terça-feira, 13 de maio de 2014

Nausicaä do Vale dos Ventos



Texto do vídeo: Ni no Kuni (#5) - Nausicaä

Olá. Sejam bem-vindos a Ni No Kuni. Nesse vídeo, vou falar sobre o filme Nausicaä do Vale dos Ventos. Esse é um dos primeiros filmes do Miyazaki, lançado em 1984, antes mesmo do Totoro, e eu considero um dos melhores. Não é tecnicamente um filme do Studio Ghibli, já que foi feito antes da criação do Ghibli, mas tá valendo.

Antes de tudo, falar um pouco sobre o enredo e a ambientação. O filme se passa em um mundo pós-apocalítico onde há áreas do mundo totalmente poluídas e inóspita para os humanos, com florestas tóxicas cheias de insetos gigantes. A protagonista do filme é a Nausicaä, princesa do Vale dos Ventos. Um dia, uma gigantesca aeronave tolmekiana cai no Vale dos Ventos e isso gera uma invasão pelo reino de Tolmekia.

Eu não vou resumir o enredo inteiro do filme, só passei essa introdução para situar quem não viu o filme. Se quiserem ler uma sinopse, é só procurar na internet. O interessante do filme é que todos os principais elementos dos filmes do Miyazaki estão presentes: temática ambiental, voo, e não apenas de aeronaves, postura anti-guerra, ambiguidade e protagonistas femininas fortes.

No primeiro tema, o filme consegue falar de meio ambiente sem ser demagógico. Da mesma maneira que o Mononoke Hime, mostra um conflito entre natureza e humanidade de maneira mais equilibrada, embora nem tanto quanto nesse outro filme. Toda a ambientação do mundo de Nausicaä mostra o resultado de uma intervenção desastrosa dos humanos na natureza e a protagonista tenta dar um jeito de consertar isso, em certa altura do filme descobrindo como purificar a água. Os próprios humanos no filme não parecem ter se dado conta de que foram eles os responsáveis por esse desastre e depois de algumas pesquisas a Nausicaä acaba descobrindo isso.

A personagem se vê no meio de uma guerra onde a antagonista, Kushana, pretendia usar o Gigante Guerreiro que estava no avião que caiu no Vale dos Ventos contra os seus inimigos. Kushana não é pintada como uma vilã super malvadona, da mesma maneira que a Eboshi, mas nesse filme fica mais claro que Kushana está do lado errado da história, diferente da Eboshi do Mononoke Hime. A Nausicaä trabalha o filme quase inteiro para evitar que Kushana faça isso, sendo uma força anti guerra como o Ashitaka do Mononoke Hime e outros personagens dos filmes de Miyazaki.

Voo está presente no filme inteiro, com aeronaves gigantescas, incluindo algumas cenas de ação com aviões, mas principalmente com o planador que a protagonista utiliza, o Mehve, que vem do alemão Möwe, gaivota em português. Essa é uma das coisas mais bacanas do filme, fazendo algumas cenas de ação bem interessantes e também atiçando a nossa imaginação sobre como seria ser capaz de voar sem estar dentro de um avião, balão ou qualquer outra coisa. Sim, existe planador da vida real, mas não um motorizado como o Mehve da Nausicaä.

E o último tema que eu listei é o da personagem feminina forte. Embora Kushana entre nessa categoria eu estou pensando mais especificamente na Nausicaä. Eu consigo ela como a melhor personagem feminina de uma obra de fantasia e ficção científica, amplamente abrangendo animes, mangás, filmes de animação, fantasia, aventura, ficção científica, vídeo games etc. Ela é decidida, tem liderança, carisma, tem força, como se vê em uma cena em que ela enlouquece e mata uns quatro na paulada, mas tudo isso sem perder feminilidade e delicadeza. Ela adora animais, seja as montarias que utiliza, da qual falarei depois, seja os insetos que deveriam ser seu inimigo. Além de precisar de agilidade, habilidade no planador e, em menor escala, força, ela precisa convencer pessoas a fazer o que ela acha que precisam que façam, e o faz com delicadeza e simpatia. Por tudo isso, acho ela uma excelente personagem. Se me permitem o comentário, para ficar perfeita só faltaria ser mais bonita, mas na verdade o próprio carisma da personagem já é o suficiente para torna-la mais bonita, digamos assim, embora sem isso ela seja apenas média.

Bom, agora vou falar sobre influências do filme. A montaria que a Nausicaä utiliza inspirou diretamente os chocobos de Final Fantasy, como o próprio Hironobu Sakaguchi admitiria. O Mehve inspirou a busca por modelos reais que funcionassem da mesma maneira, como o OpenSky M-02 (vou colocar na descrição do vídeo a página da Wikipédia sobre o tema).

Por fim, só uma nota sobre os dubladores. Temos nomes bem famosos, como Mark Hamill, Patrick Stewart e Uma Thurman como a Kushana. A Nausicaä é dublada pela Alison Lohman, que não é tão famosa assim, mas eu tenho certo, carinho, por assim dizer, por ela. Na série Crusade, spin-off do Babylon 5, ela tem um papel bem pequeno em um dos episódios em 1999. Apesar de aparecer pouco, eu achei ela super bonita e fiquei interessado em ver outros filmes. Ela já apareceu em papéis maiores, como no Beowulf, mas eu acabei não vendo nenhum filme dela.


Enfim, fecha parênteses só para terminar o que eu tinha que falar sobre o filme.

Mononoke Hime



Texto do vídeo: Ni no Kuni (#3) - Mononoke Hime

Agora eu vou falar sobre o que eu considero ser o melhor filme do Miyazaki, o Mononoke Hime, ou Princesa Mononoke, que também é um dos meus filmes favoritos. E o cenário é bem propício, uma dungeon em uma floresta. Acho que resumir o enredo não faz muito jus ao filme, mas vamos começar com isso. O filme basicamente conta a história de um jovem, Ashitaka, que foi amaldiçoado após matar um demônio, por assim dizer, e precisa partir em jornada para descobrir uma maneira de se curar.

A maior virtude do filme é a história, não tanto pelo enredo, pela sequência de eventos, mas por um elemento muito raro de se ver em outras histórias do gênero. O filme não é maniqueísta, não mostra uma luta de uma força do bem contra uma força do mal. O conflito básico do filme é entre os humanos, liderados por Lady Eboshi, e os animais divinos, como lobos e javalis que falam como humanos. Eboshi criou uma cidade onde é produzido aço e ela passa por cima da natureza e entra em conflitos com os lobos, incluindo uma humana criada entre eles, San, e os javalis. O demônio que amaldiçoou Ashitaka era um deus javali transformado em demônio por um tiro desferido em conflito com Eboshi, que utiliza armas de fogo.

Por essa descrição, pode parecer que Eboshi está errada, mas a verdade é que a cidade traz muita prosperidade e segurança para seus habitantes. Ela acolheu todo tipo de gente que seria marginalizada em outros lugares, como homens com lepra e prostitutas, que trabalham para Eboshi, os leprosos na fabricação de armas, as mulheres na fabricação do aço. E os animais são tão violentos em relação aos humanos quanto os humanos são para defender a sua cidade. No meio disso tudo, temos o personagem principal que tenta achar uma solução pacífica ao mesmo tempo em que busca a cura para a sua maldição.

Ou seja, um tema frequente nos filmes do Miyazaki, o meio-ambiente, é tratado aqui de uma maneira muito mais equilibrada que em outras obras, que geralmente escolhem um lado e acabam passando uma mensagem demagógica. Temos dois lados com interesses legítimos que acabaram entrando em violento choque. Eboshi é uma líder muito admirada por seus seguidores e tornou a vida de pessoas que seriam párias em outros lugares muito melhor. Faz isso por interesse próprio, sim, mas seus negócios acabam tornando a vida de todos os humanos melhor. Porém, ela não tem qualquer escrúpulo de passar por cima da natureza, que revida com a mesma força. Tirando a parte dos espíritos da floresta, o filme não mostra a natureza como uma força boazinha, e sim como uma força implacável. A natureza não fica passiva diante do avanço humano e vai revidar e esse é o grande conflito do filme, o conflito entre progresso e conservação.

Ou seja, não temos violões e mocinhos nesse filme, diferente de quase todas as demais obras de qualquer mídia. Aqui não é nem que o lado mais candidato a vilão, o da Eboshi, seja retratado de uma forma benevolente, compreensiva, mostrando os motivos para ela ser má. Ela simplesmente não é totalmente má e os javalis e lobos não são totalmente bons. Se for para eleger um vilão, é o governo do Japão que puxou as cordinhas para forçar esse conflito.

O personagem principal, o Ashitaka, ele tem uma boa relação com os dois lados e o lado dos humanos não é retratado apenas pela líder, a Eboshi, que pode parecer mais antipática para alguns, mas também por outros personagens como um que ele salvou depois de um ataque dos lobos e as mulheres da vila da Eboshi. E também se dá bem com os lobos, principalmente com a humana-lobo, a princesa Mononoke do título. Ashitaka e San chegam a fazer um casal, embora, por conta dos eventos do final do filme, eles acabam não ficando junto, assistam para entender porque.

Isso tudo vem com cenas de ação muito bem feitas e até bastante realistas, com decapitações, braços arrancados (por flechas!, o que já não é tão realista) e tudo o mais. O filme tem um ritmo muito bom, não tendo longas sequências de diálogos como um filme que aborda o assunto da maneira que descrevi poderia fazer.

A trilha sonora do Joe Hisaishi é uma das melhores dos filmes do Miyazaki, principalmente o tema de encerramento e que toca em outro momento muito bonito do filme antes de um diálogo entre Ashitaka e a mãe da San.


Em suma, por um lado é um filme muito divertido de assistir, tem um bom enredo que prende o espectador e boas cenas de ação, entrecortadas por cenas mais reflexivas. Mas, além de ser um bom entretenimento, é um filme interessante por não pintar tudo de preto e branco e colocar um conflito sem heróis e vilões, o que não é tarefa fácil.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Contos Folclóricos de Camarões


Sobre Camarões, vou falar sobre alguns contos folclóricos que estão no livro African Myths of Origin organizado por Stephen Belcher. A gameplay é do jogo PHL's Air Flying Game, desenvolvido em Camarões. Não tem tanto a ver com o que eu vou falar, mas é um jogo simpático.

Os Fangs vivem na Floresta Equatorial do Gabão e de Camarões, tendo migrado para lá durante o século XIX. Seu estilo de vida era baseado em procurar por recursos na floresta onde vivem e apenas mais tarde se tornariam sedentários. A língua Bantu os une com outros grupos étnicos de Camarões, como os Bulu e os Beti. Hoje em dia, pouco do estilo de vida deles permanece, assim como floresta onde viviam, e suas práticas religiosas são sincréticas. As histórias a seguir foram coletadas durante o período colonial.

Primeiro, o mito de criação segundo os Fangs. O primeiro ser era Mebege, embora também se diga que a terra foi criada por uma gigantesca aranha que desceu do céu em uma longa teia e colocou o ovo que virar a Terra. Mebege criou os humanos, criando um lagarto de barro e o colocando na água, oito dias depois surgindo o primeiro homem, Nzame. A primeira mulher seria Oyeme-Mam e era irmã de Nzame.

Apesar de irmãos, os dois humanos primordiais tiveram relações. Não, isso não era normal entre os Fangs, e sim a pior corrupção que poderia existir. Como consequência, Mebege deixou a terra e encarregou os dois de continuar o trabalho da criação. Oyeme deu a luz a oito pares que se tornaram ancestrais dos vários grupos Fangs.

Nzame foi até Mebege, talvez em forma de espírito, e retornou com vários conhecimentos como o da agricultura. Apesar de não ter morrido, ou assim, diz a lenda, Nzame deixou o mundo, antes dando as instruções sobre a organização da sociedade. Mas houve brigas entre os herdeiros e o conhecimento não foi disseminado da maneira planejada. E dizem que é por isso que os brancos têm mais riqueza do que os africanos.

A próxima história do livro sobre os Fangs trata da migração. Antigamente, todos os povos viviam ao norte do atual território. O mito diz que eles eram atacados por gigantes vermelhos e migraram para o sul. No caminho, pararam em um rio, já que eles não tinham habilidades para construir navios. Mas eles encontraram um grande crocodilo, que ofereceu ajuda-los ao deitar sobre o rio de forma que eles conseguissem cruzá-lo. Ele ajudou o Gigante Vermelho a atravessar o rio, mas depois afundou nas águas, afogando o gigante.

Tendo atravessado o rio, chegaram em uma floresta e tiveram o caminho barrado por uma enorme árvore. Enquanto discutiam sobre como passar pela árvore, três pigmeus apareceram, que mostraram o caminho para passar pela árvore por uma estreita passagem. Porém, houve uma briga sobre qual grupo deveria liderar o caminho, se os jovens ou os anciões, então assim que passaram pela árvore, eles se dividiram em dois grupos e cada um tomou seu caminho próprio.

O livro conta ainda histórias dos Duala, um povo costal de Camarões que vive basicamente como intermediários entre os europeus e povos do interior. A história de Jeki La Njambe foi preservada até os dias de hoje. O mundo de Jeki é povoado por caçadores e pescadores vivendo ao longo da costa de Camarões. Os Duala hoje admitem que não entendem bem a história de Jeki, mas eles continuam a apresenta-la ritualisticamente.

Havia um homem chamado Inono Njambe. Ele tinha muitas esposas e filhos, mas se entregou ao estudo da feitiçaria e sacrificou muito de seus filhos e esposas para ganhar poder. Até que só sobou uma criança, chamada de Njambe Inono, e o povo da vila pensou que ele foi longe demais (mas só agora?!). Eles se reuniram e invadiram a casa de Inono Njambe, o amarrando, o espancaram com frondes de palmas e jogaram nozes de palma até que ele prometesse desistir da feitiçaria e deixasse o filho viver. Então, ele foi solto e não viveria muito mais, passando o seu conhecimento para o filho. Njambe Inono casou e teve filhos e depois de um tempo seria tentado pelo conhecimento de seu pai e pessoas começaram a desaparecer em sua família. Vendo isso, os vizinhos intercederam novamente, mas, ao invés de mata-lo, colocaram Njambe Inono em uma canoa e o despacharam junto com a esposa.

Em uma nova terra, Njambe plantou uma palmeira, que cresceu enormemente, e em seu topo colocou uma ave. Nas águas lançou um crocodilo e no meio de sua morada colocou um baú com um leopardo. Essas criaturas davam proteção mágica para a sua morada.

Njambe e sua esposa, Ngrijo, tiveram uma filha. Ngrijo ia com a filha trabalhar nos campos e um dia um chimpanzé apareceu enquanto a criança estava engatinhando na sombra das árvores. Os dois começaram a brincar e a mãe ficou preocupada de início, mas o chimpanzé reassegurou a mãe e a brincadeira se tornou recorrente. Quando a garota ficou núbil, o chimpanzé a levou. Ngrijo procurou, procurou, procurou e por fim voltou para casa para dar as notícias para Njambe, que imediatamente foi até a floresta e convocou o chimpanzé.

“Onde está minha filha?”, perguntou Njambe.

O chimpanzé confessou que a levou, mas disse que ele ajudou Njambe e Ngrijo a encontrar comida e nunca foi recompensado por isso, então ele a levou para viver com os espíritos da floresta. Depois dessas palavras, o chimpanzé sumiu.

Njambe teria outras esposas e teria vários filhos, menos de Ngrijo, apesar de seu ventre mostrar sinais de inchaço. Por não dar à luz a filhos, Njambe expulsaria Ngrijo de sua morada para uma cabana nas margens do rio. Os anos se passaram, os filhos de Njambe cresceram, mas nada de Ngrijo dar à luz, apesar do ventre inchado, que passou a atrapalhar as suas tarefas.

Até que um dia, enquanto cortava lenha, Ngrijo ouviu uma voz. “Mãe, me deixe sair e eu te ajudarei”. Então, Ngrijo deu à luz a uma criança do tamanho de um adulto. Então, ele ajudou a sua mãe com a lenha e depois voltaria para o ventre. A criança só voltaria a sair quando Ngrijo estava na praia coletando camarões junto com outras esposas de Njambe e a criança pediu para sair, preocupada com as águas que estavam recuando. A criança pediu para ser deixada nas águas, mas Ngrijo se recusou. Ele insistiu até que Ngrijo o deixou sair, para espanto das outras esposas, que fugiram de medo, deixando cair as suas cestas de camarões.

A criança salvou a mãe das ondas. Quando Ngrijo acordou, se viu em uma cabana cercada por cestas cheias de camarões. E, para surpresa geral, as outras esposas também se viram com as cestas que tinham deixado cair. Logo após isso, Jeki, a criança de Ngrijo, anunciaria que chegou a hora de nascer. Mas, antes de Jeki sair, Ngrijo deu à luz a uma série de bens, como tecidos, lingotes de metal, instrumentos de metal, Ngalo, o amuleto que Jeki usaria em suas aventuras e uma canoa que usaria para viajar pelas águas. Só então saiu Jeki.

A hostilidade de Njambe com Ngrijo se transportou para Jeki, agravado pelos relatos de seu estranho nascimento, e essa seria a razão de suas primeiras aventuras. E essa hostilidade se manifestou um dia quando Njambe convocou Jeki para um desafio. Ele deveria adivinhar o que estava dentro de um baú. Se errasse, ele seria espancado pelas outras crianças.

Primeiro, Jeki sugeriu que fosse tecido. Errou e seus meio irmãos bateram nele. Depois, disse que eram lingotes de cobre, errou novamente, e apanhou novamente até ficar quase inconsciente. Ele viu ao redor e percebeu que os seus meio irmãos estavam prontos para bater nele até matar. Chegou a hora, então, de encerrar esse jogo.

“Eu vou dizer a vocês como eu deveria ter feito de início”. A intenção de Jeki era averiguar quanto era odiado na família. Ele respondeu que o baú continha um piolho que Njambe tirou da cabeça. Piolho fêmea, a propósito. Todos ficaram em silêncio e Jeki ganhou desta vez.

Mas essa falha não parou Njambe. Os dois irmãos mais velhos foram chamar Jeki em sua cabana. Ngrijo não queria que ele fosse, mas, muito confiante de que Njambe não poderia machuca-lo, ele foi. Njambe pediu para que Jeki lustrasse um baú que seria vendido. Se vocês lembrarem bem, havia um baú com um leopardo, e adivinha se não é esse o baú que Njambe pediu para ser lustrado! Jeki ergue o amuleto Ngalo, pedindo por orientação, e ele lhe orientou a levar o baú até a água e assim ele fez, seguido secretamente pelos irmãos que queriam ver a sua morte.

Jeki levou o baú até a água bater em sua cintura e depois o emergiu sentando em cima dele. Em seguida, o abriu e encontrou o leopardo e filhotes afogados (não se sabe como eles sobreviviam no baú). Depois, Jeki limpou o interior e levou o baú até Njambe, que então pediu para que Jeki trouxesse o grande crocodilo que vivia nas águas.

Jeki pegou a sua canoa e seguiu viagem. Ele perguntaria ao amuleto Ngalo o que essa missão significava, e ele confirmaria que é mais uma tentativa de mata-lo, mas que ele poderia sobreviver se fosse educado. Jeki encontrou o enorme crocodilo e disse que seu pai, Njambe, queria reunir um conselho e que precisava da sabedoria do crocodilo. Ele concordou e seguiu Jeki de volta até a vila. Jeki, junto com o amuleto Ngalo, cantou uma canção de poder de forma que as ondas que batiam no crocodilo jogassem uma magia que o encantou e o trouxe para controle de Jeki, que levou o crocodilo até o centro da vila. Não sem destruir algumas casas e engolir cabras e esposas de Njambe.

“Pronto, trouxe o crocodilo, pai. O que faremos agora?”, perguntou Jeki, possivelmente com uma boa dose de cinismo.

“Leve de volta!”, pediu/implorou Njambe. Jeki invocou uma onda que levantou e levou embora o crocodilo, o segundo dos animais que Njambe trouxe para a ilha. Se vocês lembram bem, o terceiro animal trazido à ilha foi um pássaro posto no topo de uma altíssima palmeira.

Era de se esperar que Njambe tivesse aprendido a lição e resolvesse não mexer com Jeki. Pois é, não foi isso que aconteceu. Novamente, os irmãos o chamaram com mais uma tarefa de Njambe. Ele pediu para que Jeki subisse a palmeira e coletasse as frutas da palmeira. Dessa vez, Jeki sabia o que o esperava, no topo estando Kambo, a ave que atacaria quem tentasse pegar as frutas. Mas, novamente sabendo do perigo, Jeki aceitou o desafio.

Jeki chamou os seus irmãos para coletar as frutas lá em cima. Disseram que o pai deles tinha ordenado que Jeki fizesse sozinho e ele respondeu que ele ordenava que os irmãos o ajudassem, mostrando o amuleto Ngalo. Ninguém ousou desafiá-lo.

O mais velho dos irmãos foi primeiro. Quando estava chegando perto do topo, foi atacado pela ave, caiu da palmeira e morreu.

“Esse não sabia escalar”, vaticinou Jeki, enquanto jogava o corpo para trás da cabana mais próxima. Em seguida, iria o segundo irmão mais velho, que também terminaria na parte de trás da cabana mais próxima. Depois, iriam os irmãos que bateram nele e depois aqueles cujas mães eram preferidas à Ngrijo.

Quando todos os desafetos tentaram, foi a vez de Jeki ir. Ele jogou uma poção no tronco da árvore e subiu, batendo o amuleto Ngalo na casca de vez em quando. E o bater do amuleto incomodou a ave Kambo, que viu a aproximação de Jeki, mas ficou preocupado. Chegando ao topo, pegou o machado e cortou as frutas, que caíram na vila abaixo quase cobrindo algumas casas com as frutas.

“Vou pegar o pássaro também”, disse Jeki, que subiu ao topo da palmeira. Mas, antes de chegar, Kambo já tinha fugido. Porém, não estava longe, e Jeki pegou uma vinha, um dos instrumentos mágicos recebidos em seu nascimento, e pegou Kambo, que caiu no topo da palmeira. Jeki empurrou a ave para baixo e depois desceu.

Lá embaixo, a ave estava coberta por óleo de palma e Jeki tacou fogo em Kambo, que rapidamente virou cinzas. Jeki comeu parte das cinzas e guardou o resto em sua bolsa de instrumentos mágicos. Então, apareceu Njambe, que viu a sua casa ser coberta pelos frutos da palma, viu o corpo de seus filhos empilhado e viu o último símbolo de seu poder consumido por sua cria e desfaleceu.

Jeki então foi para a floresta, reuniu algumas ervas e preparou uma poção. Depois, jogaria essa poção nos corpos dos seus irmãos e um a um eles foram restaurados. Kambo também ressurgiria das partes que Jeki engolira.

Desde então, agora sim, Njambe e seus filhos deixariam de tentar matar Jeki, mas não perderiam oportunidades de menosprezar Jeki, apesar de seu manifesto poder. Uma dessas oportunidades foi quando descobriram que ele não era o primeiro filho de Ngrijo e que a primeira foi raptada por um chimpanzé.

O próprio Jeki não sabia nada sobre isso. Perguntou à mãe, que não contou a verdade e disse para que ele ignorasse as outras crianças. Insatisfeito, Jeki foi até o pai, que contou o que aconteceu com a sua irmã mais velha. Jeki então foi atrás de sua irmã, retornando para casa antes para coletar itens que pudessem ajuda-lo em sua busca.

Guiado pelo amuleto Ngalo, Jeki se infiltrou nas florestas, até chegar a um enorme portão de metal que marcava a entrada para o reino dos bedimo, os chimpanzés que levaram a sua irmã. Ele abriu o portão e entrou, encontrando nada além de escuridão. Ngalo diz que humanos não podem enxergar os espíritos, apenas cheirá-los, e o aconselha a se tornar invisível e se dar o cheiro dos espíritos. Ele engoliu um pó para se tornar invisível e esfregou uma goma para tomar o cheiro dos espíritos, e então entrou. Conforme caminhava pelo reino, os espíritos o cumprimentavam como se fosse um deles.

Ngalo o orientou pelo seu caminho e o levou até uma cabana, indicando que sua irmã estava lá dentro. Porém, entrando, ele não viu uma garota, e sim uma dúzia de belas garotas.

“Eu vim atrás de minha irmã”, disse Jeki. “Leve-me”, responderam todas, com uma voz musical.

Jeki então soprou um chifre de antipole e abelhas voaram dele e se reuniram até uma das garotas.

“Você é a minha irmã” disse Jeki à garota cercada pelas abelhas. “Você quer voltar comigo?”.

A garota aceitou a oferta de Jeki, que deu a mesma goma para ela passar no corpo e adquirir o cheiro dos espíritos. Os dois seguiram o caminho de volta e chegaram ao portão de metal e depois de volta à vila.


Basicamente, eram essas as histórias do livro African Myths of Origin, havendo outras que por questão de tempo eu prefiro não abordar.

domingo, 11 de maio de 2014

Lendas Cabilas da Criação


Sobre a Argélia, vou falar sobre as Lendas Cabilas da Criação com base no livro A gênese africana, de Leo Frobenius. O jogo será o Indiana Jones and the Fate of Atlantis, na parte do jogo que se passa em Argel, capital da Argélia. Não tem muito a ver com o que eu vou falar, mas pelo menos se passa no país em questão.

Os cabilas eram um povo berbere que habitava o nordeste da Argélia e o livro que eu estou utilizando tem uma longa parte dedicada aos berberes em geral, cabila em particular. Vou falar sobre o primeiro grupo de estórias, os mitos de criação dos cabilas.

No começo, havia apenas um homem e uma mulher que viviam debaixo da terra, não acima dela e não sabiam que a outra pessoa era um sexo diferente. Um dia, foram beber água, se desentenderam sobre quem beberia primeiro e lutaram. As roupas caíram e ele viu que ela tinha uma taschunt e ele sentiu que tinha um thabuscht. Olhou para a taschunt e perguntou para que servia.

- Ah, é bom – disse ela.

Ele deitou-se sobre ela e ficou assim por oito dia. Nove meses depois, ela teve quatro filhas. E depois de mais nove meses, teve quatro filhos. E depois mais quatro filhas e em seguida mais quatro filhos. No fim, tiveram cinquenta filhas e cinquenta filhos. Eles não sabiam o que fazer com tanta criança e as mandaram embora.

As cinquenta moças partiram para o norte e os cinquenta rapazes para o leste. Após um ano viajando, as moças viram uma luz e decidiram subir à superfície. Os rapazes também encontrariam um caminho para a superfície. Lá, seguiriam seus caminhos sem saberem do outro grupo.

Naquela época, as pedras e árvores falavam. As moças perguntariam para as plantas e para as pedras quem as fizeram e questionariam o mesmo sobre as estrelas e tentaram se comunicar com elas aos gritos. Os rapazes viram um rio pela primeira vez e gritaram, chamando a atenção das garotas.

- Quem são vocês? O que estão gritando? Também são serem humanos? – perguntaram as moças.

Os dois grupos se comunicaram e se conheceram. Os rapazes então falariam com o rio, questionando o que ele era.

- Sou a água. Sou para tomarem banho e se lavarem. Sou para beber. Se quiserem chegar à outra margem, andem rio acima até o lugar em que minha água fica rasa. Lá vocês vão conseguir me atravessar – disse o rio.

Eles então atravessariam o rio e chegariam até as garotas, que não quiseram a aproximação deles e estabeleceram uma linha de separação. Os dois grupos viajariam juntos, mas separados por essa linha.

Certo dia, chegaram a uma nascente e tomaram banho no rio. Uma das garotas, muito curiosa, chamou outras duas e elas foram ver o que o outro grupo estava fazendo. Elas foram até o grupo dos rapazes, mas só a que teve a ideia original continuou em frente para espiar o outro grupo, que estava tomando banho e ela notariam que eles não eram iguais a elas.

Quando voltou, as que não ousaram ir em frente começaram a fazer perguntas e no banho ela contaria o que viu e a diferença entre elas e eles.

Depois, retomariam a viagem, assim como o grupo dos homens. Em certo momento, acampariam bem próximos aos outros. Nesse dia, os rapazes começaram a considerar não mais dormir sob o céu. Alguns cavaram buracos no chão e outros a empilhar pedras para construir casas, usando árvores como telhado. Apenas um dos rapazes, que era mais selvagem, não queria viver em uma casa. Preferia entrar furtivamente na casa dos outros e sair furtivamente, em busca de alguém para subjugar e devorar. Não me parece gente boa.

As moças viram os rapazes e se perguntavam o que estavam fazendo. A moça ousada, que tinha ido vê-los no banho, foi adiante checar, querendo-os ver nus novamente. À noite, entrou furtivamente em uma casa e encontrou o homem selvagem. Ele rugiu para ela, que gritou e saiu correndo até as outras, acordando os rapazes. Os dois grupos se encontraram e lutaram, inclusive a moça ousada com o rapaz selvagem.

As moças eram fortes e jogaram os homens no chão e ficaram sobre eles. Então, decidiram checar se a moça ousada tinha mentido para elas e checaram o thabuscht, que se inchou ao toque e depois elas colocaram a thabuscht na taschunt. No começo, elas tinham o domínio, mas com o tempo eles se tornaram mais ativos.

Em seguida, cada rapaz pegou uma das moças e levou para a casa. Só o homem selvagem e a moça ousada não tinham casa e eles ficaram a espreita esperando alguém para devorar. Os outros os acossaram certo dia por conta do comportamento deles, que decidiram ir para longe dos outros. A moça se tornou a primeira bruxa e ele o primeiro leão, ambos vivendo de carne humana. Quanto aos outros, ficaram morando nas casas e comiam das plantas que cresciam no local.

Agora, vou falar sobre o começo da agricultura. O primeiro homem e a primeira mulher ainda viviam debaixo da terra e viram uma pilha de cevada e de trigo e sementes de todas as plantas comestíveis. Um dia, viram uma formiga, que tirou um grão de trigo e o comeu. A mulher pediu para que o homem matasse a formiga, mas ele se recusou e conversou com a formiga, perguntando sobre as sementes.

A formiga explicou sobre a água, as sementes e sobre cozinhar os alimentos e levaria os dois à superfície. Lá, a formiga explicaria sobre como usar as pedras para moer o trigo e sobre como usar a farinha para criar uma massa. Depois, ensinaria a fazer fogo e a cozinhar os alimentos.

Tendo aprendido a fazer isso, pegaram cevada e o trigo, além de pedras de moer, e perambularam pela terra. No caminho, deixaram cair grãos de trigo e cevada.  A chuva caiu e os grãos que estavam no chão enraizaram, cresceram e frutificaram. Chegaram até onde os quarenta nove moças e rapazes estavam e ensinaram a eles a fazer pão.

Os filhos gostaram de comer o pão e quiseram receber os cereais e pegarem um pouco para eles. Seguiram caminho de volta de onde os pais vieram e encontraram os alimentos que brotaram no caminho. Descobriram então como surgem os grãos e se comprometeram a comer metade dos grãos que brotavam e plantar o resto.

Porém, eles jogaram os grãos no chão e eles não brotaram. A formiga então explicou que era necessário esperar a estação certa, após uma longa temporada de calor e após as chuvas, momento ideal para plantarem os grãos. E foi assim que descobriram a agricultura.

Agora, vou falar sobre a origem dos animais de caça. No começo, havia um búfalo selvagem, Itherther, e uma fêmea, Thamuatz. Os dois nasceram no espaço escuro que rodeia a terra chamado de Tlam. Os dois desceram a terra e lá tiveram um filho, que tentou “cobrir” a mãe, que o botou para correr.

O filhote então chegaria aonde estavam os quarenta e nove casais, que tiveram seus filhos, que por sua vez tiveram mais filhos, criando uma vila com várias propriedades. Viram o pequeno búfalo e o perseguiram. Os velhos perguntaram à formiga sobre o que essa criatura era. A formiga então explicaria que ele é o filho da búfala e depois teria que explicar o que é um búfalo em primeiro lugar. Mais importante, diria que a carne deles era boa de comer.

O búfalo se cansaria de ser perseguido e deixaria o país dos homens. Conversaria com a formiga no caminho, que explicaria que ele poderia viver pouco, mas em conforto e sem precisar trabalhar, ou viver muito e precisar trabalhar e se sujeitar a vários riscos, como o mau tempo. Ele preferiu viver muito, voltaria para casa e cobriu a mãe e a irmã que tinha nascido de Itherther e Thamuatz. Itherther ficou furioso e desafiou o pequeno búfalo, que já não era tão pequeno e venceu o pai, o expulsando.

Itherther então vagaria pelo mundo e depositaria seu sêmen em uma depressão. Cinco meses depois, Itherther voltaria ao local e encontraria os outros animais nascido de seu sêmen. Os alimentou e depois, quando cresceram, pediram para que eles se multiplicassem e essa é a origem de todos os animais, exceto do leão, surgido do homem canibal filho do homem e da mulher primordiais.

Voltando ao jovem búfalo, ele teve vários filhos. Certo dia, a neve começou a cair e ele e o rebanho sofreriam. Concluiria então que era melhor viver pouco e na companhia dos humanos do que sofrer dessa maneira. Para acabar com o sofrimento, sugeriu que fossem até os homens, que dariam abrigo e comida para eles. E foi assim que surgiu o gado doméstico.

A última história diz respeito às primeiras ovelhas e carneiros. A primeira mulher estava moendo o trigo e misturou farinha com água e com essa massa moldaria uma ovelha, a deixando em cima da palha que estava no moinho. No dia seguinte, da mesma maneira, moldaria um carneiro, com os chifres torcidos para não machucar os humanos. Quando foi colocar o carneiro sobre a palha, verificou que a ovelha que fez no dia anterior ganhou vida. Passou então a criar ovelhas e carneiros até achar que fez o suficiente.

Ela deu cuscuz para eles, que cresceram e saíram da casa da primeira mulher, que vinha mantendo-os em segredo. Os outros humanos começaram a perguntar o que eles eram e ela disse que eles tinha surgido e que foram criados como eles próprios foram.

As pessoas procuraram a formiga, que explicou sobre a carne e a lã da ovelha e do carneiro e festivais que envolvem os dois animais. Perguntaram como eles eram feitos e a formiga pediu para que conversassem com a primeira mulher. Ela explicou como os fez e eles tentaram replicar, mas ela era uma feiticeira e só ela tinha tal poder.


Os animais criados pela primeira mulher se multiplicaram e, seguindo o conselho da formiga, as pessoas compraram os carneiros e ovelhas da primeira mulher em troca de bens que eles tinham, e assim nasceu o comércio e assim a humanidade obteve os carneiros e ovelhas para usar em seus festivais.

sábado, 10 de maio de 2014

Criação do Mundo na Mitologia Grega


Vamos começar a série falando sobre a Grécia, falando um pouco sobre mitologia grega, mais especificamente a criação do mundo. Esse vídeo pode gerar uma série mais longa de vídeos no canal no futuro. A gameplay é do jogo Titan Quest, que se passa nesse mundo da mitologia grega. A fonte de informações é o livro The Age of Fable de Thomas Bullfinch, a versão brasileira do livro sendo conhecida como O Livro de Ouro da Mitologia.

Origem do Mundo e dos Deuses
No começo de tudo, antes que a terra, o mar e o céu fossem criados, tudo era Caos, uma massa confusa e sem forma, com nada a não ser peso morto que, no entanto, continha a semente para todas as coisas. Terra, mar e céu estavam misturados: a terra não era sólida, o mar não era fluído e o ar não era transparente. Então surgiram Gaia (a Terra), o Tártaro e Eros. Do Caos, nasceram Érebo e Nyx, personificações da Noite; dos dois, nasceram Éter, a atmosfera respirada pelos deuses, e Hemera, personificação do dia. Gaia pariu de si mesma Urano, o Céu Estrelado que a cobriria por completo, as Óreas, que são as montanhas, e Ponto, o deus do mar pré-olímpico. Do coito com Urano pariu doze titãs: Oceano, Coios, Crios, Hipérion, Jápeto, Teia, Reia, Têmis, Memória, Feve, Têtis e Cronos (não confundir com Crono), esse último a pior das crias.

Após isso, Gaia daria à luz aos ciclopes, Brontes (trovão), Steropes (raio) e Arges (brilho). Eles tinham um olho na testa e força, vigor e violência na ação. Depois, nasceram três Hecatônquiros (Hecatonchires em inglês, sim, o mesmo da Vanille do Final Fantasy XIII), monstros de cem braços de nome Cotos, Brirareu e Giges. Esses foram os filhos mais terríveis de Gaia e Urano, que os escondeu nas profundezas da terra. Gaia, ofendida, convocou os filhos e pediu para que eles punissem o pai. Cronos se propôs a fazer isso.

Gaia colocou Cronos oculto, deu-lhe uma foice e passou o plano. Chegou Urano desejando amor pairando sobre Gaia. Cronos saiu do esconderijo e castrou o pai e do sangue de Urano nasceram as Erínias (as Fúrias), os Gigantes e as Melíades. Cronos arremessou o pênis de Urano no mar e daí nasceu Afrodite, a deusa do amor. Zeus, apesar de pai dos deuses, também teve um início, sendo filho dos titãs Cronos/Saturno (não confundir com Crono) e Réia, que surgiram do caos primordial.

Os Titãs eram deidades oriundas do caos que governavam o mundo até serem derrubadas pelos deuses liderados por Zeus. Zeus tomou o lugar de Cronos, Poseídon o de Oceanus, Apolo o de Hipérion. Cronos é o deus do tempo que devora as suas próprias crias (como o tempo realmente faz). Zeus e os seus irmãos se rebelaram contra Cronos e os venceram na guerra dos titãs, terminando por aprisiona-los no Tártaro e impondo uma série de punições, como a de Atlas, que devia segurar o peso do céu nos ombros.

Vencidos os Titãs, Zeus, Poseídon e Hades dividiram o espólio, Zeus ficando com o céu, Poseídon com o mar e Hades com o mundo inferior. Zeus era o rei dos deuses e homens, o trovão era a sua arma e Égide o seu escudo (sim, o mesmo escudo que aparece em Final Fantasy) e sua esposa se chamava Hera. Ares, filho de Zeus e Leto, deusa do anoitecer, era o deus da guerra, Apolo deus do tiro com arco, da música e da profecia. Sua irmã, Artemis, era a deusa da lua e ele o deus do sol. Afrodite, a deusa do amor, foi dada de presente por Zeus ao horrendo, em aparência, Hefesto por gratidão de serviços prestados, logo, temos a mais bela deusa com o mais feio dos deuses. Atena, Minerva na Mitologia Romana, era a deusa da sabedoria, é filha de Zeus sem mãe, surgindo da testa de Zeus. Mercúrio, Hermes na Mitologia Romana, era o deus das transições e das fronteiras e tinha como um de seus atributos correr como o vento. Dionísio, Baco na Mitologia Romana, filho de Zeus e Semele, era o deus do vinho, representando não apenas o lado intoxicante, mas também seus benefícios sociais.

O livro Idade da Fábula segue descrevendo várias outras divindades, mas as principais e as relacionadas com Final Fantasy são essas.

Visão de mundo

Nos primórdios, os gregos acreditavam que o mundo era plano e que, obviamente, eles estavam no centro do mundo, o ponto central podendo ser o Monte Olimpo ou Delfos. O disco da Terra era dividido de leste a oeste pelo Mar, como eles chamavam o Mediterrâneo, e sua continuação, o Euxino, os únicos mares que eles conheciam. Ao redor da Terra, fluía o Rio Oceano, seu curso indo de sul a norte na parte oeste e de norte a sul na parte leste. Os mares e rios recebiam águas do Rio Oceano. Ao norte, vivia uma raça chamada de Hiperbóreos, que viviam em uma eterna primavera perto das montanhas e das cavernas que sopram o Vento Norte que gela os hélas (gregos). A terra era inacessível por mar ou terra e viviam sem doença, velhice ou guerras. Ao sul, vivia outro povo chamado de etiópios, não sei se tem alguma relação direta com os etiópios dos dias de hoje. Ao oeste, estavam os Campos Elísios, onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados sem morrer para gozar de uma bem-aventurança eterna.

Ou seja, os gregos no início da civilização não tinham ideia de quem eram seus vizinhos. Nas áreas que eles não conheciam, supunham ser povoado por seres mágicos como gigantes e monstros. Também sem conhecerem o que de fato acontecia, acreditavam que o Sol, a Lua e as estrelas surgiam do Oceano ao oeste e viajam pelo céu até o leste. A casa dos deuses é acima do Monte Olimpo na Tessália, mantido escondido por um portão de nuvens. O lugar realmente existe, mas até hoje não há relatos de alguém ter encontrado deuses. Cada deus tem a sua morada, mas todos vão ao Olimpo quando invocados por Zeus. A cada dia, os deuses banqueteavam com ambrósia e néctar no salão do palácio enquanto conversavam sobre assuntos terrenos e celestiais, com a música da arpa de Apolo e o canto das musas. Festão, hein? Quando o sol se punha, os deuses iam embora dormir em suas moradas.

As roupas dos deuses eram feitas por Atena e pelas as Graças. Hefesto, filho de Hera e Zeus, era o ferreiro dos deuses, tendo construído em bronze as casas dos deuses e de ouro fez os sapatos. Fez de bronze os corcéis que moviam as carruagens que moviam os deuses pelo céu ou por sobre as águas e que podiam se mover por conta própria. Também dotou de Inteligência as servas de ouro que foram criadas para servi-lo.

Criação do homem
O homem seria criado pelo titã Prometeu, que juntou terra e água e criou o homem à imagem dos deuses, com uma postura ereta para que, diferente dos animais, ele olhasse para o céu e as estrelas, e não a terra. Prometeu era um dos titãs, uma raça de gigantes que existia antes dos deuses. Cabia a ele e seu irmão, Epimeteu, a tarefa de criar o homem e dar a eles e a todos os animais o necessário para sua preservação. Epimeteu se encarregou dos animais, dando a cada um atributos de coragem, força, velocidade etc. e também garras, penas, cascas e etc. Chegando no homem, já não sobrou mais nada para dar e ele recorreu à Prometeu, que com o auxílio de Atena acendeu a tocha da carruagem de fogo e levou ao homem. Com o fogo, o homem conseguiu superar os animais, criando armas, ferramentas e aquecimento.

Prometeu é representado como um amigo da humanidade, que defendeu os homens e ensinou a civilização e as artes, porém, com isso desobedecendo Zeus. O mito diz que Prometeu foi acorrentado no Cáucaso, com um abutre lhe arrancando o fígado, que se renova conforme é consumido. Poderia acabar a tortura a qualquer momento se resignando a Zeus, porém, Prometeu não quis fazê-lo. Prometeu é um símbolo de resistência ao sofrimento e força de vontade de resistir à opressão.

A mulher ainda não foi criada e o mito diz que Zeus criou e mandou para o homem como forma de punição pelo roubo do fogo, mas a título de presente. A mulher se chamava Pandora, criada no céu com cada deus contribuindo para aperfeiçoá-la. Afrodite a deu beleza, Hermes persuasão, Apolo a música e assim por diante. Ela foi mandada para Epimeteu, que aceitou o convite apesar dos alertas de Prometeu quanto aos presentes de Zeus. Epimeteu tinha um jarro (não uma caixa), cheio de atributos nocivos que ele não colocou no homem. Tomada de curiosidade, Pandora olhou para dentro do jarro, fazendo com que esses elementos – inveja, cobiça, doenças etc. - saíssem do jarro e se espalhasse entre os homens. Pandora tentou fechar o jarro, mas já era tarde demais. Mas, no fundo, restou ainda a esperança, de forma que, seja lá qual mal se abata aos homens, sempre ainda resta esperança.

Outra estória, talvez mais plausível, é de que Pandora foi mandada de boa-fé e o jarro como um presente de casamento. Ao abrir o jarro, todas as bênçãos escaparam, exceto a esperança. Faz mais sentido a esperança estar junto com bênçãos do que males.

A história era dividida em três eras. A Era de Ouro foi a era de inocência e felicidade, onde verdade e justiça prevaleciam, sem ser necessário fazer cumprir leis. As florestas estavam intactas, as cidades não tinham sido fortificadas, não havia armas e a terra dava ao homem tudo que era necessário sem a necessidade de arar ou semear a terra. A primavera era eterna, flores floriam sem sementes, o rio fluía como leite e mel surgia do carvalho.

Em seguida, veio a Era de Prata, onde as quatro estações foram criadas, forçando os seres vivos a suportarem extremos de temperatura, e o homem se viu obrigado a arar e semear a terra. Depois veio a Era de Bronze, pior do que a de Prata, culminando na Era de Ferro, com uma explosão nos crimes, falsidades e destruição da natureza. Ferro e ouro passaram a ser produzidos e começaram as guerras. Os deuses abandonaram a terra, a última a partir sendo Astréia, Deusa da Inocência e da Pureza, filha de Têmis, Deusa da Justiça.

Vendo esse estado de coisas, Zeus convoca um concílio, em um palácio passando pela Via Láctea. Zeus decide destruir o mundo e popular novamente a terra com seres mais dignos e melhores adoradores dos deuses. A ideia inicial era jogar trovões, mas temendo que isso pudesse colocar o céu em chamas, resolveu inundar o mundo com chuvas e maremotos. O vento norte, que espalha as nuvens, foi encadeado: o vento sul foi solto e logo cobriu todo o céu e espalhou a escuridão pelo mundo. As nuvens romperam em chuvas e destruí lavouras e construções humanas. Não satisfeito com as suas águas, Zeus pediu auxílio a Poseídon, que soltou os rios e os lançou à terra. Toda a terra se cobriu de água e deixaria poucos sobreviventes entre homens e animais terrestes.


O Parnaso sobreviveu acima das ondas. E lá, Deucalião e Pirra, descendentes de Prometeu e fiéis adoradores dos deuses, ficaram como os únicos sobreviventes. Vendo apenas esses dois sobreviventes, Zeus ordenou que as nuvens dispersassem e Poseidon ordenou que os mares e rios retornassem. Deucalião e Pirra se voltam para um templo procurando as orientações dos deuses. Lá, uma deusa esclareceu o que eles deveriam fazer, que é sair do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e depois atirar os ossos de seus antepassados. Pirra se recusou a profanar os restos de seus pais. Depois de refletir, Deucalião pensou que eles poderiam seguir essa ordem, jogado pedras, os ossos da terra, a mãe comum de todos. Eles assim fizeram e o resultado foi que as pedras arremessadas começaram a tomar forma semelhante à humana, mas ainda disforme como um barro. Passado algum tempo, as pedras arremessadas por Deucalião viraram homens e as pedras arremessadas por Pirra em mulheres. E essa é a origem da atual humanidade.

Indicadores socioeconômicos

Na série sobre os países da Copa do Mundo, eu utilizei uma série de indicadores sociais e econômicos para traçar um panorama dos países. Nesse texto, eu explico em maiores detalhes alguns deles e cito as fontes de cada um. Por exemplo, a Grécia tem os seguintes indicadores:

Capital: Atenas
Moeda: Euro
Língua oficial: Grego
População(jul/14*): 10.775.557 (81)
PIB (2013, US$ bi, PPC): 266 (50)
PIB per capita (2013, US$, PPC): 24.011,95* (51)
Crescimento médio (5 anos): -5,22% (184)
Deflator do PIB (2013): -2,07% (9)
Desemprego: 27,25%* (105)
IDH: 0,86 (29)
Percepção de corrupção: 80/175
Facilidade de fazer negócios: 72/189
Liberdade Econômica: 119/186
Pessoa mais famosa: Aristóteles

Em parênteses, a posição do país no ranking.

População(jul/14*): População estimada do país em julho de 2014 segundo o CIA World Factbook.

PIB (2013, US$ bi, PPC): Produto Interno Bruto de 2013, em dólares utilizando a paridade de poder de compra. A fonte de informação é o World Economic Outlook (WEO) do FMI e pode ser estimado ou o dado efetivo. O valor do PIB, a soma de todas as riquezas produzidas pelo país em um dado ano, é convertida em dólares pela Paridade de Poder de Compra para melhor poder comparar os países. A Paridade de Poder de Compra (PPC) busca encontrar uma taxa de câmbio que iguala o poder de compra de uma moeda em relação à outra. Ou seja, o câmbio PPC entre dólar e real procura determinar qual é a taxa de câmbio que deveria existir para que o real tivesse o mesmo poder de compra do dólar, ou seja, que comprasse a mesma quantidade de produtos. Uma estimativa popular para o PPC é o Índice Big Mac, que calcula a taxa de câmbio através da diferença entre o preço do Big Mac em moeda nacional e em dólares nos Estados Unidos. Usar PPC é mais adequado do que o câmbio corrente, apesar de impreciso, pois evita distorções e manipulações cambiais.

PIB per capita (2013, US$, PPC): O PIB per capita é a divisão do PIB pela população do país. Países maiores e com maior população tendem a ter um maior PIB e a divisão pela população ajuda a entender melhor a situação relativa da economia de um país. Grosso modo, é um indicador da qualidade de vida de um país, na medida em que um país com PIB expressivo pode não ter uma qualidade de vida tal alta se a população for igualmente grande, ao passo que um país com um PIB menor, mas também uma população menor, pode ter uma qualidade de vida maior. No entanto, é necessário considerar outros indicadores em conjunto e levar em conta que PIB per capita não considera a desigualdade de renda. Utilizei também a PPC para o PIB per capita, basicamente pelos mesmos motivos apontados acima. A fonte de informação também é o WEO.

Crescimento médio (5 anos): Para complementar os indicadores econômicos, o crescimento real do PIB nos últimos cinco anos. A base é 2008, o que acaba desfavorecendo a maioria dos países, pois inclui a Crise Financeira de 2008 e a crise da zona do euro nos anos subsequentes. A fonte de informação também é o WEO.

Deflator do PIB (2013): Como uma forma de medir a inflação, a elevação generalizada de preços de uma economia, considerei o deflator do PIB ao invés de um índice de preços ao consumidor. Apesar de não medir o custo de vida, o deflator tem a vantagem de ser menos manipulável, diversos países mascarando a real situação do país utilizando de todos os artifícios para reduzir indevidamente os índices de preço ao consumidor (Argentina e Brasil, por exemplo). A fonte de informação também é o WEO.

Desemprego (2013): Essa é a taxa de desemprego (pessoas desempregadas/População Economicamente Ativa) segundo o WEO.

IDH: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) procura medir a qualidade de vida de um país através da média de três indicadores: renda (Renda Nacional Bruta per capita), saúde (expectativa de vida) e educação (anos de escolaridade). O índice vai de 0 a 1, a melhor qualidade de vida sendo 1 e a pior 0. A fonte de informação é a ONU.

Percepção de Corrupção: O índice de Percepção de Corrupção é um indicador calculado pela Transparência Internacional que pergunta à população o grau com que eles consideram que os funcionários públicos e políticos são corruptos. O primeiro colocado no ranking é o país onde a população percebe menos corrupção e o último o país onde a sensação de corrupção é maior.

Facilidade de fazer negócios: O relatório Doing Business da IFC Corporation analisa a facilidade de fazer negócios em diversos países, analisando aspectos que incluem o tempo para abrir uma empresa e o tempo necessário para pagar os impostos. Seria um indicador de quão burocrático é um país. Os primeiros colocados no ranking são os países onde é mais fácil fazer negócios e os últimos os países onde a tarefa é mais difícil.

Liberdade Econômica: A Heritage Foundation publica o relatório do Índice de Liberdade Econômica, que analisa os países em quatro aspectos: Respeito às leis, limitação do governo, eficiência regulatória e livre comércio. Os primeiros colocados no ranking são os países onde a economia é mais livre, os últimos onde é mais fechada.


Pessoa mais famosa: O MIT mantém o projeto Pantheon, onde procura classificar quais são as pessoas mais famosas e importantes que já nasceram em determinado país. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Vidas ao Vento


(Texto do vídeo Ni No Kuni (#2): Vidas ao Vento)

Nesse vídeo, vou falar sobre o filme mais recente do Miyazaki que pode ser o seu último, embora este deva ser o terceiro ou quarto filme de aposentadoria dele e parece que ele já deu sinais de que vai mudar de ideia de novo. O filme vai estrear no Brasil no próximo dia 28 para quem assiste esse vídeo quando ele vai ao ar com o título Vidas ao Vento. Não gostei muito do título, parece coisa de novela mexicana, mas tudo bem. Cuidado que esse vídeo pode ter uns spoilers, mas acho que nada de mais. O filme, na verdade, em termos de enredo, não tem lá grandes surpresas no enredo.

O filme conta a história de Jiro Horikoshi, o engenheiro que projetou o Mitsubishi A6M Zero, mais conhecido simplesmente como Zero, um dos principais caças da força aérea japonesa na Segunda Guerra Mundial. Eu assisti o filme na Mostra Internacional de São Paulo e vou falar sobre o filme baseado nas minhas impressões e posso deixar de lado vários aspectos relevantes sobre o filme.

O que achei foi que esse é o filme mais bonito do Miyazaki. Não o melhor, diria até que ficou abaixo da média do Miyazaki, que é muito alta. A qualidade da animação é melhor do que a dos filmes anteriores, mas isso é meio que óbvio que seria assim. Mesmo assim, fiquei impressionado em alguns momentos. Tem uma hora em que mostra a régua que o Jiro usa em detalhes que me deixaram boquiaberto. O filme tem algumas partes sem falas, só mostrando paisagens, voos de aviões, sonhos estranhos, a futura esposa do Jiro pintando, como aparece no pôster do filme, e essas imagens combinadas com a trilha sonora de Joe Hisaishi – sempre ele! – compõem cenas muito bonitas. Os outros filmes do Miyazaki também têm disso, mas me parece que a dose é maior no Wind Rises. Nesse sentido, o filme é emocionante, não tanto pelo enredo, pelo drama da esposa do Jiro ou qualquer outra coisa, apenas pela beleza das cenas.

Ao mesmo tempo em que o filme é um dos mais sérios e adultos do Miyazaki, o filme é também um tanto ingênuo. Causou grande repercussão o filme, muitos acusando Miyazaki de glorificar um fabricante de armas. Como relata a The Economist, Miyazaki livra a cara de Jiro dizendo que ele não era o culpado pelo uso de sua invenção, mesmo que o projeto fosse de um caça militar. Em uma entrevista em 2011, Miyazaki disse que o que o inspirou a utilizar a história de Jiro foi a declaração do engenheiro de que “ele só queria fazer uma coisa bonita” e parece que essa Miyazaki tentou passar essa visão ingênua das coisas. O filme opta por não colocar essas questões no foco das atenções, o que não impediu que as pessoas trouxessem o assunto a tona.

Eu disse que o filme é ingênuo, mas meio que em alguns momentos diz: “Ei, eu sei que tem coisas horríveis, só escolhi ignorar”. Hitler e perseguições políticas, inclusive envolvendo o personagem principal, são abordadas, mas de maneira bem secundária e apenas para lembrar que havia essas coisas. O empobrecimento do Japão em prol do projeto militar também é mostrado de passagem. Em uma cena, Jiro e um imaginário Giovanni Caproni, engenheiro aeronáutico italiano e ídolo de Jiro, discutem sobre a questão de construir ou não pirâmides, ou alguma coisa do tipo, uma metáfora para construir fazer uma coisa bem feita, apesar dos usos que serão feitos com a invenção. Ou seja, o filme fala para você que está contando a história da criação de uma arma de guerra, mas prefere mostrar o lado bonito, que é a determinação do projetista em dar forma ao seu sonho.

Mesmo com essa ingenuidade, o filme é adulto e sério. Uma coisa que notei é que não há nenhuma cena muito delirante, fora aquelas que são sonhos de Jiro. Em vários animes, do Miyazaki ou não, tem umas cenas bem malucas que eu acho que parecem estranhas demais aqui no Ocidente e não os não-amantes de animes. O Wind Rises não tem nenhuma cena assim. Também é adulto pelo enredo, pelo ritmo mais lento e também por ser bem politicamente incorreto, com vários personagens, inclusive o Jiro, fumando. Tem uma cena em que um colega de Jiro estava sem cigarro e acendeu um cigarro usado para continuar fumando. Cheguei até a achar que o Jiro ia morrer mais rápido de câncer do que a esposa de tuberculose. Fiquei até surpreso com a classificação etária de apenas 12 anos.

Outra coisa interessante foi a menção à Montanha Mágica do Thomas Mann, um livro que, grosso modo, conta a história de um homem que fica se recuperando da tuberculose, como ocorre com a esposa do Jiro. Na parte final do vídeo, é como se os dois personagens principais estivessem na Montanha Mágica, por assim dizer, até que chega a hora de saírem de lá. E o final do filme e do Montanha Mágica tem lá as suas semelhanças. Os dois terminam nas Grandes Guerras, o livro na Primeira, o filme na Segunda. Nenhuma das duas obras dá maiores detalhes sobre o que acontece com os personagens. No Montanha Mágica, tudo que o narrador diz é que o personagem, Hans Castorp, vai para o “baile macabro” e que tem pouca chance de sobreviver. E, se bem lembro, o Giovanni Caproni, no sonho do Jiro, também diz que os aviões de Jiro têm pouca chance em um momento bonito onde as criações dele voam pelo céu. Não sei se estou viajando, mas o livro de Mann e esse filme têm as suas similaridades.

Outra coisa que notei é um certo complexo de vira-lata dos japoneses no filme. Em uma cena engraçada, os personagens vão pousar em um porta-aviões e o avião deles começa a dar problema. E o chefe do Jiro avisa que esse avião foi feito com motor japonês. Até o Zero do Jiro, o Japão não tinha feito um bom avião 100% japonês. Em outros momentos esse complexo de vira-lata também se revela, de uma maneira parecida que no Brasil. E hoje eles estão bem avançados, em termos tecnológicos e sociais. Talvez isso possa acontecer por aqui também...

Era basicamente isso que eu queria falar sobre o filme.