncias. Os territórios administrados por uma audiência eram considerados um reino distinto do vice-reino, como o Reino da Guatemala que compreende Guatemala, Chiapas, Honduras, Costa Rica e outras províncias. De início, o vice-rei era presidente das audiências menores além das audiências das capitais, mas com o tempo essas passaram a ter seus presidentes, embora o vice-rei continuasse como governador militar e responsável último pelas políticas de estado.

Havia algumas províncias tão importantes que, embora sob a jurisdição de um vice-reino, eram responsabilidade de capitães gerais que se reportavam diretamente para o Conselho das Índias na Espanha. Eram quatro as capitanias gerais: Guatemala, Santo Domingo, Nova Granada e Chile. A capitania-geral tinha um status entre a presidência e o vice-reino.

Nessa estrutura, quem tinha o poder no final das contas era a Coroa, que apontava os principais postos e decidia sobre políticas de estado através do Conselho das Índias, apesar de delegar poder administrativo e executivo para esferas inferiores. É como se o presidente da república deixasse os governadores e prefeitos cuidarem de assuntos cotidianos dos estados e municípios, mas decidisse sobre as políticas mais importantes. As deliberações subiam até o Conselho das Índias, que conversava com o rei para depois emitir as ordens que descem de volta para o Novo Mundo. Com exceção dos conselhos municipais (cabildos), não havia cargos eletivos e nem havia um mecanismo de controle das finanças do Estado. A única maneira dos súditos se expressarem era através de súplicas ao monarca ou apelo a ordens judiciais. Dessa forma, a Coroa dominava por completo a vida política na colônia, isso sem que nenhum monarca tenha pisado na colônia.

A principal figura de autoridade na colônia era o vice-rei, responsável por fazer cumprir a vontade do rei. Ele devia executar os decretos reais, cuidar da administração da justiça, supervisionar as finanças e também era responsável pelo bem-estar material e espiritual dos índios. Depois do vice-rei, vinha os juízes das audiências, os oidores. A audiência era a suprema corte de lei em sua esfera de atuação. O vice-rei não podia intervir em uma decisão da audiência, mas podia supervisionar os processos. Além do mais, tinham funções administrativas e executivas cumpridas após consulta com o vice-rei. Os oidores podiam influenciar o vice-rei e, portanto, participavam da administração da colônia e eram responsáveis por supervisionar o comportamento do vice-rei e reporta-lo ao Conselho das Índias se necessário. O mandato dos oidores costumava ser mais longo do que dos vice-reis e por isso eles acabavam se interessante pelas questões locais. (8)

Oficiais do tesouro eram outra figura importante na administração colonial. Em toda expedição ia junto um funcionário real para assegurar que a Coroa recebesse a sua parte da pilhagem. Assim que a cidade era fundada, esse funcionário era responsável pela coleta dos impostos para a Coroa, que depois passava pelo escrutínio da audiência e do vice-rei. A maior parte da receita vinha do quinto, o imposto de 20% sobre os metais preciosos encontrados na colônia. Havia também o almojarifazgo, imposto de importação, a alcabala, imposto sobre vendas, tributos sobre os índios, impostos especiais para financiar guerras contra infiéis e por ai vai. Em emergências, a Coroa pode criar impostos extraordinários e empréstimos compulsórios.

A Coroa nomeava bispos e clérigos na colônia e essa era mais uma maneira da Coroa influenciar a administração da colônia, dada a elevada influência dessas figuras nos assuntos coloniais. Tribunais da Inquisição foram instalados em Lima e na Cidade do México no século XVI, mas isso não foi tão influente já que a ameaça protestante nas Índias era baixa. A atuação ia mais no sentido de punir blasfemadores, adúlteros, clérigos corruptos e censurar livros.

A competição dessas várias instituições – vice-rei, audiências e igreja – criou um sistema de pesos e contrapesos que impedia a concentração de poder na colônia além, é claro, da autoridade real. Além do mais, havia restrições impostas aos altos oficiais em suas relações com os locais, como impedimento de casamento com uma família local ou a compra de terras. A maioria dos altos postos eram preenchidos por espanhóis vindos da Espanha e mesmo quando alguém da colônia era escolhido ele vinha de outro reino. Havia ainda a residência, a auditoria de alguém vindo da Espanha ou de outros reinos sobre algum oficial. Isso era feito para simultaneamente preservar a autonomia das autoridades em relação à sociedade civil que eles governam e preservar a autoridade real na colônia.

Porém, com o crescimento da colônia, a autoridade real passou a ser exercida com menos eficiência. Os éditos reais partiam da Espanha e passavam por várias barreiras e burocracias conforme desciam na hierarquia. Apesar das providências reais, a corrupção era generalizada, com os oficiais considerando-se proprietários dos territórios administrados e os baixos salários incentivando o uso do cargo para ganhos pessoais. As leis que buscavam evitar o envolvimento local dos alto administradores eram sistematicamente desrespeitadas, mas, de resto, os ocupantes de altos cargos eram relativamente honestos. A corrupção grassava nas partes inferiores da hierarquia e isso também afetava a rede de proteção que a Coroa impunha sobre os índios.

A administração local refletia a separação judicial entre indígenas e espanhóis que a Coroa criou para tentar proteger os nativos. Cada raça era alocada em suas próprias municipalidades e cada jurisdição era supervisionada por um administrador real. No setor hispânico, as províncias eram divididas em corrigimientos administrados por um corregedor, que tinha poderes judiciais e executivos limitados, se subordinando ao governador da província e da audiência acima deste. Nos corregimientos, havia o cabildo, o conselho municipal, com membros escolhidos pelo corregedor entre os moradores locais, o corregedor vindo de fora. O cabildo era oligárquico já que o corregedor tendia a escolher os cidadãos mais abastados. O cabildo podia cobrar impostos locais, alocar terra municipal e essas decisões tendiam a servir aos interesses das famílias poderosas.

Os índios viviam à parte dos espanhóis e seguiam em boa parte os costumes locais de antes da colonização, com a liderança sendo exercida de forma hereditária. Mas a Coroa imporia algumas instituições espanholas e as misturaria com as indígenas. Conselhos municipais eram criados de forma parecida com as suas contrapartes espanholas. Esses conselhos também eram oligárquicos, mas o poder das famílias mais poderosas acabou se reduzindo por conta dos deslocamentos promovidos pela Coroa que acabaram diminuindo as lealdades tribais, o que abriu espaço para índios menos favorecidos. Os conselhos municipais acabaram nivelando e aculturando os indígenas.

Com o tempo, haveria a imposição de corregimientos nas áreas indígenas e o corregedor de índios era um espanhol, não um nativo, e ainda por cima um espanhol americano em conluio com os donos de terras da região. Esse corregedor era o oficial real mais próximo dos índios e era seu dever cuidar do bem-estar dos nativos ao mesmo tempo em que coletava tributos e organizava o trabalho dos indígenas. Como o corregedor podia participar do comércio, o salário era baixo e ele tinha um mandato limitado a dois ou três anos, o corregedor aproveitava esses anos para acelerar o trabalho dos índios para explorá-los ao máximo para seu benefício.

Todas essas instituições se basearam em um modelo que funcionou bem na Europa, mas, apesar das adaptações à realidade do Novo Mundo, o modelo não funcionou muito bem. Contribuíram para isso a distância entre Espanha e Novo Mundo e a fraqueza financeira da metrópole, que não permitiu financiar uma administração mais eficiente.