quarta-feira, 14 de maio de 2014

Batalha da Floresta de Teutoburgo


Sobre Itália, vou começar a falar sobre Império Romano. Pretendo no futuro fazer uma série sobre Roma e essa pode ser entendida como uma primeira parte. O jogo que eu vou usar é o Total War: Rome 2, não na parte de campanha, e sim em um de seus cenários, a Batalha da Floresta de Teutoburgo. Como o que eu tenho a falar é mais longo do que esse cenário, complemento com o mesmo cenário do Rome: Total War 1 . A fonte de informação é o livro Teutoburg Forest AD 9, de Michael McNally, publicado pela Osprey.

A Batalha da Floresta de Teutoburgo opôs o germânico Armínio e o general romano Varo no ano 9 depois de Cristo. Diferente de outras batalhas, é incerta a localização exata de onde a batalha foi travada. É provável que o palco da última batalha de Varo tenha sido em algum lugar ao redor da cidade de Detmold na parte sul da Floresta de Teutoburgo. Há ainda hoje uma discussão sobre onde teria sido essa batalha, mas não cabe aqui entrar nesses detalhes.

O contexto da batalha era o conflito permanente entre Roma e as tribos germânicas na Germânia Magna ao leste do Rio Reno. As principais tribos germânicas em guerra com Roma eram os Queruscos, os Suebii e os Sugambri. Roma já estava em guerra com tribos germânicas desde pelo menos dois séculos antes de Cristo. No comando das campanhas contra os germânicos, passaram Caio Mário, famoso pelas vitórias em Aquae Sextiae e Vercellae e depois Júlio César, governador da Gália defendendo a região de ataques germânicos durante seu mandato. Depois de algum tempo, Druso, enteado do Imperador Augusto, seria nomeado como governador da Gália e seria responsável pelas principais vitórias de Roma em território germânico, embora isso não tenha resultado em anexação.

Após algum tempo, na entrada da era cristã, seguiu-se um período de paz e prosperidade, florescendo um rico comércio com as regiões germânicas, que agora optaram por se aliar aos romanos, inclusive com muitos guerreiros germânicos se alistando em Roma. Essa paz e prosperidade tornariam Roma complacente, e isso seria fatal nos eventos do ano 9 da era cristã.

Lados Opostos
Vou falar agora sobre os comandantes dos dois lados opostos da batalha. Públio Quintílio Varo (46 a.c.-9 d.c.) é o único filho de Sextus Quintílio Varo, um oficial da facção de Pompéia que cometeu suicídio após a batalha de Filipos ao invés de ser preso por traição. Varo subiu rapidamente na carreira pública e em 22 antes de cristo foi eleito Questor, o primeiro cargo na hierarquia da cursus honorum, o curso dos oficiais na Roma Antiga, mais ou menos 6 anos antes dos 30 anos, quando estaria elegível ao cargo. No ano 20 antes de Cristo ele casaria com Vipsania Marcella Agripa, filha de Marco Vipsânio Agripa. No ano 15 antes de Cristo comandaria com sucesso a legião XIX em Noricum e Raetia. Isso elevaria ainda mais a sua posição social e em 13 antes de Cristo ele seria eleito cônsul júnior.

Em 8 antes de Cristo, Varo seria nomeado governador da província senatorial da África e no próximo ano foi eleito governador da Síria, o mais importante cargo na parte leste do Império, que ele conseguiu levar em bom nível. Findo seu mandato na Síria, voltaria para Roma, casaria com a sobrinha do Imperador, aumentando ainda mais o seu status que o levaria para o comando da Germânia no ano 7 depois de Cristo.

Armínio, o adversário de Varo na Batalha de Teutoburgo, era o filho mais velho de um influente nobre da tribo dos Queruscos, que ficava perto da atual cidade de Minden. Nas campanhas de Druso, reféns foram feitos das tribos germânicas e Armínio estava dentre os reféns para assegurar o bom comportamento das tribos. Com mais ou menos 10 anos, Armínio receberia a mesma educação dedicada aos romanos nobres. Duas memórias ficariam fixadas no jovem Armínio: a emboscada de Queruscos, provavelmente liderada por seu pai, contra Druso e a campanha bem sucedida de Druso que o levou a virar refém de Roma. Armínio entenderia que os romanos podem ser derrotados, desde que a sua flexibilidade tática e disciplina fossem desafiadas. O tempo que passou em Roma serviria para aprender mais sobre o inimigo.

Perto dos 20 anos, retornaria para seu povo para suceder seu pai, ele supostamente sendo um bom embaixador entre Roma e os Queruscos. Seu irmão mais novo o substituiria como refém, talvez jovem demais para sofrer retaliação no caso de um ataque dos Queruscos.

Exércitos Opostos
Agora vou falar sobre os exércitos de Roma e dos germânicos. Quando foi nomeado general na Germânia, Varo tinha cinco legiões sob comando mais unidades auxiliares que devem totalizar uns 20% da linha de frente. Na época imperial, cada legião era dividida em 10 sub-unidades ou cohortes, cada uma dividida em seis centúrias de 80 soldados e 20 servos cada, comandadas por um centurião. Cada legião completa tinha 4.800 homens apoiada por 120 unidades de cavalaria com a tarefa de batedor e de escolta. A estimativa é que Varo tinha 17 mil combatentes mais 3.800 não combatentes na Batalha de Teutoburgo.

A principal arma de um legionário era o dardo pesado (pilum), desenhada para dobrar no impacto para entrar no escudo inimigo e torna-lo pesado demais para ser usado. Além do mais, a arma torna-se inútil depois da batalha, o que impossibilitaria o inimigo de usá-lo ao mesmo tempo que pode ser refeita pelos ferreiros romanos. A arma secundária eram o gládio, espada curta de perfuração, e a adaga púgio. Para defesa, os legionários usavam um escudo retangular na mão esquerda (o scutum), um elmo de ferro ou bronze e uma cota de malha.

A tática de combate envolvia arremessar o pilum nos escudos inimigos, atrapalhando a coesão do inimigo até que eles chegassem próximo para o combate corpo a corpo, usando o gládio para apunhalar e o escudo como arma. Além dos soldados romanos, as legiões podiam contar com o apoio dos numeri, tropas de aliados de Roma em número variável, usando os equipamentos de sua própria nação. Com a redução no número de legiões e de soldados, era necessário aumentar o número do efetivo e essa foi uma solução de baixo custo. Outro tipo de tropa era o auxiliarius, composto por pessoas sem status social que poderiam receber o título de cidadão após o fim do seu tempo de alistamento. Eles eram equipados de forma parecida que os legionários, mas com uma lança mais leve, a lancea, e um escudo redondo ao invés do retangular. Havia ainda especialistas em arcos (sargittarii).

Diferente dos romanos e de outros de seus adversários, os germânicos não mantinham registros escritos que pudessem dar maiores detalhes sobre o exército de Armínio, por isso, é necessário recorrer a estimativas que variam muito. As estimativas mais razoáveis variam entre 20 e 30 mil homens, o que superaria a tropa de Varo. Além de Queruscos, também havia tropas Angrivarii e Bructeri. É necessário também enfatizar que nem todos estariam tão bem equipados, já que qualquer germânico poderia ser um guerreiro.

Os guerreiros mais bem equipados utilizavam a framea, uma lança que podia ser usada tanto para arremesso quanto para combate corpo a corpo. Como uma arma secundária, espada ou machado, com adaga como arma de último recurso. Na defesa, escudo redondo ou hexagonal. Cota de malha era rara entre os guerreiros e provavelmente era mais fruto de espólio de guerra do que produção própria.

Varo na Germânia
Como mencionado anteriormente, a Germânia estava relativamente pacificada na época. Ainda é uma incógnita a razão da expedição de Varo na Germânia, sendo cogitado uma campanha de conquista ou de coleta de impostos. O mais provável é que Varo foi mandado mais por razões políticas do que bélicas, ele mesmo sendo melhor político do que guerreiro. Varo foi mais para manter o status quo do que para conquistar a Germânia, para reassegurar as tribos aliadas de que Roma estava com elas e evitar revoltas.

Para esse fim, foram enviadas procissões regulares para territórios disputados para mostrar a força de Roma. Para ajudar nessa missão, Varo contava com o auxílio de tribos mais aliadas e com os líderes dessa tribo. E havia um líder que parecia ser confiável, que recebeu educação romana e que já havia servido Roma. Seu nome: Armínio.

Não se sabe quando Armínio resolveu se voltar contra Roma, mas sua convivência com os romanos e o conhecimento de táticas bater e correr das tribos germânicas o tornaram o candidato perfeito para liderar uma vitória sobre Roma em território germânico. Armínio buscou apoio de outras tribos, já que os Queruscos sozinhos não conseguiriam enfrentar o exército de Varo. E todo o planejamento do ataque se baseava na rapidez do ataque, já que um confronto mais prolongado beneficiaria os romanos, que eram qualitativamente superiores aos germânicos. Armínio tinha em mente três objetivos: manter em Varo a percepção de que estava em território amigável; fazê-lo montar o acampamento de verão em território Querusco e atrasar a volta para o acampamento de inverno.

A campanha

A campanha de Varo na Germânia começou no ano 9 AD. O exército atravessou o Reno e estabeleceu o acampamento de verão em território Querusco, onde ele receberia delegações germânicas amigas ou hostis para negociações. Ao longo do caminho, foi criando guarnições para facilitar a logística em território germânico, para essa e outras expedições futuras. Uma vez no acampamento de verão, não se sabe exatamente o que Varo fez em território germânico. Armínio deve ter aproveitado essa ocasião para dialogar com tribos inimigas de Roma e tentar conseguir mais apoio em uma futura insurreição.

Armínio armaria alguns ataques contra romanos em patrulha ou trabalho ao redor do acampamento. A intenção era incitar uma campanha militar por parte dos romanos e desviar a rota de Varo de volta para o Reno para um caminho que favoreceria Armínio. O seu plano deu certo e Varo mudaria os planos para enfrentar tribos germânicas e também mudou a sua rota de volta.

Em 7 de setembro, Varo anunciaria os seus planos para as tropas e partiria em uma rota de volta para o Reno e ao mesmo enfrentaria os germânicos seguindo para noroeste. Armínio iria na frente, prometendo reencontrar o resto do exército daqui a dois ou três dias. Secretamente, ele foi se encontrar com seus aliados. Essa seria a última vez que Armínio e Varo se veriam.

No dia 8, retomariam a macha. O exército de Varo entraria em uma região de floresta pesada, o que diminuiria o ritmo da marcha e os tornaria mais vulneráveis a ataques. Homens da tribo Bructeri lançaram ataques bater-e-correr contra os romanos, parte do plano de Armínio de cansar os romanos, causar danos e os deixar desconfortáveis. A floresta densa impossibilitava que eles entrassem em formação da maneira apropriada contra os agressores e os feridos resultantes desses ataques diminuiriam ainda mais o ritmo da marcha. No primeiro dia de confrontos, as baixas não foram muito consideráveis. Nesse dia, cairia uma chuva torrencial que atrapalharia ainda mais os romanos, embora também prejudicasse os germânicos. À noite, Varo teria uma reunião de guerras, as suas principais preocupações sendo o movimento da cavalaria e dos trens de bagagem através da floresta.

Como decorrência das chuvas do dia anterior, a estrada virou um lamaçal intransponível, e os romanos não puderam marchar no dia seguinte. Varo mandaria batedores, um grupo para para verificar o caminho adiante e verificar a posição e força do inimigo e outro para se se encontrar com o grupo de Armínio. Apenas um dos grupos retornaria. O primeiro grupo relataria que o caminho adiante está impossível de percorrer por conta da lama, que atrasaria principalmente os carros de bagagem. O segundo grupo foi capturado e torturado até relevar a situação das forças de Varo, sendo mortos posteriormente.

Tudo estava saindo de acordo com o plano de Armínio. Ele enviaria mensagens para os Angrivarii e os Bructeri para reforçar os ataques bater-e-correr e preparar uma emboscada no caminho que Varo obviamente seguiria, sem ter guias locais (os que eles tinham, homens de Armínio, já os deixaram). Com o não retorno dos batedores, Varo deve ter percebido que alertas anteriores sobre a lealdade de Armínio eram verdadeiros.

A marcha retomaria no dia seguinte independente das condições da estrada. Varo faria algumas modificações, como abandonar o máximo de bagagem possível, que a essa altura era um estorvo, o que acabou por diminuir o tamanho da coluna de marcha. Não-combatentes receberam armas improvisadas e os feridos com gravidade seriam deixados para trás.

Antes do amanhecer, os romanos desmontaram acampamento sem alarde, para não chamar a atenção do inimigo. Varo esperava conseguir forçar seu caminho para o oeste e sair da floresta, esperando ter maior vantagem em campo aberto. A formação tinha três partes, a vanguarda que estaria mais próxima do inimigo com duas legiões, o quartel-general com Varo e a retaguarda com o que restou da bagagem e a terceira legião. A cavalaria, comandada por Numonius Vala, ia atrás da retaguarda. Como a cavalaria não ia conseguir lutar na floresta, Varo preferiu que ficasse atrás retaguarda para proteger contra perseguição inimiga.

Com dificuldade, o exército de Varo avançou e deixou por completo o acampamento. Os germânicos retomaram as operações de bater-e-correr , causando baixas no exército romano que não podia contra-atacar e perseguir os germânicos na floresta. Feridos foram não apenas sendo deixados para trás, mas mortos pelos próprios companheiros para evitar serem capturados, o que abriu clareiras e desorganização na formação romana. A linha de comunicação tinha se quebrado, já que era impossível alguém se mover para trás ou para frente da coluna sem atrapalhar o movimento geral, e a prioridade era se mover o mais rápido possível.

À noite, as tropas de Varo conseguiram deixar a floresta e a prioridade passou a ser encontrar uma área defensável para montar um acampamento. Não se sabe ao certo a sua localização, mas provavelmente foi em um local elevado para dar alguma vantagem para a defesa. No acampamento, Varo pode ver melhor a má situação de seu exército, com baixas consideráveis infligidas pelos germânicos.

No acampamento, Varo mandaria Vala e a cavalaria para o norte para buscar reforços entre as tropas romanas ou os aliados germânicos de Roma. Porém, Vala foi atacado por tropas de Armínio, que exterminaram o inimigo, fechando a opção de ir para o norte. Restava seguir para o oeste e voltar para a floresta, e voltar a ficar vulnerável a emboscadas, ou ir para o sul, tendo que ir por um caminho acidentado. Ficar acampado, apesar da disponibilidade de suprimentos, não seria uma boa ideia pois chamaria o inimigo até eles.

Após a destruição das tropas de Vala, Varo tomaria a decisão de tirar a própria vida, assim como fez seu pai antes dele, por uma combinação de desejo de preservar a honra da família, sentimento de falha e para evitar ser capturado com vida pelos germânicos. Esse gesto não deve ser encarado como sinal de covardia, mas de muita coragem e uma aceitação completa da culpa do fracasso e uma maneira de proteger a herança de seu filho, assim como seu pai fez com ele. Outros soldados seguiriam o seu exemplo e caberia a Lucius Eggius e Caeonius liderarem as tropas dai em diante.

Antes do amanhecer do 11 de setembro do ano 9, as tropas de Eggius partiram para a última marcha em direção ao oeste, por dentro da floresta. Além de sofrer mais ataques bater-e-correr, os romanos se depararam com uma bifurcação. Por um caminho, que descia, provavelmente havia uma inundação. Então, seguiram pelo outro caminho, só para encontrarem um baluarte germânico pelo qual teriam que passar para prosseguir.

Não havia outra opção a não ser atacar o baluarte. Esse ataque é ilustrado no livro que eu uso como referência nas páginas 74 e 75. Um grupo avançava contra a fortificação e deixava os escudos para serem usados como rampas, que outro grupo utilizaria para se aproximar da fortificação e tentar destruí-la, enquanto os germânicos eram bombardeados por lanças. O restante ficava como reserva, atentos para possíveis contra-ataques.

As tropas de Caeonius, que partiram depois de Eggius, saíram do acampamento sob vigilância das tropas de Armínio. Quando Caeonius já estava longe o suficiente do acampamento, Armínio ordenaria o ataque contra os romanos em marcha. Em muito menor número, alguns tentaram voltar para o acampamento e outros seguirem rapidamente para oeste para tentar encontrar as tropas de Eggius. Caeonius, que tinha conseguido voltar para o acampamento, recebeu uma oferta de Armínio para negociar. Armínio perguntou onde estava Varo e Caeonius apontou o túmulo de Varo. Em seguida, Armínio ordenou que o morticínio prosseguisse, depois a cabeça de Varo sendo recuperada e levada como troféu.

Ao oeste, as tropas de Eggius não tiveram como passar pelo baluarte e recuaram, para encontrar o que restou das forças de Caeonius. Sem nenhuma outra alternativa, eles se agruparam e voltaram a atacar o baluarte. Sem consideráveis reforços de seu lado, e com o aumento no número de inimigos vindo das tropas de Armínio, o inevitável resultado só poderia ser a derrota.


Não se sabe se esse ataque de Armínio foi feito com a intenção de entrar em guerra com Roma ou apenas desafiar Roma, mas o fato é que Armínio não receberia o apoio de mais tribos para um ataque contra Roma, mais notadamente, Marobóduo dos Marcomanos. No fim, Armínio enviaria a cabeça de Varo para Roma, acendendo ainda mais o desejo por vingança. Agora com as tropas da Germânia sob comando de Germânico, Roma continuou em guerra com as tribos germânicas por algum tempo, tanto por desejo de vingança quanto para recuperar as aquiale perdidas, mas chegou uma hora que Tibério simplesmente decidiu encerrar os confrontos e que o Reno marcaria a fronteira norte do Império Romano.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Império Persa


Sobre Irã, eu vou falar sobre o Império Persa. Vou usar como base para esse vídeo o livro Forgotten Empire: The World of Ancient Persia. A gameplay será do jogo Prince of Persia, de 2008, que se passa na Pérsia Antiga.

Até 1935, o país que chamamos de Irã era conhecido como Pérsia no Ocidente. Provavelmente o primeiro império do mundo antigo, a origem do Império Persa está entre 1.000 e 600 antes de Cristo segundo escavações arqueológicas e epigráficas.

Mas as principais informações sobre o Império Persa vieram dos textos clássicos e começaram com a história de Ciro, o Grande, que viveu entre 557-530 antes de Cristo. Ele reinou na região de Anshan, no coração do que seria a Pérsia. No reinado de Ciro e seu pai, Cambises I, os persas conquistaram Ecbátana, Sardis, o reino de Lídia e a Babilônia. Em 539 a.c., Ciro derrotou o rei babilônico Nabonido e conquistou a Babilônia e se tornando senhor de toda a área do Crescente Fértil. Ciro autorizaria que os judeus, que tinham sido exilados da Babilônia desde 587 a.c., a retornarem. Depois, enviaria uma série de expedições chegando até Bactria-Spgdiana, onde estabeleceria uma série de fortes no rio Jaxartes, que se tornaria a fronteira norte do Império Persa. Nessas expedições, Ciro viria a morrer e há uma grande controvérsia sobre os detalhes específicos. O que sabemos é que ele seria enterrado em uma tumba em Pasárgada.

Durante o reinado de Ciro, o que era um pequeno reino acabou se tornando o centro de um enorme império, que se estenderia ainda mais com os seus sucessores. Ciro adotaria a tática de fazer alianças com as elites locais e respeitar os seus privilégios, além de respeitar a cultura e a religião locais.

Cambises II, sucessor de Ciro, conquistaria o Egito em uma campanha iniciada em 525. Depois, tentaria conquistar mais territórios na África e essa campanha resultaria em sua morte. Isso iniciou uma pequena crise no reino. O sucessor de Cambises II era um homem chamado de Esmérdis, sim, é esse o nome dele, e de fato Esmérdis subiu ao trono, mas um falso Esmérdis. O impostor foi desmascarado e uma série de nobres tramaram para o matar.

Dario seria o seu sucessor, mas tinha a legitimidade para o trono frágil e teria que lutar contra uma série de revoltas no Império em áreas como Babilônia, Média e na própria Persa. Após um ano, ele acabaria com a rebelião.

O longo reinado de Dario, entre 522 e 486 antes de Cristo, levou o Império ao seu apogeu. Nos primeiros anos de reinado, conquistaria Saka e anexaria o vale índico ao império. Em 513 a.c., iniciaria campanhas de conquista na Europa, indo para o Mar Negro e atravessando o Danúbio perseguindo exércitos Citas. No final, anexaria a Trácia e a Macedônia.

Dario criaria uma moeda com a sua imagem, a de ouro chamada Dárico e a de prata chamada Shekel, que é até hoje o nome da moeda israelense. Dario tentaria conquistar a Grécia na Primeira Guerra Médica, que teve a famosa batalha de Maratona e a derrota dos persas. Apesar desse revés, Dario conseguiu alguns objetivos, como a conquista das ilhas do Egeu. A essa altura, o Império Persa ia do Rio Índico aos Balcãs, mais o Egito mais ao oeste.

Foi durante o reinado de Dario que os palácio de Persépolis e Susa seriam construídos, suntuosos palácios que continham tábuas cujas inscrições nos permitem conhecer mais sobre o Império Persa.

Dario morreria e seu sucessor foi Xerxes I, que ficou famoso no filme 300. Xerxes tentaria conquistar a Grécia na Segunda Guerra Médica entre 480 e 479 antes de Cristo. Foi nessa guerra que teríamos a famosa Batalha de Termópilas, onde um pequeno número de gregos (incluindo 300 espartanos) bloqueou o caminho de um exército bem mais numeroso no Desfiladeiro de Termópilas. Os persas seriam novamente derrotados e os gregos se organizaram na liga de Delos, que ameaçou as posições persas no Mar Egeu.

Após o assassinato de Xerxes em 465 antes de cristo iniciaria uma disputa pelo poder, da qual Artaxerxes I emergiria vencedor. As sucessões seguintes seriam atribuladas e envolveriam tramas para assassinar reis e candidatos a rei e até guerras civis. Isso acontecia porque a Pérsia não era uma monarquia com regras de sucessão fixas, a força acabando por prevalecer durante as sucessões.

Essas guerras por sucessão acabariam por enfraquecer o império e dando oportunidade para que algumas províncias se revoltassem. Isso ocorreu com o Egito, que conseguiu se libertar do domínio persa no ano 402, embora os persas voltassem algumas décadas depois. O Egito foi o único que conseguiu a sua independência, mas não o único a se revoltar, mesmo durante reinados mais estáveis como o de Xerxes.

Além de conflitos por poder, guerras civis e revoltas de terras conquistadas, havia também revoltas de satrapias, uma espécie de governador da província. Eles eram indicados pelo rei, eram representantes de famílias nobres importantes e tinha uma série de poderes, como cobrar impostos e criar um exército, tendo o dever de manter a lei e a ordem nas províncias.

Apesar do prestígio no Império, era tentador se libertar e buscar exercer o poder absoluto nas províncias. Ocorreram diversas revoltas de satrapias, a principal delas se dando entre 366 e 359 antes de Cristo na Grande Revolta de Satrapias, que coincidiu com revoltas na Ásia Menor. Essa revolta acabou com o líder dos rebeldes percebendo que seria mais vantajoso interromper a revolta e então traindo os companheiros e os entregando para o governo real. Apesar de incômodas, essas revoltas nunca foram uma ameaça ao Império.

O Primeiro Império Persa teria fim com a invasão de Alexandre, o Grande, que derrotaria o rei Dario III. A derrota militar poderia indicar que o Império Persa estava em declínio, mas isso não é exatamente verdade. O Império teve condições de enfrentar o invasor macedônio, tendo capacidade de recrutar homens para o exército e os recursos para manter o exército, mas sendo superado por um exército oposto superior tática e estrategicamente.

Politicamente, Dario III ainda tinha poder no Império Persa e o apoio de satrapias, que só foram começar a ir para o lado macedônio quando percebiam que o Império estava afundando. As próprias cidades que estavam sob o domínio persa ficaram do lado de Dario III e resistiram contra os macedônios. Ao contrário, alguns povos receberam os macedônios como libertadores, como os babilônicos. Alexandre, o Grande, teve que adotar a mesma tática que era adotada pelos persas de fazer alianças com as elites locais para poder conquistar o Império Persa, o que mostra que havia uma coesão política dentro do império. No final, os persas não eram os piores dominadores que já existiram, respeitando bastante as tradições locais, mesmo que por motivos políticos e militares.

Ao invés de impor a nobreza macedônica sobre os persas, Alexandre deixou que a elite persa governasse o que era o Império e promoveu uma série de casamento entre a nobreza persa e macedônica.

O Império Persa acabou em 330 antes de Cristo com o assassinato de Dario III. Mas, como os autores do livro argumentam, é possível estabelecer o fim do Império em 323 antes de Cristo, quando Alexandre morreria e o seu império ruiria, incluindo a parte que antes era o Império Persa.

Bom, esse é o primeiro capítulo do livro, que falava sobre a história do Império Persa. Tem muito mais coisa no restante do livro sobre a cultura persa, mas eu não vou falar em detalhes, só falar o que tem em cada capítulo. No segundo capítulo, o livro trata das linguagens faladas no Império Persa, principalmente o Persa Antigo, o elamita e o acadiano, muitas inscrições nas ruínas do Império contendo as três línguas. No terceiro capítulo, a história da decifração da linguagem persa. No capítulo 4, descrições dos sítios arqueológicos ao longo do Império Persa, com atenção aos elementos comuns que existem entre áreas tão diferentes do Império. No capítulo 5, descrição mais detalhada dos palácios persas, chamados genericamente de apadanas, embora isso não seja muito preciso. O capítulo 6 é sobre a prataria utilizada nos banquetes reais e o capítulo 7 é sobre as joias e ornamentos pessoais. Esses capítulos contém uma série de fotos, ilustrações e descrições detalhadas dos temas em questão. Acho um tanto chato de ler, mas para quem tem interesse nesses aspectos culturais pode achar bem legal, principalmente pelas imagens.

A partir do capítulo 8 o livro volta a ser mais texto do que imagem, mas também é muito descritivo, o que torna meio chato de ler o texto. O capítulo oito é sobre religião, havendo uma boa dose de incerteza quanto a esse assunto. Até o rei Dario, não se sabia muita coisa da religião dos reis persas. Já os reis de Dario em diante se declarariam adoradores de Ahuramazda. Os sacerdotes eram conhecidos como magi e tinham a função de intérprete de sonhos e aconselhadores reais. Aliás, o falso Esmérdis era era um magus, singular de magi. No que se refere à rituais fúnebres, os persas tinham a superstição de que os elementos sagrados ar, solo, fogo e vento não deveriam ser profanados, por isso enterrar na terra estava fora de questão, pelo menos para os reis. A solução era guardar os corpos nas montanhas ou em tumbas, sem enterrar o corpo no solo. A mais famosa tumba é a de Ciro, onde Ciro, o Grande, está enterrado. A tradição dos magi era entregar os corpos para os pássaros e depois guardar os ossos.

Mas o aspecto mais importante de religião era a tolerância religiosa. Eles não apenas permitiam que os povos dominados seguissem a sua religião e as suas próprias tradições e rituais, como também financiavam a construção ou reconstrução de templos religiosos, como ocorreu com os judeus e os babilônicos. A única restrição era que a religião dos outros não deveria sofrer nenhuma interferência, uma das causas das Guerras Médicas sendo que os gregos insistiam em atacar templos de povos dominados pelos persas.

O capítulo 9 é sobre a administração do Império Persa, marcada principalmente pela flexibilidade e até certa tolerância. O rei não impunha aos territórios dominados a sua religião, sua forma de administração ou a sua língua. Essa era uma maneira de melhor administrar um império tão grande quanto o Império Persa. Além disso, foi desenvolvido um sistema sofisticado de estradas e entregas de cartas para diminuir as distâncias e aumentar a eficiência da administração real.

O capítulo 10 é sobre transportes e guerras. Como notado, o império era grande demais e era essencial ter meios adequados de transporte, além da administração descentralizada com satrapias. Os persas eram muito bons com o cavalo, tanto que tinha um ditado de que era ensinado às crianças três coisas: andar a cavalo, usar o arco e falar a verdade. Como o resto do livro, esse capítulo é bem descritivo e eu não vou entrar em todos os detalhes.

No capítulo 11, algumas considerações sobre a relação entre Grécia e Pérsia. O Império Persa conquistou algumas cidades gregas, mas nunca as principais, ou seja, Atenas e Esparta, mas sempre houve um intercâmbio forte entre gregos e persas até as Guerras Médicas. Após essas guerras, os gregos representariam os persas como fracos e bárbaros e talvez dai tenha surgido a ideia de que os persas eram menos desenvolvidos do que os gregos. E apesar da Pérsia ser uma monarquia e Atenas uma democracia, os persas não eram mais bárbaros por conta disso e tinham um comportamento civilizado em relação a seus súditos.


O último capítulo é sobre o legado da Pérsia Antiga, basicamente uma descrição histórica das buscas arqueológicas pelos restos do Império Persa após a queda do império de Alexandre, o Grande.

A viagem de Chihiro


Texto do vídeo Ni no Kuni (#6) - A viagem de Chihiro

Bem-vindos de volta a Ni no Kuni. Nesse vídeo, eu vou falar sobre o filme A Viagem de Chihiro, dirigido pelo Hayao Miyazaki e lançado em 2001. Primeiro de tudo, algumas credenciais: o filme ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim como Melhor Filme e ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2002. Ou seja, boa reputação pelo menos o filme tem.

Falando sobre enredo, tudo começa muito pacatamente, com uma família com pai, mãe e filha viajando, até que eles encontram uma vila muito estranha, sem ninguém por perto. Resolvem passear e encontram um lugar para comer. Os pais da personagem principal, a filha deles, Chihiro, não achava uma boa ideia comer dessa comida e realmente não era, tanto que os pais se transformaram em porcos.

Chihiro logo descobriria que está em um mundo mágico, onde teria o auxílio de um garoto chamado Haku. Depois, arranjaria um emprego em uma casa de banho de deuses, onde os deuses paravam para descansar e se banharem e passou a ser trabalho da Chihiro cuidar disso.

Bom, não vou falar muito mais sobre o enredo do filme, é mais para situar quem não assistiu. E na verdade eu não lembro tanto assim do enredo, assisti no máximo quatro vezes o filme e a última vez deve ter sido há dez anos atrás. Não lembro dos detalhes, mas ainda lembro de bastante coisa.

O filme é o que poderíamos chamar em inglês de Alice-esque, ou seja, segue uma toada parecida com o Alice no País das Maravilhas. Temos uma garota que vai para um mundo estranho e fantástico, recebendo o auxílio de muitos seres estranhos e a ameaça de outros. Temos Kamaji, uma aranha com forma de um velho, ou um velho com forma de aranha, que cuida da caldeira da casa de banhos, temos o garoto que ajudou a Chihiro, Haku, que depois descobrimos que é mais do que um simples garoto, temos um ser estranho sem rosto, apenas com uma máscara, tem a chefa da Chihiro que é uma bruxa má e que tem uma irmã gêmea boazinha e por aí vai.

Ou seja, o mundo do A Viagem de Chihiro é estranho e fantástico, cheio de referências à cultura japonesa, mas que me parece que o público ocidental absorveu melhor essas influências. Tem muitos animes e filmes japoneses que são estranhos demais para os não-entusiastas da cultura oriental, e embora tenha bastante disso no filme, não me pareceu que houve uma rejeição. Assim como o Alice, é um filme para crianças, mas que os adultos podem se deixar levar pelo encanto do filme. É um filme bonito, assim como o Vidas ao Vento, mas puxa mais para o imaginário do que esse outro filme.

Podemos encaixar o Chihiro na categoria dos filmes mais infantis. Tem características em comum com o Totoro e o Ponyo, que eu ainda não falei, não tendo nenhum conflito armado como no caso do Nausicaa e do Mononoke Hime, e também girando em torno de personagens infantis e que não tem nada a ver com voo, diferente de um Porco Rosso e do Vidas ao Vento. O apelo maior do filme é para o encanto, a fantasia, e não tanto para a ação.

Mas, tirando o voo, vários dos temas recorrentes dos filmes de Miyazaki aparecem nesse filme. Temos uma protagonista feminina que no começo é uma menina chorona, mas depois vai crescendo durante o filme, e é bacana acompanhar esse amadurecimento. Temos também o tema do meio ambiente, em uma cena bem legal onde um deus rio aparece na casa de banhos e ninguém queria cuidar dele, já que estava todo poluído. Não me lembro exatamente como, mas a Chihiro dá um jeito nele, que volta a ser despoluído. É basicamente essa cena que trata do tema, mas o meio ambiente não deixa de estar presente no filme. O tema anti-guerra não aparece, porque não há nenhum conflito desse tipo. E não lembro exatamente dos detalhes, mas a chefa da Chihiro, a dona da casa de banho, no final acaba se revelando como não exatamente má, como acontece com várias antagonistas nos filmes de Miyazaki.

Enfim, para resumir em algumas palavras o filme, ele é fantástico, não como um elogio, mas como estilo. Apresenta o exótico, o estranho, o diferente e sem espantar muito o público menos acostumado com a cultura oriental.

A trilha sonora é do Joe Hisaishi e tem uma música tema cantada por Youmi Kimura. A trilha sonora não me marcou tanto assim, e na verdade a única trilha sonora que eu realmente gosto dos filmes do Miyazaki é a do Mononoke Hime, mas essa música tema, Always With Me, é uma música bem legal.

Acho que temos tempo para falar mais. Não me lembro agora se foi esse o meu primeiro filme do Miyazaki. Acho que foi o Mononoke Hime o primeiro, mas realmente não lembro. Mas certamente foi o primeiro que eu fui assistir no cinema e desde então só o Ponyo eu não assisti no cinema.


Lembro também de acompanhar o Oscar que o Chihiro concorreu ao Oscar de Melhor Animação, em 2002. Foi uma das primeiras premiações da noite, mas eu acabei acompanhando todo o Oscar, acho até que foi o único que assisti inteiro. Só não me lembro agora quem ganhou de Melhor Filme. Lembro que o cara do Pianista, filme que eu tinha assistido, ganhou de Melhor Ator, mas o resto realmente não lembro. Mas eu assisti. Poderia ter pego facilmente na internet, mas queria pegar as coisas de memória nesse vídeo. É, doze anos serve para esquecer um bocado de coisas.

Nausicaä do Vale dos Ventos



Texto do vídeo: Ni no Kuni (#5) - Nausicaä

Olá. Sejam bem-vindos a Ni No Kuni. Nesse vídeo, vou falar sobre o filme Nausicaä do Vale dos Ventos. Esse é um dos primeiros filmes do Miyazaki, lançado em 1984, antes mesmo do Totoro, e eu considero um dos melhores. Não é tecnicamente um filme do Studio Ghibli, já que foi feito antes da criação do Ghibli, mas tá valendo.

Antes de tudo, falar um pouco sobre o enredo e a ambientação. O filme se passa em um mundo pós-apocalítico onde há áreas do mundo totalmente poluídas e inóspita para os humanos, com florestas tóxicas cheias de insetos gigantes. A protagonista do filme é a Nausicaä, princesa do Vale dos Ventos. Um dia, uma gigantesca aeronave tolmekiana cai no Vale dos Ventos e isso gera uma invasão pelo reino de Tolmekia.

Eu não vou resumir o enredo inteiro do filme, só passei essa introdução para situar quem não viu o filme. Se quiserem ler uma sinopse, é só procurar na internet. O interessante do filme é que todos os principais elementos dos filmes do Miyazaki estão presentes: temática ambiental, voo, e não apenas de aeronaves, postura anti-guerra, ambiguidade e protagonistas femininas fortes.

No primeiro tema, o filme consegue falar de meio ambiente sem ser demagógico. Da mesma maneira que o Mononoke Hime, mostra um conflito entre natureza e humanidade de maneira mais equilibrada, embora nem tanto quanto nesse outro filme. Toda a ambientação do mundo de Nausicaä mostra o resultado de uma intervenção desastrosa dos humanos na natureza e a protagonista tenta dar um jeito de consertar isso, em certa altura do filme descobrindo como purificar a água. Os próprios humanos no filme não parecem ter se dado conta de que foram eles os responsáveis por esse desastre e depois de algumas pesquisas a Nausicaä acaba descobrindo isso.

A personagem se vê no meio de uma guerra onde a antagonista, Kushana, pretendia usar o Gigante Guerreiro que estava no avião que caiu no Vale dos Ventos contra os seus inimigos. Kushana não é pintada como uma vilã super malvadona, da mesma maneira que a Eboshi, mas nesse filme fica mais claro que Kushana está do lado errado da história, diferente da Eboshi do Mononoke Hime. A Nausicaä trabalha o filme quase inteiro para evitar que Kushana faça isso, sendo uma força anti guerra como o Ashitaka do Mononoke Hime e outros personagens dos filmes de Miyazaki.

Voo está presente no filme inteiro, com aeronaves gigantescas, incluindo algumas cenas de ação com aviões, mas principalmente com o planador que a protagonista utiliza, o Mehve, que vem do alemão Möwe, gaivota em português. Essa é uma das coisas mais bacanas do filme, fazendo algumas cenas de ação bem interessantes e também atiçando a nossa imaginação sobre como seria ser capaz de voar sem estar dentro de um avião, balão ou qualquer outra coisa. Sim, existe planador da vida real, mas não um motorizado como o Mehve da Nausicaä.

E o último tema que eu listei é o da personagem feminina forte. Embora Kushana entre nessa categoria eu estou pensando mais especificamente na Nausicaä. Eu consigo ela como a melhor personagem feminina de uma obra de fantasia e ficção científica, amplamente abrangendo animes, mangás, filmes de animação, fantasia, aventura, ficção científica, vídeo games etc. Ela é decidida, tem liderança, carisma, tem força, como se vê em uma cena em que ela enlouquece e mata uns quatro na paulada, mas tudo isso sem perder feminilidade e delicadeza. Ela adora animais, seja as montarias que utiliza, da qual falarei depois, seja os insetos que deveriam ser seu inimigo. Além de precisar de agilidade, habilidade no planador e, em menor escala, força, ela precisa convencer pessoas a fazer o que ela acha que precisam que façam, e o faz com delicadeza e simpatia. Por tudo isso, acho ela uma excelente personagem. Se me permitem o comentário, para ficar perfeita só faltaria ser mais bonita, mas na verdade o próprio carisma da personagem já é o suficiente para torna-la mais bonita, digamos assim, embora sem isso ela seja apenas média.

Bom, agora vou falar sobre influências do filme. A montaria que a Nausicaä utiliza inspirou diretamente os chocobos de Final Fantasy, como o próprio Hironobu Sakaguchi admitiria. O Mehve inspirou a busca por modelos reais que funcionassem da mesma maneira, como o OpenSky M-02 (vou colocar na descrição do vídeo a página da Wikipédia sobre o tema).

Por fim, só uma nota sobre os dubladores. Temos nomes bem famosos, como Mark Hamill, Patrick Stewart e Uma Thurman como a Kushana. A Nausicaä é dublada pela Alison Lohman, que não é tão famosa assim, mas eu tenho certo, carinho, por assim dizer, por ela. Na série Crusade, spin-off do Babylon 5, ela tem um papel bem pequeno em um dos episódios em 1999. Apesar de aparecer pouco, eu achei ela super bonita e fiquei interessado em ver outros filmes. Ela já apareceu em papéis maiores, como no Beowulf, mas eu acabei não vendo nenhum filme dela.


Enfim, fecha parênteses só para terminar o que eu tinha que falar sobre o filme.

Mononoke Hime



Texto do vídeo: Ni no Kuni (#3) - Mononoke Hime

Agora eu vou falar sobre o que eu considero ser o melhor filme do Miyazaki, o Mononoke Hime, ou Princesa Mononoke, que também é um dos meus filmes favoritos. E o cenário é bem propício, uma dungeon em uma floresta. Acho que resumir o enredo não faz muito jus ao filme, mas vamos começar com isso. O filme basicamente conta a história de um jovem, Ashitaka, que foi amaldiçoado após matar um demônio, por assim dizer, e precisa partir em jornada para descobrir uma maneira de se curar.

A maior virtude do filme é a história, não tanto pelo enredo, pela sequência de eventos, mas por um elemento muito raro de se ver em outras histórias do gênero. O filme não é maniqueísta, não mostra uma luta de uma força do bem contra uma força do mal. O conflito básico do filme é entre os humanos, liderados por Lady Eboshi, e os animais divinos, como lobos e javalis que falam como humanos. Eboshi criou uma cidade onde é produzido aço e ela passa por cima da natureza e entra em conflitos com os lobos, incluindo uma humana criada entre eles, San, e os javalis. O demônio que amaldiçoou Ashitaka era um deus javali transformado em demônio por um tiro desferido em conflito com Eboshi, que utiliza armas de fogo.

Por essa descrição, pode parecer que Eboshi está errada, mas a verdade é que a cidade traz muita prosperidade e segurança para seus habitantes. Ela acolheu todo tipo de gente que seria marginalizada em outros lugares, como homens com lepra e prostitutas, que trabalham para Eboshi, os leprosos na fabricação de armas, as mulheres na fabricação do aço. E os animais são tão violentos em relação aos humanos quanto os humanos são para defender a sua cidade. No meio disso tudo, temos o personagem principal que tenta achar uma solução pacífica ao mesmo tempo em que busca a cura para a sua maldição.

Ou seja, um tema frequente nos filmes do Miyazaki, o meio-ambiente, é tratado aqui de uma maneira muito mais equilibrada que em outras obras, que geralmente escolhem um lado e acabam passando uma mensagem demagógica. Temos dois lados com interesses legítimos que acabaram entrando em violento choque. Eboshi é uma líder muito admirada por seus seguidores e tornou a vida de pessoas que seriam párias em outros lugares muito melhor. Faz isso por interesse próprio, sim, mas seus negócios acabam tornando a vida de todos os humanos melhor. Porém, ela não tem qualquer escrúpulo de passar por cima da natureza, que revida com a mesma força. Tirando a parte dos espíritos da floresta, o filme não mostra a natureza como uma força boazinha, e sim como uma força implacável. A natureza não fica passiva diante do avanço humano e vai revidar e esse é o grande conflito do filme, o conflito entre progresso e conservação.

Ou seja, não temos violões e mocinhos nesse filme, diferente de quase todas as demais obras de qualquer mídia. Aqui não é nem que o lado mais candidato a vilão, o da Eboshi, seja retratado de uma forma benevolente, compreensiva, mostrando os motivos para ela ser má. Ela simplesmente não é totalmente má e os javalis e lobos não são totalmente bons. Se for para eleger um vilão, é o governo do Japão que puxou as cordinhas para forçar esse conflito.

O personagem principal, o Ashitaka, ele tem uma boa relação com os dois lados e o lado dos humanos não é retratado apenas pela líder, a Eboshi, que pode parecer mais antipática para alguns, mas também por outros personagens como um que ele salvou depois de um ataque dos lobos e as mulheres da vila da Eboshi. E também se dá bem com os lobos, principalmente com a humana-lobo, a princesa Mononoke do título. Ashitaka e San chegam a fazer um casal, embora, por conta dos eventos do final do filme, eles acabam não ficando junto, assistam para entender porque.

Isso tudo vem com cenas de ação muito bem feitas e até bastante realistas, com decapitações, braços arrancados (por flechas!, o que já não é tão realista) e tudo o mais. O filme tem um ritmo muito bom, não tendo longas sequências de diálogos como um filme que aborda o assunto da maneira que descrevi poderia fazer.

A trilha sonora do Joe Hisaishi é uma das melhores dos filmes do Miyazaki, principalmente o tema de encerramento e que toca em outro momento muito bonito do filme antes de um diálogo entre Ashitaka e a mãe da San.


Em suma, por um lado é um filme muito divertido de assistir, tem um bom enredo que prende o espectador e boas cenas de ação, entrecortadas por cenas mais reflexivas. Mas, além de ser um bom entretenimento, é um filme interessante por não pintar tudo de preto e branco e colocar um conflito sem heróis e vilões, o que não é tarefa fácil.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Contos Folclóricos de Camarões


Sobre Camarões, vou falar sobre alguns contos folclóricos que estão no livro African Myths of Origin organizado por Stephen Belcher. A gameplay é do jogo PHL's Air Flying Game, desenvolvido em Camarões. Não tem tanto a ver com o que eu vou falar, mas é um jogo simpático.

Os Fangs vivem na Floresta Equatorial do Gabão e de Camarões, tendo migrado para lá durante o século XIX. Seu estilo de vida era baseado em procurar por recursos na floresta onde vivem e apenas mais tarde se tornariam sedentários. A língua Bantu os une com outros grupos étnicos de Camarões, como os Bulu e os Beti. Hoje em dia, pouco do estilo de vida deles permanece, assim como floresta onde viviam, e suas práticas religiosas são sincréticas. As histórias a seguir foram coletadas durante o período colonial.

Primeiro, o mito de criação segundo os Fangs. O primeiro ser era Mebege, embora também se diga que a terra foi criada por uma gigantesca aranha que desceu do céu em uma longa teia e colocou o ovo que virar a Terra. Mebege criou os humanos, criando um lagarto de barro e o colocando na água, oito dias depois surgindo o primeiro homem, Nzame. A primeira mulher seria Oyeme-Mam e era irmã de Nzame.

Apesar de irmãos, os dois humanos primordiais tiveram relações. Não, isso não era normal entre os Fangs, e sim a pior corrupção que poderia existir. Como consequência, Mebege deixou a terra e encarregou os dois de continuar o trabalho da criação. Oyeme deu a luz a oito pares que se tornaram ancestrais dos vários grupos Fangs.

Nzame foi até Mebege, talvez em forma de espírito, e retornou com vários conhecimentos como o da agricultura. Apesar de não ter morrido, ou assim, diz a lenda, Nzame deixou o mundo, antes dando as instruções sobre a organização da sociedade. Mas houve brigas entre os herdeiros e o conhecimento não foi disseminado da maneira planejada. E dizem que é por isso que os brancos têm mais riqueza do que os africanos.

A próxima história do livro sobre os Fangs trata da migração. Antigamente, todos os povos viviam ao norte do atual território. O mito diz que eles eram atacados por gigantes vermelhos e migraram para o sul. No caminho, pararam em um rio, já que eles não tinham habilidades para construir navios. Mas eles encontraram um grande crocodilo, que ofereceu ajuda-los ao deitar sobre o rio de forma que eles conseguissem cruzá-lo. Ele ajudou o Gigante Vermelho a atravessar o rio, mas depois afundou nas águas, afogando o gigante.

Tendo atravessado o rio, chegaram em uma floresta e tiveram o caminho barrado por uma enorme árvore. Enquanto discutiam sobre como passar pela árvore, três pigmeus apareceram, que mostraram o caminho para passar pela árvore por uma estreita passagem. Porém, houve uma briga sobre qual grupo deveria liderar o caminho, se os jovens ou os anciões, então assim que passaram pela árvore, eles se dividiram em dois grupos e cada um tomou seu caminho próprio.

O livro conta ainda histórias dos Duala, um povo costal de Camarões que vive basicamente como intermediários entre os europeus e povos do interior. A história de Jeki La Njambe foi preservada até os dias de hoje. O mundo de Jeki é povoado por caçadores e pescadores vivendo ao longo da costa de Camarões. Os Duala hoje admitem que não entendem bem a história de Jeki, mas eles continuam a apresenta-la ritualisticamente.

Havia um homem chamado Inono Njambe. Ele tinha muitas esposas e filhos, mas se entregou ao estudo da feitiçaria e sacrificou muito de seus filhos e esposas para ganhar poder. Até que só sobou uma criança, chamada de Njambe Inono, e o povo da vila pensou que ele foi longe demais (mas só agora?!). Eles se reuniram e invadiram a casa de Inono Njambe, o amarrando, o espancaram com frondes de palmas e jogaram nozes de palma até que ele prometesse desistir da feitiçaria e deixasse o filho viver. Então, ele foi solto e não viveria muito mais, passando o seu conhecimento para o filho. Njambe Inono casou e teve filhos e depois de um tempo seria tentado pelo conhecimento de seu pai e pessoas começaram a desaparecer em sua família. Vendo isso, os vizinhos intercederam novamente, mas, ao invés de mata-lo, colocaram Njambe Inono em uma canoa e o despacharam junto com a esposa.

Em uma nova terra, Njambe plantou uma palmeira, que cresceu enormemente, e em seu topo colocou uma ave. Nas águas lançou um crocodilo e no meio de sua morada colocou um baú com um leopardo. Essas criaturas davam proteção mágica para a sua morada.

Njambe e sua esposa, Ngrijo, tiveram uma filha. Ngrijo ia com a filha trabalhar nos campos e um dia um chimpanzé apareceu enquanto a criança estava engatinhando na sombra das árvores. Os dois começaram a brincar e a mãe ficou preocupada de início, mas o chimpanzé reassegurou a mãe e a brincadeira se tornou recorrente. Quando a garota ficou núbil, o chimpanzé a levou. Ngrijo procurou, procurou, procurou e por fim voltou para casa para dar as notícias para Njambe, que imediatamente foi até a floresta e convocou o chimpanzé.

“Onde está minha filha?”, perguntou Njambe.

O chimpanzé confessou que a levou, mas disse que ele ajudou Njambe e Ngrijo a encontrar comida e nunca foi recompensado por isso, então ele a levou para viver com os espíritos da floresta. Depois dessas palavras, o chimpanzé sumiu.

Njambe teria outras esposas e teria vários filhos, menos de Ngrijo, apesar de seu ventre mostrar sinais de inchaço. Por não dar à luz a filhos, Njambe expulsaria Ngrijo de sua morada para uma cabana nas margens do rio. Os anos se passaram, os filhos de Njambe cresceram, mas nada de Ngrijo dar à luz, apesar do ventre inchado, que passou a atrapalhar as suas tarefas.

Até que um dia, enquanto cortava lenha, Ngrijo ouviu uma voz. “Mãe, me deixe sair e eu te ajudarei”. Então, Ngrijo deu à luz a uma criança do tamanho de um adulto. Então, ele ajudou a sua mãe com a lenha e depois voltaria para o ventre. A criança só voltaria a sair quando Ngrijo estava na praia coletando camarões junto com outras esposas de Njambe e a criança pediu para sair, preocupada com as águas que estavam recuando. A criança pediu para ser deixada nas águas, mas Ngrijo se recusou. Ele insistiu até que Ngrijo o deixou sair, para espanto das outras esposas, que fugiram de medo, deixando cair as suas cestas de camarões.

A criança salvou a mãe das ondas. Quando Ngrijo acordou, se viu em uma cabana cercada por cestas cheias de camarões. E, para surpresa geral, as outras esposas também se viram com as cestas que tinham deixado cair. Logo após isso, Jeki, a criança de Ngrijo, anunciaria que chegou a hora de nascer. Mas, antes de Jeki sair, Ngrijo deu à luz a uma série de bens, como tecidos, lingotes de metal, instrumentos de metal, Ngalo, o amuleto que Jeki usaria em suas aventuras e uma canoa que usaria para viajar pelas águas. Só então saiu Jeki.

A hostilidade de Njambe com Ngrijo se transportou para Jeki, agravado pelos relatos de seu estranho nascimento, e essa seria a razão de suas primeiras aventuras. E essa hostilidade se manifestou um dia quando Njambe convocou Jeki para um desafio. Ele deveria adivinhar o que estava dentro de um baú. Se errasse, ele seria espancado pelas outras crianças.

Primeiro, Jeki sugeriu que fosse tecido. Errou e seus meio irmãos bateram nele. Depois, disse que eram lingotes de cobre, errou novamente, e apanhou novamente até ficar quase inconsciente. Ele viu ao redor e percebeu que os seus meio irmãos estavam prontos para bater nele até matar. Chegou a hora, então, de encerrar esse jogo.

“Eu vou dizer a vocês como eu deveria ter feito de início”. A intenção de Jeki era averiguar quanto era odiado na família. Ele respondeu que o baú continha um piolho que Njambe tirou da cabeça. Piolho fêmea, a propósito. Todos ficaram em silêncio e Jeki ganhou desta vez.

Mas essa falha não parou Njambe. Os dois irmãos mais velhos foram chamar Jeki em sua cabana. Ngrijo não queria que ele fosse, mas, muito confiante de que Njambe não poderia machuca-lo, ele foi. Njambe pediu para que Jeki lustrasse um baú que seria vendido. Se vocês lembrarem bem, havia um baú com um leopardo, e adivinha se não é esse o baú que Njambe pediu para ser lustrado! Jeki ergue o amuleto Ngalo, pedindo por orientação, e ele lhe orientou a levar o baú até a água e assim ele fez, seguido secretamente pelos irmãos que queriam ver a sua morte.

Jeki levou o baú até a água bater em sua cintura e depois o emergiu sentando em cima dele. Em seguida, o abriu e encontrou o leopardo e filhotes afogados (não se sabe como eles sobreviviam no baú). Depois, Jeki limpou o interior e levou o baú até Njambe, que então pediu para que Jeki trouxesse o grande crocodilo que vivia nas águas.

Jeki pegou a sua canoa e seguiu viagem. Ele perguntaria ao amuleto Ngalo o que essa missão significava, e ele confirmaria que é mais uma tentativa de mata-lo, mas que ele poderia sobreviver se fosse educado. Jeki encontrou o enorme crocodilo e disse que seu pai, Njambe, queria reunir um conselho e que precisava da sabedoria do crocodilo. Ele concordou e seguiu Jeki de volta até a vila. Jeki, junto com o amuleto Ngalo, cantou uma canção de poder de forma que as ondas que batiam no crocodilo jogassem uma magia que o encantou e o trouxe para controle de Jeki, que levou o crocodilo até o centro da vila. Não sem destruir algumas casas e engolir cabras e esposas de Njambe.

“Pronto, trouxe o crocodilo, pai. O que faremos agora?”, perguntou Jeki, possivelmente com uma boa dose de cinismo.

“Leve de volta!”, pediu/implorou Njambe. Jeki invocou uma onda que levantou e levou embora o crocodilo, o segundo dos animais que Njambe trouxe para a ilha. Se vocês lembram bem, o terceiro animal trazido à ilha foi um pássaro posto no topo de uma altíssima palmeira.

Era de se esperar que Njambe tivesse aprendido a lição e resolvesse não mexer com Jeki. Pois é, não foi isso que aconteceu. Novamente, os irmãos o chamaram com mais uma tarefa de Njambe. Ele pediu para que Jeki subisse a palmeira e coletasse as frutas da palmeira. Dessa vez, Jeki sabia o que o esperava, no topo estando Kambo, a ave que atacaria quem tentasse pegar as frutas. Mas, novamente sabendo do perigo, Jeki aceitou o desafio.

Jeki chamou os seus irmãos para coletar as frutas lá em cima. Disseram que o pai deles tinha ordenado que Jeki fizesse sozinho e ele respondeu que ele ordenava que os irmãos o ajudassem, mostrando o amuleto Ngalo. Ninguém ousou desafiá-lo.

O mais velho dos irmãos foi primeiro. Quando estava chegando perto do topo, foi atacado pela ave, caiu da palmeira e morreu.

“Esse não sabia escalar”, vaticinou Jeki, enquanto jogava o corpo para trás da cabana mais próxima. Em seguida, iria o segundo irmão mais velho, que também terminaria na parte de trás da cabana mais próxima. Depois, iriam os irmãos que bateram nele e depois aqueles cujas mães eram preferidas à Ngrijo.

Quando todos os desafetos tentaram, foi a vez de Jeki ir. Ele jogou uma poção no tronco da árvore e subiu, batendo o amuleto Ngalo na casca de vez em quando. E o bater do amuleto incomodou a ave Kambo, que viu a aproximação de Jeki, mas ficou preocupado. Chegando ao topo, pegou o machado e cortou as frutas, que caíram na vila abaixo quase cobrindo algumas casas com as frutas.

“Vou pegar o pássaro também”, disse Jeki, que subiu ao topo da palmeira. Mas, antes de chegar, Kambo já tinha fugido. Porém, não estava longe, e Jeki pegou uma vinha, um dos instrumentos mágicos recebidos em seu nascimento, e pegou Kambo, que caiu no topo da palmeira. Jeki empurrou a ave para baixo e depois desceu.

Lá embaixo, a ave estava coberta por óleo de palma e Jeki tacou fogo em Kambo, que rapidamente virou cinzas. Jeki comeu parte das cinzas e guardou o resto em sua bolsa de instrumentos mágicos. Então, apareceu Njambe, que viu a sua casa ser coberta pelos frutos da palma, viu o corpo de seus filhos empilhado e viu o último símbolo de seu poder consumido por sua cria e desfaleceu.

Jeki então foi para a floresta, reuniu algumas ervas e preparou uma poção. Depois, jogaria essa poção nos corpos dos seus irmãos e um a um eles foram restaurados. Kambo também ressurgiria das partes que Jeki engolira.

Desde então, agora sim, Njambe e seus filhos deixariam de tentar matar Jeki, mas não perderiam oportunidades de menosprezar Jeki, apesar de seu manifesto poder. Uma dessas oportunidades foi quando descobriram que ele não era o primeiro filho de Ngrijo e que a primeira foi raptada por um chimpanzé.

O próprio Jeki não sabia nada sobre isso. Perguntou à mãe, que não contou a verdade e disse para que ele ignorasse as outras crianças. Insatisfeito, Jeki foi até o pai, que contou o que aconteceu com a sua irmã mais velha. Jeki então foi atrás de sua irmã, retornando para casa antes para coletar itens que pudessem ajuda-lo em sua busca.

Guiado pelo amuleto Ngalo, Jeki se infiltrou nas florestas, até chegar a um enorme portão de metal que marcava a entrada para o reino dos bedimo, os chimpanzés que levaram a sua irmã. Ele abriu o portão e entrou, encontrando nada além de escuridão. Ngalo diz que humanos não podem enxergar os espíritos, apenas cheirá-los, e o aconselha a se tornar invisível e se dar o cheiro dos espíritos. Ele engoliu um pó para se tornar invisível e esfregou uma goma para tomar o cheiro dos espíritos, e então entrou. Conforme caminhava pelo reino, os espíritos o cumprimentavam como se fosse um deles.

Ngalo o orientou pelo seu caminho e o levou até uma cabana, indicando que sua irmã estava lá dentro. Porém, entrando, ele não viu uma garota, e sim uma dúzia de belas garotas.

“Eu vim atrás de minha irmã”, disse Jeki. “Leve-me”, responderam todas, com uma voz musical.

Jeki então soprou um chifre de antipole e abelhas voaram dele e se reuniram até uma das garotas.

“Você é a minha irmã” disse Jeki à garota cercada pelas abelhas. “Você quer voltar comigo?”.

A garota aceitou a oferta de Jeki, que deu a mesma goma para ela passar no corpo e adquirir o cheiro dos espíritos. Os dois seguiram o caminho de volta e chegaram ao portão de metal e depois de volta à vila.


Basicamente, eram essas as histórias do livro African Myths of Origin, havendo outras que por questão de tempo eu prefiro não abordar.

domingo, 11 de maio de 2014

Lendas Cabilas da Criação


Sobre a Argélia, vou falar sobre as Lendas Cabilas da Criação com base no livro A gênese africana, de Leo Frobenius. O jogo será o Indiana Jones and the Fate of Atlantis, na parte do jogo que se passa em Argel, capital da Argélia. Não tem muito a ver com o que eu vou falar, mas pelo menos se passa no país em questão.

Os cabilas eram um povo berbere que habitava o nordeste da Argélia e o livro que eu estou utilizando tem uma longa parte dedicada aos berberes em geral, cabila em particular. Vou falar sobre o primeiro grupo de estórias, os mitos de criação dos cabilas.

No começo, havia apenas um homem e uma mulher que viviam debaixo da terra, não acima dela e não sabiam que a outra pessoa era um sexo diferente. Um dia, foram beber água, se desentenderam sobre quem beberia primeiro e lutaram. As roupas caíram e ele viu que ela tinha uma taschunt e ele sentiu que tinha um thabuscht. Olhou para a taschunt e perguntou para que servia.

- Ah, é bom – disse ela.

Ele deitou-se sobre ela e ficou assim por oito dia. Nove meses depois, ela teve quatro filhas. E depois de mais nove meses, teve quatro filhos. E depois mais quatro filhas e em seguida mais quatro filhos. No fim, tiveram cinquenta filhas e cinquenta filhos. Eles não sabiam o que fazer com tanta criança e as mandaram embora.

As cinquenta moças partiram para o norte e os cinquenta rapazes para o leste. Após um ano viajando, as moças viram uma luz e decidiram subir à superfície. Os rapazes também encontrariam um caminho para a superfície. Lá, seguiriam seus caminhos sem saberem do outro grupo.

Naquela época, as pedras e árvores falavam. As moças perguntariam para as plantas e para as pedras quem as fizeram e questionariam o mesmo sobre as estrelas e tentaram se comunicar com elas aos gritos. Os rapazes viram um rio pela primeira vez e gritaram, chamando a atenção das garotas.

- Quem são vocês? O que estão gritando? Também são serem humanos? – perguntaram as moças.

Os dois grupos se comunicaram e se conheceram. Os rapazes então falariam com o rio, questionando o que ele era.

- Sou a água. Sou para tomarem banho e se lavarem. Sou para beber. Se quiserem chegar à outra margem, andem rio acima até o lugar em que minha água fica rasa. Lá vocês vão conseguir me atravessar – disse o rio.

Eles então atravessariam o rio e chegariam até as garotas, que não quiseram a aproximação deles e estabeleceram uma linha de separação. Os dois grupos viajariam juntos, mas separados por essa linha.

Certo dia, chegaram a uma nascente e tomaram banho no rio. Uma das garotas, muito curiosa, chamou outras duas e elas foram ver o que o outro grupo estava fazendo. Elas foram até o grupo dos rapazes, mas só a que teve a ideia original continuou em frente para espiar o outro grupo, que estava tomando banho e ela notariam que eles não eram iguais a elas.

Quando voltou, as que não ousaram ir em frente começaram a fazer perguntas e no banho ela contaria o que viu e a diferença entre elas e eles.

Depois, retomariam a viagem, assim como o grupo dos homens. Em certo momento, acampariam bem próximos aos outros. Nesse dia, os rapazes começaram a considerar não mais dormir sob o céu. Alguns cavaram buracos no chão e outros a empilhar pedras para construir casas, usando árvores como telhado. Apenas um dos rapazes, que era mais selvagem, não queria viver em uma casa. Preferia entrar furtivamente na casa dos outros e sair furtivamente, em busca de alguém para subjugar e devorar. Não me parece gente boa.

As moças viram os rapazes e se perguntavam o que estavam fazendo. A moça ousada, que tinha ido vê-los no banho, foi adiante checar, querendo-os ver nus novamente. À noite, entrou furtivamente em uma casa e encontrou o homem selvagem. Ele rugiu para ela, que gritou e saiu correndo até as outras, acordando os rapazes. Os dois grupos se encontraram e lutaram, inclusive a moça ousada com o rapaz selvagem.

As moças eram fortes e jogaram os homens no chão e ficaram sobre eles. Então, decidiram checar se a moça ousada tinha mentido para elas e checaram o thabuscht, que se inchou ao toque e depois elas colocaram a thabuscht na taschunt. No começo, elas tinham o domínio, mas com o tempo eles se tornaram mais ativos.

Em seguida, cada rapaz pegou uma das moças e levou para a casa. Só o homem selvagem e a moça ousada não tinham casa e eles ficaram a espreita esperando alguém para devorar. Os outros os acossaram certo dia por conta do comportamento deles, que decidiram ir para longe dos outros. A moça se tornou a primeira bruxa e ele o primeiro leão, ambos vivendo de carne humana. Quanto aos outros, ficaram morando nas casas e comiam das plantas que cresciam no local.

Agora, vou falar sobre o começo da agricultura. O primeiro homem e a primeira mulher ainda viviam debaixo da terra e viram uma pilha de cevada e de trigo e sementes de todas as plantas comestíveis. Um dia, viram uma formiga, que tirou um grão de trigo e o comeu. A mulher pediu para que o homem matasse a formiga, mas ele se recusou e conversou com a formiga, perguntando sobre as sementes.

A formiga explicou sobre a água, as sementes e sobre cozinhar os alimentos e levaria os dois à superfície. Lá, a formiga explicaria sobre como usar as pedras para moer o trigo e sobre como usar a farinha para criar uma massa. Depois, ensinaria a fazer fogo e a cozinhar os alimentos.

Tendo aprendido a fazer isso, pegaram cevada e o trigo, além de pedras de moer, e perambularam pela terra. No caminho, deixaram cair grãos de trigo e cevada.  A chuva caiu e os grãos que estavam no chão enraizaram, cresceram e frutificaram. Chegaram até onde os quarenta nove moças e rapazes estavam e ensinaram a eles a fazer pão.

Os filhos gostaram de comer o pão e quiseram receber os cereais e pegarem um pouco para eles. Seguiram caminho de volta de onde os pais vieram e encontraram os alimentos que brotaram no caminho. Descobriram então como surgem os grãos e se comprometeram a comer metade dos grãos que brotavam e plantar o resto.

Porém, eles jogaram os grãos no chão e eles não brotaram. A formiga então explicou que era necessário esperar a estação certa, após uma longa temporada de calor e após as chuvas, momento ideal para plantarem os grãos. E foi assim que descobriram a agricultura.

Agora, vou falar sobre a origem dos animais de caça. No começo, havia um búfalo selvagem, Itherther, e uma fêmea, Thamuatz. Os dois nasceram no espaço escuro que rodeia a terra chamado de Tlam. Os dois desceram a terra e lá tiveram um filho, que tentou “cobrir” a mãe, que o botou para correr.

O filhote então chegaria aonde estavam os quarenta e nove casais, que tiveram seus filhos, que por sua vez tiveram mais filhos, criando uma vila com várias propriedades. Viram o pequeno búfalo e o perseguiram. Os velhos perguntaram à formiga sobre o que essa criatura era. A formiga então explicaria que ele é o filho da búfala e depois teria que explicar o que é um búfalo em primeiro lugar. Mais importante, diria que a carne deles era boa de comer.

O búfalo se cansaria de ser perseguido e deixaria o país dos homens. Conversaria com a formiga no caminho, que explicaria que ele poderia viver pouco, mas em conforto e sem precisar trabalhar, ou viver muito e precisar trabalhar e se sujeitar a vários riscos, como o mau tempo. Ele preferiu viver muito, voltaria para casa e cobriu a mãe e a irmã que tinha nascido de Itherther e Thamuatz. Itherther ficou furioso e desafiou o pequeno búfalo, que já não era tão pequeno e venceu o pai, o expulsando.

Itherther então vagaria pelo mundo e depositaria seu sêmen em uma depressão. Cinco meses depois, Itherther voltaria ao local e encontraria os outros animais nascido de seu sêmen. Os alimentou e depois, quando cresceram, pediram para que eles se multiplicassem e essa é a origem de todos os animais, exceto do leão, surgido do homem canibal filho do homem e da mulher primordiais.

Voltando ao jovem búfalo, ele teve vários filhos. Certo dia, a neve começou a cair e ele e o rebanho sofreriam. Concluiria então que era melhor viver pouco e na companhia dos humanos do que sofrer dessa maneira. Para acabar com o sofrimento, sugeriu que fossem até os homens, que dariam abrigo e comida para eles. E foi assim que surgiu o gado doméstico.

A última história diz respeito às primeiras ovelhas e carneiros. A primeira mulher estava moendo o trigo e misturou farinha com água e com essa massa moldaria uma ovelha, a deixando em cima da palha que estava no moinho. No dia seguinte, da mesma maneira, moldaria um carneiro, com os chifres torcidos para não machucar os humanos. Quando foi colocar o carneiro sobre a palha, verificou que a ovelha que fez no dia anterior ganhou vida. Passou então a criar ovelhas e carneiros até achar que fez o suficiente.

Ela deu cuscuz para eles, que cresceram e saíram da casa da primeira mulher, que vinha mantendo-os em segredo. Os outros humanos começaram a perguntar o que eles eram e ela disse que eles tinha surgido e que foram criados como eles próprios foram.

As pessoas procuraram a formiga, que explicou sobre a carne e a lã da ovelha e do carneiro e festivais que envolvem os dois animais. Perguntaram como eles eram feitos e a formiga pediu para que conversassem com a primeira mulher. Ela explicou como os fez e eles tentaram replicar, mas ela era uma feiticeira e só ela tinha tal poder.


Os animais criados pela primeira mulher se multiplicaram e, seguindo o conselho da formiga, as pessoas compraram os carneiros e ovelhas da primeira mulher em troca de bens que eles tinham, e assim nasceu o comércio e assim a humanidade obteve os carneiros e ovelhas para usar em seus festivais.