sexta-feira, 3 de abril de 2015

Batalha de Sekigahara (1600)




A batalha de Sekigahara foi um conflito importante na história do Japão, marcando a transição entre o Período Sengoku (período dos estados beligerantes, em uma tradução livre) e o período Tokugawa (mais conhecido como período Edo). Então, antes de falar sobre a batalha, precisarei fazer uma breve introdução do contexto histórico.

A Era Sengoku foi marcada por guerras e disputas políticas pelo poder no Japão. O lendário Oda Nobunaga daria o primeiro passo para a unificação do país e seria sucedido por Toyotomi Hideyoshi. O período entre 1568 e 1600 seria conhecido como Azuchi–Momoyama em referência aos castelos de Nobunaga e Hideyoshi respectivamente e foi um período relativamente tranquilo da história do Japão.

Essa paz seria rompida justamente com a morte de Hideyoshi, ou, de forma mais ampla, durante os seus dois últimos anos de vida no leito de morte. Hideyoshi ocupava o cargo de kanpaku, uma espécie de primeiro-ministro civil e conselheiro chefe do imperador, mas na prática ele era o senhor do Japão. Em 1592, ele transferiu o seu cargo para seu filho adotivo, Hidetsugu, e adotaria o título de taikô, ou regente aposentado.

Em 1593, nasceria o filho de Hideyoshi, Hideyori, o que azedaria a relação de Hideyoshi e Hidetsugu, a ponto do kanpaku ser deposto e convidado a realizar o seppuku por conta de acusações de que tramaria contra Hideyoshi. Em 1598, adoeceria e, temendo pela vida de seu filho, convocaria seus vassalos mais poderosos e afluentes, entre eles Tokugawa Ieyasu, Maeda Toshiie, Uesugi Kagekatsu, Môri Terutomo e Ukita Hideie. Ele os fez prometer que apoiariam o seu filho (até então com cinco anos) como se fosse ele próprio. Toshiie e Ieyasu ficariam responsáveis pela criação de Hideyori. Dessa forma, um concílio de cinco regentes (tairôs) governaria o Japão até que Hideyori alcançasse a maioridade, os regentes devendo trabalhar com cinco comissários (bugyô) indicados por Hideyoshi para supervisionar os regentes.

Pouco tempo depois, Hideyoshi morreria. Ieyasu iria para o castelo Fushimi, uma das fortalezas favoritas de Hideyoshi, e era visto como um potencial usurpador. Ishida Mitsunari, um dos comissários, tramou contra Ieyasu ao visitar Maeda Toshiie e pedir seu apoio para enfraquecer a posição de Ieyasu. Hosokawa Tadaoki, amigo de Toshiie e Ieyasu, vi que essa situação iria beneficiar Mitsunari, uma vez que com Ieyasu descartado e tendo em conta que Toshiie não viveria muito mais e que seu filho era muito jovem, o caminho ficaria livre para Mitsunari assumir o poder. Com isso, convenceu Maeda Toshinaga, filho de Toshiie, a pedir ao pai que não se opusesse a Ieyasu.

Ieyasu continuaria sofrendo oposição dos regentes, mas não se curvaria a isso, sendo o daimyo mais poderoso da época. Mitsunari tentaria assassina-lo, mas o plano fracassaria e Mitsunari teria que fugir de Osaka disfarçado de mulher para não ser eliminado pelos generais de Ieyasu. O local de fuga é o mais inesperado de todos, o castelo de Fushimi, onde Ieyasu estava. Mitsunari foi até lá para pedir proteção e Ieyasu aceitaria. É um tanto controverso os motivos que levaram a essa decisão, mas vamos dizer que Ieyasu preferia um inimigo que já conhecia do que uma nova ameaça desconhecida. Ieyasu mandaria que Mitsunari retornasse para sua casa, o castelo de Sawayama, sob os olhos atentos de Tokugawa Hideyasu, seu filho.

Maeda Toshiie morreria em 1599. Hosokawa Tadaoki convenceria um dos filhos de Toshiie, Toshinaga, a ficar do lado de Ieyasu. A posição de guardião físico de Hideyori era de Toshiie e Ieyasu tomaria esse cargo para si e se mudaria para Osaka, o que enfureceria ainda mais os demais regentes e comissários. Enquanto estava em campanha contra um senhor revoltoso, Uesugi Kagekatsu, Mitsunari se juntaria com cinco comissários e três dos outros quatro regentes (a exceção sendo Toshinaga, que herdou o cargo de Toshiie) e enviaria uma reclamação formal contra Ieyasu. Todas as reclamações estavam corretas, mas Ieyasu não se importaria com isso e entenderia como uma declaração de guerra, e não se sabe ao certo se era essa a intenção de Mitsunari e os demais. (7)

Os daimyos se alinhariam com um dos lados, o de Mitsunari, que seria conhecido como o Exército Ocidental, e o dos Tokugawa, o Exército Oriental. Os dois lados tramariam os seus planos e a batalha decisiva seria travada em um estreito vale, Sekigahara.

Comandantes Opostos
No exército oriental, o principal comandante era Tokugawa Ieyasu, senhor da região de Kantô, moderna Tóquio e redondezas, era um descendente do poderoso clã Minamoto, que já não existia na época, mas cujas várias ramificações ainda eram poderosas no Japão. Ieyasu era o daimyô mais poderoso da época, com 2,5 milhões de koku, uma medida monetária, com 1 koku equivalendo à quantidade de arroz necessária para manter um homem por um ano. Seu rival mais próximo possuía menos da metade dele e tanta riqueza naturalmente se converteria em influência e poder, Ieyasu possuindo o maior, mais bem treinado e mais leal exército do Japão.

A posição de regente (ou tairô) era até pouco para tamanho prestígio. Ieyasu deixaria passar muitas oportunidades de tomar o poder no Japão desde a morte de Nobunaga. Poderia ter sido aquele que vingou a morte de Nobunaga, mas Hideyoshi chegou primeiro e essa seria uma oportunidade perdida. Ieyasu era paciente, no entanto, e aguardaria até a hora certa, que chegou com a morte de Hideyoshi. Ieyasu tinha 58 anos na época e tinha passado por mais ou menos 50 batalhas. Era também bastante ativo na diplomacia, realizando diversas alianças através de negociações e casamentos.

Lutando ao lado de Ieyasu, tínhamos Katô Kiyomasa, um valente general de 38 anos. Era um amigo próximo de Hideyoshi e foi um choque para muitos que ele tenha se alinhado com Ieyasu, e não com os legalistas. Sua posição era menos a favor de Ieyasu ou contra Hideyori e mais um fruto de seu ódio por Mitsunari, que sujou a honra de Kioyamasa na campanha Coréia em diversas ocasiões. Ele não participaria da batalha de Sekigahara, mas foi importante para conter levante dos legalistas.

Katô Yoshiaki, que também serviu na Coréia, também era vassalo de Hideyoshi, também odiava Mitsunari, mas não era parente de Kiyomasa, também se aliaria com Ieyasu. Ii Naomasa contribuiu com a campanha com 3.600 homens vestidos de forma assustadora com uma armadura vermelha, seus homens sendo conhecidos como os diabos vermelhos de Ii.

Já no exército ocidental, oposto a Ieyasu, Ishida Mitsunari era o comandante em chefe de fato do exército legalista. Ele era descendente dos Fujiwara, que chegaram a controlar o governo civil do império. No entanto, estava muito distante de ter a riqueza ou a influência de Ieyasu. Ele era um dos cinco comissários escolhidos por Hideyoshi e desempenhou bem a sua função. Mitsunari era leal a Hideyoshi e depois de sua morte a Hideyori. Muitos apontam que ele tinha a sua própria agenda, mas o fato é que ele atuou para assegurar o direito de Hideyori de governar. Não hesitava em tramar e usar de métodos escusos, tendo tentado assassinar Ieyasu em diversas ocasiões e tendo tomado reféns, o que resultou na morte brutal da esposa de um dos aliados de Ieyasu. Tomar reféns para negociar era dado como legítimo, mas matar os reféns, ou deixar que eles se matassem, tornou Mitsunari mal visto pelos outros senhores feudais e o fez perder apoio. Dito assim, parece que Mitsunari era um cara durão, mas a verdade é que ele ascenderia na hierarquia social não por suas proezas militares, laços familiares ou diplomacia, mas por ser muito bem versado na arte de servir chá. Não vamos entrar em detalhes sobre porque isso era tão importante, basta dizer que os militares apreciavam isso, Hideyoshi gostou de Mitsunari e o colou em seu círculo íntimo.

O feudo pessoal de Mitsunari era a província de Ômi, em Honshu, e seu castelo ficava em Sawayama, com várias estradas passando pelo coração da região de Honshu e que teria um grande papel no conflito. Mitsunari não era visto como um grande guerreiro, pelo contrário, Kioyamasa o considerando um civil se metendo em assuntos militares. Ele podia comandar um exército, mas sem grande destreza, e o próprio Hideyoshi o colocou em posições administrações, não no comando de exércitos. Porém, era exatamente o que faria na campanha de Sekigahara.

Môri Terumoto era o comandante em chefe nominal dos legalistas no exército ocidental, apesar de ter muito mais berço, dinheiro e influência do que Mitsunari. Terumoto tinha que tomar muito cuidado com a decisão de quem apoiaria, mas seria convencido por um de seus principais conselheiros a apoiar a causa de Hideyori. Quando ingressou na aliança anti-Tokugawa, atraiu o apoio de muitos outros, que pediriam para que Mitsunari abrisse mão do poder em prol de Terumoto. Acabaria aceitando, mas no fim das contas era Mitsunari quem era o verdadeiro comandante. Terumoto ficaria no castelo de Osaka, o quartel-general da facção Toyotomi, o que o tornava o comandante nominal, mas o deixava longe demais da batalha para ser o comandante de verdade.

Para Terumoto, não era tão ruim assim, uma vez que ele corria menos risco de morte, tanto física quanto política, podendo se beneficiar no caso de vitória e não perder tudo no caso de derrota. O seu segundo em comando nominal era Ukita Hideie, velho amigo de Hideyoshi e um dos cinco regentes escolhidos para proteger Hideyori. Konishi Yukinaga era um dos mais poderosos daimyô cristãos e tinha uma grande rivalidade com Kiyomasa, que odiava cristãos, mas que tinha que dividir muitas coisas com ele, de comando militar na Coréia até o próprio feudo.

Esses são os comandantes que ficaram sempre leais a suas facções, mas temos ainda os vira-casacas que mudaram de lado ao longo da campanha. O principal deles, Kobayakawa Hideaki, que traiu Mitsunari, pode ser apontado como aquele que virou a batalha a favor de Ieyasu. É curioso que uma guerra com tantos senhores feudais experientes e ricos possa ter sido decidida pelas emoções de um jovem de 19 anos. Ele era primo da esposa de Hideyoshi e se tornaria filho adotivo. Era ainda neto de Môri Motonari e primo de Terumoto, o que o colocou com um pé em cada lado do conflito. Com apenas 15 anos, já era comandante militar na Coréia tendo como conselheiro Kuroda Yoshitaka, que cuidou dele quando pequeno. As coisas não dariam muito certo para Hideaki, que voltaria para casa em desgraça, inclusive com Hideyoshi, denunciado como incompetente por parte de Mitsunari. Ieyasu interviria e reconciliaria Hideaki com seu pai adotivo e Hideaki nunca esqueceria o favor que devia a Ieyasu ou a ideia de se vingar de Mitsunari.

Durante o conflito com Tokugawa, Mitsunari prometeria a Hideaki que o faria kanpaku e colocaria Hideyori aos seus cuidados. Ieyasu, por sua vez, prometeria dois domínios para ele. Indeciso, perguntaria para a sua mãe adotiva o que deveria fazer. Ela diria a Hideaki que seguisse a sua consciência, e que a sua consciência deveria dizer a ele para seguir Ieyasu. Mas, no fim, iria para a guerra com o exército ocidental da facção Toyotomi, ainda indeciso sobre em quem confiava mais. Era tido como uma criança muito inteligente e estava diante da decisão mais importante da sua vida.

Exércitos opostos
É um pouco complicado falar em organização militar no Japão, que não tem nada como uma estrutura militar como vemos no Ocidente. Cada daimyô comandava os seus próprios homens e os líderes tentavam organizar os daimyôs para agir em conjunto, o que nem sempre dava certo. É como se cada daimyô fosse o comandante de uma divisão, porém, com um número variável de homens dependendo do poder de cada um. Para piorar, havia muitos conflitos internos nessa estrutura descentralizada, com daimyôs discutindo até quase as vias de fato sobre quem deveria atacar uma determinada posição. Por tudo isso, era difícil coordenar os combatentes e isso prejudicava muito o Japão em campanhas no exterior e é bem possível que eles pudessem ser mais dominantes se fosse mais bem organizados. E Ieyasu parecia entender essa situação e por isso que decidiu agir com cautela, para que chegasse a hora certa em que as suas ordens tivessem mais chances de serem seguidas.

Na parte dos equipamentos, alguns daimyôs davam mais, outros menos equipamentos, alguns davam dinheiro para que os soldados adquirissem armas e armaduras e por ai vai. Na parte decorativa, havia uma diversidade ainda maior. Em geral, os soldados rasos, ashigaru, vestiam a armadura dô, o elmo kabuto e o kote, uma proteção para o braço, além de proteção para as pernas (suneate) e para as coxas com uma espécie de avental chamado haidate. Cada unidade, vamos chamar assim, tinha o seu próprio estandarte com o símbolo do seu clã, chamado de sashimono.

A principal arma era a lança yari, o tamanho variando de clã para clã. As armas secundárias eram duas espadas, uma longa, a katana ou tachi, e a menor, a wakizashi. Alguns usavam ainda punhais, que também eram utilizados para remover a cabeça dos inimigos derrotados para servir como troféu. Os soldados mais pobres no mínimo tinham uma espada longa e um ou dois punhais. Arcabuzes, chamados de teppô tai, introduzidos pelos portugueses, eram utilizados. Essa arma mudou a forma de se fazer guerra, possibilitando que um soldado raso matasse um daimyô de uma longa distância e também suplantando os arqueiros, que ainda existiam, mas em menor número.

E vamos agora falar sobre a batalha de Sekigahara, ou, se preferir, a campanha de Sekigahara, já que tivemos uma série de batalhas entre os exércitos Oriental e Ocidental antes do grande desfecho. O começo das hostilidades começou em maio de 1600, com Uesugi Kagekatsu de Aizu aumentando as defesas de seu castelo, entendido como uma provocação por Ieyasu, que pediria explicações sem obter resposta. Kagekatsu atentaria contra a vida de um dos mensageiros de Ieyasu sob a acusação, talvez acertada, de ele ser um espião. Ieyasu exigiria explicações de Kagekatsu, ordenando que fosse a Osaka pessoalmente falar com ele.

Sem obter resposta, Ieyasu entenderia que devia fazer uma campanha militar contra Kagekatsu e o faria em julho de 1600. Ieyasu ordenaria que os seus principais aliados partissem de Osaka e retornassem a seus castelos para se prepararem para a guerra. Kagekatsu estava seguro de que seu aliado, Mitsunari, agiria rapidamente para atacar a retaguarda do inimigo. Por isso, enquanto Ieyasu saia de Osaka, Kagekatsu atacaria só para ser surpreendido por um contra-ataque de aliados de Ieyasu, que conseguiram conter Kagekatsu.

Ao mesmo tempo, Mitsunari faria um conselho de guerra em seu castelo em Sawayama com vários de seus aliados. Ele estava certo de que Ieyasu atacaria Kagekatsu primeiro e estava contando com isso. Ieyasu, por sua vez, continuava a sua marcha em direção a leste de Osaka. Chegaria em Edo em agosto e ficaria até o começo de setembro, quando iria para Oyama ao norte com um exército de 50 mil homens.

Como era esperado por Ieyasu, forças legalistas atacaram o castelo de Fushimi de um amigo pessoal de Ieyasu, Torii Mototada, que tinha recebido Ieyasu em um clima de despedida, já que era claro para ambos que Fushimi seria o primeiro alvo de Mitsunari. Além do mais, capitular não era uma opção, Mototada tinha que segurar o exército ocidental o quanto pudesse. E estava segurando, porém, um traidor que tinha esposa e filhos como reféns por Mitsunari acabou ateando fogo no castelo, prejudicando mortalmente as defesas. No fim, os samurais que defendiam o castelo cometeriam suicídio quando a derrota já era clara. Mitsunari tomaria Fushimi, mas perderia 3 mil homens no ataque. Após tomar Fushimi, Mitsunari pôde se encontrar com seus aliados no castelo de Ôgaki para uma marcha rumo nordeste para atacar o exército de Ieyasu pela retaguarda.

Os castelos de Kiyosu e Gifu tinham uma posição estratégica ao estarem próximos das estradas de Tôkaido e Nakasendô, rota para diversos pontos chaves e, por isso, era essencial controlar essa posição. Cada castelo estava de um dos lados, Ôsaki Genba controlando o castelo de Kiyosu em nome de Fukushima Masanori, aliado de Ieyasu. O neto de Oda Nobunaga, Oda Hidenobu, criado por Hideyoshi, estava encarregado de Gifu. Seus conselheiros sugeriram que ele ficasse do lado de Ieyasu, mas acabaria servindo aos legalistas.

Ieyasu mandaria 16 mil homens para assegurar Kiyosu e depois tomar Gifu, enviando mais 15 mil homens posteriormente e depois mais 36 mil homens sob o comando de seu filho, Hidetada. Todas essas forças convergiriam para Mino, onde Ieyasu os encontraria e assumiria o comando. Gifu acabou sendo tomada em 28 de setembro e Oda Hidenobu se refugiaria nos monastérios no topo das montanhas. Em 7 de outubro, Ieyasu sairia de Edo com 30 mil homens em marcha forçada rumo ao oeste.

A campanha de Sekigahara envolveria algumas batalhas fúteis que distraíram ou mesmo removeram homens da batalha principal. Uma delas foi o cerco do castelo de Tanabe, onde Hosokawa Yûsai estava refugiado. Ele era um homem já de certa idade, muito respeitado por seus conhecimentos e pela sua poesia, inclusive pelo próprio imperador. Ele declararia apoio a Ieyasu e seria atacado pelos legalistas. Yûsai pediria um cessar fogo para remover livros de poesia de seu castelo, um tesouro inestimável que poderia se perder na batalha. Os inimigos não apenas deixaram que isso fosse feito, mas eles mesmos não mostrariam muita vontade de enfrentar Yûsai, esquecendo de carregar os canhões usados no cerco. No fim, o imperador interviria e pediria para que Yûsai se rendesse. O que seria uma vitória dos legalistas foi uma derrota, já que o cerco deixou 15 mil homens do exército ocidental muito longe de Sekigahara para poderem agir na batalha.

Outra batalha inútil foi a do castelo de Ueda, onde o terceiro filho de Ieyasu, Hidetada, marchava com seus 36 mil homens para dissimular um ataque ao castelo de Ueda. Porém, ao invés disso, Hidetada resolveu tentar tomar o castelo contra um comandante muito mais experiente. No final das contas, o castelo seguraria e Hidetada chegaria em Sekigahara, mas tarde demais. O cerco ao castelo de Otsu, que tinha importância estratégica para os dois lados, teve ares de comédia. Forças de Ieyasu precisavam defender o ataque dos legalistas, e a batalha seria uma apresentação teatral para os residentes de Kyôto, que ficaram assistindo a batalha. Takatsugu, que defendia o castelo, mandaria um ninja roubar estandartes inimigos, o que ofendeu Môri Motoyasu, que teve os estandartes roubados, e confundiu seu aliado, Tachibana Muneshige. O cerco continuaria e os legalistas tomariam o castelo em 21 de outubro, ou seja, após a batalha de Sekigahara, retirando 15 mil homens do campo de batalha principal.

Voltando ao tópico principal, a chegada das forças legalistas em Ogaki foi lento e o avanço de Ieyasu, ao contrário, foi rápido para grande surpresa de Mitsunari. Tendo controle total da região, Ieyasu pôde chegar em Kiyosu e Gifu sem ter que passar por Mitsunari. Depois, chegaria em Akasaka no dia 20 de outubro, portanto, véspera da batalha de Sekigahara. Akasaka era uma pequena vila próxima de Ôgaki, teoricamente em posição de atacar o castelo.

Mitsunari e seus aliados ficaram preocupados com um iminente ataque e ponderariam o que fazer. Shima Sakon e Akashi Masataka levariam combinados 1300 homens para testar o inimigo. Em uma série de pequenos conflitos, escaramuça, se preferir, o episódio foi o primeiro no qual os corpos principais dos exércitos se encontraram, mas não serviram para mais nada além de animar o dia.

Mitsunari sabia que estava em posição delicada. Ele precisava encontrar um ponto por onde atacar Ieyasu tendo em vista proteger Ôsaka e Sawayama, não Ogaki. Seus conselheiros sugeriram um ataque noturno, que seria um estratagema sórdido e Mitsunari descartaria a ideia com a sua típica delicadeza, ofendendo Shimazu Yoshihiro, que havia sugerido a ideia. Não foi exatamente uma resposta grosseira, mas Yoshihiro não gostou das palavras de Mitsunari. A chegada de um de seus últimos aliados, Kobayakawa Hideaki, daria uma ideia para ele. Hideaki tinha tomada posição em uma pequena vila em um vale na estrada de Nakasendô. Essa era a posição perfeita para interceptar Ieyasu e barrar o seu caminho e esse vale era justamente Sekigahara. Deixaria 7500 homens guardando Ogaki e iria para Sekigahara aguardar o inimigo.

No chuvoso 21 de outubro de 1600, os dois exércitos partiriam para o confronto definitivo. As movimentações se deram de madrugada, o que obviamente prejudicou a movimentação e a visibilidade, e só a disciplina e o treinamento dos samurais é que garantiriam o sucesso de tão difícil movimentação. Mitsunari encontraria Hideaki em sua posição em Sekigahara e pediria para que ele se posicionasse de forma a atacar o flanco do exército oriental caso seja necessário. Mitsunari planejava emboscar Ieyasu e encaixotá-lo em Sekigahara. Nesse momento, o comandante do exército ocidental estava confiante, finalmente em uma posição superior e tendo superioridade numérica.

Mitsunari estabeleceria sua posição de comandando no Monte Sasao, enviando metade de suas forças para a vila de Oseki e os demais ficando com ele. O restante do exército ocidental tomaria posição e ficariam em uma formação de asas de grou, espalhados pelo terreno prontos para cercar o inimigo.

Ieyasu ouviria os relatos de movimentação do exército ocidental e entenderia qual era o plano de Mitsunari. De madrugada, também marcharia com o seu exército, indo em direção oeste pela estrada enlameada de Nakasendô. Tomando um caminho mais direto, Ieyasu chegaria em Sekigahara praticamente na mesma hora de Mitsunari e estabeleceria seu quartel-general no Monte Momokubari. O exército oriental também chegaria ao campo de batalha e ao amanhecer os dois lados estavam nas posições pretendidas, com por volta de 85 mil homens de cada lado, número que poderia ser maior se tantos não tivessem ficado presos em outras partes do Japão em batalhas secundárias.

Quando a névoa que cobria o campo de batalha dispersou, os dois exércitos veriam quão próximos estavam um do outro, a uma distância de alguns minutos de corrida. O primeiro movimento ofensivo veio de tropas montadas do exército oriental, os diabos vermelhos de Naomasa, se dirigindo contra a posição de Ukita Hideie. Por sinal, a lenda diz que o lendário Miyamoto Musashi lutou nas fileiras de Hideie, mas não há confirmação disso. De todo modo, houve uma disputa entre quem deveria tomar a frente, se Naomasa ou Kani Saizô em uma das disputas internas de poder que mencionei nesse vídeo, mas os dois acabariam juntando forças para atacar a posição de Hideie.

Depois, a batalha se transformou em um caos, sem nenhuma grande estratégia de qualquer dos lados que não seja “mate o inimigo”. Em especial, Hideie e Yoshitsugu estavam recebendo ataques mais pesados por parte dos aliados de Ieyasu. O comandante do exército oriental aproveitaria para mover seu quartel-general para mais próximo da posição de Mitsunari, que também estava sob intenso ataque do exército oriental.

A artilharia de Ieyasu estava em um dia particularmente bom. Os arcabuzes foram movidos para o flanco direito da linha de frente de Mitsunari para apoiar o avanço dos samurais do exército oriental. O momento era melhor para as forças de Ieyasu, que continuavam pressionando contra forças de Mitsunari que não queriam recuar. O exército ocidental tentou usar canhões contra o inimigo, o que não era muito adequado, já que canhões eram usados mais contra muralhas do que contra pessoas, mas eles esperavam que pudesse ter um efeito psicológico. E funcionou, com as forças de Ieyasu recuando um pouco, levando pressão das forças de Mitsunari, que logo retomariam a defensiva após contra-ataques.

A batalha seguiria com os dois exércitos se enfrentando, com o oriental tentando quebrar a defesa do ocidental. O campo de batalha se tornaria altamente caótico com o intenso uso de arcabuzes, cuja fumaça negra transformou o dia em noite. Por volta das 10 horas, após duas horas de combates, Ieyasu decidira avançar para mais perto da posição de Mitsunari. Ieyasu parecia confiante, mas episódios de raiva, que inclusive feriram aliados seus, mostravam o contrário. Ieyasu se perguntava o que o inimigo estaria fazendo, já que nem metade do exército ocidental entrou em combate. Por exemplo, Shimazu Yoshihiro, aquele que sugeriu um ataque noturno e se ofendeu com a resposta de Mitsunari, ficou parado mesmo quando o inimigo se aproximou de sua posição. Precisou que o próprio Mitsunari fosse falar com Yoshihiro para que ele explicasse o seu comportamento e Yoshihiro diria que nesse tipo de batalha cada unidade deve tomar as suas próprias decisões, e Mitsunari só podia confiar que Yoshihiro entrasse em batalha em algum momento.

Os legalistas sofreram com o pesado ataque da facção Tokugawa, mas sob a liderança de Hideie conseguiram se manter e empurrar para trás o inimigo. Foi tão bem sucedido que atrapalhou os planos de Mitsunari, que era encaixotar Ieyasu com um ataque pelo flanco com Hideaki e pela retaguarda com os homens de Môri Terumoto, que estava no castelo com Hideyori e diziam ter um pacto com Ieyasu. Hideie empurrou tanto para trás o exército oriental que impossibilitou um ataque pelo flanco.

Por volta das 11, Mitsunari examinaria o campo em Monte Sasao e decidiu que era hora de um ataque decisivo para esmagar o inimigo. Hideie passou a ser empurrado de volta pelas forças de Ieyasu e Mitsunari veria que essa era a hora de chamar Hideaki para a batalha. Ele acenderia o fogo como aviso para Hideaki, mas nenhum ataque veio. Primeiro Shimazu, agora Hideaki também? O clã Môri também o abandonou? Certamente, Mitsunari não deveria estar se sentindo confortável com o andamento da batalha. Outros veriam o sinal, sabiam o que significavam, e também não se moveram. Mensageiros foram enviados para pedir explicações, e nenhuma resposta seria dada. O mistério sobre o porque da maior parte do exército de Mitsunari não se mover, que intrigava Ieyasu, era melhor do que ele esperava.

Ieyasu já tinha um acerto com Hideaki, o problema é que enquanto Hideaki não ataca o exército oriental, também não atacava o ocidental. Hideaki era um jovem comandante e provavelmente estava incerto sobre se deveria ou não trair Mitsunari. Ieyasu ordenaria um ataque de arcabuzes contra os Kobayakawa e isso parece que acordou Hideaki, que ordenaria um ataque contra Ôtani Yoshitsugu do exército ocidental. Yoshitsugu, por sua vez, já esperava a traição de Hideaki assim que notou que ele não se moveu ao sinal de Mitsunari e já estava se preparando. O problema é que ele já estava sendo atacado pelo exército oriental e sua posição ficaria comprometida com um ataque duplo. Sabendo que o fim era eminente, e que fugir não era uma opção, pediria para um servo, Yuasa Gorô, que o matasse e escondesse a sua cabeça para que não fosse tomada como troféu. Gorô faria como ordenado, mas a segunda parte seria desafiadora de se fazer no meio da batalha. Mesmo assim, conseguiria esconder a cabeça enterrando no solo, para nunca ser encontrada.

Os Kobayakawa venceram os Ôtani com a ajuda de outros traidores e avançaram contra os Ukita e os Konishi, seus comandantes, Hideie e Yukinaga, estando despreparados para traições diferente de Yoshitsugu, e foram massacrados com um ataque pela retaguarda. Com ataques vindos de duas frentes, o exército ocidental começou a ruir.

A batalha já estava perdida para os legalistas. Talvez se outras forças que estavam fora da batalha tivessem intervindo, o resultado poderia ter sido diferente, mas, apesar de serem leais a Mitsunari, entendiam ser tarde demais. Môri Terumoto também foi decisivo na batalha, pois se tivesse atacado a facção de Tokugawa poderia ter dado a vitória para os legalistas mesmo com a traição de Hideaki. A questão agora era se Shimazu, Hideie, Yukinaga e o próprio Mitsunari seriam capazes de fugir da batalha ou conseguir a cabeça de Hideaki, como Hideie passou a almejar. No fim, todo mundo conseguiu fugir de Sekigahara, Shimazu precisando contar com a sorte para atingir Naomasa com um tiro de arcabuz enquanto Naomasa o perseguia, obstinado a não deixar que os líderes dos legalistas fugissem.

Vitorioso, Ieyasu seria nomeado Xogum pelo imperador e teria que decidir o que fazer com seus inimigos. Nada faria contra Hideyori, já que muitos ainda deviam gratidão ao seu pai e lutaram contra Mitsunari, não contra Hideyori. No futuro, se voltaria contra o filho de Hideyoshi, mas não nesse momento de apaziguamento. Mitsunari e Yukinaga seriam executados, enquanto que Hideie seria mandado para o exílio e Shimazu perdoado. Hideaki pediria perdão para Ieyasu por ter lutado por Mitsunari e ganharia a honra de liderar a última parte da campanha de Sekigahara com o cerco de Sawayama defendido pelo irmão de Mitsunari. Ieyasu não aceitou que Môri Terumoto tivesse se aliado a Mitsunari, mas não o mataria, apenas removendo feudos de Terumoto, reduzindo drasticamente sua riqueza. Aos seus aliados, Ieyasu distribuiria feudos produtivos para recompensá-los, dando feudos piores para os que se opuseram a ele para comprar a lealdade deles.

A batalha de Sekigahara acabou sendo decidida por deserções nas fileiras de Mitsunari, mas não pode ser resumida a isso. A batalha seria diferente se Ieyasu não tivesse feito acordo com aliados de Mitsunari e adaptaria os seus planos para tal. Temos que considerar que a batalha opôs um general experiente como Ieyasu e um general inepto como Mitsunari, que além de não ser muito bom comandando tropas, tinha a antipatia de seus aliados, que lutavam pelo herdeiro do Hideyoshi, não por Mitsunari. Mas, no final das contas, Tokugawa Iyeasu foi o vencedor do dia e inauguraria a Era Edo do Japão, que se estenderia até a Restauração Meiji em 1868.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Batalha de Alésia (52 a.c.)




Batalha de Alesia
A Batalha de Alésia foi o confronto definitivo da Campanha da Gália de Júlio César, campanha militar que aumentaria o prestígio de César e sedimentaria seu caminho rumo à soberania em Roma. Além de comandar as tropas, César ainda seria o cronista de sua campanha, a principal fonte de informações e único relato presencial sendo do próprio César. Eram três os elementos de poder em Roma, dinheiro, patronato e lealdade de legiões, e César adicionaria um quarto elemento: escrever a sua própria versão da história.

Iniciada em 58 a.c., a campanha da Gália objetivava dominar um dos mais temíveis inimigos de Roma na época, os gauleses, que alguns séculos antes tinham saqueado Roma. Júlio César precisava pacificar a região e reforçar o domínio romano, tendo que lidar com diversas rebeliões, a mais forte começando em 53 a.c.  Os Arvenos, uma tribo gaulesa que vivia na região que hoje é a Auvérnia se rebelaram contra Roma liderados pelo carismático Vercingetórix e ameaçaram seriamente o domínio romano na região.

O que deve ser ressaltado é que não podemos falar em gauleses de forma tão abrangente, uma vez que na verdade são várias tribos que viviam na mesma região. Os gauleses compartilhavam uma mesma cultura e língua, mas eram divididos em diversas tribos com uma predileção para o caos, não para a organização. As tribos se encontravam em diferentes graus de urbanização e de desenvolvimento social, de forma que qualquer classificação dos gauleses era excessivamente simplificadora. A única esperança de vitória dos gauleses era uma aliança pã-gaélica e foi o que Vercingetórix procurou fazer. A brutalidade do domínio romano foi um dos catalisadores para essa união e muitas tribos fizeram aliança com Vercingetórix, inclusive tribos que César considerava aliadas dele.

César classificava como três os povos da Gália, belgas, aquitanios e gauleses, ou celtas na língua local. Coletivamente, eram conhecidas como Gália Comata, a parte da Gália livre do domínio romano, a área sob domínio de Roma sendo conhecida como Província. A Gália Comata também era conhecida como Gália Cisalpina, tinha como fronteira o rio Rubicão, que ficaria famoso na história romana em um episódio que não será analisado aqui. A Gália Transalpina, sob domínio romano, era importante do ponto de vista econômico por ser uma rota terrestre para a Ibéria, onde Roma tinha grande influência. A ameaça de tribos gaulesas e germânicas forçaria Roma a agir e seguir por território não explorado.

César se aproveitaria da situação para fomentar o medo contra os germânicos, que quase invadiram Roma algumas décadas atrás, e os gauleses, que o fizeram séculos atrás. A Gália era um alvo bem atrativo para César, que justificava a campanha como um ataque preventivo para que a região não fosse tomada por raças guerreiras cruzando o Reno. César, na verdade, estava de olho em glória e butim para sustentar a sua carreira política e militar.

Os gauleses eram temidos pelos romanos por serem um povo eminentemente guerreiro que lutava de forma indisciplinada e feroz, o que os assustava. E caberia a César domar essa fera. Em 58 a.c., César criaria duas legiões e sairia de Roma com seis legiões para enfrentar os helvécios, que estavam migrando em massa para o que hoje é Saintonge, no sudoeste da Gália e eram vistos como uma ameaça para a Província. Essa migração em massa abria espaço para que o território antes ocupados pelos helvécios fosse ocupado pelos germânicos e criou o argumento de César de que se a Gália não fosse tomada pelos romanos seria invadida pelos germânicos. César derrotaria os helvécios, mas esse seria apenas o começo da campanha da Gália que envolveria enfrentar germânicos e gauleses.

Os detalhes sobre o que aconteceu entre 58 a.c. e 52 a.c. requerem uma série só para isso. O que importa para esse vídeo é que César passou a enfrentar a rebelião de diversas tribos gaulesas sob o comando de Vercingetórix, havendo confrontos em Avárico e Gergóvia, até o confronto definitivo em Alésia

Comandantes Opostos
De um lado, tínhamos Júlio César, futuro imperador romano. Do outro, Vercingetórix, de quem pouco sabemos devido à sua curta carreira como líder e à tradição dos gauleses de transmitir oralmente a história. Possuímos bem mais informações de César até pelo fato de ele ter escrito a sua própria versão da história, como mencionado.

Eis o que sabemos de Vercingetórix. O pai dele, Celtill, tentou se declarar rei e acabou sendo morto por seus compatriotas, a tribo tendo abandonado a soberania hereditária e adotado a eleição de seus líderes. César pintou Vercingetórix como tendo ambições de ser rei e o filho de Celtill era uma espécie de pária em sua tribo e tendo como única escapatória se rebelar contra Roma. Para isso, recrutaria jovens guerreiros de diversas tribos gaulesas para a sua causa. Vercingetórix era um líder carismático e, ao contrário dos demais gauleses, metódico e não se deixava levar pelas emoções, além de ser um bom estrategista militar. Com tudo isso, seria um adversário à altura para César. E após a vitória em Gergóvia, Vercingetórix seria eleito líder supremo das forças rebeldes.

César, por sua vez, tinha todas as qualidades necessárias para ser um senhor da guerra, sendo um líder inspirador, bom general, lutador experiente e tendo a indispensável indiferença moral para ser um conquistador. Era apto física e mentalmente, corajoso, autoconfiante e capaz de tomar decisões rápidas, sem deixar de ouvir opiniões de centuriões experientes. Tudo isso ajudava a cativar seus comandados e fazer com que eles o seguissem.

Antes da campanha da Gália, César não havia tido experiência com grandes confrontos, mas seria auxiliado por Tito Labieno, descrito como seu segundo em comando e braço direito. Na campanha da Gália, já tinha 42 anos e invejava Alexandre, o Grande, que conquistara o mundo conhecido com 30 anos. Mesmo com uma idade já avançada, César se tornaria rapidamente um grande comandante. Entendia que cabia ao comandante exercer controle sob seus homens e ele costumava ficar próximo o suficiente da batalha para lê-la, mas distante o suficiente para não ser pego nos combates iniciais. Cavalgava próximo à linha de frente para encorajar os seus homens e observar o comportamento deles, punindo ou recompensando futuramente baseado no que via. César desenvolveu uma grande inteligência em batalha, julgando pelo moral exibido e pela comunicação de aliados e inimigos quais eram os pontos decisivos da batalha e como mudar os seus rumos com a segunda e terceira linha. Sabia inclusive quando era a hora de intervir pessoalmente para evitar uma derrota iminente ou para desferir o golpe fatal no inimigo.

De forma temerária, César frequentemente se posicionava próximo de seus soldados e em situações de maior perigo inclusive dispensava o seu cavalo, indicando aos seus comandados que não havia escapatória e que ele mesmo morreria lutando com eles. César não hesitava em assumir riscos, mas era um jogador cuidadoso. Sabia quando era a hora de intervir pessoalmente para evitar uma catástrofe ou para liderar os seus homens em um último impulso para a vitória. Combinado com um pouco de sorte, era um líder militar perfeito.

Exércitos Opostos
A campanha da Gália seria o choque de duas formas totalmente diferentes de organização militar, opondo o exército profissional de Roma, disciplinado e organizado, ainda mais com as reformas empreendidas por Caio Mário, tio de Júlio César, com os literalmente bárbaros gauleses. Outra diferença era que os gauleses davam muita importância para ornamentos, tidos como mostras de poder enquanto que os romanos achavam fúteis e desnecessários.

A descrição acima poderia indicar uma grande inferioridade dos gauleses, mas o fato é que eles tinham uma reputação de serem agressivos e terem uma longa experiência guerreira, que os tornavam inimigos temíveis. Havia um poderoso grupo de guerreiros de elite, porém, a massa do exército rebelde era de guerreiros não profissionais como fazendeiros, ligados a um chefe local, mas sem grande experiência militar. Equipamentos eram escassos e a maioria dos guerreiros usava um escudo de ferro, espada longa e lança curta, sem muita armadura de proteção para a maioria deles. A espada longa era uma coisa que os romanos não estavam acostumados, sendo usadas para cortar, não perfurar, diferente da espada curta gládio. Era necessário um guerreiro muito forte para empunhar uma espada longa e era mortal nas mãos de um gaulês. Era menos uma arma coletiva e mais uma arma individual, diferente das usadas pelos romanos. Era ainda uma arma reservada para os guerreiros de elite e um símbolo de prestígio poder utilizar uma. Outra arma importante, na visão dos gauleses, era o carnyx, uma trombeta de guerra, cujo efeito era intimidar os inimigos, o que os próprios romanos admitiram ser efetiva nesse intento.

Ajudava na parte da intimidação o ataque repentino e feroz, com a tática, se é que podemos chamar assim, de se jogar contra o inimigo selvagemente berrando e brandindo suas espadas e lanças. A disciplina era baixa e o treinamento rudimentar, mas os gauleses podiam ser bastante assustadores compensando com coragem e força física. Porém, isso não é suficiente para enfrentar um exército bem organizado como o de César.

A cavalaria era um ponto forte dos gauleses, sendo composto por guerreiros de elite com os melhores equipamentos. A disciplina não era muito grande, mas isso até ajudava na hora de não serem perseguidos após uma derrota.

Sobre César, ele chegou na Gália Cisalpina com três legiões, com uma quarta legião na Gália Transalpina. Contou ainda com o apoio de auxiliaries de aliados de Roma, como cavalaria ibérica, lanceiros numídios, arqueiros cretas, fundeiros baléricos e até gauleses. Em 52 a.c., César dispunha de cavalaria germânica, que seria importante, se não vital, em Alésia. O número de legiões aumentaria para 12 ao longo da campanha, César criando novas legiões a partir de voluntários locais para defender a província.

César teve que pagar com os lucros da guerra os soldados que recrutava, mas logo passaria a poder usar fundos do estado. Também foi responsável pelo treinamento, que era duro, mas pontuado por elogios aos seus comandados para elevar o moral e reforçar os laços de lealdade, principalmente com a Legião X. César sabia como manipular seus soldados com palavras elogiosas e apelos a status e prestígio. Para comandar as legiões, César indicava o seu questor e legados, tantos quantos necessários. Os legados deviam comandar as legiões, mas acima de tudo obedecer ordens de César, que desencorajava iniciativa pessoal. Também foram importantes os centuriões, que comandavam as centúrias dentro das legiões na linha de frente, e, portanto, tinham uma visão privilegiada da batalha e podiam fornecer valiosos conselhos para César. Como havia muitos recrutas sem experiência de combate, César precisava misturar veteranos entre os novatos para compensar as deficiências daqueles que não tinham sido ainda testados em guerra.

Planos opostos
Os gauleses e romanos, apesar de ambos serem guerreiros, eram muito diferentes nesse quesito. Na distinção do autor do livro que uso como referência, os romanos eram militaristas, prezando pela organização e um confronto tradicional de dois exércitos, enquanto que os gauleses eram bélicos, preferindo combates menos convencionais como emboscadas

No começo, Vercingetórix pretendia enfrentar os romanos em batalha campal, mas após vários revezes mudaria logo de plano. Recorreria então à estratégia de terra devastada, evitando confronto frontal e tentando diminuir os recursos a disposição dos invasores. Os suprimentos seriam centralizados em um local fortemente defendido, para evitar que caíssem em mãos inimigas. As colheitas seriam feitas o mais rápido possível e depois forradas. Os ópidos que pudessem ser capturados pelos romanos foram queimados, medida drástica, mas melhor do que deixar que os romanos se apoderassem e escravizasse ou matasse a população. Ópido era um termo romano para uma povoação, que não é exatamente uma cidade, então preferi usar o termo original de História Romana do que cidade ou outro equivalente. Era parte do plano também usar táticas de guerrilha, emboscando os romanos em marcha, atacando a linha de suprimentos e tentando cansar os romanos, além de tornar a guerra menos recompensadora. Poderia dar certo com o tempo, disciplina e trabalho conjunto entre as tribos rebeldes, mas esse simplesmente não era o jeito dos gauleses agirem.

César estava em má situação em 53 a.c., a rebelião tendo tornado caótico o cenário na Gália. Então, ele não tinha exatamente um plano, mas tinha que reagir à ameaça mesmo assim. Agiria de forma confiante e decisiva, mas também um tanto temerária. A estratégia de Vercingetórix estava dando certo, mas a disciplina romana e o comando firme de César levariam Roma para a glória.

E vamos agora falar sobre a batalha de Alésia, antes, falando sobre os eventos imediatamente anteriores. O começo da rebelião de Vercingetórix foi em 53 a.c. com um ataque ao que hoje é Orleans, com a tomada do ópido e a morte de todos os romanos que lá estavam. Isso pegou de surpresa César, que estava no acampamento de inverno e rapidamente para a Gália Transalpina no meio do inverno e frustrou o plano de Vercingetórix, que era tomar vários ópidos antes que César chegasse ao fim do inverno.

Vercingetórix lutou com os romanos em batalha campal, mas uma derrota em Noviodunum, moderna Isaccea na Romênia, fez com que visse que essa não era uma boa ideia e iniciaria a política de terra arrasada. César foi atraído para Avárico por Vercingetórix, que tentou levar o inimigo para terreno difícil e desconhecido, mas César não teve problemas em chegar na capital dos Bituriges, que não estavam dispostos a sacrificar Avárico na política de terra arrasada. César construiria uma ponte, pois o ópido estava em terreno alto, o que requeria uma elevação para as duas torres de cerco. A ponte também serviria para que a infantaria atacasse quando chegasse a hora. As muralhas do ópido eram uma mistura de pedra e madeira típica dos gauleses, para proteger contra fogo e aríetes respectivamente.

Os gauleses não ficaram passivos ao cerco e contra-atacaram todas as iniciativas romanas, tentando sabotar a construção da ponte e de túneis para chegar às muralhas do ópido. Vercingetórix tentou emboscar grupos de romanos que buscavam recursos, mas César frustraria a sua tentativa e Vercingetórix fugiria. Pouco tempo depois, Avárico cairia.

Vercingetórix não queria defender Avárico, que deveria ter sido abandonada e destruída. Por outro lado, queria defender Gergóvia, que era a capital da sua tribo. César acampou ao sudeste de Gergóvia e fez o reconhecimento de campo e veria que o ópido estava em terreno alto, o que dificultaria a invasão. Mas se conseguisse tomar uma colina ao sul, onde hoje é La Roche-Blanche, poderia ter uma vantagem. César conseguiu tomar a posição e rapidamente formou um acampamento com duas legiões. Faria uma vala para conectar os dois acampamentos. Depois, pretendia capturar mais uma colina ao oeste, Hauteurs de Risolles.

Porém, César teria a atenção desviada por notícias de rebelião dos Aedui na parte noroeste da Gália. Rapidamente, foi lidar com essa situação e na volta receberia notícias de que Vercingetórix estava atacando o acampamento romano perto de Gergóvia. Os romanos conseguiriam eliminar a ameaça e César voltaria ao acampamento.

O plano de César para tomar o ópido era fingir um ataque a Hauteurs de Risolles com uma pequena força e lançar do acampamento menor um ataque frontal contra Gergóvia com a maior parte das forças romanas. O ataque diversionista funcionou e Vercingetórix mandou reforços para a região ao mesmo tempo em que César atacava com três legiões o ópido. O caminho até Gergóvia foi tranquilo, alguns legionários chegaram a subir as muralhas, mas os gauleses que tinham acaído no ataque diversionista retornaram e começaria uma batalha entre o grosso do exército de Vercingetórix e os romanos. Cansados e desorganizados, os romanos perderiam a batalha e seriam forçados a recuar. Talvez tenha havido um excesso de confiança que cegou os romanos para a ameaça que enfrentavam. No final, César perdeu 700 homens, incluindo 76 centuriões. Ele culparia o excesso de entusiasmo e a desobediência de seus comandados e pintaria como vitória a tomada de três acampamentos gauleses.

Noviodunum era a capital administrativa de César na Gália, onde os romanos guardavam seus mantimentos e os reféns gauleses. O ópido seria tomada pelos Aedui, que depois passaram a atacar a linha de comunicações dos romanos tentando força-los a recuar para a Gália Transalpina. Porém, César não recuaria e marcharia norte, pegando os Aedui de surpresa com a velocidade de sua marcha. Depois, se reuniria com aliados e estava de volta com força total. Vercingetórix mandaria um ataque de cavalaria, tentando eliminar a cavalaria romana e reduzir a sua capacidade de obter recursos, porém, falhou.

Vercingetórix então recuaria para Alésia. O ópido se situa em monte Auxois, uma mesa, uma área elevada de solo com um topo plano, a 400 metros de altitude. Pelo planalto passam dois rios que erodiram a região e criaram vales que separaram Auxois de colinas próximas, ao oeste os rios convergindo em Plaine des Laumes, planície com várias colinas de topo arredondado. A cidade de Alesia ocupa a parte oeste de Auxois e o acampamento de Vercingetórix foi estabelecido a leste. Para obstruir o caminho do inimigo na parte mais acessível, que era a face leste, Vercingetórix faria fossos e paredes.

O exército gaulês tinha 80 mil guerreiros mais 15 mil cavaleiros. César, por sua vez, só tinha 50 mil legionários e seria nessa batalha que mostraria ser um gênio militar para superar a desvantagem numérica. César mandou cercar monte Auxois por completo, cortando as comunicações e isolando os rebeldes. Os romanos fariam duas linhas de circunvalação, uma delas cercando a colina e a segunda cercando justamente a primeira. Armadilhas eram colocadas nas linhas de cerco, como a lillia, buraco no chão para ferir os inimigos e atrasar seu avanço, o stimuli, uma barra de ferro colocada no chão para perfurar o pé, e os cippi, estacas afiadas para barrar o avanço. A estrutura romana contava com 37 quilômetros das linhas de circunvalação, 74 de fossos, várias torres de observação e oito acampamentos. A batalha de Alésia foi acima de tudo uma obra de engenharia para os romanos.

A razão de fazer duas linhas de circunvalação era a possibilidade de um exército gaulês surgir para prover algum alívio para Vercingetórix e seus homens. Esse exército viria, com o número alegado por César de 250 mil homens e 8 mil cavaleiros. O número provavelmente está inflado, para tornar o feito mais heroico, mas provavelmente os romanos estavam em desvantagem e mesmo assim conseguiriam enfrentar os gauleses.

O exército de alívio avançou, a cavalaria à frente e a infantaria logo atrás. Ao mesmo tempo, Vercingetórix descia Alésia para cercar César. Aqui, chegaria a hora da linha dupla de circunvalação mostrar a sua utilidade e a cavalaria germânica também mostraria o seu valor no combate contra os equivalentes gauleses. Os dois ataques gauleses esbarrariam nas construções romanas e seriam repelidos. O próximo ataque seria na parte noroeste do acampamento romano, em Mont-Rea, com uma força de 60 mil homens, segundo César, tentando tomar esse ponto por onde poderiam avançar contra os romanos. O braço-direito de César, Tito Labieno, apareceria para auxiliar os dois legates da região tendo ordens de segurar o máximo possível e avançar em último recurso. Nessa parte, os romanos estavam levando a pior, mas César conseguia vitórias em todas as outras regiões. (32)

Labieno enviaria uma mensagem para César alertando sobre as dificuldades a noroeste e César levaria forças pessoalmente os seus últimos reservas para um contra-ataque. Enviaria ainda a cavalaria germânica para atacar o inimigo pelas costas. César vestia um manto vermelho como uma forma de criar uma imagem forte para seus comandados e para o inimigo, seguindo o exemplo de Alexandre, o Grande, e seu elmo de prata. A batalha entre César e os gauleses foi feroz e bastante equilibrada e poderia ter dado a vitória para qualquer dos lados, mas a cavalaria germânica apareceria para salvar o dia e causar um bom estrago no inimigo. Em pânico, pegos lutando em duas frentes, os gauleses fugiriam do campo de batalha e esse seria o fim da ameaça do exército de alívio.

A situação em Alésia ficaria desesperadora com a falta de comida provocada pelo cerco. Crianças, mulheres, idosos e doentes seriam expulsos do ópido, o que era melhor do que canibalismo e assassinatos, que inclusive tinha sido proposto no conselho de guerra. Os expulsos se ofereceram para serem escravos dos romanos e alimentados como tal, mas César os obrigaria a ficarem no pé da colina e não se sabe qual foi o fim dessas pessoas. Sem opção, Vercingetórix se renderia e César venceria a Batalha de Alésia.

O resultado da batalha foi praticamente o fim da rebelião gaulesa e também o enorme enriquecimento de César e seus homens, que puderam pilhar Alésia e outros ópidos derrotados e vender seus habitantes como escravos. O próprio Vercingetórix seria mantido como troféu por César e levado junto durante a volta triunfante para Roma, exibido publicamente em 46 a.c. e depois estrangulado, 18 meses antes de César ter o mesmo destino nos Idos de Março.

Roma nunca mais seria desafiada de forma mais contundente pelos gauleses e Júlio César ganharia grande prestígio com a campanha. A Gália seria uma conquista bastante importante para Roma, com vastas áreas agriculturáveis e também um bom estoque de guerreiros que, apesar de serem um pouco difíceis de domar, formariam boa parte do exército romano.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Manual do Ditador (#13): Resumo




Nesse vídeo, vou encerrar a série do Manual do Ditador. Já falei sobre todos os capítulos do livro, mas ficou pendente uma parte do Tropico 5 para mostrar. Por isso, resolvi fazer esse vídeo extra para resumir o livro em um único vídeo.

A ideia básica dos autores, Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith, é que os políticos, independente de partido, ideologia, época da história, de estar em uma democracia ou em uma autocracia, querem alcançar o poder e lá se manterem. É uma ideia simples, talvez até demais, só que parece que muitas pessoas se esquecem disso.

Partindo disso, temos a classificação das pessoas entre intercambiáveis, influentes e essenciais, também chamada de coalizão vencedora. Os intercambiáveis são aqueles que têm algum poder nominal de selecionar o líder. Os influentes aqueles que efetivamente exercem esse poder e os essenciais aqueles cujo apoio é necessário para o líder. O comportamento do líder e as políticas que ele adota vão depender do tamanho relativo desses três grupos.

Por exemplo, em autocracias, a coalizão vencedora é pequena, de forma que o líder precisa comprar o apoio de pouca gente para se manter no poder. Assim, ele só precisa manter seus poucos apoiadores essenciais felizes, manter o exército feliz que poderá se manter no poder por muito e muito tempo. Essa é basicamente a receita de sucesso de ditadores de longa data, alguns sem nenhum estudo prévio de política.

Democracias, por outro lado, se caracterizam como uma coalizão vencedora grande, sendo muito caro comprar o apoio de todo mundo individualmente. Nesse caso, suborno descarado não funciona e o líder precisa de outra estratégia para alcançar e manter o poder.

O líder precisa arrecadar dinheiro para poder gastar na compra de apoio. Por isso, uma das medidas mais urgentes para um novo ditador é encontrar onde o dinheiro do estado está para poder gastar na compra do apoio da coalizão vencedora antes que ele seja removido do poder, sendo que muitos ditadores têm vida curta (política e fisicamente) por conta da demora em chegar ao dinheiro, mas, uma vez lá, costumam ser longevos. O dinheiro pode vir de muitas formas, a mais comum via impostos, o que requer um povo produtivo para movimentar a economia. Porem, pode vir via ajuda externa ou recursos naturais, temas a serem explorados mais adiante.

Na parte do gasto, o líder pode investir em bens públicos ou em bens privados. O primeiro tipo beneficia a população como um todo enquanto que o segundo tipo beneficia apenas os recebedores diretos dos bens privados. Pode chamar de corrupção o gasto em bens privados. No que o líder vai gastar depende do tamanho da coalizão vencedora, bens privados sendo mais efetivos quando é necessário comprar o apoio de pouca gente e os bens públicos mais efetivos quando é necessário comprar o apoio de muita gente. Um segundo ponto é que alguns bens públicos são necessários para a produtividade da economia, não apenas estradas e infraestrutura, mas bens intangíveis como liberdade de imprensa, de expressão e de associação. Essas liberdades acabam restringindo o que o líder pode ou não fazer, por isso que ditadores tentam coibi-las e proto-ditadores começam a pavimentar o caminho da servidão controlando a imprensa, atacado a liberdade de expressão e os meios de comunicação.

Ajuda externa é uma maneira do autocrata se manter no poder sem precisar da ajuda de seu povo. O país doador de ajuda externa o faz por conta de objetivos de política externa, como manter fiel um aliado em guerra, como na Guerra Fria. Outro exemplo é obter apoio político, como no caso de países membros do Conselho de Segurança da ONU, que veem um aumento na ajuda externa quando são escolhidos para ocupar esse posto. Ou ainda ajuda externa como política comercial para contornar leis antiprotecionistas. Outra opção é ajuda humanitária de governos, ONGs ou mesmo pessoas, esse dinheiro sendo desviado para o ditador e seus compadres ou os bens vendidos no mercado negro, se for esse o caso. De todo modo, essa ajuda externa auxilia o ditador do país e prejudica o seu povo.

Recursos naturais são outra maneira do ditador governar sem precisar que o povo trabalhe para ele, uma vez que é dinheiro fácil com pouco investimento sendo necessário. Se quiser, o ditador pode terceirizar completamente a exploração de recursos naturais, não precisando do povo para nada. Isso torna uma mudança de regime muito complicada, seja por uma revolta interna, seja por ação externa.

O exército desempenha um papel fundamental na manutenção do poder. Afinal, são os militares que suprimem revoltas populares que podem vir a surgir. Dessa forma, para evitar um levante, o ditador precisa comprar o apoio dos militares e dificultar que os cidadãos se comuniquem e se organizem politicamente, além de manter a coalizão vencedora leal. Se isso não for possível, o ditador pode ter que abrir o regime para evitar ser morto ou perder o poder, sendo possível democratizar o país sem necessariamente deixar o poder.

Esse é um resumo básico do Manual do Ditador. Vou falar agora sobre a sua relação com o Tropico 5, ou com a série Tropico em geral. Pelo menos no modo campanha, que foi o que joguei, jogo precisa ser uma mistura de ditador com democrata, sendo que o segundo ponto é bem forte. Você precisa ganhar eleições e precisa atender os anseios da sociedade. Claro que você pode comprar o apoio subornando as pessoas, mas, diferente da vida real, isso pode ser feito sem maiores consequências e não é tão caro assim. No fim, você precisa agir como um populista.

Dinheiro é importantíssimo, então você precisa se preocupar com a produtividade do povo, assim como os ditadores de verdade. O país tem recursos naturais, mas não tão abundantes que você possa depender exclusivamente deles. Na parte de ser um ditador, você pode emitir algumas leis e constituições que restringem a liberdade, você pode mandar o exército reprimir protestantes ou grevistas, mas na verdade eu senti falta de ser um ditador cruel nesse jogo.

Não sei qual o impacto de comprar o apoio dos líderes das facções, mas seria interessante se eles tivessem maior influência sobre o apoio que você recebe, coisa que não senti no jogo. Dessa forma, eles seriam a sua coalização vencedora e você precisaria manter eles contentes para se manter no poder. Na parte dos militares, essa é uma boa dica do livro, o ditador tendo que manter os militares felizes para evitar golpes militares e ter a ajuda deles para não ser derrubado por uma revolta. Porém, isso não ajuda a ganhar eleições.

El Presidente recebe ajuda externa, e o segredo aqui é jogar com todos os lados para receber ajuda de todo mundo. Por isso que não fiz questão de fazer aliança com os Estados Unidos, porque dai eu deixaria de receber ajuda externa da União Soviética e não sei se os Estados Unidos compensariam isso.

No fim, temos alguns pontos em comum entre o Manual do Ditador e o Trópico, a combinação sendo boa, porém, não perfeita. Então, uma boa dica de leitura para quem gosta do Tropico é o Dictator’s Handbook, que não tem em português ainda.