terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Batalha de Alésia (52 a.c.)




Batalha de Alesia
A Batalha de Alésia foi o confronto definitivo da Campanha da Gália de Júlio César, campanha militar que aumentaria o prestígio de César e sedimentaria seu caminho rumo à soberania em Roma. Além de comandar as tropas, César ainda seria o cronista de sua campanha, a principal fonte de informações e único relato presencial sendo do próprio César. Eram três os elementos de poder em Roma, dinheiro, patronato e lealdade de legiões, e César adicionaria um quarto elemento: escrever a sua própria versão da história.

Iniciada em 58 a.c., a campanha da Gália objetivava dominar um dos mais temíveis inimigos de Roma na época, os gauleses, que alguns séculos antes tinham saqueado Roma. Júlio César precisava pacificar a região e reforçar o domínio romano, tendo que lidar com diversas rebeliões, a mais forte começando em 53 a.c.  Os Arvenos, uma tribo gaulesa que vivia na região que hoje é a Auvérnia se rebelaram contra Roma liderados pelo carismático Vercingetórix e ameaçaram seriamente o domínio romano na região.

O que deve ser ressaltado é que não podemos falar em gauleses de forma tão abrangente, uma vez que na verdade são várias tribos que viviam na mesma região. Os gauleses compartilhavam uma mesma cultura e língua, mas eram divididos em diversas tribos com uma predileção para o caos, não para a organização. As tribos se encontravam em diferentes graus de urbanização e de desenvolvimento social, de forma que qualquer classificação dos gauleses era excessivamente simplificadora. A única esperança de vitória dos gauleses era uma aliança pã-gaélica e foi o que Vercingetórix procurou fazer. A brutalidade do domínio romano foi um dos catalisadores para essa união e muitas tribos fizeram aliança com Vercingetórix, inclusive tribos que César considerava aliadas dele.

César classificava como três os povos da Gália, belgas, aquitanios e gauleses, ou celtas na língua local. Coletivamente, eram conhecidas como Gália Comata, a parte da Gália livre do domínio romano, a área sob domínio de Roma sendo conhecida como Província. A Gália Comata também era conhecida como Gália Cisalpina, tinha como fronteira o rio Rubicão, que ficaria famoso na história romana em um episódio que não será analisado aqui. A Gália Transalpina, sob domínio romano, era importante do ponto de vista econômico por ser uma rota terrestre para a Ibéria, onde Roma tinha grande influência. A ameaça de tribos gaulesas e germânicas forçaria Roma a agir e seguir por território não explorado.

César se aproveitaria da situação para fomentar o medo contra os germânicos, que quase invadiram Roma algumas décadas atrás, e os gauleses, que o fizeram séculos atrás. A Gália era um alvo bem atrativo para César, que justificava a campanha como um ataque preventivo para que a região não fosse tomada por raças guerreiras cruzando o Reno. César, na verdade, estava de olho em glória e butim para sustentar a sua carreira política e militar.

Os gauleses eram temidos pelos romanos por serem um povo eminentemente guerreiro que lutava de forma indisciplinada e feroz, o que os assustava. E caberia a César domar essa fera. Em 58 a.c., César criaria duas legiões e sairia de Roma com seis legiões para enfrentar os helvécios, que estavam migrando em massa para o que hoje é Saintonge, no sudoeste da Gália e eram vistos como uma ameaça para a Província. Essa migração em massa abria espaço para que o território antes ocupados pelos helvécios fosse ocupado pelos germânicos e criou o argumento de César de que se a Gália não fosse tomada pelos romanos seria invadida pelos germânicos. César derrotaria os helvécios, mas esse seria apenas o começo da campanha da Gália que envolveria enfrentar germânicos e gauleses.

Os detalhes sobre o que aconteceu entre 58 a.c. e 52 a.c. requerem uma série só para isso. O que importa para esse vídeo é que César passou a enfrentar a rebelião de diversas tribos gaulesas sob o comando de Vercingetórix, havendo confrontos em Avárico e Gergóvia, até o confronto definitivo em Alésia

Comandantes Opostos
De um lado, tínhamos Júlio César, futuro imperador romano. Do outro, Vercingetórix, de quem pouco sabemos devido à sua curta carreira como líder e à tradição dos gauleses de transmitir oralmente a história. Possuímos bem mais informações de César até pelo fato de ele ter escrito a sua própria versão da história, como mencionado.

Eis o que sabemos de Vercingetórix. O pai dele, Celtill, tentou se declarar rei e acabou sendo morto por seus compatriotas, a tribo tendo abandonado a soberania hereditária e adotado a eleição de seus líderes. César pintou Vercingetórix como tendo ambições de ser rei e o filho de Celtill era uma espécie de pária em sua tribo e tendo como única escapatória se rebelar contra Roma. Para isso, recrutaria jovens guerreiros de diversas tribos gaulesas para a sua causa. Vercingetórix era um líder carismático e, ao contrário dos demais gauleses, metódico e não se deixava levar pelas emoções, além de ser um bom estrategista militar. Com tudo isso, seria um adversário à altura para César. E após a vitória em Gergóvia, Vercingetórix seria eleito líder supremo das forças rebeldes.

César, por sua vez, tinha todas as qualidades necessárias para ser um senhor da guerra, sendo um líder inspirador, bom general, lutador experiente e tendo a indispensável indiferença moral para ser um conquistador. Era apto física e mentalmente, corajoso, autoconfiante e capaz de tomar decisões rápidas, sem deixar de ouvir opiniões de centuriões experientes. Tudo isso ajudava a cativar seus comandados e fazer com que eles o seguissem.

Antes da campanha da Gália, César não havia tido experiência com grandes confrontos, mas seria auxiliado por Tito Labieno, descrito como seu segundo em comando e braço direito. Na campanha da Gália, já tinha 42 anos e invejava Alexandre, o Grande, que conquistara o mundo conhecido com 30 anos. Mesmo com uma idade já avançada, César se tornaria rapidamente um grande comandante. Entendia que cabia ao comandante exercer controle sob seus homens e ele costumava ficar próximo o suficiente da batalha para lê-la, mas distante o suficiente para não ser pego nos combates iniciais. Cavalgava próximo à linha de frente para encorajar os seus homens e observar o comportamento deles, punindo ou recompensando futuramente baseado no que via. César desenvolveu uma grande inteligência em batalha, julgando pelo moral exibido e pela comunicação de aliados e inimigos quais eram os pontos decisivos da batalha e como mudar os seus rumos com a segunda e terceira linha. Sabia inclusive quando era a hora de intervir pessoalmente para evitar uma derrota iminente ou para desferir o golpe fatal no inimigo.

De forma temerária, César frequentemente se posicionava próximo de seus soldados e em situações de maior perigo inclusive dispensava o seu cavalo, indicando aos seus comandados que não havia escapatória e que ele mesmo morreria lutando com eles. César não hesitava em assumir riscos, mas era um jogador cuidadoso. Sabia quando era a hora de intervir pessoalmente para evitar uma catástrofe ou para liderar os seus homens em um último impulso para a vitória. Combinado com um pouco de sorte, era um líder militar perfeito.

Exércitos Opostos
A campanha da Gália seria o choque de duas formas totalmente diferentes de organização militar, opondo o exército profissional de Roma, disciplinado e organizado, ainda mais com as reformas empreendidas por Caio Mário, tio de Júlio César, com os literalmente bárbaros gauleses. Outra diferença era que os gauleses davam muita importância para ornamentos, tidos como mostras de poder enquanto que os romanos achavam fúteis e desnecessários.

A descrição acima poderia indicar uma grande inferioridade dos gauleses, mas o fato é que eles tinham uma reputação de serem agressivos e terem uma longa experiência guerreira, que os tornavam inimigos temíveis. Havia um poderoso grupo de guerreiros de elite, porém, a massa do exército rebelde era de guerreiros não profissionais como fazendeiros, ligados a um chefe local, mas sem grande experiência militar. Equipamentos eram escassos e a maioria dos guerreiros usava um escudo de ferro, espada longa e lança curta, sem muita armadura de proteção para a maioria deles. A espada longa era uma coisa que os romanos não estavam acostumados, sendo usadas para cortar, não perfurar, diferente da espada curta gládio. Era necessário um guerreiro muito forte para empunhar uma espada longa e era mortal nas mãos de um gaulês. Era menos uma arma coletiva e mais uma arma individual, diferente das usadas pelos romanos. Era ainda uma arma reservada para os guerreiros de elite e um símbolo de prestígio poder utilizar uma. Outra arma importante, na visão dos gauleses, era o carnyx, uma trombeta de guerra, cujo efeito era intimidar os inimigos, o que os próprios romanos admitiram ser efetiva nesse intento.

Ajudava na parte da intimidação o ataque repentino e feroz, com a tática, se é que podemos chamar assim, de se jogar contra o inimigo selvagemente berrando e brandindo suas espadas e lanças. A disciplina era baixa e o treinamento rudimentar, mas os gauleses podiam ser bastante assustadores compensando com coragem e força física. Porém, isso não é suficiente para enfrentar um exército bem organizado como o de César.

A cavalaria era um ponto forte dos gauleses, sendo composto por guerreiros de elite com os melhores equipamentos. A disciplina não era muito grande, mas isso até ajudava na hora de não serem perseguidos após uma derrota.

Sobre César, ele chegou na Gália Cisalpina com três legiões, com uma quarta legião na Gália Transalpina. Contou ainda com o apoio de auxiliaries de aliados de Roma, como cavalaria ibérica, lanceiros numídios, arqueiros cretas, fundeiros baléricos e até gauleses. Em 52 a.c., César dispunha de cavalaria germânica, que seria importante, se não vital, em Alésia. O número de legiões aumentaria para 12 ao longo da campanha, César criando novas legiões a partir de voluntários locais para defender a província.

César teve que pagar com os lucros da guerra os soldados que recrutava, mas logo passaria a poder usar fundos do estado. Também foi responsável pelo treinamento, que era duro, mas pontuado por elogios aos seus comandados para elevar o moral e reforçar os laços de lealdade, principalmente com a Legião X. César sabia como manipular seus soldados com palavras elogiosas e apelos a status e prestígio. Para comandar as legiões, César indicava o seu questor e legados, tantos quantos necessários. Os legados deviam comandar as legiões, mas acima de tudo obedecer ordens de César, que desencorajava iniciativa pessoal. Também foram importantes os centuriões, que comandavam as centúrias dentro das legiões na linha de frente, e, portanto, tinham uma visão privilegiada da batalha e podiam fornecer valiosos conselhos para César. Como havia muitos recrutas sem experiência de combate, César precisava misturar veteranos entre os novatos para compensar as deficiências daqueles que não tinham sido ainda testados em guerra.

Planos opostos
Os gauleses e romanos, apesar de ambos serem guerreiros, eram muito diferentes nesse quesito. Na distinção do autor do livro que uso como referência, os romanos eram militaristas, prezando pela organização e um confronto tradicional de dois exércitos, enquanto que os gauleses eram bélicos, preferindo combates menos convencionais como emboscadas

No começo, Vercingetórix pretendia enfrentar os romanos em batalha campal, mas após vários revezes mudaria logo de plano. Recorreria então à estratégia de terra devastada, evitando confronto frontal e tentando diminuir os recursos a disposição dos invasores. Os suprimentos seriam centralizados em um local fortemente defendido, para evitar que caíssem em mãos inimigas. As colheitas seriam feitas o mais rápido possível e depois forradas. Os ópidos que pudessem ser capturados pelos romanos foram queimados, medida drástica, mas melhor do que deixar que os romanos se apoderassem e escravizasse ou matasse a população. Ópido era um termo romano para uma povoação, que não é exatamente uma cidade, então preferi usar o termo original de História Romana do que cidade ou outro equivalente. Era parte do plano também usar táticas de guerrilha, emboscando os romanos em marcha, atacando a linha de suprimentos e tentando cansar os romanos, além de tornar a guerra menos recompensadora. Poderia dar certo com o tempo, disciplina e trabalho conjunto entre as tribos rebeldes, mas esse simplesmente não era o jeito dos gauleses agirem.

César estava em má situação em 53 a.c., a rebelião tendo tornado caótico o cenário na Gália. Então, ele não tinha exatamente um plano, mas tinha que reagir à ameaça mesmo assim. Agiria de forma confiante e decisiva, mas também um tanto temerária. A estratégia de Vercingetórix estava dando certo, mas a disciplina romana e o comando firme de César levariam Roma para a glória.

E vamos agora falar sobre a batalha de Alésia, antes, falando sobre os eventos imediatamente anteriores. O começo da rebelião de Vercingetórix foi em 53 a.c. com um ataque ao que hoje é Orleans, com a tomada do ópido e a morte de todos os romanos que lá estavam. Isso pegou de surpresa César, que estava no acampamento de inverno e rapidamente para a Gália Transalpina no meio do inverno e frustrou o plano de Vercingetórix, que era tomar vários ópidos antes que César chegasse ao fim do inverno.

Vercingetórix lutou com os romanos em batalha campal, mas uma derrota em Noviodunum, moderna Isaccea na Romênia, fez com que visse que essa não era uma boa ideia e iniciaria a política de terra arrasada. César foi atraído para Avárico por Vercingetórix, que tentou levar o inimigo para terreno difícil e desconhecido, mas César não teve problemas em chegar na capital dos Bituriges, que não estavam dispostos a sacrificar Avárico na política de terra arrasada. César construiria uma ponte, pois o ópido estava em terreno alto, o que requeria uma elevação para as duas torres de cerco. A ponte também serviria para que a infantaria atacasse quando chegasse a hora. As muralhas do ópido eram uma mistura de pedra e madeira típica dos gauleses, para proteger contra fogo e aríetes respectivamente.

Os gauleses não ficaram passivos ao cerco e contra-atacaram todas as iniciativas romanas, tentando sabotar a construção da ponte e de túneis para chegar às muralhas do ópido. Vercingetórix tentou emboscar grupos de romanos que buscavam recursos, mas César frustraria a sua tentativa e Vercingetórix fugiria. Pouco tempo depois, Avárico cairia.

Vercingetórix não queria defender Avárico, que deveria ter sido abandonada e destruída. Por outro lado, queria defender Gergóvia, que era a capital da sua tribo. César acampou ao sudeste de Gergóvia e fez o reconhecimento de campo e veria que o ópido estava em terreno alto, o que dificultaria a invasão. Mas se conseguisse tomar uma colina ao sul, onde hoje é La Roche-Blanche, poderia ter uma vantagem. César conseguiu tomar a posição e rapidamente formou um acampamento com duas legiões. Faria uma vala para conectar os dois acampamentos. Depois, pretendia capturar mais uma colina ao oeste, Hauteurs de Risolles.

Porém, César teria a atenção desviada por notícias de rebelião dos Aedui na parte noroeste da Gália. Rapidamente, foi lidar com essa situação e na volta receberia notícias de que Vercingetórix estava atacando o acampamento romano perto de Gergóvia. Os romanos conseguiriam eliminar a ameaça e César voltaria ao acampamento.

O plano de César para tomar o ópido era fingir um ataque a Hauteurs de Risolles com uma pequena força e lançar do acampamento menor um ataque frontal contra Gergóvia com a maior parte das forças romanas. O ataque diversionista funcionou e Vercingetórix mandou reforços para a região ao mesmo tempo em que César atacava com três legiões o ópido. O caminho até Gergóvia foi tranquilo, alguns legionários chegaram a subir as muralhas, mas os gauleses que tinham acaído no ataque diversionista retornaram e começaria uma batalha entre o grosso do exército de Vercingetórix e os romanos. Cansados e desorganizados, os romanos perderiam a batalha e seriam forçados a recuar. Talvez tenha havido um excesso de confiança que cegou os romanos para a ameaça que enfrentavam. No final, César perdeu 700 homens, incluindo 76 centuriões. Ele culparia o excesso de entusiasmo e a desobediência de seus comandados e pintaria como vitória a tomada de três acampamentos gauleses.

Noviodunum era a capital administrativa de César na Gália, onde os romanos guardavam seus mantimentos e os reféns gauleses. O ópido seria tomada pelos Aedui, que depois passaram a atacar a linha de comunicações dos romanos tentando força-los a recuar para a Gália Transalpina. Porém, César não recuaria e marcharia norte, pegando os Aedui de surpresa com a velocidade de sua marcha. Depois, se reuniria com aliados e estava de volta com força total. Vercingetórix mandaria um ataque de cavalaria, tentando eliminar a cavalaria romana e reduzir a sua capacidade de obter recursos, porém, falhou.

Vercingetórix então recuaria para Alésia. O ópido se situa em monte Auxois, uma mesa, uma área elevada de solo com um topo plano, a 400 metros de altitude. Pelo planalto passam dois rios que erodiram a região e criaram vales que separaram Auxois de colinas próximas, ao oeste os rios convergindo em Plaine des Laumes, planície com várias colinas de topo arredondado. A cidade de Alesia ocupa a parte oeste de Auxois e o acampamento de Vercingetórix foi estabelecido a leste. Para obstruir o caminho do inimigo na parte mais acessível, que era a face leste, Vercingetórix faria fossos e paredes.

O exército gaulês tinha 80 mil guerreiros mais 15 mil cavaleiros. César, por sua vez, só tinha 50 mil legionários e seria nessa batalha que mostraria ser um gênio militar para superar a desvantagem numérica. César mandou cercar monte Auxois por completo, cortando as comunicações e isolando os rebeldes. Os romanos fariam duas linhas de circunvalação, uma delas cercando a colina e a segunda cercando justamente a primeira. Armadilhas eram colocadas nas linhas de cerco, como a lillia, buraco no chão para ferir os inimigos e atrasar seu avanço, o stimuli, uma barra de ferro colocada no chão para perfurar o pé, e os cippi, estacas afiadas para barrar o avanço. A estrutura romana contava com 37 quilômetros das linhas de circunvalação, 74 de fossos, várias torres de observação e oito acampamentos. A batalha de Alésia foi acima de tudo uma obra de engenharia para os romanos.

A razão de fazer duas linhas de circunvalação era a possibilidade de um exército gaulês surgir para prover algum alívio para Vercingetórix e seus homens. Esse exército viria, com o número alegado por César de 250 mil homens e 8 mil cavaleiros. O número provavelmente está inflado, para tornar o feito mais heroico, mas provavelmente os romanos estavam em desvantagem e mesmo assim conseguiriam enfrentar os gauleses.

O exército de alívio avançou, a cavalaria à frente e a infantaria logo atrás. Ao mesmo tempo, Vercingetórix descia Alésia para cercar César. Aqui, chegaria a hora da linha dupla de circunvalação mostrar a sua utilidade e a cavalaria germânica também mostraria o seu valor no combate contra os equivalentes gauleses. Os dois ataques gauleses esbarrariam nas construções romanas e seriam repelidos. O próximo ataque seria na parte noroeste do acampamento romano, em Mont-Rea, com uma força de 60 mil homens, segundo César, tentando tomar esse ponto por onde poderiam avançar contra os romanos. O braço-direito de César, Tito Labieno, apareceria para auxiliar os dois legates da região tendo ordens de segurar o máximo possível e avançar em último recurso. Nessa parte, os romanos estavam levando a pior, mas César conseguia vitórias em todas as outras regiões. (32)

Labieno enviaria uma mensagem para César alertando sobre as dificuldades a noroeste e César levaria forças pessoalmente os seus últimos reservas para um contra-ataque. Enviaria ainda a cavalaria germânica para atacar o inimigo pelas costas. César vestia um manto vermelho como uma forma de criar uma imagem forte para seus comandados e para o inimigo, seguindo o exemplo de Alexandre, o Grande, e seu elmo de prata. A batalha entre César e os gauleses foi feroz e bastante equilibrada e poderia ter dado a vitória para qualquer dos lados, mas a cavalaria germânica apareceria para salvar o dia e causar um bom estrago no inimigo. Em pânico, pegos lutando em duas frentes, os gauleses fugiriam do campo de batalha e esse seria o fim da ameaça do exército de alívio.

A situação em Alésia ficaria desesperadora com a falta de comida provocada pelo cerco. Crianças, mulheres, idosos e doentes seriam expulsos do ópido, o que era melhor do que canibalismo e assassinatos, que inclusive tinha sido proposto no conselho de guerra. Os expulsos se ofereceram para serem escravos dos romanos e alimentados como tal, mas César os obrigaria a ficarem no pé da colina e não se sabe qual foi o fim dessas pessoas. Sem opção, Vercingetórix se renderia e César venceria a Batalha de Alésia.

O resultado da batalha foi praticamente o fim da rebelião gaulesa e também o enorme enriquecimento de César e seus homens, que puderam pilhar Alésia e outros ópidos derrotados e vender seus habitantes como escravos. O próprio Vercingetórix seria mantido como troféu por César e levado junto durante a volta triunfante para Roma, exibido publicamente em 46 a.c. e depois estrangulado, 18 meses antes de César ter o mesmo destino nos Idos de Março.

Roma nunca mais seria desafiada de forma mais contundente pelos gauleses e Júlio César ganharia grande prestígio com a campanha. A Gália seria uma conquista bastante importante para Roma, com vastas áreas agriculturáveis e também um bom estoque de guerreiros que, apesar de serem um pouco difíceis de domar, formariam boa parte do exército romano.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Manual do Ditador (#13): Resumo




Nesse vídeo, vou encerrar a série do Manual do Ditador. Já falei sobre todos os capítulos do livro, mas ficou pendente uma parte do Tropico 5 para mostrar. Por isso, resolvi fazer esse vídeo extra para resumir o livro em um único vídeo.

A ideia básica dos autores, Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith, é que os políticos, independente de partido, ideologia, época da história, de estar em uma democracia ou em uma autocracia, querem alcançar o poder e lá se manterem. É uma ideia simples, talvez até demais, só que parece que muitas pessoas se esquecem disso.

Partindo disso, temos a classificação das pessoas entre intercambiáveis, influentes e essenciais, também chamada de coalizão vencedora. Os intercambiáveis são aqueles que têm algum poder nominal de selecionar o líder. Os influentes aqueles que efetivamente exercem esse poder e os essenciais aqueles cujo apoio é necessário para o líder. O comportamento do líder e as políticas que ele adota vão depender do tamanho relativo desses três grupos.

Por exemplo, em autocracias, a coalizão vencedora é pequena, de forma que o líder precisa comprar o apoio de pouca gente para se manter no poder. Assim, ele só precisa manter seus poucos apoiadores essenciais felizes, manter o exército feliz que poderá se manter no poder por muito e muito tempo. Essa é basicamente a receita de sucesso de ditadores de longa data, alguns sem nenhum estudo prévio de política.

Democracias, por outro lado, se caracterizam como uma coalizão vencedora grande, sendo muito caro comprar o apoio de todo mundo individualmente. Nesse caso, suborno descarado não funciona e o líder precisa de outra estratégia para alcançar e manter o poder.

O líder precisa arrecadar dinheiro para poder gastar na compra de apoio. Por isso, uma das medidas mais urgentes para um novo ditador é encontrar onde o dinheiro do estado está para poder gastar na compra do apoio da coalizão vencedora antes que ele seja removido do poder, sendo que muitos ditadores têm vida curta (política e fisicamente) por conta da demora em chegar ao dinheiro, mas, uma vez lá, costumam ser longevos. O dinheiro pode vir de muitas formas, a mais comum via impostos, o que requer um povo produtivo para movimentar a economia. Porem, pode vir via ajuda externa ou recursos naturais, temas a serem explorados mais adiante.

Na parte do gasto, o líder pode investir em bens públicos ou em bens privados. O primeiro tipo beneficia a população como um todo enquanto que o segundo tipo beneficia apenas os recebedores diretos dos bens privados. Pode chamar de corrupção o gasto em bens privados. No que o líder vai gastar depende do tamanho da coalizão vencedora, bens privados sendo mais efetivos quando é necessário comprar o apoio de pouca gente e os bens públicos mais efetivos quando é necessário comprar o apoio de muita gente. Um segundo ponto é que alguns bens públicos são necessários para a produtividade da economia, não apenas estradas e infraestrutura, mas bens intangíveis como liberdade de imprensa, de expressão e de associação. Essas liberdades acabam restringindo o que o líder pode ou não fazer, por isso que ditadores tentam coibi-las e proto-ditadores começam a pavimentar o caminho da servidão controlando a imprensa, atacado a liberdade de expressão e os meios de comunicação.

Ajuda externa é uma maneira do autocrata se manter no poder sem precisar da ajuda de seu povo. O país doador de ajuda externa o faz por conta de objetivos de política externa, como manter fiel um aliado em guerra, como na Guerra Fria. Outro exemplo é obter apoio político, como no caso de países membros do Conselho de Segurança da ONU, que veem um aumento na ajuda externa quando são escolhidos para ocupar esse posto. Ou ainda ajuda externa como política comercial para contornar leis antiprotecionistas. Outra opção é ajuda humanitária de governos, ONGs ou mesmo pessoas, esse dinheiro sendo desviado para o ditador e seus compadres ou os bens vendidos no mercado negro, se for esse o caso. De todo modo, essa ajuda externa auxilia o ditador do país e prejudica o seu povo.

Recursos naturais são outra maneira do ditador governar sem precisar que o povo trabalhe para ele, uma vez que é dinheiro fácil com pouco investimento sendo necessário. Se quiser, o ditador pode terceirizar completamente a exploração de recursos naturais, não precisando do povo para nada. Isso torna uma mudança de regime muito complicada, seja por uma revolta interna, seja por ação externa.

O exército desempenha um papel fundamental na manutenção do poder. Afinal, são os militares que suprimem revoltas populares que podem vir a surgir. Dessa forma, para evitar um levante, o ditador precisa comprar o apoio dos militares e dificultar que os cidadãos se comuniquem e se organizem politicamente, além de manter a coalizão vencedora leal. Se isso não for possível, o ditador pode ter que abrir o regime para evitar ser morto ou perder o poder, sendo possível democratizar o país sem necessariamente deixar o poder.

Esse é um resumo básico do Manual do Ditador. Vou falar agora sobre a sua relação com o Tropico 5, ou com a série Tropico em geral. Pelo menos no modo campanha, que foi o que joguei, jogo precisa ser uma mistura de ditador com democrata, sendo que o segundo ponto é bem forte. Você precisa ganhar eleições e precisa atender os anseios da sociedade. Claro que você pode comprar o apoio subornando as pessoas, mas, diferente da vida real, isso pode ser feito sem maiores consequências e não é tão caro assim. No fim, você precisa agir como um populista.

Dinheiro é importantíssimo, então você precisa se preocupar com a produtividade do povo, assim como os ditadores de verdade. O país tem recursos naturais, mas não tão abundantes que você possa depender exclusivamente deles. Na parte de ser um ditador, você pode emitir algumas leis e constituições que restringem a liberdade, você pode mandar o exército reprimir protestantes ou grevistas, mas na verdade eu senti falta de ser um ditador cruel nesse jogo.

Não sei qual o impacto de comprar o apoio dos líderes das facções, mas seria interessante se eles tivessem maior influência sobre o apoio que você recebe, coisa que não senti no jogo. Dessa forma, eles seriam a sua coalização vencedora e você precisaria manter eles contentes para se manter no poder. Na parte dos militares, essa é uma boa dica do livro, o ditador tendo que manter os militares felizes para evitar golpes militares e ter a ajuda deles para não ser derrubado por uma revolta. Porém, isso não ajuda a ganhar eleições.

El Presidente recebe ajuda externa, e o segredo aqui é jogar com todos os lados para receber ajuda de todo mundo. Por isso que não fiz questão de fazer aliança com os Estados Unidos, porque dai eu deixaria de receber ajuda externa da União Soviética e não sei se os Estados Unidos compensariam isso.

No fim, temos alguns pontos em comum entre o Manual do Ditador e o Trópico, a combinação sendo boa, porém, não perfeita. Então, uma boa dica de leitura para quem gosta do Tropico é o Dictator’s Handbook, que não tem em português ainda.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Batalha de Canas (216 a.c.)




Nesse vídeo, vou falar sobre a Batalha de Canas, ou Cannae em inglês. Essa foi uma batalha vital da Segunda Guerra Púnica entre Roma e Cartago, com vitória dos cartaginenses liderados por Aníbal. A fonte de informação é o livro Cannae, 216 BC de Mark Healy publicado pela Osprey.

O casus belli da Segunda Guerra Púnica foi a tomada da cidade espanhola de Sagunto, porém, a rivalidade entre Roma e Cartago já vinha se acirrando desde o final da Primeira Guerra Púnica e era questão de tempo até que um novo conflito eclodisse.

Antes de entrar no assunto da Segunda Guerra Púnica, vou resumir a Primeira Guerra. Primeiro de tudo, Cartago foi fundada por fenícios e por isso o nome do conflito, os fenícios sendo chamados de púnicos em latim. Roma e Cartago disputavam o comércio no Mediterrâneo, o que resultaria em uma longa guerra entre os dois, vencida por Roma em 241 antes de Cristo. Como ocorreria com a Segunda Guerra Mundial, a Segunda Guerra Púnica seria resultado direto da primeira e dos ressentimentos que foram criados durante o conflito por conta das humilhantes exigências impostas pelos romanos. Os cartaginenses foram obrigados a sair da Sicília e pagar uma enorme indenização de 3300 talentos de ouro.

Em 237 antes de Cristo, os romanos tomaram a Sardenha de Cartago, violando o acordo de paz. Cartago se prepararia para retomar a cidade, mas Roma enviaria um ultimato para que eles desistissem e exigiriam ainda mais indenização. Cartago então iria para a Península Ibérica para se expandir militarmente, primeiro sob o comando de Amílcar e depois de sua morte por seu genro, Asdrúbal, não confundir com o irmão de Aníbal. Em 226 antes de cristo, Roma interviria para proteger tribos amigas, estabelecendo que Cartago não poderia cruzar o rio Ebro. A situação da cidade de Sagunto, porém, não estava definida por esse acordo e a invasão da cidade por Cartago causaria uma nova guerra entre Roma e Cartago.

Após o assassinato de Asdrúbal em 221 antes de Cristo, Aníbal assumiria o comando das operações militares de Cartago e retomaria a expansão territorial. Em 219 antes de Cristo, seu alvo seria a cidade de Sagunto, apesar das declarações de Roma de que a cidade estava sob sua proteção. Aníbal perguntou ao Sufete, o senado cartaginense, se tinha a permissão para invadir Sagunto e eles lavaram as mãos, deixando que Aníbal fizesse o que bem entendesse. Aníbal invadiria Sagunto e Roma não interveria, revelando seu blefe. Porém, não deixariam por menos e enviariam um ultimato para Cartago, pedindo pela cabeça de Aníbal e a recusa significando guerra. O Sufete terminou por rejeitar o ultimato de Roma e a Segunda Guerra Púnica se iniciaria.

Aníbal não pretendia que essa fosse uma guerra defensiva, pois isso seria derrota certa. Seu ousado plano era atacar Roma diretamente, cruzando os Alpes e se dirigindo à capital. Sabia que seu exército era inferior, mas a vitória não deveria ser meramente militar, e sim política. Aníbal pretendia fragmentar a união política romana, enfraquecendo os laços com as diversas tribos que cediam homens para o exército romano. Seu alvo declarado era Roma e ele mostrava isso libertando prisioneiros de guerra de aliados de Roma, o que aumentaria as chances de seu plano ter sucesso.

Comandantes
Os cartaginenses eram liderados por Aníbal Barca, filho de um dos líderes cartaginenses da Primeira Guerra Púnica, Amílcar Barca. É dado como um líder carismático, que conseguiu manter unido um exército de mercenários em sua campanha em Roma. Esse não foi um feito pequeno, dada a grande heterogeneidade de nacionalidades e de motivações, Aníbal conseguindo entender o que os seus comandados queriam e usando isso a seu favor. Aníbal compartilhava das mesmas privações de seus soldados e acima de tudo era um grande líder militar que não punha em risco a vida de seus homens sem necessidade, o que gerava confiança entre seus comandados, que lutavam por ele, não por Cartago. Aníbal era um excelente estrategista, muito superior aos comandantes romanos com a exceção de Cipião Africano que o derrotaria na Batalha de Zama. Aníbal não conseguiria derrubar Roma, mas ficaria na história como um dos grandes comandantes militares com feitos que incluem a Batalha de Canas.

A organização militar de Roma colocava em comando cônsules eleitos pelo Senado, para evitar que os militares ganhassem poder. O resultado, porém, foi que o comando dos exércitos na frente de batalha era ineficiente. Isso acabou sendo contrabalanceado pela ótima disciplina e efetividade das tropas, mas as legiões ganhavam batalhas apesar da inadequação tática. Porém, ao se deparar com um gênio militar como Aníbal, essas fraquezas ficaram evidentes e pesaram contra Roma.

O único cônsul que estaria a altura de Aníbal era Fábio Máximo, chamado pejorativamente de Cunctator, aquele que adia, para depois ser chamado assim como um elogio. Após derrotas humilhantes como a da Batalha de Canas, Fábio Máximo seria escolhido ditador e utilizaria uma tática de atrasar o inimigo e espera-lo ao invés de adotar a prática mais comum dos romanos e partir para a ofensiva, o que se mostraria um acerto.

Exércitos Opostos
O exército cartaginense de Aníbal era composto por forças mercenárias africanas, espanholas e celtas. Não há muita informação precisa sobre os equipamentos utilizados pelas tropas de Aníbal ou sobre a organização das forças cartaginesas. Muitos dos soldados sequer vestiam algum equipamento de proteção, enquanto que outros vestiam cota de malha e elmos. As armas mais empregadas eram lanças para arremesso combinada com uma espada curta ou apenas uma espada mais longa. A cavalaria era o ponto mais forte do exército de Aníbal, os numídas formando um grupo que conduzia os cavalos sem rédea e que eram utilizados para provocar os romanos e atrai-los para o combate. Celtas e espanhóis formavam outro grupo de cavalaria e Aníbal, através de sua forte liderança, conseguiu fazer com que atuassem bem juntos.

Sobre Roma, não vou entrar em maiores detalhes, já que há muita coisa a se falar sobre legiões romanas. Basta dizer que não eram forças mercenárias, mas também não era um exército profissional no sentido moderno. Era composto por cidadãos com um critério rígido sócio-econômico na época. Era considerado um dever patriótico servir nas legiões e apenas aqueles com posses poderiam servir, já que são aqueles que teriam mais motivação para lutar, ou assim acreditavam. Depois, com as várias baixas provocadas por Aníbal, eles flexibilizariam os critérios, mas a princípio era assim.

Os soldados romanos lutavam basicamente com a lança pila, a espada curta gládio em uma mão e o escudo redondo na outra. A proteção variava muito de soldado para soldado, os mais pobres, os vélites, recebendo pouca ou nenhuma proteção corporal ao contrário dos outros tipos de soldados rasos mais ricos. A cavalaria não era muito bem desenvolvida no exército romano e eles pagariam um preço caro por conta disso. Além de cidadãos romanos, as legiões eram compostas por soldados de outras nacionalidades através de acordos com Roma.

Ticino e Trébia
Antes de entrar na Batalha de Canas, é necessário falar sobre algumas batalhas que ocorreram antes. Inclusive, Canas não está no Rome: Total War, mas esse jogo tem as batalhas de Trébia e Trasimeno, que eu mostro como gameplay nessa parte.

Públio Cornélio Cipião e Tibério Semprônio Longo estavam encarregados de parar Aníbal. Porém, Cipião teve que lidar com uma revolta de tribos célticas antes, o que acabou desviando a sua atenção por algum tempo. Em seguida, identificou a rota de Aníbal, que estava cruzando os Alpes para um ataque direto a Roma. Manteria o seu exército na Espanha para lutar com as forças de Asdrúbal Barca, irmão de Aníbal, e impedir que eles mandassem suprimentos e reforços para Aníbal.

Em novembro de 218 antes de Cristo, Aníbal terminaria a travessia dos Alpes e chegaria na Península Itálica, tendo perdido metade dos homens, segundo estimativas. Seria vital obter reforços das tribos célticas, que, no entanto, estavam céticas quanto à capacidade de Aníbal. Para contornar isso, os cartaginenses atacaram a cidade que hoje é Turim, a principal cidade dos taurinos. Isso elevaria o moral das tropas e angariaria apoio dos celtas, que viram os cartaginenses como seus salvadores.

Aníbal desejava uma vitória de maior escala. Essa vitória viria na Batalha de Ticino, onde Aníbal e Cipião se enfrentariam pela primeira vez. Foi mais um confronto de cavalarias do que uma batalha e aqui os cartaginenses mostrariam a sua superioridade na cavalaria, vencendo facilmente a batalha. Cipião seria ferido na batalha e salvo pela ação rápida de seu filho, que seria conhecido como Cipião Africano. Os romanos recuariam de Placência, se dirigindo ao sul para os Apeninos, onde esperariam reforços de Semprônio. Aníbal conseguiria angariar ainda mais apoio dos celtas, inclusive desertores das fileiras romanas.

A primeira grande batalha entre romanos e cartaginenses na Segunda Guerra Púnica seria a Batalha de Trébia. Aníbal e as legiões romanas de Semprônio se enfrentariam no rio Trébia, na região de Placência. Os dois exércitos estavam acampados próximos e era questão de tempo para que houvesse um conflito, mas seria Aníbal quem estabeleceria as condições do confronto.

Os romanos eram obcecados quanto à possibilidade de uma emboscada na floresta, mas Aníbal conseguiria armar uma armadilha de uma maneira que os romanos jamais desconfiariam, escondendo soldados na vegetação que havia nas margens do Trébia. Além disso, conhecendo o temperamento romano e sua predileção pelo ataque, provocaria os romanos com um ataque de cavalaria no acampamento romano no começo da manhã. A cavalaria cartaginesa seria perseguida logo após, sem mesmo dar tempo para que os romanos se alimentassem, tendo que lidar ainda com o frio e a neve. As tropas de Aníbal estariam mais bem preparadas para a batalha, tendo se alimentado antes e passando um óleo para proteger contra o frio.

Aníbal primeiro atacaria os flancos dos romanos usando a sua cavalaria, privando o centro da formação da proteção dos flancos. No centro, haveria um confronto entre infantarias, a situação dos romanos piorando com a chegada de mais infantaria, da cavalaria e das tropas que estavam escondidas na vegetação aparecendo para atacar a retaguarda romana.

No final da Batalha de Trébia, os romanos perderam entre 15 e 20 mil soldados, com baixas bem mais modestas entre os cartaginenses. A responsabilidade pela vexaminosa derrota tem que se atribuída a Semprônio, que partiu para o ataque contra Aníbal com a esperança de ser aquele que o derrotaria. Cipião o aconselhou a ser mais cauteloso e “deixar a situação permanecer como está”, e o comportamento inverso a esse lhe rendeu uma grande derrota.

Aníbal passaria o final do ano e o inverno no Vale de Pó junto a tribos célticas amigas que forneceram suprimentos para a temporada. Em 217 antes de Cristo, retomaria as operações com o objetivo de ir ao sul, onde poderia encontrar mais tribos célticas cujo apoio poderia obter, o que era essencial para o seu objetivo de desmantelar Roma

Sua rota foi cruzar o rio Arno de uma maneira que os romanos não estavam esperando. A rota escolhida era difícil e selecionada justamente por isso, com um caminho inundado pela neve, mas mesmo assim transponível. A região era protegida pelo exército capitaneado pelo cônsul Caio Flamínio, que não conseguiu interceptar Aníbal na sua rota em direção ao sul, para a região de Etrúria.

Mais uma vez, Aníbal queria atrair os romanos para uma batalha nas condições impostas por ele. Para isso, saqueou diversas cidades na região, que era bastante fértil e rica. Porém, o cônsul não faria esse movimento, nem mesmo quando temerariamente Aníbal se aproximou de seu acampamento para tentar induzi-lo ao ataque. Flamínio decidiria perseguir o exército de Aníbal, mas sem se engajar em combate, apenas acompanhando e esperando a chegada de um segundo exército consular liderado por Cneu Servílio Gêmino.

Aníbal sabia que estava sendo perseguido e procuraria estabelecer uma situação favorável a ele para golpear Flamínio. Na região do Lago Trasimeno, manobraria de forma a estabelecer acampamento em uma colina em Passignano enquanto Flamínio ficaria em uma planície ao oeste. Durante a noite, Aníbal prepararia uma armadilha para Flamínio aproveitando a luz da lua. A natureza continuaria ajudando Aníbal ao providenciar uma névoa que diminuiria a visibilidade e dificultaria a identificação da armadilha.

Tendo tantas vantagens, seria chocante se o resultado fosse outro que não um massacre cartaginense, que de fato ocorreria, tendo como saldo final 15 mil romanos mortos, incluindo Flamínio, e 10 mil capturados contra 1500 cartaginenses mortos. Os aliados de Roma capturados foram soltos e Aníbal declararia que a luta dele era contra Roma, não contra seus aliados. No dia seguinte, muitos dos soldados romanos que conseguiram fugir acabaram se rendendo.

Essa foi uma vitória absoluta sobre os romanos, que ficaram com poucos homens capazes de lutar para enfrentar Aníbal. Essa seria uma boa oportunidade para atacar a capital, mas não foi o que Aníbal fez. Essa nunca foi a estratégia dele, que sempre pensou em destruir a confederação desestabilizando Roma e fazendo com que perdesse o apoio de seus aliados.

Notícias sobre esse desastre chegaram a Roma e causou pânico geral, espalhando a expressão “Aníbal nos portões”. O Senado precisava agir e eleger um líder, mas com Flamínio morto e Gêmino incapaz de retornar a Roma devido ao bloqueio imposto por Aníbal, as opções não eram muitas. No fim, Fábio Máximo seria eleito Ditador, mas o Senado restringiria alguns de seus poderes, como escolher o segundo em comando, pois ainda acreditavam que a situação não estava tão crítica assim e que Aníbal ainda podia ser derrotado.

Novas legiões precisaram ser criadas emergencialmente, com homens ou mais velhos ou muito jovens. Alguns ficariam para proteger Roma e outros seguiriam atrás de Aníbal. Sob comando de Fábio Máximo, os romanos mudariam de estratégia, não iniciando combates contra Aníbal e permanecendo em terreno vantajoso para evitar o ataque cartaginense. Fábio Máximo enviaria alguns ataques isolados contra Aníbal, para diminuir gradualmente as forças inimigas e para recobrar a confiança de seus soldados. Aníbal provocaria Fábio Máximo, saqueando e destruindo vilas pelo seu caminho, mas Máximo manteria a sua estratégia apesar das provocações e das pressões internas para agir

Isso não estava nos planos de Aníbal, que precisava recuperar suprimentos para continuar a campanha. Porém, sua saída estava bloqueada por forças de Máximo. Foi então que Aníbal executaria um subterfúgio genial. À noite, colocaria madeira no chifre do gado que obteve, tacou fogo e os mandou para a passagem. As tropas que protegiam a região pensavam que o inimigo estava avançando e atacaram o falso exército, permitindo que Aníbal passasse e obtivesse a fuga que desejava.

Fábio Máximo não reagiria a esse movimento e aqui ganharia o apelido de cunctator, aquele que adia. Aníbal tomaria a cidade de Gerônio e sairia em busca de suprimentos. Enfrentaria forças do segundo em comando, Minúcio, e sofreria um revés que elevaria o moral romano. Haveria uma disputa de poder entre Fábio e Minúcio que terminou na divisão do exército em dois. Minúcio decidiria atacar Aníbal e sofreria uma derrota, apena sendo salvo pela intervenção de Fábio, que recuperaria o comando total do exército.

Após isso, os dois lados se recolheriam ao acampamento de inverno, que Aníbal só conseguiu montar após reabastecer os seus suprimentos. Em 216 antes de Cristo, acabaria o mandato de Fábio Máximo e o senado, descontente com a estratégia defensiva e iludido com a vitória de Minúcio, decidiria por uma estratégia ofensiva. Caio Terêncio Varrão foi eleito cônsul e seria responsável por essa mudança. Para ajudar nessa nova estratégia, Roma utilizaria nada mais, nada menos do que oito legiões em um passo sem precedentes. Provavelmente os padrões de recrutamento já tinham sido diminuídos nessa época para arregimentar tantos soldados, embora as fontes só afirmem isso após a Batalha de Canas. Mas a pergunta é: isso seria suficiente para derrubar Aníbal em uma guerra ofensiva?

Aníbal só sairia de seu acampamento de inverno em junho de 216 antes de Cristo, para buscar suprimentos, aproveitando a colheita de trigo. O alvo era a cidade de Canas, utilizada como depósito de comida pelos romanos. E era inevitável que esse ataque provocasse uma resposta em Roma, que via nesse momento a ocasião certa para atacar Aníbal. Fábio Máximo era contra a ideia e alertaria Varrão sobre os perigos desse ataque, mas a decisão do Senado era de iniciar um combate com Aníbal.

Os romanos reuniram exércitos liderados Gêmino e Marco Atílio Régulo com os exércitos consulares de Varrão e de Lúcio Emílio Paulo. Quantitativamente era uma força impressionante se dirigindo a Canas para enfrentar Aníbal. Em 29 de julho, os romanos acampariam a cinco milhas do inimigo, de onde podiam ver os cartaginenses. Aníbal tinha uma cavalaria superior em números e em qualidade e o plano romano era atrair a cavalaria cartaginesa para um terreno onde podia ser neutralizada e vencer usando a infantaria superior. Os romanos bloquearam o acesso à planície onde Aníbal poderia obter suprimentos, o que seria uma pressão para que ele agisse primeiro.

No dia 2 de agosto, os romanos deixaram o seu acampamento e foram para o campo de batalha escolhido por eles, próximo do rio Aufídio e das colinas ao sul de Canas. Os romanos posicionaram a cavalaria em ambos os flancos para se protegerem de um ataque da cavalaria cartaginense, o flanco esquerdo próximo do rio e o direito de colinas, para oferecerem um terreno difícil para a cavalaria inimiga. A intenção romana era segurar a cavalaria cartaginesa enquanto que a muito mais numerosa infantaria romana atacaria pelo centro. Os comandantes romanos estavam confiantes, já que pela primeira vez eles tinham escolhido as condições nas quais a batalha seria travada.

Quanto a Aníbal, ele iria para o campo de batalha sabendo de sua inferioridade numérica. Seu plano era preservar as tropas espanholas e africanas e colocar as tropas célticas mais à frente. A maior parte da infantaria era composta por celtas, o exército sendo composto ainda por infantaria pesada, além de cavalaria numída e celta. Os cartaginenses estavam em menor número, mas isso não abalaria a confiança de Aníbal nem da maioria de seus homens. Aníbal iria para o campo de batalha não apenas conhecendo as suas próprias forças, mas tendo uma boa ideia das forças inimigas

Aníbal posicionaria a cavalaria pesada celta e espanhola no flanco esquerdo para encarar as forças de Paulo sob o comando de Asdrúbal, que não é seu irmão (parece que era um nome popular entre os cartagineses!). A cavalaria leve numída ficou no lado direito sob o comando de Maharbal. No centro da linha, infantaria celta e espanhola dispostas em um formato de crescente convexa, ou um C deitado, para ajudar a visualizar. Isso foi feito para desacelerar o avanço da infantaria romana pelo centro e dar tempo para que a cavalaria vencesse a resistência e flanqueasse o centro da formação romana. Além do mais, Aníbal guardou o seu trunfo, a infantaria pesada africana, para enfrentar os romanos quando as condições fossem mais favoráveis. O próprio Aníbal comandaria o centro do seu exército.

A batalha começou com as infantarias se enfrentando, começando com o arremesso de lanças e pedras e seguido pelo combate corporal. A batalha no flanco esquerdo foi especialmente feroz, os dois lados sabendo da importância dessa parte da formação. Incapazes de flanquear a cavalaria romana por conta do rio, os homens de Asdrúbal precisaram encarar de frente os romanos, que acabaram sendo prejudicados pela opção de comprimir a cavalaria em um curto espaço de campo, de forma que com o tempo se tornou quase um combate de infantarias. A cavalaria romana no lado esquerdo teve que recuar diante da mais numerosa cavalaria cartaginesa.

Paulo foi ferido no comando da cavalaria e cairia de seu cavalo ou teria desmontado. De todo modo, isso foi encarado como um sinal para o restante da cavalaria fazer o mesmo, o que os tornou presas fáceis para os cartagineses. A cavalaria romana ainda tentou fugir da batalha cruzando o rio, mas seriam exterminados. Conforme a cavalaria romana se afastasse da infantaria, surgiria um buraco na proteção do flanco, que Asdrúbal rapidamente aproveitaria com tropas frescas e exploraria essa brecha para atacar a infantaria pelo flanco.

No centro do campo de batalha, a infantaria romana avançaria com ferocidade aproveitando a sua superioridade numérica, mas seria atrasada pela formação de crescente convexo dos cartagineses, que obrigou os romanos a cobrir mais território para empurrar os cartagineses, cansando-os mais. Outra dificuldade é que os celtas preferiam usar a espada para cortar enquanto que os espanhóis para perfurar, o que deixava os romanos tendo que se adaptar a dois estilos de luta diferentes.

Inevitavelmente, a linha cartaginesa se quebraria e seria empurrada para trás pela muito mais numerosa infantaria romana. A linha cartaginesa assumiria uma forma côncava conforme ia sendo pressionada pelos romanos. Porém, ainda havia o trunfo dos cartagineses, a infantaria pesada africana posicionada nos flancos. A infantaria pesada, vestida com lóricas segmentadas obtidas dos espólios da Batalha do Lago Trasimeno, abaixaria as lanças e investiriam contra os romanos. O impacto de um ataque duplo da infantaria pesada seria devastador, e enquanto os romanos se voltaram para enfrentar a nova ameaça Aníbal reuniria a infantaria leve para avançar contra os romanos que há pouco tempo atrás estavam massacrando-os.

A cavalaria romana no flanco esquerdo (direito dos cartagineses) liderada por Varrão havia segurado os ataques da cavalaria numída de Maharbal. Mas isso duraria apenas até a cavalaria de Asdrúbal atacar a retaguarda da cavalaria de Varrão, o que desmontaria a disciplina romana e provocaria uma fuga do campo de batalha. Maharbal ficaria responsável por perseguir os romanos, enquanto que Asdrúbal atacaria a retaguarda do centro do exército romano, completando o cercamento cartaginense.

Atacados por todos os lados, os numericamente superiores romanos, possivelmente até essa parte da batalha, nada podiam fazer contra os cartaginenses. A batalha terminou com um massacre e uma vitória incontestável de Aníbal e suas tropas. A estimativa é de 47 mil mortos na infantaria, 2,7 mil na cavalaria e mais de 19 mil prisioneiros, contra uma baixa de 8 mil cartaginenses. Entre os mortos, Paulo, Gêmino e Minúcio.

Aníbal obteve a sua maior vitória e Roma a sua pior derrota em toda a sua história. Roma teria que se mobilizar para se proteger, criando novas legiões utilizando escravos, prisioneiros e sobreviventes da Batalha de Canas. Nessa época que surgiria o dito “Hannibal ad portas”, ou “Aníbal nos portões”, os romanos temendo uma invasão cartaginesa à capital a qualquer momento.

O que não aconteceu. E a pergunta é: por que Aníbal não atacou Roma? Maharbal pediria permissão para atacar a capital, negada por Aníbal. Ele diria ao comandante que era brilhante em vencer, mas não em explorar as suas vitórias. Porém, Aníbal sabia do potencial militar de Roma e sabia que um cerco seria demorado e desgastante. Se Sagunto resistiu oito meses, quanto tempo não resistiria Roma? E a estratégia de Aníbal era de uma guerra de mobilidade, não de cerco. O que ele precisava era de mais batalhas como Canas para que as deserções dos aliados começassem em maior volume, o que começou apenas modestamente após Canas. Porém, Roma não daria oportunidades para novas Canas para Aníbal.

No fim, a batalha daria validade para a estratégia de Fábio Máximo, a única que até o momento teve algum sucesso contra Aníbal e que voltaria a ser exercida após Canas. Paradoxalmente, o sucesso em Canas foi o ponto mais alto da campanha de Aníbal, mas também o fim de seu avanço, na medida em que os romanos não se engajariam em mais batalhas contra Aníbal. Tendo perdido o momento, Aníbal passou a sofrer com deserções e com a falta de reforços de Cartago, que preferiu reforçar a Espanha do que Aníbal. Canas seria a maior vitória de Aníbal, mas também o máximo que chegaria de derrotar Roma.

A Segunda Guerra Púnica só terminaria em 201 antes de Cristo, quinze anos após Canas. Como acabou e o que ocorreu entre Canas e 201 a.c., talvez eu fale em um vídeo futuro especificamente sobre a Segunda Guerra Púnica.