Olá. Sejam bem-vindos a Ni No
Kuni. Nesse vídeo, vou falar sobre o filme Nausicaä do Vale dos Ventos. Esse é
um dos primeiros filmes do Miyazaki, lançado em 1984, antes mesmo do Totoro, e
eu considero um dos melhores. Não é tecnicamente um filme do Studio Ghibli, já
que foi feito antes da criação do Ghibli, mas tá valendo.
Antes de tudo, falar um pouco
sobre o enredo e a ambientação. O filme se passa em um mundo pós-apocalítico
onde há áreas do mundo totalmente poluídas e inóspita para os humanos, com
florestas tóxicas cheias de insetos gigantes. A protagonista do filme é a
Nausicaä, princesa do Vale dos Ventos. Um dia, uma gigantesca aeronave
tolmekiana cai no Vale dos Ventos e isso gera uma invasão pelo reino de
Tolmekia.
Eu não vou resumir o enredo
inteiro do filme, só passei essa introdução para situar quem não viu o filme.
Se quiserem ler uma sinopse, é só procurar na internet. O interessante do filme
é que todos os principais elementos dos filmes do Miyazaki estão presentes:
temática ambiental, voo, e não apenas de aeronaves, postura anti-guerra,
ambiguidade e protagonistas femininas fortes.
No primeiro tema, o filme consegue
falar de meio ambiente sem ser demagógico. Da mesma maneira que o Mononoke
Hime, mostra um conflito entre natureza e humanidade de maneira mais
equilibrada, embora nem tanto quanto nesse outro filme. Toda a ambientação do
mundo de Nausicaä mostra o resultado de uma intervenção desastrosa dos humanos
na natureza e a protagonista tenta dar um jeito de consertar isso, em certa
altura do filme descobrindo como purificar a água. Os próprios humanos no filme
não parecem ter se dado conta de que foram eles os responsáveis por esse
desastre e depois de algumas pesquisas a Nausicaä acaba descobrindo isso.
A personagem se vê no meio de uma
guerra onde a antagonista, Kushana, pretendia usar o Gigante Guerreiro que
estava no avião que caiu no Vale dos Ventos contra os seus inimigos. Kushana
não é pintada como uma vilã super malvadona, da mesma maneira que a Eboshi, mas
nesse filme fica mais claro que Kushana está do lado errado da história,
diferente da Eboshi do Mononoke Hime. A Nausicaä trabalha o filme quase inteiro
para evitar que Kushana faça isso, sendo uma força anti guerra como o Ashitaka
do Mononoke Hime e outros personagens dos filmes de Miyazaki.
Voo está presente no filme
inteiro, com aeronaves gigantescas, incluindo algumas cenas de ação com aviões,
mas principalmente com o planador que a protagonista utiliza, o Mehve, que vem
do alemão Möwe, gaivota em português. Essa é uma das coisas mais bacanas do
filme, fazendo algumas cenas de ação bem interessantes e também atiçando a
nossa imaginação sobre como seria ser capaz de voar sem estar dentro de um
avião, balão ou qualquer outra coisa. Sim, existe planador da vida real, mas
não um motorizado como o Mehve da Nausicaä.
E o último tema que eu listei é o
da personagem feminina forte. Embora Kushana entre nessa categoria eu estou
pensando mais especificamente na Nausicaä. Eu consigo ela como a melhor
personagem feminina de uma obra de fantasia e ficção científica, amplamente
abrangendo animes, mangás, filmes de animação, fantasia, aventura, ficção
científica, vídeo games etc. Ela é decidida, tem liderança, carisma, tem força,
como se vê em uma cena em que ela enlouquece e mata uns quatro na paulada, mas
tudo isso sem perder feminilidade e delicadeza. Ela adora animais, seja as
montarias que utiliza, da qual falarei depois, seja os insetos que deveriam ser
seu inimigo. Além de precisar de agilidade, habilidade no planador e, em menor
escala, força, ela precisa convencer pessoas a fazer o que ela acha que
precisam que façam, e o faz com delicadeza e simpatia. Por tudo isso, acho ela
uma excelente personagem. Se me permitem o comentário, para ficar perfeita só
faltaria ser mais bonita, mas na verdade o próprio carisma da personagem já é o
suficiente para torna-la mais bonita, digamos assim, embora sem isso ela seja
apenas média.
Bom, agora vou falar sobre
influências do filme. A montaria que a Nausicaä utiliza inspirou diretamente os
chocobos de Final Fantasy, como o próprio Hironobu Sakaguchi admitiria. O Mehve
inspirou a busca por modelos reais que funcionassem da mesma maneira, como o OpenSky
M-02 (vou colocar na descrição do vídeo a página da Wikipédia sobre o tema).
Por fim, só uma nota sobre os
dubladores. Temos nomes bem famosos, como Mark Hamill, Patrick Stewart e Uma
Thurman como a Kushana. A Nausicaä é dublada pela Alison Lohman, que não é tão
famosa assim, mas eu tenho certo, carinho, por assim dizer, por ela. Na série
Crusade, spin-off do Babylon 5, ela tem um papel bem pequeno em um dos
episódios em 1999. Apesar de aparecer pouco, eu achei ela super bonita e fiquei
interessado em ver outros filmes. Ela já apareceu em papéis maiores, como no
Beowulf, mas eu acabei não vendo nenhum filme dela.
Enfim, fecha parênteses só para
terminar o que eu tinha que falar sobre o filme.
Agora
eu vou falar sobre o que eu considero ser o melhor filme do Miyazaki, o
Mononoke Hime, ou Princesa Mononoke, que também é um dos meus filmes favoritos.
E o cenário é bem propício, uma dungeon em uma floresta. Acho que resumir o
enredo não faz muito jus ao filme, mas vamos começar com isso. O filme basicamente
conta a história de um jovem, Ashitaka, que foi amaldiçoado após matar um
demônio, por assim dizer, e precisa partir em jornada para descobrir uma
maneira de se curar.
A
maior virtude do filme é a história, não tanto pelo enredo, pela sequência de
eventos, mas por um elemento muito raro de se ver em outras histórias do
gênero. O filme não é maniqueísta, não mostra uma luta de uma força do bem
contra uma força do mal. O conflito básico do filme é entre os humanos,
liderados por Lady Eboshi, e os animais divinos, como lobos e javalis que falam
como humanos. Eboshi criou uma cidade onde é produzido aço e ela passa por cima
da natureza e entra em conflitos com os lobos, incluindo uma humana criada
entre eles, San, e os javalis. O demônio que amaldiçoou Ashitaka era um deus
javali transformado em demônio por um tiro desferido em conflito com Eboshi,
que utiliza armas de fogo.
Por
essa descrição, pode parecer que Eboshi está errada, mas a verdade é que a
cidade traz muita prosperidade e segurança para seus habitantes. Ela acolheu
todo tipo de gente que seria marginalizada em outros lugares, como homens com
lepra e prostitutas, que trabalham para Eboshi, os leprosos na fabricação de
armas, as mulheres na fabricação do aço. E os animais são tão violentos em
relação aos humanos quanto os humanos são para defender a sua cidade. No meio
disso tudo, temos o personagem principal que tenta achar uma solução pacífica
ao mesmo tempo em que busca a cura para a sua maldição.
Ou
seja, um tema frequente nos filmes do Miyazaki, o meio-ambiente, é tratado aqui
de uma maneira muito mais equilibrada que em outras obras, que geralmente
escolhem um lado e acabam passando uma mensagem demagógica. Temos dois lados
com interesses legítimos que acabaram entrando em violento choque. Eboshi é uma
líder muito admirada por seus seguidores e tornou a vida de pessoas que seriam
párias em outros lugares muito melhor. Faz isso por interesse próprio, sim, mas
seus negócios acabam tornando a vida de todos os humanos melhor. Porém, ela não
tem qualquer escrúpulo de passar por cima da natureza, que revida com a mesma
força. Tirando a parte dos espíritos da floresta, o filme não mostra a natureza
como uma força boazinha, e sim como uma força implacável. A natureza não fica
passiva diante do avanço humano e vai revidar e esse é o grande conflito do
filme, o conflito entre progresso e conservação.
Ou
seja, não temos violões e mocinhos nesse filme, diferente de quase todas as
demais obras de qualquer mídia. Aqui não é nem que o lado mais candidato a
vilão, o da Eboshi, seja retratado de uma forma benevolente, compreensiva,
mostrando os motivos para ela ser má. Ela simplesmente não é totalmente má e os
javalis e lobos não são totalmente bons. Se for para eleger um vilão, é o
governo do Japão que puxou as cordinhas para forçar esse conflito.
O
personagem principal, o Ashitaka, ele tem uma boa relação com os dois lados e o
lado dos humanos não é retratado apenas pela líder, a Eboshi, que pode parecer
mais antipática para alguns, mas também por outros personagens como um que ele
salvou depois de um ataque dos lobos e as mulheres da vila da Eboshi. E também
se dá bem com os lobos, principalmente com a humana-lobo, a princesa Mononoke
do título. Ashitaka e San chegam a fazer um casal, embora, por conta dos
eventos do final do filme, eles acabam não ficando junto, assistam para
entender porque.
Isso
tudo vem com cenas de ação muito bem feitas e até bastante realistas, com
decapitações, braços arrancados (por flechas!, o que já não é tão realista) e
tudo o mais. O filme tem um ritmo muito bom, não tendo longas sequências de
diálogos como um filme que aborda o assunto da maneira que descrevi poderia
fazer.
A
trilha sonora do Joe Hisaishi é uma das melhores dos filmes do Miyazaki,
principalmente o tema de encerramento e que toca em outro momento muito bonito
do filme antes de um diálogo entre Ashitaka e a mãe da San.
Em
suma, por um lado é um filme muito divertido de assistir, tem um bom enredo que
prende o espectador e boas cenas de ação, entrecortadas por cenas mais
reflexivas. Mas, além de ser um bom entretenimento, é um filme interessante por
não pintar tudo de preto e branco e colocar um conflito sem heróis e vilões, o
que não é tarefa fácil.
Sobre
Camarões, vou falar sobre alguns contos folclóricos que estão no livro African Myths of Origin organizado por
Stephen Belcher. A gameplay é do jogo PHL's Air Flying Game, desenvolvido em
Camarões. Não tem tanto a ver com o que eu vou falar, mas é um jogo simpático.
Os
Fangs vivem na Floresta Equatorial do Gabão e de Camarões, tendo migrado para
lá durante o século XIX. Seu estilo de vida era baseado em procurar por
recursos na floresta onde vivem e apenas mais tarde se tornariam sedentários. A
língua Bantu os une com outros grupos étnicos de Camarões, como os Bulu e os
Beti. Hoje em dia, pouco do estilo de vida deles permanece, assim como floresta
onde viviam, e suas práticas religiosas são sincréticas. As histórias a seguir
foram coletadas durante o período colonial.
Primeiro,
o mito de criação segundo os Fangs. O primeiro ser era Mebege, embora também se
diga que a terra foi criada por uma gigantesca aranha que desceu do céu em uma
longa teia e colocou o ovo que virar a Terra. Mebege criou os humanos, criando
um lagarto de barro e o colocando na água, oito dias depois surgindo o primeiro
homem, Nzame. A primeira mulher seria Oyeme-Mam e era irmã de Nzame.
Apesar
de irmãos, os dois humanos primordiais tiveram relações. Não, isso não era
normal entre os Fangs, e sim a pior corrupção que poderia existir. Como
consequência, Mebege deixou a terra e encarregou os dois de continuar o
trabalho da criação. Oyeme deu a luz a oito pares que se tornaram ancestrais
dos vários grupos Fangs.
Nzame
foi até Mebege, talvez em forma de espírito, e retornou com vários
conhecimentos como o da agricultura. Apesar de não ter morrido, ou assim, diz a
lenda, Nzame deixou o mundo, antes dando as instruções sobre a organização da
sociedade. Mas houve brigas entre os herdeiros e o conhecimento não foi
disseminado da maneira planejada. E dizem que é por isso que os brancos têm
mais riqueza do que os africanos.
A
próxima história do livro sobre os Fangs trata da migração. Antigamente, todos
os povos viviam ao norte do atual território. O mito diz que eles eram atacados
por gigantes vermelhos e migraram para o sul. No caminho, pararam em um rio, já
que eles não tinham habilidades para construir navios. Mas eles encontraram um
grande crocodilo, que ofereceu ajuda-los ao deitar sobre o rio de forma que
eles conseguissem cruzá-lo. Ele ajudou o Gigante Vermelho a atravessar o rio,
mas depois afundou nas águas, afogando o gigante.
Tendo
atravessado o rio, chegaram em uma floresta e tiveram o caminho barrado por uma
enorme árvore. Enquanto discutiam sobre como passar pela árvore, três pigmeus
apareceram, que mostraram o caminho para passar pela árvore por uma estreita
passagem. Porém, houve uma briga sobre qual grupo deveria liderar o caminho, se
os jovens ou os anciões, então assim que passaram pela árvore, eles se
dividiram em dois grupos e cada um tomou seu caminho próprio.
O
livro conta ainda histórias dos Duala, um povo costal de Camarões que vive
basicamente como intermediários entre os europeus e povos do interior. A
história de Jeki La Njambe foi preservada até os dias de hoje. O mundo de Jeki
é povoado por caçadores e pescadores vivendo ao longo da costa de Camarões. Os
Duala hoje admitem que não entendem bem a história de Jeki, mas eles continuam
a apresenta-la ritualisticamente.
Havia
um homem chamado Inono Njambe. Ele tinha muitas esposas e filhos, mas se
entregou ao estudo da feitiçaria e sacrificou muito de seus filhos e esposas
para ganhar poder. Até que só sobou uma criança, chamada de Njambe Inono, e o
povo da vila pensou que ele foi longe demais (mas só agora?!). Eles se reuniram
e invadiram a casa de Inono Njambe, o amarrando, o espancaram com frondes de
palmas e jogaram nozes de palma até que ele prometesse desistir da feitiçaria e
deixasse o filho viver. Então, ele foi solto e não viveria muito mais, passando
o seu conhecimento para o filho. Njambe Inono casou e teve filhos e depois de
um tempo seria tentado pelo conhecimento de seu pai e pessoas começaram a desaparecer
em sua família. Vendo isso, os vizinhos intercederam novamente, mas, ao invés
de mata-lo, colocaram Njambe Inono em uma canoa e o despacharam junto com a
esposa.
Em
uma nova terra, Njambe plantou uma palmeira, que cresceu enormemente, e em seu topo
colocou uma ave. Nas águas lançou um crocodilo e no meio de sua morada colocou
um baú com um leopardo. Essas criaturas davam proteção mágica para a sua
morada.
Njambe
e sua esposa, Ngrijo, tiveram uma filha. Ngrijo ia com a filha trabalhar nos campos
e um dia um chimpanzé apareceu enquanto a criança estava engatinhando na sombra
das árvores. Os dois começaram a brincar e a mãe ficou preocupada de início,
mas o chimpanzé reassegurou a mãe e a brincadeira se tornou recorrente. Quando
a garota ficou núbil, o chimpanzé a levou. Ngrijo procurou, procurou, procurou
e por fim voltou para casa para dar as notícias para Njambe, que imediatamente
foi até a floresta e convocou o chimpanzé.
“Onde
está minha filha?”, perguntou Njambe.
O
chimpanzé confessou que a levou, mas disse que ele ajudou Njambe e Ngrijo a
encontrar comida e nunca foi recompensado por isso, então ele a levou para
viver com os espíritos da floresta. Depois dessas palavras, o chimpanzé sumiu.
Njambe
teria outras esposas e teria vários filhos, menos de Ngrijo, apesar de seu
ventre mostrar sinais de inchaço. Por não dar à luz a filhos, Njambe expulsaria
Ngrijo de sua morada para uma cabana nas margens do rio. Os anos se passaram,
os filhos de Njambe cresceram, mas nada de Ngrijo dar à luz, apesar do ventre
inchado, que passou a atrapalhar as suas tarefas.
Até
que um dia, enquanto cortava lenha, Ngrijo ouviu uma voz. “Mãe, me deixe sair e
eu te ajudarei”. Então, Ngrijo deu à luz a uma criança do tamanho de um adulto.
Então, ele ajudou a sua mãe com a lenha e depois voltaria para o ventre. A
criança só voltaria a sair quando Ngrijo estava na praia coletando camarões junto
com outras esposas de Njambe e a criança pediu para sair, preocupada com as
águas que estavam recuando. A criança pediu para ser deixada nas águas, mas
Ngrijo se recusou. Ele insistiu até que Ngrijo o deixou sair, para espanto das
outras esposas, que fugiram de medo, deixando cair as suas cestas de camarões.
A
criança salvou a mãe das ondas. Quando Ngrijo acordou, se viu em uma cabana
cercada por cestas cheias de camarões. E, para surpresa geral, as outras
esposas também se viram com as cestas que tinham deixado cair. Logo após isso,
Jeki, a criança de Ngrijo, anunciaria que chegou a hora de nascer. Mas, antes
de Jeki sair, Ngrijo deu à luz a uma série de bens, como tecidos, lingotes de
metal, instrumentos de metal, Ngalo, o amuleto que Jeki usaria em suas
aventuras e uma canoa que usaria para viajar pelas águas. Só então saiu Jeki.
A
hostilidade de Njambe com Ngrijo se transportou para Jeki, agravado pelos
relatos de seu estranho nascimento, e essa seria a razão de suas primeiras
aventuras. E essa hostilidade se manifestou um dia quando Njambe convocou Jeki
para um desafio. Ele deveria adivinhar o que estava dentro de um baú. Se
errasse, ele seria espancado pelas outras crianças.
Primeiro,
Jeki sugeriu que fosse tecido. Errou e seus meio irmãos bateram nele. Depois,
disse que eram lingotes de cobre, errou novamente, e apanhou novamente até
ficar quase inconsciente. Ele viu ao redor e percebeu que os seus meio irmãos
estavam prontos para bater nele até matar. Chegou a hora, então, de encerrar
esse jogo.
“Eu
vou dizer a vocês como eu deveria ter feito de início”. A intenção de Jeki era
averiguar quanto era odiado na família. Ele respondeu que o baú continha um
piolho que Njambe tirou da cabeça. Piolho fêmea, a propósito. Todos ficaram em
silêncio e Jeki ganhou desta vez.
Mas
essa falha não parou Njambe. Os dois irmãos mais velhos foram chamar Jeki em
sua cabana. Ngrijo não queria que ele fosse, mas, muito confiante de que Njambe
não poderia machuca-lo, ele foi. Njambe pediu para que Jeki lustrasse um baú
que seria vendido. Se vocês lembrarem bem, havia um baú com um leopardo, e
adivinha se não é esse o baú que Njambe pediu para ser lustrado! Jeki ergue o
amuleto Ngalo, pedindo por orientação, e ele lhe orientou a levar o baú até a
água e assim ele fez, seguido secretamente pelos irmãos que queriam ver a sua
morte.
Jeki
levou o baú até a água bater em sua cintura e depois o emergiu sentando em cima
dele. Em seguida, o abriu e encontrou o leopardo e filhotes afogados (não se
sabe como eles sobreviviam no baú). Depois, Jeki limpou o interior e levou o
baú até Njambe, que então pediu para que Jeki trouxesse o grande crocodilo que
vivia nas águas.
Jeki
pegou a sua canoa e seguiu viagem. Ele perguntaria ao amuleto Ngalo o que essa
missão significava, e ele confirmaria que é mais uma tentativa de mata-lo, mas
que ele poderia sobreviver se fosse educado. Jeki encontrou o enorme crocodilo
e disse que seu pai, Njambe, queria reunir um conselho e que precisava da
sabedoria do crocodilo. Ele concordou e seguiu Jeki de volta até a vila. Jeki,
junto com o amuleto Ngalo, cantou uma canção de poder de forma que as ondas que
batiam no crocodilo jogassem uma magia que o encantou e o trouxe para controle
de Jeki, que levou o crocodilo até o centro da vila. Não sem destruir algumas
casas e engolir cabras e esposas de Njambe.
“Pronto,
trouxe o crocodilo, pai. O que faremos agora?”, perguntou Jeki, possivelmente
com uma boa dose de cinismo.
“Leve
de volta!”, pediu/implorou Njambe. Jeki invocou uma onda que levantou e levou
embora o crocodilo, o segundo dos animais que Njambe trouxe para a ilha. Se
vocês lembram bem, o terceiro animal trazido à ilha foi um pássaro posto no
topo de uma altíssima palmeira.
Era
de se esperar que Njambe tivesse aprendido a lição e resolvesse não mexer com
Jeki. Pois é, não foi isso que aconteceu. Novamente, os irmãos o chamaram com
mais uma tarefa de Njambe. Ele pediu para que Jeki subisse a palmeira e
coletasse as frutas da palmeira. Dessa vez, Jeki sabia o que o esperava, no
topo estando Kambo, a ave que atacaria quem tentasse pegar as frutas. Mas,
novamente sabendo do perigo, Jeki aceitou o desafio.
Jeki
chamou os seus irmãos para coletar as frutas lá em cima. Disseram que o pai
deles tinha ordenado que Jeki fizesse sozinho e ele respondeu que ele ordenava
que os irmãos o ajudassem, mostrando o amuleto Ngalo. Ninguém ousou desafiá-lo.
O
mais velho dos irmãos foi primeiro. Quando estava chegando perto do topo, foi
atacado pela ave, caiu da palmeira e morreu.
“Esse
não sabia escalar”, vaticinou Jeki, enquanto jogava o corpo para trás da cabana
mais próxima. Em seguida, iria o segundo irmão mais velho, que também
terminaria na parte de trás da cabana mais próxima. Depois, iriam os irmãos que
bateram nele e depois aqueles cujas mães eram preferidas à Ngrijo.
Quando
todos os desafetos tentaram, foi a vez de Jeki ir. Ele jogou uma poção no
tronco da árvore e subiu, batendo o amuleto Ngalo na casca de vez em quando. E
o bater do amuleto incomodou a ave Kambo, que viu a aproximação de Jeki, mas
ficou preocupado. Chegando ao topo, pegou o machado e cortou as frutas, que
caíram na vila abaixo quase cobrindo algumas casas com as frutas.
“Vou
pegar o pássaro também”, disse Jeki, que subiu ao topo da palmeira. Mas, antes
de chegar, Kambo já tinha fugido. Porém, não estava longe, e Jeki pegou uma
vinha, um dos instrumentos mágicos recebidos em seu nascimento, e pegou Kambo,
que caiu no topo da palmeira. Jeki empurrou a ave para baixo e depois desceu.
Lá
embaixo, a ave estava coberta por óleo de palma e Jeki tacou fogo em Kambo, que
rapidamente virou cinzas. Jeki comeu parte das cinzas e guardou o resto em sua
bolsa de instrumentos mágicos. Então, apareceu Njambe, que viu a sua casa ser
coberta pelos frutos da palma, viu o corpo de seus filhos empilhado e viu o
último símbolo de seu poder consumido por sua cria e desfaleceu.
Jeki
então foi para a floresta, reuniu algumas ervas e preparou uma poção. Depois,
jogaria essa poção nos corpos dos seus irmãos e um a um eles foram restaurados.
Kambo também ressurgiria das partes que Jeki engolira.
Desde
então, agora sim, Njambe e seus filhos deixariam de tentar matar Jeki, mas não
perderiam oportunidades de menosprezar Jeki, apesar de seu manifesto poder. Uma
dessas oportunidades foi quando descobriram que ele não era o primeiro filho de
Ngrijo e que a primeira foi raptada por um chimpanzé.
O
próprio Jeki não sabia nada sobre isso. Perguntou à mãe, que não contou a
verdade e disse para que ele ignorasse as outras crianças. Insatisfeito, Jeki
foi até o pai, que contou o que aconteceu com a sua irmã mais velha. Jeki então
foi atrás de sua irmã, retornando para casa antes para coletar itens que
pudessem ajuda-lo em sua busca.
Guiado
pelo amuleto Ngalo, Jeki se infiltrou nas florestas, até chegar a um enorme
portão de metal que marcava a entrada para o reino dos bedimo, os chimpanzés
que levaram a sua irmã. Ele abriu o portão e entrou, encontrando nada além de
escuridão. Ngalo diz que humanos não podem enxergar os espíritos, apenas
cheirá-los, e o aconselha a se tornar invisível e se dar o cheiro dos
espíritos. Ele engoliu um pó para se tornar invisível e esfregou uma goma para
tomar o cheiro dos espíritos, e então entrou. Conforme caminhava pelo reino, os
espíritos o cumprimentavam como se fosse um deles.
Ngalo
o orientou pelo seu caminho e o levou até uma cabana, indicando que sua irmã
estava lá dentro. Porém, entrando, ele não viu uma garota, e sim uma dúzia de
belas garotas.
“Eu
vim atrás de minha irmã”, disse Jeki. “Leve-me”, responderam todas, com uma voz
musical.
Jeki
então soprou um chifre de antipole e abelhas voaram dele e se reuniram até uma
das garotas.
“Você
é a minha irmã” disse Jeki à garota cercada pelas abelhas. “Você quer voltar
comigo?”.
A
garota aceitou a oferta de Jeki, que deu a mesma goma para ela passar no corpo
e adquirir o cheiro dos espíritos. Os dois seguiram o caminho de volta e
chegaram ao portão de metal e depois de volta à vila.
Basicamente,
eram essas as histórias do livro African
Myths of Origin, havendo outras que por questão de tempo eu prefiro não
abordar.
Sobre a Argélia, vou falar sobre as Lendas Cabilas
da Criação com base no livro A gênese africana, de Leo Frobenius. O jogo será o
Indiana Jones and the Fate of Atlantis, na parte do jogo que se passa em Argel,
capital da Argélia. Não tem muito a ver com o que eu vou falar, mas pelo menos
se passa no país em questão.
Os cabilas eram um povo berbere que habitava o
nordeste da Argélia e o livro que eu estou utilizando tem uma longa parte
dedicada aos berberes em geral, cabila em particular. Vou falar sobre o
primeiro grupo de estórias, os mitos de criação dos cabilas.
No começo, havia apenas um homem e uma mulher que
viviam debaixo da terra, não acima dela e não sabiam que a outra pessoa era um
sexo diferente. Um dia, foram beber água, se desentenderam sobre quem beberia
primeiro e lutaram. As roupas caíram e ele viu que ela tinha uma taschunt e ele
sentiu que tinha um thabuscht. Olhou para a taschunt e perguntou para que
servia.
- Ah, é bom – disse ela.
Ele deitou-se sobre ela e ficou assim por oito dia.
Nove meses depois, ela teve quatro filhas. E depois de mais nove meses, teve
quatro filhos. E depois mais quatro filhas e em seguida mais quatro filhos. No
fim, tiveram cinquenta filhas e cinquenta filhos. Eles não sabiam o que fazer
com tanta criança e as mandaram embora.
As cinquenta moças partiram para o norte e os
cinquenta rapazes para o leste. Após um ano viajando, as moças viram uma luz e
decidiram subir à superfície. Os rapazes também encontrariam um caminho para a
superfície. Lá, seguiriam seus caminhos sem saberem do outro grupo.
Naquela época, as pedras e árvores falavam. As
moças perguntariam para as plantas e para as pedras quem as fizeram e
questionariam o mesmo sobre as estrelas e tentaram se comunicar com elas aos
gritos. Os rapazes viram um rio pela primeira vez e gritaram, chamando a
atenção das garotas.
- Quem são vocês? O que estão gritando? Também são
serem humanos? – perguntaram as moças.
Os dois grupos se comunicaram e se conheceram. Os
rapazes então falariam com o rio, questionando o que ele era.
- Sou a água. Sou para tomarem banho e se lavarem.
Sou para beber. Se quiserem chegar à outra margem, andem rio acima até o lugar
em que minha água fica rasa. Lá vocês vão conseguir me atravessar – disse o
rio.
Eles então atravessariam o rio e chegariam até as
garotas, que não quiseram a aproximação deles e estabeleceram uma linha de
separação. Os dois grupos viajariam juntos, mas separados por essa linha.
Certo dia, chegaram a uma nascente e tomaram banho
no rio. Uma das garotas, muito curiosa, chamou outras duas e elas foram ver o
que o outro grupo estava fazendo. Elas foram até o grupo dos rapazes, mas só a
que teve a ideia original continuou em frente para espiar o outro grupo, que
estava tomando banho e ela notariam que eles não eram iguais a elas.
Quando voltou, as que não ousaram ir em frente
começaram a fazer perguntas e no banho ela contaria o que viu e a diferença
entre elas e eles.
Depois, retomariam a viagem, assim como o grupo dos
homens. Em certo momento, acampariam bem próximos aos outros. Nesse dia, os
rapazes começaram a considerar não mais dormir sob o céu. Alguns cavaram
buracos no chão e outros a empilhar pedras para construir casas, usando árvores
como telhado. Apenas um dos rapazes, que era mais selvagem, não queria viver em
uma casa. Preferia entrar furtivamente na casa dos outros e sair furtivamente,
em busca de alguém para subjugar e devorar. Não me parece gente boa.
As moças viram os rapazes e se perguntavam o que
estavam fazendo. A moça ousada, que tinha ido vê-los no banho, foi adiante
checar, querendo-os ver nus novamente. À noite, entrou furtivamente em uma casa
e encontrou o homem selvagem. Ele rugiu para ela, que gritou e saiu correndo
até as outras, acordando os rapazes. Os dois grupos se encontraram e lutaram,
inclusive a moça ousada com o rapaz selvagem.
As moças eram fortes e jogaram os homens no chão e
ficaram sobre eles. Então, decidiram checar se a moça ousada tinha mentido para
elas e checaram o thabuscht, que se inchou ao toque e depois elas colocaram a
thabuscht na taschunt. No começo, elas tinham o domínio, mas com o tempo eles
se tornaram mais ativos.
Em seguida, cada rapaz pegou uma das moças e levou
para a casa. Só o homem selvagem e a moça ousada não tinham casa e eles ficaram
a espreita esperando alguém para devorar. Os outros os acossaram certo dia por
conta do comportamento deles, que decidiram ir para longe dos outros. A moça se
tornou a primeira bruxa e ele o primeiro leão, ambos vivendo de carne humana.
Quanto aos outros, ficaram morando nas casas e comiam das plantas que cresciam
no local.
Agora, vou falar sobre o começo da agricultura. O
primeiro homem e a primeira mulher ainda viviam debaixo da terra e viram uma
pilha de cevada e de trigo e sementes de todas as plantas comestíveis. Um dia,
viram uma formiga, que tirou um grão de trigo e o comeu. A mulher pediu para
que o homem matasse a formiga, mas ele se recusou e conversou com a formiga,
perguntando sobre as sementes.
A formiga explicou sobre a água, as sementes e
sobre cozinhar os alimentos e levaria os dois à superfície. Lá, a formiga
explicaria sobre como usar as pedras para moer o trigo e sobre como usar a
farinha para criar uma massa. Depois, ensinaria a fazer fogo e a cozinhar os
alimentos.
Tendo aprendido a fazer isso, pegaram cevada e o
trigo, além de pedras de moer, e perambularam pela terra. No caminho, deixaram
cair grãos de trigo e cevada. A chuva
caiu e os grãos que estavam no chão enraizaram, cresceram e frutificaram.
Chegaram até onde os quarenta nove moças e rapazes estavam e ensinaram a eles a
fazer pão.
Os filhos gostaram de comer o pão e quiseram
receber os cereais e pegarem um pouco para eles. Seguiram caminho de volta de
onde os pais vieram e encontraram os alimentos que brotaram no caminho.
Descobriram então como surgem os grãos e se comprometeram a comer metade dos
grãos que brotavam e plantar o resto.
Porém, eles jogaram os grãos no chão e eles não
brotaram. A formiga então explicou que era necessário esperar a estação certa,
após uma longa temporada de calor e após as chuvas, momento ideal para
plantarem os grãos. E foi assim que descobriram a agricultura.
Agora, vou falar sobre a origem dos animais de
caça. No começo, havia um búfalo selvagem, Itherther, e uma fêmea, Thamuatz. Os
dois nasceram no espaço escuro que rodeia a terra chamado de Tlam. Os dois
desceram a terra e lá tiveram um filho, que tentou “cobrir” a mãe, que o botou
para correr.
O filhote então chegaria aonde estavam os quarenta
e nove casais, que tiveram seus filhos, que por sua vez tiveram mais filhos,
criando uma vila com várias propriedades. Viram o pequeno búfalo e o
perseguiram. Os velhos perguntaram à formiga sobre o que essa criatura era. A
formiga então explicaria que ele é o filho da búfala e depois teria que
explicar o que é um búfalo em primeiro lugar. Mais importante, diria que a
carne deles era boa de comer.
O búfalo se cansaria de ser perseguido e deixaria o
país dos homens. Conversaria com a formiga no caminho, que explicaria que ele
poderia viver pouco, mas em conforto e sem precisar trabalhar, ou viver muito e
precisar trabalhar e se sujeitar a vários riscos, como o mau tempo. Ele preferiu
viver muito, voltaria para casa e cobriu a mãe e a irmã que tinha nascido de
Itherther e Thamuatz. Itherther ficou furioso e desafiou o pequeno búfalo, que
já não era tão pequeno e venceu o pai, o expulsando.
Itherther então vagaria pelo mundo e depositaria
seu sêmen em uma depressão. Cinco meses depois, Itherther voltaria ao local e
encontraria os outros animais nascido de seu sêmen. Os alimentou e depois,
quando cresceram, pediram para que eles se multiplicassem e essa é a origem de
todos os animais, exceto do leão, surgido do homem canibal filho do homem e da
mulher primordiais.
Voltando ao jovem búfalo, ele teve vários filhos.
Certo dia, a neve começou a cair e ele e o rebanho sofreriam. Concluiria então
que era melhor viver pouco e na companhia dos humanos do que sofrer dessa
maneira. Para acabar com o sofrimento, sugeriu que fossem até os homens, que
dariam abrigo e comida para eles. E foi assim que surgiu o gado doméstico.
A última história diz respeito às primeiras ovelhas
e carneiros. A primeira mulher estava moendo o trigo e misturou farinha com
água e com essa massa moldaria uma ovelha, a deixando em cima da palha que
estava no moinho. No dia seguinte, da mesma maneira, moldaria um carneiro, com
os chifres torcidos para não machucar os humanos. Quando foi colocar o carneiro
sobre a palha, verificou que a ovelha que fez no dia anterior ganhou vida.
Passou então a criar ovelhas e carneiros até achar que fez o suficiente.
Ela deu cuscuz para eles, que cresceram e saíram da
casa da primeira mulher, que vinha mantendo-os em segredo. Os outros humanos
começaram a perguntar o que eles eram e ela disse que eles tinha surgido e que
foram criados como eles próprios foram.
As pessoas procuraram a formiga, que explicou sobre
a carne e a lã da ovelha e do carneiro e festivais que envolvem os dois
animais. Perguntaram como eles eram feitos e a formiga pediu para que
conversassem com a primeira mulher. Ela explicou como os fez e eles tentaram
replicar, mas ela era uma feiticeira e só ela tinha tal poder.
Os animais criados pela primeira mulher se
multiplicaram e, seguindo o conselho da formiga, as pessoas compraram os
carneiros e ovelhas da primeira mulher em troca de bens que eles tinham, e
assim nasceu o comércio e assim a humanidade obteve os carneiros e ovelhas para
usar em seus festivais.
Vamos começar
a série falando sobre a Grécia, falando um pouco sobre mitologia grega, mais
especificamente a criação do mundo. Esse vídeo pode gerar uma série mais longa
de vídeos no canal no futuro. A gameplay é do jogo Titan Quest, que se passa
nesse mundo da mitologia grega. A fonte de informações é o livro The Age of Fable de Thomas Bullfinch, a
versão brasileira do livro sendo conhecida como O Livro de Ouro da Mitologia.
Origem do Mundo e dos Deuses
No começo de
tudo, antes que a terra, o mar e o céu fossem criados, tudo era Caos, uma massa
confusa e sem forma, com nada a não ser peso morto que, no entanto, continha a
semente para todas as coisas. Terra, mar e céu estavam misturados: a terra não
era sólida, o mar não era fluído e o ar não era transparente. Então surgiram
Gaia (a Terra), o Tártaro e Eros. Do Caos, nasceram Érebo e Nyx,
personificações da Noite; dos dois, nasceram Éter, a atmosfera respirada pelos
deuses, e Hemera, personificação do dia. Gaia pariu de si mesma Urano, o Céu
Estrelado que a cobriria por completo, as Óreas, que são as montanhas, e Ponto,
o deus do mar pré-olímpico. Do coito com Urano pariu doze titãs: Oceano, Coios,
Crios, Hipérion, Jápeto, Teia, Reia, Têmis, Memória, Feve, Têtis e Cronos (não
confundir com Crono), esse último a pior das crias.
Após isso,
Gaia daria à luz aos ciclopes, Brontes (trovão), Steropes (raio) e Arges
(brilho). Eles tinham um olho na testa e força, vigor e violência na ação.
Depois, nasceram três Hecatônquiros (Hecatonchires em inglês, sim, o mesmo da
Vanille do Final Fantasy XIII), monstros de cem braços de nome Cotos, Brirareu
e Giges. Esses foram os filhos mais terríveis de Gaia e Urano, que os escondeu
nas profundezas da terra. Gaia, ofendida, convocou os filhos e pediu para que
eles punissem o pai. Cronos se propôs a fazer isso.
Gaia colocou
Cronos oculto, deu-lhe uma foice e passou o plano. Chegou Urano desejando amor
pairando sobre Gaia. Cronos saiu do esconderijo e castrou o pai e do sangue de
Urano nasceram as Erínias (as Fúrias), os Gigantes e as Melíades. Cronos
arremessou o pênis de Urano no mar e daí nasceu Afrodite, a deusa do amor.
Zeus, apesar de pai dos deuses, também teve um início, sendo filho dos titãs
Cronos/Saturno (não confundir com Crono) e Réia, que surgiram do caos
primordial.
Os Titãs eram
deidades oriundas do caos que governavam o mundo até serem derrubadas pelos
deuses liderados por Zeus. Zeus tomou o lugar de Cronos, Poseídon o de Oceanus,
Apolo o de Hipérion. Cronos é o deus do tempo que devora as suas próprias crias
(como o tempo realmente faz). Zeus e os seus irmãos se rebelaram contra Cronos
e os venceram na guerra dos titãs, terminando por aprisiona-los no Tártaro e
impondo uma série de punições, como a de Atlas, que devia segurar o peso do céu
nos ombros.
Vencidos os
Titãs, Zeus, Poseídon e Hades dividiram o espólio, Zeus ficando com o céu,
Poseídon com o mar e Hades com o mundo inferior. Zeus era o rei dos deuses e
homens, o trovão era a sua arma e Égide o seu escudo (sim, o mesmo escudo que
aparece em Final Fantasy) e sua esposa se chamava Hera. Ares, filho de Zeus e
Leto, deusa do anoitecer, era o deus da guerra, Apolo deus do tiro com arco, da
música e da profecia. Sua irmã, Artemis, era a deusa da lua e ele o deus do
sol. Afrodite, a deusa do amor, foi dada de presente por Zeus ao horrendo, em
aparência, Hefesto por gratidão de serviços prestados, logo, temos a mais bela
deusa com o mais feio dos deuses. Atena, Minerva na Mitologia Romana, era a deusa
da sabedoria, é filha de Zeus sem mãe, surgindo da testa de Zeus. Mercúrio,
Hermes na Mitologia Romana, era o deus das transições e das fronteiras e tinha
como um de seus atributos correr como o vento. Dionísio, Baco na Mitologia
Romana, filho de Zeus e Semele, era o deus do vinho, representando não apenas o
lado intoxicante, mas também seus benefícios sociais.
O livro Idade
da Fábula segue descrevendo várias outras divindades, mas as principais e as
relacionadas com Final Fantasy são essas.
Visão de mundo
Nos
primórdios, os gregos acreditavam que o mundo era plano e que, obviamente, eles
estavam no centro do mundo, o ponto central podendo ser o Monte Olimpo ou
Delfos. O disco da Terra era dividido de leste a oeste pelo Mar, como eles
chamavam o Mediterrâneo, e sua continuação, o Euxino, os únicos mares que eles
conheciam. Ao redor da Terra, fluía o Rio Oceano, seu curso indo de sul a norte
na parte oeste e de norte a sul na parte leste. Os mares e rios recebiam águas
do Rio Oceano. Ao norte, vivia uma raça chamada de Hiperbóreos, que viviam em
uma eterna primavera perto das montanhas e das cavernas que sopram o Vento
Norte que gela os hélas (gregos). A terra era inacessível por mar ou terra e
viviam sem doença, velhice ou guerras. Ao sul, vivia outro povo chamado de
etiópios, não sei se tem alguma relação direta com os etiópios dos dias de
hoje. Ao oeste, estavam os Campos Elísios, onde mortais favorecidos pelos
deuses eram levados sem morrer para gozar de uma bem-aventurança eterna.
Ou seja, os
gregos no início da civilização não tinham ideia de quem eram seus vizinhos.
Nas áreas que eles não conheciam, supunham ser povoado por seres mágicos como
gigantes e monstros. Também sem conhecerem o que de fato acontecia, acreditavam
que o Sol, a Lua e as estrelas surgiam do Oceano ao oeste e viajam pelo céu até
o leste. A casa dos deuses é acima do Monte Olimpo na Tessália, mantido
escondido por um portão de nuvens. O lugar realmente existe, mas até hoje não
há relatos de alguém ter encontrado deuses. Cada deus tem a sua morada, mas
todos vão ao Olimpo quando invocados por Zeus. A cada dia, os deuses
banqueteavam com ambrósia e néctar no salão do palácio enquanto conversavam
sobre assuntos terrenos e celestiais, com a música da arpa de Apolo e o canto das
musas. Festão, hein? Quando o sol se punha, os deuses iam embora dormir em suas
moradas.
As roupas dos
deuses eram feitas por Atena e pelas as Graças. Hefesto, filho de Hera e Zeus,
era o ferreiro dos deuses, tendo construído em bronze as casas dos deuses e de
ouro fez os sapatos. Fez de bronze os corcéis que moviam as carruagens que
moviam os deuses pelo céu ou por sobre as águas e que podiam se mover por conta
própria. Também dotou de Inteligência as servas de ouro que foram criadas para
servi-lo.
Criação do homem
O homem seria
criado pelo titã Prometeu, que juntou terra e água e criou o homem à imagem dos
deuses, com uma postura ereta para que, diferente dos animais, ele olhasse para
o céu e as estrelas, e não a terra. Prometeu era um dos titãs, uma raça de
gigantes que existia antes dos deuses. Cabia a ele e seu irmão, Epimeteu, a
tarefa de criar o homem e dar a eles e a todos os animais o necessário para sua
preservação. Epimeteu se encarregou dos animais, dando a cada um atributos de
coragem, força, velocidade etc. e também garras, penas, cascas e etc. Chegando
no homem, já não sobrou mais nada para dar e ele recorreu à Prometeu, que com o
auxílio de Atena acendeu a tocha da carruagem de fogo e levou ao homem. Com o
fogo, o homem conseguiu superar os animais, criando armas, ferramentas e
aquecimento.
Prometeu é
representado como um amigo da humanidade, que defendeu os homens e ensinou a
civilização e as artes, porém, com isso desobedecendo Zeus. O mito diz que
Prometeu foi acorrentado no Cáucaso, com um abutre lhe arrancando o fígado, que
se renova conforme é consumido. Poderia acabar a tortura a qualquer momento se
resignando a Zeus, porém, Prometeu não quis fazê-lo. Prometeu é um símbolo de
resistência ao sofrimento e força de vontade de resistir à opressão.
A mulher
ainda não foi criada e o mito diz que Zeus criou e mandou para o homem como
forma de punição pelo roubo do fogo, mas a título de presente. A mulher se
chamava Pandora, criada no céu com cada deus contribuindo para aperfeiçoá-la.
Afrodite a deu beleza, Hermes persuasão, Apolo a música e assim por diante. Ela
foi mandada para Epimeteu, que aceitou o convite apesar dos alertas de Prometeu
quanto aos presentes de Zeus. Epimeteu tinha um jarro (não uma caixa), cheio de
atributos nocivos que ele não colocou no homem. Tomada de curiosidade, Pandora
olhou para dentro do jarro, fazendo com que esses elementos – inveja, cobiça,
doenças etc. - saíssem do jarro e se espalhasse entre os homens. Pandora tentou
fechar o jarro, mas já era tarde demais. Mas, no fundo, restou ainda a
esperança, de forma que, seja lá qual mal se abata aos homens, sempre ainda
resta esperança.
Outra
estória, talvez mais plausível, é de que Pandora foi mandada de boa-fé e o
jarro como um presente de casamento. Ao abrir o jarro, todas as bênçãos
escaparam, exceto a esperança. Faz mais sentido a esperança estar junto com
bênçãos do que males.
A história
era dividida em três eras. A Era de Ouro foi a era de inocência e felicidade,
onde verdade e justiça prevaleciam, sem ser necessário fazer cumprir leis. As
florestas estavam intactas, as cidades não tinham sido fortificadas, não havia
armas e a terra dava ao homem tudo que era necessário sem a necessidade de arar
ou semear a terra. A primavera era eterna, flores floriam sem sementes, o rio
fluía como leite e mel surgia do carvalho.
Em seguida,
veio a Era de Prata, onde as quatro estações foram criadas, forçando os seres
vivos a suportarem extremos de temperatura, e o homem se viu obrigado a arar e
semear a terra. Depois veio a Era de Bronze, pior do que a de Prata, culminando
na Era de Ferro, com uma explosão nos crimes, falsidades e destruição da
natureza. Ferro e ouro passaram a ser produzidos e começaram as guerras. Os
deuses abandonaram a terra, a última a partir sendo Astréia, Deusa da Inocência
e da Pureza, filha de Têmis, Deusa da Justiça.
Vendo esse
estado de coisas, Zeus convoca um concílio, em um palácio passando pela Via
Láctea. Zeus decide destruir o mundo e popular novamente a terra com seres mais
dignos e melhores adoradores dos deuses. A ideia inicial era jogar trovões, mas
temendo que isso pudesse colocar o céu em chamas, resolveu inundar o mundo com
chuvas e maremotos. O vento norte, que espalha as nuvens, foi encadeado: o
vento sul foi solto e logo cobriu todo o céu e espalhou a escuridão pelo mundo.
As nuvens romperam em chuvas e destruí lavouras e construções humanas. Não
satisfeito com as suas águas, Zeus pediu auxílio a Poseídon, que soltou os rios
e os lançou à terra. Toda a terra se cobriu de água e deixaria poucos
sobreviventes entre homens e animais terrestes.
O Parnaso
sobreviveu acima das ondas. E lá, Deucalião e Pirra, descendentes de Prometeu e
fiéis adoradores dos deuses, ficaram como os únicos sobreviventes. Vendo apenas
esses dois sobreviventes, Zeus ordenou que as nuvens dispersassem e Poseidon
ordenou que os mares e rios retornassem. Deucalião e Pirra se voltam para um
templo procurando as orientações dos deuses. Lá, uma deusa esclareceu o que
eles deveriam fazer, que é sair do templo com a cabeça coberta e as vestes
desatadas e depois atirar os ossos de seus antepassados. Pirra se recusou a
profanar os restos de seus pais. Depois de refletir, Deucalião pensou que eles
poderiam seguir essa ordem, jogado pedras, os ossos da terra, a mãe comum de todos.
Eles assim fizeram e o resultado foi que as pedras arremessadas começaram a
tomar forma semelhante à humana, mas ainda disforme como um barro. Passado
algum tempo, as pedras arremessadas por Deucalião viraram homens e as pedras
arremessadas por Pirra em mulheres. E essa é a origem da atual humanidade.
Na série
sobre os países da Copa do Mundo, eu utilizei uma série de indicadores sociais
e econômicos para traçar um panorama dos países. Nesse texto, eu explico em
maiores detalhes alguns deles e cito as fontes de cada um. Por exemplo, a
Grécia tem os seguintes indicadores:
Capital:
Atenas
Moeda: Euro
Língua oficial:
Grego
População(jul/14*):
10.775.557 (81)
PIB (2013,
US$ bi, PPC): 266 (50)
PIB per capita (2013, US$, PPC):
24.011,95* (51)
Crescimento
médio (5 anos): -5,22% (184)
Deflator do
PIB (2013): -2,07% (9)
Desemprego:
27,25%* (105)
IDH: 0,86
(29)
Percepção de
corrupção: 80/175
Facilidade de
fazer negócios: 72/189
Liberdade
Econômica: 119/186
Pessoa mais
famosa: Aristóteles
Em
parênteses, a posição do país no ranking.
População(jul/14*):
População estimada do país em julho de 2014 segundo o CIA World Factbook.
PIB (2013,
US$ bi, PPC): Produto Interno Bruto de 2013, em dólares utilizando a paridade
de poder de compra. A fonte de informação é o World Economic Outlook (WEO) do FMI e pode ser estimado ou o dado
efetivo. O valor do PIB, a soma de todas as riquezas produzidas pelo país em um
dado ano, é convertida em dólares pela Paridade de Poder de Compra para melhor
poder comparar os países. A Paridade de Poder de Compra (PPC) busca encontrar
uma taxa de câmbio que iguala o poder de compra de uma moeda em relação à
outra. Ou seja, o câmbio PPC entre dólar e real procura determinar qual é a
taxa de câmbio que deveria existir para que o real tivesse o mesmo poder de
compra do dólar, ou seja, que comprasse a mesma quantidade de produtos. Uma
estimativa popular para o PPC é o Índice Big Mac, que calcula a taxa de câmbio
através da diferença entre o preço do Big Mac em moeda nacional e em dólares
nos Estados Unidos. Usar PPC é mais adequado do que o câmbio corrente, apesar
de impreciso, pois evita distorções e manipulações cambiais.
PIB per
capita (2013, US$, PPC): O PIB per capita é a divisão do PIB pela população do
país. Países maiores e com maior população tendem a ter um maior PIB e a
divisão pela população ajuda a entender melhor a situação relativa da economia
de um país. Grosso modo, é um indicador da qualidade de vida de um país, na
medida em que um país com PIB expressivo pode não ter uma qualidade de vida tal
alta se a população for igualmente grande, ao passo que um país com um PIB
menor, mas também uma população menor, pode ter uma qualidade de vida maior. No
entanto, é necessário considerar outros indicadores em conjunto e levar em
conta que PIB per capita não considera a desigualdade de renda. Utilizei também
a PPC para o PIB per capita, basicamente pelos mesmos motivos apontados acima.
A fonte de informação também é o WEO.
Crescimento
médio (5 anos): Para complementar os indicadores econômicos, o crescimento real
do PIB nos últimos cinco anos. A base é 2008, o que acaba desfavorecendo a
maioria dos países, pois inclui a Crise Financeira de 2008 e a crise da zona do
euro nos anos subsequentes. A fonte de informação também é o WEO.
Deflator do
PIB (2013): Como uma forma de medir a inflação, a elevação generalizada de
preços de uma economia, considerei o deflator do PIB ao invés de um índice de
preços ao consumidor. Apesar de não medir o custo de vida, o deflator tem a
vantagem de ser menos manipulável, diversos países mascarando a real situação
do país utilizando de todos os artifícios para reduzir indevidamente os índices
de preço ao consumidor (Argentina e Brasil, por exemplo). A fonte de informação
também é o WEO.
Desemprego
(2013): Essa é a taxa de desemprego (pessoas desempregadas/População
Economicamente Ativa) segundo o WEO.
IDH: o Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH) procura medir a qualidade de vida de um país
através da média de três indicadores: renda (Renda Nacional Bruta per capita),
saúde (expectativa de vida) e educação (anos de escolaridade). O índice vai de
0 a 1, a melhor qualidade de vida sendo 1 e a pior 0. A fonte de informação é a
ONU.
Percepção de Corrupção:
O índice de Percepção de Corrupção é um indicador calculado pela Transparência
Internacional que pergunta à população o grau com que eles consideram que os
funcionários públicos e políticos são corruptos. O primeiro colocado no ranking
é o país onde a população percebe menos corrupção e o último o país onde a
sensação de corrupção é maior.
Facilidade de
fazer negócios: O relatório Doing Business
da IFC Corporation analisa a facilidade de fazer negócios em diversos países,
analisando aspectos que incluem o tempo para abrir uma empresa e o tempo
necessário para pagar os impostos. Seria um indicador de quão burocrático é um
país. Os primeiros colocados no ranking são os países onde é mais fácil fazer
negócios e os últimos os países onde a tarefa é mais difícil.
Liberdade
Econômica: A Heritage Foundation publica o relatório do Índice de Liberdade Econômica, que analisa os países em quatro aspectos:
Respeito às leis, limitação do governo, eficiência regulatória e livre
comércio. Os primeiros colocados no ranking são os países onde a economia é
mais livre, os últimos onde é mais fechada.
Pessoa mais
famosa: O MIT mantém o projeto Pantheon,
onde procura classificar quais são as pessoas mais famosas e importantes que já
nasceram em determinado país.
Nesse
vídeo, vou falar sobre o filme mais recente do Miyazaki que pode ser o seu
último, embora este deva ser o terceiro ou quarto filme de aposentadoria dele e
parece que ele já deu sinais de que vai mudar de ideia de novo. O filme vai
estrear no Brasil no próximo dia 28 para quem assiste esse vídeo quando ele vai
ao ar com o título Vidas ao Vento. Não gostei muito do título, parece coisa de
novela mexicana, mas tudo bem. Cuidado que esse vídeo pode ter uns spoilers,
mas acho que nada de mais. O filme, na verdade, em termos de enredo, não tem lá
grandes surpresas no enredo.
O
filme conta a história de Jiro Horikoshi, o engenheiro que projetou o Mitsubishi
A6M Zero, mais conhecido simplesmente como Zero, um dos principais caças da
força aérea japonesa na Segunda Guerra Mundial. Eu assisti o filme na Mostra
Internacional de São Paulo e vou falar sobre o filme baseado nas minhas
impressões e posso deixar de lado vários aspectos relevantes sobre o filme.
O
que achei foi que esse é o filme mais bonito do Miyazaki. Não o melhor, diria
até que ficou abaixo da média do Miyazaki, que é muito alta. A qualidade da animação
é melhor do que a dos filmes anteriores, mas isso é meio que óbvio que seria
assim. Mesmo assim, fiquei impressionado em alguns momentos. Tem uma hora em
que mostra a régua que o Jiro usa em detalhes que me deixaram boquiaberto. O
filme tem algumas partes sem falas, só mostrando paisagens, voos de aviões,
sonhos estranhos, a futura esposa do Jiro pintando, como aparece no pôster do
filme, e essas imagens combinadas com a trilha sonora de Joe Hisaishi – sempre
ele! – compõem cenas muito bonitas. Os outros filmes do Miyazaki também têm
disso, mas me parece que a dose é maior no Wind Rises. Nesse sentido, o filme é
emocionante, não tanto pelo enredo, pelo drama da esposa do Jiro ou qualquer
outra coisa, apenas pela beleza das cenas.
Ao
mesmo tempo em que o filme é um dos mais sérios e adultos do Miyazaki, o filme
é também um tanto ingênuo. Causou grande repercussão o filme, muitos acusando
Miyazaki de glorificar um fabricante de armas. Como relata a The Economist,
Miyazaki livra a cara de Jiro dizendo que ele não era o culpado pelo uso de sua
invenção, mesmo que o projeto fosse de um caça militar. Em uma entrevista em
2011, Miyazaki disse que o que o inspirou a utilizar a história de Jiro foi a
declaração do engenheiro de que “ele só queria fazer uma coisa bonita” e parece
que essa Miyazaki tentou passar essa visão ingênua das coisas. O filme opta por
não colocar essas questões no foco das atenções, o que não impediu que as
pessoas trouxessem o assunto a tona.
Eu
disse que o filme é ingênuo, mas meio que em alguns momentos diz: “Ei, eu sei
que tem coisas horríveis, só escolhi ignorar”. Hitler e perseguições políticas,
inclusive envolvendo o personagem principal, são abordadas, mas de maneira bem
secundária e apenas para lembrar que havia essas coisas. O empobrecimento do
Japão em prol do projeto militar também é mostrado de passagem. Em uma cena,
Jiro e um imaginário Giovanni Caproni, engenheiro aeronáutico italiano e ídolo
de Jiro, discutem sobre a questão de construir ou não pirâmides, ou alguma
coisa do tipo, uma metáfora para construir fazer uma coisa bem feita, apesar
dos usos que serão feitos com a invenção. Ou seja, o filme fala para você que
está contando a história da criação de uma arma de guerra, mas prefere mostrar
o lado bonito, que é a determinação do projetista em dar forma ao seu sonho.
Mesmo
com essa ingenuidade, o filme é adulto e sério. Uma coisa que notei é que não
há nenhuma cena muito delirante, fora aquelas que são sonhos de Jiro. Em vários
animes, do Miyazaki ou não, tem umas cenas bem malucas que eu acho que parecem
estranhas demais aqui no Ocidente e não os não-amantes de animes. O Wind Rises
não tem nenhuma cena assim. Também é adulto pelo enredo, pelo ritmo mais lento
e também por ser bem politicamente incorreto, com vários personagens, inclusive
o Jiro, fumando. Tem uma cena em que um colega de Jiro estava sem cigarro e
acendeu um cigarro usado para continuar fumando. Cheguei até a achar que o Jiro
ia morrer mais rápido de câncer do que a esposa de tuberculose. Fiquei até
surpreso com a classificação etária de apenas 12 anos.
Outra
coisa interessante foi a menção à Montanha Mágica do Thomas Mann, um livro que,
grosso modo, conta a história de um homem que fica se recuperando da
tuberculose, como ocorre com a esposa do Jiro. Na parte final do vídeo, é como
se os dois personagens principais estivessem na Montanha Mágica, por assim
dizer, até que chega a hora de saírem de lá. E o final do filme e do Montanha
Mágica tem lá as suas semelhanças. Os dois terminam nas Grandes Guerras, o
livro na Primeira, o filme na Segunda. Nenhuma das duas obras dá maiores detalhes
sobre o que acontece com os personagens. No Montanha Mágica, tudo que o
narrador diz é que o personagem, Hans Castorp, vai para o “baile macabro” e que
tem pouca chance de sobreviver. E, se bem lembro, o Giovanni Caproni, no sonho
do Jiro, também diz que os aviões de Jiro têm pouca chance em um momento bonito
onde as criações dele voam pelo céu. Não sei se estou viajando, mas o livro de
Mann e esse filme têm as suas similaridades.
Outra
coisa que notei é um certo complexo de vira-lata dos japoneses no filme. Em uma
cena engraçada, os personagens vão pousar em um porta-aviões e o avião deles
começa a dar problema. E o chefe do Jiro avisa que esse avião foi feito com
motor japonês. Até o Zero do Jiro, o Japão não tinha feito um bom avião 100%
japonês. Em outros momentos esse complexo de vira-lata também se revela, de uma
maneira parecida que no Brasil. E hoje eles estão bem avançados, em termos
tecnológicos e sociais. Talvez isso possa acontecer por aqui também...
Era
basicamente isso que eu queria falar sobre o filme.